Pobre Emmanuel Nunes

Desconhecia (sinceramente) a polémica ou sucessão de polémicas em que estava envolvida a encomenda e produção de Das Märchen, quando assisti à projecção e sobre ela escrevi. Percebi o “meio”, ao ser catapultado para as páginas do Público, na secção “Blogues em Papel“, quase como defensor isolado da obra e entre várias ofensivas, uma mais ilustres e bem fundamentadas do que outras.

Antes de mais, surgir a minha escrita como algo de minimamente relevante neste contexto, especialmente como aparente contraponto à especializada leitura de Augusto M. Seabra, deixa-me a pensar sobre os critérios editoriais do Jornal, por um lado e sobre o exercício da crítica e o seu papel (ou a sua inexistência) nos nossos órgãos de comunicação social, por outro.

O exercício profissional de crítica de Augusto M. Seabra, que muito prazer me deu ler— mesmo que não concorde com algumas das notas subjectivas e interpretações ou que não seja tão claro para mim que o todo artístico a que assisti é da responsabilidade de Emmanuel Nunes— não é comparável (compaginável seria um termo mais propositado) com as impressões de alguém como eu, que não acompanhou o processo criativo e/ou produtivo e que assistiu à estreia a cerca de 300 km de distância, num “teatro de província”, como Victor Abreu diria.

Aliás, toda a sequência de impressões publicada ontem, acaba por tentar misturar vários tipos de mal-estar, que atingem duma forma ou doutra a obra de Emmanuel Nunes, quase sempre de forma “descentrada”.

Victor Abreu queixa-se do dinheiro dispendido com a transmissão para a “província” e propõe que melhor seria, para “levar a ópera ao povo” (objectivo com que o próprio não se compromete), montar óperas mais modestas e menos vanguardistas para apresentar no Coliseu dos Recreios. O povo ficaria grato, com certeza. Então se, a generosidade de Vossa Excelência permitisse que fosse nos dois Coliseus, o povo da província do norte, teceria loas a Victor Abreu, benemérito da nação!

‘da-se, que, às vezes, aparecem gajos que parece mesmo que estão a gozar.

Além de não acrescentar nada de relevante sobre a ópera de Emmanuel Nunes, que classifica de “interminável, abstrusa e «vanguardista»”, Victor Abreu demonstra várias formas de ignorância. Por mim, mesmo que o público não tenha comparecido em grande número nos teatros onde foi projectada a estreia, esta é a uma boa forma de resolver, num país empobrecido (financeira e culturalmente), a impossibilidade de rentabilizar longas temporadas de ópera ou digressões de ópera. Não se trata apenas da inexistência de condições logísticas nos teatros e salas de concertos por este país fora, mas do custo por apresentação duma forma artística que, ao contrário do teatro ou da música, não pode ser rentabilizada por modelos de repetição, já que não se aplicam economias de escala. O antigo director do TNSC tentou explicar isso mesmo numa entrevista antes de ser substituído, mas não é fácil de perceber.

Nestas condições de extrema pobreza, em que até no único teatro de ópera público português “uma imensa percussão todavia mal se ouça, perdida no trajecto entre o Salão Nobre, para onde teve de ser remetida por óbvios motivos logísticos, e a sala“, a aposta no registo e na projecção em simultâneo ou diferido para salas espalhadas por todo o país onde o público possa ser congregado e estimulado, parece-me de extrema bondade. Se e quando falha, na prática, é preciso perceber porquê, para melhorar os sistemas de gestão dos dinheiros envolvidos e exigir mais empenho na divulgação, por exemplo. Mas achar que a bondade da proposta se mede pelos efeitos… é fraco.

E nada tem a ver com Das Märchen, de Emmanuel Nunes.

As intenções demagógicas discutidas no Cachimbo de Magritte são, obviamente, de discutir. E uma avaliação da relação custo/benefício deste tipo de iniciativas é muito importante. Soubesse eu (que não sei) da verba dispendida para organizar a projecção que, aparentemente, se tornou polémica política nacional, talvez entrasse num jogo de avaliar o seu real impacto.

De forma egoísta, como beneficiário directo desta iniciativa e não sendo “amigo” nem deste Secretário de Estado nem de nenhum outro, posso apoiá-la. Mas que seja claro: não confundo o apoio à projecção das óperas do São Carlos como medida de descentralização, com a apreciação da primeira ópera a ser alvo dessa projecção. Claro que não sei se a projecção testada agora é ou não uma aposta para o futuro, que apoiaria. Assim como não confundo a fraca resposta do público com o desinteresse ou falta de pertinência da proposta.

No meio de tudo isto, a ópera de Emmanuel Nunes perde-se na poeira levantada pelo alvoroço.

Das Märchen: quase perfeito

Tinha avisado e, como rapaz cumpridor que sou, fui ontem assistir à projecção de Das Märchen, a primeira ópera de Emmanuel Nunes.

Não éramos muitos e menos ainda estavam preparados para a sessão de 5 horas, com um intervalo de 1 hora, mas no fim da projecção aplaudimos, de pé alguns de nós, face à tela de projecção.
Uma reacção estranha, mas apropriada para a singularidade do evento.

Emmanuel Nunes é um génio. Não vale a pena tentar complexas formulações para dizer isto com mais detalhe ou mais pudor. E Das Märchen ficará certamente para a história como mais uma obra-prima por muito boas razões. Apesar de achar que a estrutura da peça poderia ser “emagrecida” em favor do “conforto do público”, sacrificando material sonoro que, sendo muitíssimo bom, não resulta da melhor forma dramaturgicamente, por questões de redundância. Mas é difícil encontrar falhas na estrutura musical ou no libreto, assim como na justiça que lhe foi feita pela esmagadora maioria dos intérpretes: cantores, actores, coro e orquestra.

Ainda assim, espero que esta produção de Das Märchen não fique para a história como a única ou sequer a melhor desta obra. Porquê? Porque (e não pretendo ofender ninguém) a equipa responsável pela encenação e realização plástica fez um trabalho que classificaria de medíocre. A reacção de parte do público, aliás, no final da récita, parecia reflectir um sentimento generalizado de mal-estar relativamente a essa componente do espectáculo: figurantes, dançarinos, coro, actores e cantores receberam as legítimas palmas, transformadas em ovação no caso de Peter Rundel, o director musical, e em clara homenagem, no caso de Emmanuel Nunes, mas a equipa dirigida por Karoline Gruber terá certamente sentido a não tão subtil tentativa de vaia de parte do público presente no São Carlos. E eu senti-me solidário.

Eu não faço ideia sobre qual a melhor abordagem plástica à complexa proposta de Das Märchen, mas tenho quase a certeza que esta não resulta. Os aspectos mais evidentes, para mim, são o desajuste praticamente absoluto dos figurinos, a mediocridade da cenografia, a banalidade da coreografia e a falta de pertinência de grandes partes do vídeo. Tudo junto, sobressai o desfasamento entre a realização musical e a realização plástica e a experiência total sai prejudicada: áreas extraordinariamente detalhadas e ricas do libreto e da partitura são atrapalhadas por esforços inglórios e quase patetas de sobre-ilustrar ou criar novas camadas de entendimento… mas não é preciso e transforma-se em ruído. E depois, não se concretizam visualmente ou em termos de movimento, acontecimentos e relações que, na partitura, se apresentam de forma muito subtil.

Genericamente, parece haver algum desentendimento no desenvolvimento das relações interdisciplinares que transformariam uma brilhante partitura e libreto num espectáculo de Arte Total e os “encaixes defeitusosos” notam-se demais. Mas não demais para ofuscar o génio de Emmanuel Nunes que, face à adversidade, brilha ainda mais.

Das Märchen, de Emmanuel Nunes, também no Teatro Aveirense

Acabei de receber esta notícia, que muito me agrada.

No próximo dia 25 de Janeiro estreia a primeira ópera de Emmanuel Nunes, Das Märchen, no Teatro Nacional São Carlos, pelas 20:00.

Escrita por um dos mais notáveis compositores do nosso tempo, esta ópera resulta da encomenda conjunta do Teatro Nacional de São Carlos, Fundação Calouste Gulbenkian e Casa da Música no contexto de uma co-produção sem precedentes com a Fundação Calouste Gulbenkian, a Casa da Música e o Ircam-Centre Pompidou (Paris).

Numa acção inédita em Portugal, DAS MÄRCHEN estreia em simultâneo, a 25 de Janeiro, em 14 teatros do País e Ilhas com transmissão em directo do São Carlos numa iniciativa com o apoio da RTP e da PT Inovação.

O Teatro Aveirense é um dos 14 Teatros que se inclui nesta rede de transmissão em directo, sendo a entrada gratuita, no limite dos lugares disponíveis.

Com direcção musical de Peter Rundel, Director Musical do Remix Ensemble desde Janeiro de 2005, destaca-se também a encenação de Karoline Gruber.

É óbvio que não é a mesma coisa do que ter a primeira ópera de Emmanuel Nunes em circulação pelo país. Mas, bem vistas as coisas, é muito melhor que nada, não é?

A não ser que aconteça uma desgraça qualquer, eu lá estarei.

E, para os leitores de outras partes do país, cá fica a lista dos 14 teatros envolvidos:

  • Teatro Diogo Bernardes em PONTE DE LIMA
  • Casa da Música no PORTO
  • Centro Cultural Vila Flor em GUIMARÃES
  • Teatro Aveirense em AVEIRO
  • Teatro Académico Gil Vicente em COIMBRA
  • Cine-Teatro Avenida em CASTELO BRANCO
  • Teatro Miguel Franco em LEIRIA
  • Teatro Virgínia em TORRES NOVAS
  • Centro de Congressos dos Paços do Concelho em PORTALEGRE
  • Teatro Bernardim Ribeiro em ESTREMOZ
  • Teatro Pax Julia em BEJA
  • Teatro Lethes em FARO
  • Teatro Micaelense nos AÇORES
  • Teatro Baltazar Dias na MADEIRA