jazz.pt #37 já nas bancas

O número 37 da jazz.pt já está nas bancas.

O destaque de capa vai para Wadada Leo Smith que vem ao Jazz em Agosto.

O “meu” destaque vai para o “forward” que assinala os 10 anos dos Soopa. Além disso, escrevo sobre a presença de Pauline Oliveros e Elaine Summers em Serralves, sobre o concerto de Elliot Sharp’s Carbon na Casa da Música e sobre os discos de José Valente and Experiences of Today e Tubab, de Jorge Queijo e Sérgio Carolino.

Enjoy!

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=1bumHGnfRVg[/youtube]

[pub] JAZZMINDE 2011, 6 a 8 de Maio

JAZZMINDE 2011

Nos dias 06, 07 e 08 de Maio de 2011 vai realizar-se o VII FESTIVAL DE JAZZ DE MINDE.
O local escolhido foi uma antiga nave industrial que foi reabilitada para o evento, num espaço místico da indústria têxtil que irá receber um excelente programa internacional numa viagem pelo mundo do jazz. Três dias, três géneros: Blues, Jazz e Big Jazz.
De Barcelona vêm o Chino & The Big Bet num tributo o Robert Jonhson. De Itália recebemos o pianista Gianluca Tagliazucchi acompanhado de Aldo Zunino e Giampaolo Casati. Victor Zamora & Havana Way trazem-nos os ritmos de Cuba.
A turma dos Cais Sodré Funk Connection encerrará a frenética noite de sexta-feira, e a voz de Maria Anadon serenará os espíritos no serão de sábado, que incluirá um momento de dança aérea pela companhia Schmertterling. A Xaral´s Band e Petra Camacho encerrarão o festival na tarde de domingo.
É O JAZZ NA FÁBRICA!!!!

VII ARRAIAL DA DO ANDRÉ DA TROMPETE DO NINHOU
VII FESTIVAL DE JAZZ DE MINDE
06, 07, 08 MAIO 2011
Local: MINDE / Tinturaria da Fábrica

  • 06 MAIO – 22h – BLUES NIGHT
    GROOVE INCORPORATION
    CHINO & THE BIG BET (ES)
    CAIS SODRÉ FUNK CONNECTION
  • 07 MAIO – 22h – JAZZ NIGHT
    SCHMETTERLING Comp. Dança Aérea
    GIANLUCA TAGLIAZUCCHI  (IT)
    MARIA ANADON LATIN QUARTET
  • 08 MAIO – 17h – BIG JAZZ
    VICTOR ZAMORA & HAVANA WAY (CUB)
    XARAL’S BAND + PETRA CAMACHO

Minde é de fácil acesso, a 50 minutos de Lisboa através da A1 e a 13 Kms de Fátima.

+ info: http://jazz.minde.eu

Informação recebido por mail, com um apelo à divulgação.

jazz.pt | Vienna Art Orchestra @ Casa da Música

“Third Dream”, Vienna Art Orchestra dirigida por Mathias Rüegg

Casa da Música, Sala Suggia
9 de Junho 2010, 22h00

O concerto da Vienna Art Orchestra na Casa da Música, sob a designação geral “Third Dream” e composto exclusivamente por obras do seu fundador e director musical Mathias Rüegg, ofereceu-nos uma imagem bastante completa do projecto actual da VAO. Dividido em 2 partes, a primeira de música de câmara e a segunda com a orquestra em pleno, o concerto foi transparente na apresentação das maiores virtudes e defeitos desta orquestra em permanente renovação e que marca de forma particular o encontro entre dois mundos musicais, representados de formas desiguais. A orquestra fundada por Rüegg em 1977 passou já por inúmeras fases, marcadas pelas personalidades musicais que a integraram, por intenções programáticas claras do seu director e pela natural evolução dum projecto com mais de 3 décadas de história.

O momento actual da VAO, representado por este “Third Dream“, numa referência explícita à “Third Stream” de Gunther Schuller— que pretendia uma síntese entre o jazz e a música erudita ocidental, sem prevalência de um género sobre o outro, numa reacção crítica aos projectos jazzísticos “with strings” ou inspirados nas práticas de Gershwin, assim como às integrações de elementos jazzísticos avulsos em peças eruditas experimentadas por Ravel ou Stravinsky, por exemplo— afirma-se num território marcado pelo encontro do jazz com a música erudita ocidental, mas também com as músicas do mundo, num exercício que, não sendo original, é, neste caso, protagonizado por um dos seus mais sólidos e reconhecidos praticantes. E uma das “fórmulas” desta síntese entre mundos musicais diversos, ainda que vizinhos, é o exercício de racionalização e quase dissecção do fenómeno musical, que a própria composição da orquestra permite. O formato de recital de música de câmara usado na primeira parte é, de alguma forma, a infeliz prova disso mesmo: as pequenas peças de Rüegg escritas para duos e trios, são formalmente similares aos estudos e pequenas peças para solista e piano ou pequeno ensemble, típicas de recital académico ou “soirée” musical, interpretadas brilhantemente pelos jovens e competentíssimos músicos de orquestra que compõem uma parte significativa das suas secções. É verdade que a escrita de Rüegg incorpora motivos melódicos ou rítmicos de tipo jazzístico e até algumas das suas progressões harmónicas, mas o rigor da interpretação desta música escrita soa asséptico e austero, por mais virtuosos que sejam os seus intérpretes. Os cerca de 25 minutos que a interpretação das 5 peças (ou deveria chamar-lhes exercícios?) que constituíam a primeira parte do espectáculo e onde ouvimos jovens músicos académicos, talentosos, mas sem espaço para demonstração da eventual criatividade, foram por isso muito longos e abalaram as expectativas face à performance da orquestra.

Porém, face à aridez dessa primeira parte, o concerto da orquestra foi de grande nível. Se uma parte dos músicos da actual VAO são, de facto, “músicos de orquestra”— intérpretes altamente qualificados mas não necessariamente criativos— encontra-se entre os seus solistas a criatividade e energia necessárias para dar corpo ao tal projecto de síntese do jazz com as músicas eruditas e com as músicas do mundo, ainda que sem escaparem ao cliché quase holywwodesco— um clarinete “klezmérico”, um fabuloso solo de “hang” (um instrumento de percussão de origem suíça, muito recente, com um timbre intencionalmente próximo das percussões asiáticas, mas com afinação ocidental).
Harry Sokal (um dos únicos veteranos da VAO) e Joris Roelofs, nos saxofones, Juraj Bartos, na trompete, Thomas Fischer, na trompa, Thomas Frey, na flauta e Ingrid Oberkanins e Flip Phillip na percussão, todos assinaram momentos dignos de registo, com particular destaque para Sokal, principal solista da Orquestra e Ingrid Oberkanins pelo domínio do “hang”, entre vários momentos altos desdobrados em quase todas as percussões disponíveis.
A escrita de Rüegg para esta segunda parte, assumiu a forma de suite, com os vários andamentos a criarem um fluxo mais ou menos coerente e a assentarem na exploração das diferentes cores orquestrais do ensemble, com espaços amplos para os solistas que, dependendo do seu estatuto tinham maior ou menor grau de liberdade no solo. Objectivamente, o resultado final é uma síntese de vários mundos musicais, conseguida através da selecção criteriosa dos parâmetros que permitem a sua identificação aos ouvidos do público e que se podem encaixar, sem colidir, numa forma agradável, mas relativamente previsível.
Em geral, sem pensarmos na primeira parte, o concerto teve momentos bastante eficazes, a partir da escrita inteligente de Rüegg, à qual a orquestra responde com precisão e sobre o qual os solistas mais criativos conseguiram criar momentos de expressão mais enérgicos e, porventura, genuínos. A fórmula geral, no entanto, faz já parte do nosso quotidiano em músicas de grande consumo especialmente para o cinema e para a televisão, demonstrando simultaneamente a sua eficácia e a sua eventual perda de pertinência.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 32 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Jazz no Parque 2010

JAZZ NO PARQUE 2010, 19ª edição
Ténis do Parque de Serralves

A edição deste ano do Jazz no Parque desenrolou-se em 3 tardes de sábado solarengas que fizeram do Parque de Serralves um óptimo sítio para se estar e todos os concertos atraíram um público considerável, com os 2 últimos concertos lotados com alguma antecedência e uma atmosfera de festa que se reflecte em todos os aspectos do festival e contribui para a justa afirmação do evento. O ambiente familiar, com muitas crianças no recinto e grandes grupos de várias gerações de apreciantes de música e jazz, mantém-se como uma das marcas identitárias do ambiente do Jazz no Parque mas este ano, viveu-se também a atmosfera mais intensa que um maior número de pessoas e um eventual maior entusiasmo em alguns momentos, produz.
Quanto à programação, este ano a presença portuguesa foi assegurada pelo Bernardo Sassetti Trio (com o convidado Perico Sambeat), com grande sucesso e entusiasmo por parte do pianista que, desde a primeira edição do Jazz no Parque que esperava voltar a tocar no festival, e, ao contrário do que sucedeu em anos anteriores, os outros 2 concertos vieram do outro lado do Atlântico— o Vijay Iyer Trio e Contact—, mas a diversidade de propostas estéticas que António Curvelo tenta muitas vezes assegurar incluindo uma proposta de jazz “europeu”, estava claramente patente neste tríptico que permitiu ao público que se deslocou a Serralves ouvir propostas claramente alternativas e de grande qualidade, através das quais se podem projectar os futuros do jazz, enquanto se compreende parte da sua história, missão a que o Jazz no Parque se propõe todos os anos, 3 concertos de cada vez. Continuar a ler

jazz.pt | Cornelius Cardew e a liberdade da escuta

Cornelius Cardew e a liberdade da escuta
Culturgest Porto, 8 de Maio a 26 de Junho de 2010

Curadores: Pierre Pal-Blanc, Lore Gablier, Dean Inkster e Jean-Jacques Palix

De 8 de Maio a 26 de Junho, a Culturgest Porto acolheu o ciclo “Cornelius Cardew e a liberdade da escuta”, um grande evento evocativo da obra multi-facetada do compositor britânico, iniciado no Centre d’Art Contemporain de Brétigny, em 2009 e com passagem pela Künstlerhaus de Estugarda. O evento incluiu uma exposição— constituída por filmes, numerosas gravações musicais e material de arquivo, entre escritos, partituras, registos fotográficos, cartazes, livros e muitos outros elementos associados à vida e obra de Cardew, assim como uma multiplicidade de bibliografia eventualmente útil— e um ciclo de concertos, performances e conversas que trouxe ao Porto um conjunto vasto e ilustre de músicos, performers e artistas que mantêm com a obra de Cardew uma relação estreita e que, em alguns casos, integraram alguns dos colectivos por ele criados como The Scratch Orchestra, ou que ele integrou, como o colectivo AMM.
Para evocar a figura seminal de Cornelius Cardew na música de vanguarda europeia, vieram ao Porto pessoas como Christian Wolff, John Tillbury, Keith Rowe, Rys Chattam, Terre Thaemlitz, Piotr Kurek, entre tantos outros e organizaram-se interpretações envolvendo voluntários (músicos e não músicos) de obras como “The Great Learning”, de Cardew, “Stones” e “Burdocks” de Christian Wolff, dirigidas pelo compositor e “Walk” de Michael Parsons. Ouviram-se igualmente diversas interpretações de excertos de “Treatise”, a monumental partitura gráfica que Cardew desenvolveu entre 1963 e 67 e se afirma como uma das suas obras-primas, e assistiu-se a actividades “Scratch” protagonizadas por elementos originais da The Scratch Orchestra, mas não só.
Quase um trimestre de actividade, com 16 eventos programados, numa tentativa de oferecer uma visão ampla sobre a obra de Cornelius Cardew e o contexto em que ela se desenvolveu, particularmente focados nas suas actividades na década de 60, no contacto permanente com a vanguarda norte-americana, através de John Cage, La Monte Young, Morton Feldman e Christian Wolff e na tentativa de estabelecer uma vanguarda europeia livre do dogma do serialismo total— Cardew trabalhou com Stockhausen em Colónia, após a sua formação na conservadora Royal Academy of Music—, evitando, de certo modo, a militância política dos anos 70 e a negação da vanguarda como “elitista e alienante”.
O Cornelius Cardew dos anos 70 diria que todo este ciclo não passa duma terrível perda de tempo“, disse mesmo John Tillbury, um dos mais importantes intérpretes e biógrafos de Cornelius Cardew, na conversa pública que antecedeu o recital de piano do dia 19 de Junho. E todo este ciclo parece atravessado por uma angústia inevitável, que é a de evocar um criador com um percurso extraordinariamente corajoso e coerente e, por isso mesmo, em constante ruptura com qualquer tentativa de catalogação e enquadramento.

Cornelius Cardew, nos seus curtos 45 anos de vida e, particularmente, nos menos de 30 anos de actividade como músico e compositor, guiou-se de forma relativamente permanente por um inconformismo que o levou, obstinadamente, através dum percurso único, militantemente utópico, que o guiou desde os seus estudos musicais convencionais às vanguardas europeias, onde o serialismo se afirmava como sistema científico e progressista, posteriormente americanas, onde o acaso de Cage, e as notações verbais e gráficas do movimento Fluxus apresentavam-se como alternativa a um sistema de produção musical, sem obstáculos técnicos à criação e interpretação musical, até à afirmação duma “ética da improvisação” e à reflexão sobre os diferentes papéis e funções necessárias à produção e fruição musical e consequente negação dos fenómenos de vanguarda pelo seu carácter “elitista”, já numa lógica militante e eminentemente marxista que leva Cardew, a partir dos anos 70 a abandonar a produção musical enquanto forma de arte e prosseguir apenas na acção política que inclui experiências musicais no domínio da composição, interpretação e arranjo de hinos políticos e canções populares de protesto.
A vida de Cardew, na sua intransigência, é um aspecto fulcral da sua obra e assume-se, eventualmente, como o principal obstáculo à sua visibilidade e compreensão. Se os compositores norte-americanos que Cardew introduziu no circuito das vanguardas europeias, se afirmam actualmente como figuras incontornáveis na história da música contemporânea, assim como alguns dos seus colaboradores que se afirmaram ora nos círculos eruditos, ora nos círculos experimentais, Cardew resiste estoicamente a processos historiográficos completos porque se afirma frequentemente como o seu maior crítico.
Porém, o rol de criadores influenciados por Cardew ou próximos da sua produção são testemunho evidente, ainda que complexo, da relevância do compositor britânico no rumo da vanguarda europeia.
E o ciclo de eventos organizado na Culturgest Porto demonstrou de forma completa, para o bem e para o mal, a acuidade de Cardew.
Tratou-se, de facto, dum evento elitista, com o público a ser normalmente inferior às piores expectativas. Muitas vezes auto-complacente, com algumas performances a arrastarem-se dolorosamente, em artifícios datados, irrelevantes e, aparentemente mais esforçados em reconstituições do que em afirmações de vanguarda, como assistimos no “A Scratch Dealer Concert” e na apresentação de “The Tiger’s Mind”. E, frequentemente, fechados ou isolados em “ilhas de conservação arcaica” para usar a expressão de George Steiner que o mesmo Tillbury citou na sua conversa.
Ainda assim, a possibilidade de assistir a diferentes visões/interpretações de “Treatise”, a primeira das quais com Keith Rowe a “dirigir” um grupo de músicos portugueses, apesar de “Treatise” não pressupôr direcção, ou a oportunidade de receber Christian Wolff pela primeira vez em Portugal, para conversa, direcção de peças suas e recital, ou os recitais a solo de John Tillbury e Rhys Chatham foram momentos marcantes e de grande qualidade e interesse musical.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 32 da revista jazz.pt, integrado no report global do Braga Jazz. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Violino Escravo, de Jon Rose @ Serralves

“Violino Escravo – A True Story of a Slave Violinist”
de Jon Rose

Auditório de Serralves
13 de Maio de 2010, 21h30

Ciclo Documente-se!
Sentidos do Reconhecimento

“Violino Escravo – A True Story of a Slave Violinist” resulta duma encomenda da Fundação de Serralves a Jon Rose que encontrou neste convite as condições necessárias para a realização dum projecto de “radio art” dedicado à figura e à história de Joseph Emidy, um escravo negro oriundo da Guiné, em finais do século XVIII, violinista quase acidental, com uma vida atribulada que inclui a passagem pela Orquestra da Ópera de Lisboa e por um navio da Marinha Britânica, com um fim de vida na Cornualha, onde se veio a afirmar como um dos mais importantes compositores, violinistas e professores do sudoeste de Inglaterra, nas primeiras décadas do século XIX, sem que alguma das suas composições tenha sobrevivido até aos nossos dias, muito devido à sua condição de ex-escravo e à cor da sua pele. Para nos apresentar esta peculiar biografia, Jon Rose recorre a um dos seus suportes de eleição, a “radio art”, que tem usado com frequência para re-escrever a História do Violino, contando com a colaboração de Flávio Hamilton na voz (gravada) e apresentando a peça com a particularidade de acrescentar à gravação (suporte tradicional destas peças) um solo ao vivo, executado pelo próprio Jon Rose.
A inclusão desta encomenda no Ciclo DOCUMENTE-SE!, que pretende “promover, a partir de um conjunto de propostas artísticas e de abordagens de cientistas sociais, uma reflexão sobre os processos do (não) reconhecimento do eu individual e social na contemporaneidade, estruturando identidades, relações de poder e contextos sociais” assume particular pertinência, não só pela construção própria de um objecto artístico de carácter documental, como pela apresentação dum “formato” que uma parte do público português tem, objectivamente, dificuldade em reconhecer como prática performativa, quer pelo destaque dado a um criador que, em todo o seu percurso, assume uma considerável fixação por processos de (re)conhecimento, particularmente, no que ao seu instrumento de eleição diz respeito.
Com uma vasta obra como compositor e improvisador e sobre um vasto número de suportes e formatos, Jon Rose continua indissociável do violino, enquanto instrumento, mas também enquanto tema central de grande parte da sua obra e a performance que trouxe a Serralves é plenamente ilustrativa disso mesmo.

Ainda antes de “Violino Escravo” ouvimos e vimos 2 partes de “Palinpolin” (2010), para solo de violino tocado com arco interactivo— manipulando som e imagem (no caso da 2ª parte)— num registo eventualmente mais reconhecível da sua obra, já que o arco interactivo e a sua utilização virtuosa constituem uma das imagens de marca mais fortes da carreira de Rose. A apresentação destas peças recentes, constituiu, assim, uma primeira aproximação a um “sentido do reconhecimento”, construindo-se sobre a manipulação extensiva mas relativamente clara e/ou explícita de formas de tocar ou fazer soar um violino e de manipular o material produzido (des)codificando um complexo vocabulário gestual que se constrói sobre a prática violinística convencional, expandindo os significados de cada arcada e cada movimento do arco, com tradução musical e visual imediata.
Destaca-se, na segunda parte de “Palinpolin”, que incluía a manipulação de vídeo, assim como em todos os momentos em que o arco se afastava do violino, clarificando a relação imediata entre os movimentos e os sons produzidos, uma certa preocupação em garantir uma maior adesão do espectador à performance, através duma espécie de demonstração da lógica interna da performance.
A linguagem performativa de Jon Rose não só é consequente, como tem a preocupação de ser explícita, o que, além de refrescante, é compreensível, pedagógico e positivamente assinalável.
Excluindo a eventual fragilidade da realização plástica da componente vídeo de “Palinpolin”, recorrendo a uma manipulação da imagem relativamente elementar e, porventura, demasiado previsível, esta primeira parte do concerto foi um solo entusiasmante de violino e electrónica em tempo real, com som quadrifónico, ao melhor nível do violinista britânico, figura central da música experimental australiana.

“Violino Escravo”, a peça radiofónica, apresentou-nos uma outra faceta de Jon Rose, num registo marcado pela consequência narrativa da peça e pela estrutura híbrida de documentário, reportagem e teatro radiofónico. O solo ao vivo, sem manipulação electrónica, permitiu um outro contacto com a sua técnica instrumental, e os recursos composicionais em uso, na gravação, apresentaram caminhos musicais diversos: pseudo-arqueologias musicais, referências folclóricas e humorísticas, construções ambientais e texturais bastante ilustrativas… Uma experiência interessante, eventualmente enfraquecida pelo recurso demasiado frequente a alguns dos motivos musicais que pareciam cumprir uma função pré-estabelecida no cânone radiofónico em uso.

Duas visões complementares do Violino, primeiro através da expansão da técnica instrumental, depois através dum episódio particular da sua História, quase tão extraordinário como desconhecido.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 31 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Peter Brötzmann Chicago Tentet @ Casa da Música

Peter Brötzmann Chicago Tentet
Casa da Música, Sala Suggia
20 de Maio 2010, 22h00

Sobre este Chicago Tentet de Peter Brötzmann já se disse e escreveu praticamente tudo, incluindo que é um dos melhores grandes ensembles de improvisação livre da actualidade e um dos mais interessantes projectos liderados pelo saxofonista alemão e, em Portugal, tivemos já o privilégio de ver e ouvir este ensemble de excepção no Jazz em Agosto de 2008, pelo que as expectativas face à sua presença na Casa da Música eram, compreensivelmente elevadas, mesmo que não tenham chegado para encher a Sala Suggia. Tal facto não pareceu perturbar a impressionante “força de intervenção” que o Peter Brötzmann Chicago Tentet é e o concerto desenrolou-se num nível transcendente, com a estratégia de liberdade e urgência que guia o colectivo a garantir uma espécie de ondulação natural entre alguma clareza lírica duma afirmação solista ou dum duo e o sempre esmagador clímax colectivo, calmamente separados por uma gestão gradual e natural das energias, sinergias e cumplicidades dos 11 músicos nas suas diversas combinações, em arranjos estruturais que parecem demasiado bons e eficazes para não serem intencionais e previamente negociados, mas, pelas mesmas razões, aparentemente impossíveis de gerar de outra forma que não através da confiança absoluta na energia musical.
E essa energia musical primária, assim como a confiança que estes músicos parecem nela depositar (mais até do que uns nos outros), é o que verdadeiramente transforma os concertos deste ensemble numa experiência impressionante: há qualquer coisa de ritual, natural e orgânico na forma como, da urgência de uma afirmação individual (cada um destes músicos parece capaz de soltar um grito musical quase espiritual, aceitando talvez em Albert Ayler, via Brötzmann ou directamente, uma certa figura tutelar), se constrói um corpo colectivo que acolhe e amplifica esse “grito” ou “lamento”, incorporando mais e mais “vozes” até ao paroxismo onde, extraordinariamente e apesar da enorme energia empregue por todos os músicos, se consegue, a espaços e por sobre a massa sonora global, compreender apelos individuais, seja pela sobre-energia— a que Brötzmann, Gustafsson e Bishop conseguem recorrer de forma fisicamente espantosa—, seja pela acuidade rítmica ou tímbrica, seja pela oportunidade ou carga emocional das intervenções. E o colectivo, aparentemente grande demais ou poderoso demais, identifica e assinala esses momentos como pontos de apoio da progressão dinâmica, ora abrindo espaços, ora mudando a direcção do seu crescimento, num processo tão natural como espantoso.
E ao longo do concerto as vagas sucedem-se, mas só os mais distraídos ou mal-intencionados confundem o carácter cíclico do envelope dinâmico com uma repetição aborrecida ou obsessiva: a cada abertura ou recuo, o material que se apresenta, afirmado de novo ou descoberto no meio da massa sonora, é fresco e, frequentemente inesperado, tão lírico como fértil. Os espaços permitem-nos descobrir as riquíssimas personalidades individuais, mas também as cumplicidades que estabelecem com o líder do agrupamento e com alguns dos seus cúmplices instrumentais, permitindo compreender de forma mais profunda a própria constituição do ensemble.
E o próprio movimento dos músicos no palco, assim como a estratégia de amplificação que privilegia o colectivo, criando zonas de “foco” para onde alguns dos solistas se dirigem, em momentos de maior urgência, como aconteceu com Ken Vandermark no clarinete e Joe McPhee no trompete, contribui para a afirmação duma experiência quase ritual e marcadamente interior, genuinamente ligada às raízes colectivas, populares e espirituais do jazz.
Talvez seja isso que transforma a experiência do concerto em algo de vagamente hipnótico e profundamente perturbador, mas esse efeito subjectivo e pessoal depende exclusivamente do extraordinário talento, energia, criatividade e generosidade dos 11 músicos em palco, unidos nessa espécie de “fé na música” ou na sua energia, que os conduz na improvisação e os mantém ligados, enquanto manifestam a sua presença individual.

Peter Brötzmann Chicago Tentet

  • Peter Brötzmann saxofones, clarinete
  • Mats Gustafsson saxofone
  • Ken Vandermark saxofones, clarinete
  • Joe McPhee trompete
  • Johannes Bauer trombone
  • Jeb Bishop trombone
  • Per-Âke Holmlander tuba
  • Fred Lonberg-Holm violoncelo
  • Kent Kessler contrabaixo
  • Paal Nilssen-Love bateria
  • Michael Zerang bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 31 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Jamie Baum Septet @ BragaJazz 2010

Jamie Baum Septet @ BragaJazz 2010
Theatro Circo, 13/03/2010

O concerto do septeto liderado pela flautista nova-iorquina Jamie Baum encerrou o BragaJazz num já esperado encontro inteligente e articulado entre o jazz e a música erudita, buscando nesta última algumas referências tímbricas, pouco vocabulário e muitos conceitos estruturais. O septeto, pela própria configuração instrumental (as 2 flautas de Jamie Baum, o trompete de Ralph Alessi, o sax alto e o clarinete baixo de Doug Yates, a trompa de Vincent Chancey, o piano de George Colligan, a bateria de Jeff Hirshfield e o contrabaixo de Johannes Weidenmueller), tem a capacidade de soar como uma pequena orquestra de sopros e as composições de Baum exploram precisamente os territórios onde a música erudita e o jazz se encontram naturalmente, procurando referências em compositores como Charles Ives— a quem é dedicada uma suite no mais recente trabalho discográfico, da qual se ouviu um andamento no concerto em Braga—, mas assegurando uma performance jazzística de grande nível pela escolha dos músicos que a acompanham e pelos espaços e estruturas para os solos. É curioso ouvir um grupo tão pequeno e recordar as orquestras dirigidas por Hollenbeck, por exemplo, mas, de facto, existem paralelos na escrita que são incontornáveis e apresentam o septeto de Jamie Baum como um agrupamento poderoso e flexível na exploração duma linguagem a que se pode chamar “cosmopolita”, no território do jazz.
Apesar da qualidade da proposta e dos intérpretes, o Theatro Circo manteve-se morno, com o público a denotar, eventualmente, uma certa impaciência face à duração dos temas ou à cadência menos rápida e/ou pouco swingada de grande parte do concerto. Mas os momentos de altíssimo nível protagonizados, a título de exemplo, por Doug Yates, quer no sax, quer no clarinete baixo, com algum destaque num dos temas mais frenéticos da noite, fizeram a sala aquecer ligeiramente.
O concerto estendeu-se por uma apresentação de composições de Jamie Baum, nomeadamente algumas das registadas em “Solace” (Sunnyside Records), tendo como principais solistas, além da líder do septeto, particularmente interessante na flauta alto e do já referido Doug Yates, o trompetista Ralph Alessi, com uma abordagem e vocabulário marcadamente mais jazzístico e o pianista George Colligan, mais próximo dum certo cosmopolitismo académico presente na raiz das composições.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 30 da revista jazz.pt, integrado no report global do Braga Jazz. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Serralves em Festa 2010

O Serralves em Festa é já este fim de semana. São 40 horas non-stop de actividade cultural num evento que não tem paralelo, pelo menos no norte do país. Este ano, lá estarei, a participar e a assistir e não posso deixar de aconselhar esta experiência. Quem lá esteve em anos anteriores sabe que é qualquer coisa de muito especial. Quem nunca experimentou, tem mesmo que experimentar. Pelos eventos, mas também pela atmosfera de festa verdadeira à volta da criação e da fruição artística, coisa rara em Portugal.

Nas centenas de actividades programadas em todas as áreas e formatos imagináveis, há, de certeza, alguma coisa que vos interessa. Consultem o programa no site.

E porque não custa nada puxar a brasa à minha sardinha, recordo:

E chamo a atenção para o facto de, na Casa de Serralves, se poder assistir à apresentação de dois trios especiais: Martin Brandlmayr, Steve Heather e Gustavo Costa (sábado às 15h00) e B. Fleischmann, João Pais Filipe e Jorge Queijo (domingo, às 16h30).

Filmes-concerto de Natal pelo Space Ensemble

É mesmo isso: o Space Ensemble vai fazer uma mini-digressão com filmes-concerto para famílias na época natalícia. O programa é Uma Floresta Animada, curtas-metragens de animação de realizadores finlandeses, musicadas ao vivo.

Anotem nas agendas:

Será a primeira incursão do Space Ensemble nas Ilhas. Estamos entusiasmados com isso.