jazz.pt | Ulrich Mitzlaff e Miguel Mira: Cellos

Cellos, Mitzlaff / Mira (Crative Sources)
Cellos, Ulrich Mitzlaff e Miguel Mira

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

Seria interessante observar a produção musical de Ulrich Mitzlaff, o violoncelista e compositor alemão radicado em Portugal, especificamente do ponto de vista dos duos de cordas em que participou ou que dinamizou. A audição deste duo com Miguel Mira é, de facto, indissociável da audição do duo com o contrabaixista Miguel Leiria Pereira ou com o violinista Carlos “Zíngaro”, para quem teve o privilégio de ter o contacto com todos os projectos.
Mas não existe uma lógica de integração ou continuidade deste projecto com os outros referidos, mesmo que algumas estratégias sejam comuns. O duo com Miguel Mira é, de facto muito mais marcado pela duplicação do instrumento explorado por músicos com personalidades bastante distintas, anulando o efeito em projectos anteriores de aproximação e distanciamento tímbrico e assumindo totalmente a óbvia proximidade dos universos instrumentais, com ambos os intérpretes a explorarem, em cada uma das 7 partes que constituem o disco, universos e vocabulários comuns, muito centrados nas técnicas expandidas no violoncelo, tocando com o arco abaixo da ponte, na ponte e no corpo, fazendo amplo uso de percussões no corpo, com pizzicatos próximos da técnica de contrabaixo e fazendo um uso muito reservado e contido das técnicas convencionais do instrumento, com uma primeira aparição clara já na 2ª parte da peça central do disco “Tripartição” (4ª faixa do disco).
As técnicas expandidas, a ausência de referenciais rítmicos, assim como a abstracção e descontinuidade dos vocabulários usados aproximam este disco das vanguardas da música erudita contemporânea, não fosse o seu carácter eminentemente improvisado e, por isso, reactivo.
O nível técnico é tal que, sem outros recursos que não os instrumentos, Miguel Mira e Ulrich Mitzlaff constróem texturas e efeitos que nos habituámos a ouvir nas músicas electrónicas (como na 3ª parte de Tripartição), mas também movimentos e figuras que poderiam constar duma partitura para virtuosos da música erudita de finais do século XX. As referências conceptuais nos títulos das peças, “Figura”, “Inversão”, “Tripartição”, “Descontinuidade”, “Assimetria” e “Abstracto” são uma eventual chave de leitura para o processo por trás desta colaboração. Se a descontinuidade e a abstracção são conceitos claramente presentes na totalidade do disco, parece-nos que falta alguma assimetria pela identificação mais clara de eventuais discursos alternativos simultâneos e algumas figuras musicais identificáveis que actuassem como referências nesta paisagem rica. A penúltima faixa, “Assimetria”, precisamente, é um óptimo exemplo do que isso significa, num momento de texturas arqueadas em cordas dobradas, sobre as quais se afirma um solo intenso em pizzicato, com posterior inversão dos papéis. Um dos momentos mais cativantes do disco.

Cellos, Ulrich Mitzlaff e Miguel Mira

Creative Sources, Lisboa, 2010
Gravado em Sintra, 2009

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 30 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.