Que é feito da crítica?

Já há muito tempo que defendo que o exercício da crítica é fundamental para o desenvolvimento das práticas artísticas e me preocupa a pobreza franciscana da crítica na nossa praça, virtualmente em todas as áreas: cinema, música, dança, teatro, artes plásticas…

Alternamos entre uma pseudo-crítica, travestida em jornalismo, que não se compromete e substitui o exercício crítico pelo anúncio prévio ou explicação, onde, muitas vezes, o conteúdo resulta de transcrições mais ou menos criativas de comunicados dos artistas e o “bitaite”, mascarado de crítica que terá que ser mais do que a expressão desenquadrada de opiniões pessoais, legítimas, mas irrelevantes. Ainda assim, o mais vulgar é um silêncio pesado, tão ignorante como arrogante.

Há excepções, claro, e o trabalho que, pessoalmente, tenho feito na Jazz.pt tenta evitar estas distorções, mas sinto, com angústia, a falta de referências. E preocupa-me sentir que uma parte significativa do trabalho que desenvolvo enquanto criador e ao qual assisto, também, não é enquadrado por nenhum exercício crítico consequente externo. É que, frequentemente, colocamo-nos na incómoda posição de escrever sobre os movimentos e eventos que protagonizamos, como me aconteceu ao escrever sobre a Fanfarra Recreativa e Improvisada Colher de Sopa para o último número da Jazz.pt e nem o prefácio de Arcana: Musicians on Music, por John Zorn, onde este exercício é apresentado como inevitável e necessário me deixa mais descansado.

Mas volto a falar da (falta de) crítica a propósito do espectáculo da Trisha Brown Dance Company em Serralves, ao qual só pude assistir parcialmente, por imperativo funcional. Por mais que procure, não consigo encontrar nada, além deste pobre esforço de Catarina Ferreira no Jornal de Notícias.

A afirmação final “Como lição de história, é uma actuação exemplar; sem contexto, é mais do mesmo” diz mais sobre o exercício crítico do que sobre o espectáculo e, pelo meio da brevíssima análise, há pormenores que me fazem estremecer— como a referência aos visitantes da exposição eventualmente surpreendidos pela performance, circunstância extraordinária do ensaio que não se repetia nas apresentações ao público.

A mim entristece-me ficar sem saber mais, sem ter uma outra visão do que se passou dentro do auditório enquanto nós circulávamos, “fanfarrando” à desgarrada. E entristece-me que até eventos desta dimensão passem pelo nosso país desta forma quase inócua.

Trisha Brown Dance Company em Serralves

Com a participação da Fanfarra Recreativa e Improvisada Colher de Sopa (F.R.I.C.S.) e Fanfarra de S. Bernardo

29 e 30 de Março 2008, 22h00
Auditório da Fundação Serralves, Porto

Um anúncio Soopa:

Trisha Brown Dance Company

Integrado no Ciclo Paralelo à Exposição “Robert Rauschenberg: Em viagem 70-76“, o espectáculo da Trisha Brown Dance Company inclui 5 coreografias, que abarcam 27 anos da carreira da seminal coreógrafa norte-americana.

A última peça do programa, “Foray Forêt” (1990), com figurinos de Robert Rauschenberg, tem como ambiente sonoro temas interpretados por uma fanfarra ou banda filarmónica recrutada no local de cada apresentação; este ambiente sonoro tem como objectivo uma evocação do imaginário musical dos cortejos e procissões da infância da própria Trisha Brown.

O repertório musical e ideológico da F.R.I.C.S. alicerça-se neste imaginário, embora os seus temas sejam improvisados, não pertencendo ao “corpus” da música escrita para um contexto filarmónico. A colaboração com a Trisha Brown Dance Company será a primeira vez em que a F.R.I.C.S. irá interpretar e trabalhar sobre música escrita, em concreto marchas e outras peças do repertório tradicional das fanfarras portuguesas.

A situação é tão mais específica e estimulante quanto consiste na primeira colaboração da F.R.I.C.S. com um agrupamento genuíno de músicos de fanfarra, a Fanfarra de S. Bernardo (Aveiro).

Uma nota paralela (e posterior): fiquei a saber agora, e muito me agrada, que a exposição de Robert Rauschenberg é a segunda exposição mais vista da história de Serralves.

Homens valentes

Miguel Borges, Peter Michael Dietz, Romeu Runa e Romulus Neagu. E Paulo Ribeiro, claro. Homens valentes, todos eles.

Masculine, a coreografia apresentada ontem no Teatro Aveirense é um fortíssimo exercício de coragem. E de talento, claro.

Romeu Runa em Masculine, coreografia de Paulo Ribeiro

Um dos melhores espectáculos de dança a que assisti.
E um exercício singular de masculinidade. Honesto. Um daqueles que nos deixa com poucas palavras.

Estou de volta

Regressei de Bruxelas com uma sensação indescritível de realização pessoal e profissional.

A sequência de performances Granular meets PARTS foi um sucesso a todos os níveis: o nível geral da realização artística, a aprendizagem e intercâmbio intensivos com 5 músicos tão criativos como talentosos, a camaradagem (sentimento que, apesar de “antigo” não está nada gasto)… e mesmo a reacção entusiástica do público e dos promotores, deixaram-me “completo” e com muito para “digerir”.

De tal forma que, depois de uma viagem algo cansativa de Bruxelas a Lisboa, falhei o meu plano de dormir no comboio entre Lisboa e o Porto apenas por ter experimentado começar a ouvir uma das gravações e não ter conseguido deixar de ouvir tudo até ao fim.

Voltarei a este assunto em breve, com fotografias, talvez uns minutos de áudio e algumas reflexões a propósito.

Para já, um abraço apertado aos generosos músicos e meus novos amigos Nuno Rebelo, Emídio Buchinho, Miguel Cabral, Ricardo Freitas e Ulrich Mitzlaff. E um agradecimento à direcção da Granular por se ter lembrado de mim para esta aventura.

PARTS + GRANULAR @ BOZAR (Bruxelas)

P.A.R.T.S.
Performing Arts Research and Training Studios

+ Granular
@ BOZAR – Palais des Beaux-Arts, Bruxelles

P.A.R.T.S.:
David Zambrano coreógrafo, Nicholas Tiishang Aphane dança, Salka Ardal Rosengren dança, Jos Baker dança, Marcus Baldemar dança, Gilad Ben Ari dança, Aron Blom dança, Fanny Broyaux dança, Young-seung Choi dança, Soo – jin Chun dança, Ludvig Daae dança, Stanislav Dobak dança, Frédérique Dom dança, Mikko Hyvönen dança, Anneleen Keppens dança, Thibault Lac dança, Cecilia Lisa Eliceche dança, Dawid Lorenc dança, Steven Michel dança, Csaba Molnar dança, Sarah Beth Percival dança, Eleni Pierides dança, Jonathan Pranlas dança, Guo Rui dança, Peter Þavel dança, Maria Silva dança, Fanny Skura dança, Noé Soulier dança, Artemis Stavridi Artemis dança, Marco Torrice dança, Anaïs Van Eycken dança, Petra Van Gompel dança, Stav Yeini dança, Elisa Yvelin dança

Granular Ensemble:
Nuno Rebelo
electrónicas, guitarra, Emídio Buchinho electrónicas, guitarra, Miguel Cabral objectos, electrónicas, percussão, Ulrich Mitzlaff violoncelo, electrónicas, João Martins objectos, electrónicas, saxofones, Ricardo Freitas baixo eléctrico

A performance resulta do sucesso da parceria já testada no Festival Alkantara 2006 e está integrada no Festival “Portugal And The World” que começou a 9 de Outubro e se prolonga até 3 de Fevereiro de 2008, no Palais des Beaux Art de Bruxelas (BOZAR).