[Tema] Será que (toda) a Música pode (sobre)viver sem as Editoras?

Proponho-me escrever um artigo aprofundado sobre esta questão, aqui no blog. O objectivo é contribuir para um debate que me parece essencial e para o qual me parecem faltar, sistematicamente, visões mais abrangentes do que é o fenómeno musical.

Interessa-me tentar fazer um bocadinho de “história” da indústria fonográfica e compreender quais os seus aspectos mais positivos e negativos. Sim, ouviram bem, vou-me debruçar também sobre aspectos positivos da indústria fonográfica. Contribuições para aquilo que é hoje o fenómeno musical que é frequente ignorar, quando o discurso contra as “majors” e o papel destrutivo que elas vão tendo no panorama musical global por causa das suas atitudes reaccionárias e, muitas vezes, desesperadas, na defesa dum modelo de negócio claramente ultrapassado.

Para fazer uma reflexão mais profunda, deixo aqui um convite à participação de todos nesta reflexão, através de comentários aqui no blog ou no Facebook, ou via Friendfeed, Twitter ou o que estiver mais à mão.

O artigo sairá algures no fim desta semana.

A questão é:

Será que (toda) a Música pode (sobre)viver sem as Editoras?

E quando aqui falo de “editoras” estou a pensar nas estruturas pesadas, não nas pequenas independentes. Estou a pensar nos “papões” que, apesar de tudo, continuam (ou não?) a ser as únicas estruturas com acesso a meios técnicos, logísticos e financeiros, sem os quais muita música me parece impossível de gravar e/ou editar. Estou a pensar nos “papões” ao longo da história e estou a considerar a hipótese de ser a eles que se deve, em grande parte, uma revolução nos meios de produção musical (técnica), que teve um extraordinário impacto em opções estéticas e no surgimento de correntes inteiras de sub-géneros musicais, e cujo investimento no desenvolvimento de meios permitiu a massificação da produção musical e a acessibilidade de meios (muito a partir das pequenas revoluções “digitais”) que conduziu à massificação actual. Paradoxalmente, é nos campos que, neste contexto, mais devem, historicamente, à indústria fonográfica e onde as tradicionais tarefas de técnica e produção musical foram elevadas à condição de prática criativa, instrumental, autoral e performativa que encontramos alguns dos mais convictos ataques à indústria, por ser também aí (estou a pensar em inúmeras variantes das músicas ditas electrónicas) que a acessibilidade dos meios e a autonomia individual permite uma visão quase unipessoal do fenómeno musical: o mesmo indivíduo, muitas vezes a partir duma única máquina, compõe, interpreta, grava, mistura, edita, produz e publica o seu trabalho. Aparte a aparente “injustiça histórica”, impõe-se pensar no fenómeno musical como um todo e perguntar: e as músicas que dependem de grandes colectivos de pessoas? As músicas dos músicos que não são (felizmente) técnicos gravadores, produtores e publicadores do seu trabalho? Como se garante a sua continuidade?

Fico à espera dos vossos contributos.

O valor da família

O Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, agora distinguido com o Prémio Pessoa (os aspectos irónicos desta atribuição já estão em discussão), a propósito do debate sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, afirma que esta é “uma ocasião para a sociedade reflectir sobre o valor da família“. E diz bem. De facto, reflectir sobre o valor e significado da família é um exercício importante e, se realizado de forma honesta e profunda, pode ajudar a fundamentar não só a justiça, como a necessidade social da legalização e reconhecimento das uniões entre pessoas do mesmo sexo que assim o desejem, como casamentos de pleno direito, e consequentemente a constituição de núcleos familiares importantes e significativos.

É evidente— pelo menos a estrutura da Igreja Católica procura tornar evidente a sua resistência a qualquer forma de progresso, tomando medidas aberrantes como as recentes alterações ao Direito Canónico que invalidam casamentos com não-baptizados e dificultam casamentos inter-religiosos— que o sentido da afirmação de D. Manuel Clemente não é a defesa da legitimidade das uniões homossexuais como núcleos familiares de pleno direito, como forma de defender o valor intrínseco da família enquanto agregado de afectos. Mas é também esse o debate que importa fazer. Até porque os argumentos iniciais lançados pelo ilustre Bispo do Porto não devem ser objecto de aceitação acrítica: só uma leitura apressada e desatenta da história da humanidade em geral e da família, em particular, pode aceitar a ideia de que “no que diz respeito à família, toda a tradição da humanidade sempre se configurou nesse nexo de família em volta de um casal de homem e mulher, aberto a geração de filhos e integrador de gerações“. Aceitar que é assim e que “este núcleo tem sido sempre permanente” é adoptar uma perspectiva muitíssimo redutora do fenómeno “família”. A poligamia em modelos patriarcais e matriarcais é uma marca fundamental da história da humanidade e da família, assim como o exercício intermitente da parentalidade e a inexistência, em muitos modelos sociais, de relações/vínculos definitivos no que à procriação diz respeito. Não são esses os modelos dominantes nas sociedades modernas ocidentais, é verdade, mas não existem, nos modelos de funcionamento das nossas sociedades, um conjunto de mecanismos paralelos ao funcionamento da “família tradicional” que visam responder aos mesmos impulsos e/ou constrangimentos?

Não pretendo teorizar sobre o que é ou deixa de ser a família, ou sobre o papel do matrimónio nessa construção social, ou ainda sobre as condicionantes sociais, económicas, políticas ou religiosas que nos trouxeram até ao modelo de casamento (e de família) que, actualmente, está em crise. Muito desse trabalho está feito desde finais do século XIX. Mas creio que é legítimo afirmar que a defesa da família como núcleo fundamental da nossa sociedade, passa pelo reconhecimento e valorização de todas as uniões baseadas em afectos profundos e duradouros que criam laços estáveis e tecem o delicado equilíbrio social que sustenta o progresso e a solidariedade inter-geracional. Uma parte significativa dessas uniões são homossexuais, pelo que o seu reconhecimento se torna um imperativo dos defensores da família. Ou não?