jazz.pt| ESSL.BURGER Live!

ESSL.BURGER live!
ESSL.BURGER live!, por Essl.Burger

CLASSIFICAÇÃO: 3.5/5

“ESSL.BURGER live!” é uma edição da netlabel portuguesa XS-Records que regista 2 sessões de improvisação da dupla austro-germânica Essl.Burger, ocorridas em 2007. Esta colaboração entre Karlheinz Essl e Klaus Burger começou em 2004 e a combinação entre os sopros de Burger e a electrónica de Essl realiza-se em contexto de improvisação livre com um nível de fluidez e diversidade discursiva invulgar para um duo desta natureza. As 2 sessões, apesar de pouco separadas no tempo, dão-nos a conhecer uma grande diversidade de universos sonoros, nem sempre coesos, mas geralmente interessantes e, apesar da menor qualidade da gravação realizada no Museu Essl (faixas 3 e 4), o disco na sua totalidade propõe-nos uma experiência bastante completa.
Mas convém apresentar estes protagonistas: Klaus Burger é um notável e reconhecido tubista alemão, músico de vanguarda que Mauricio Kagel disse ser “uma honra para a classe dos tubistas; explora(ndo) incasavelmente o futura da tuba e (…) soprando por todas as suas possibilidades” e que, além da tuba, toca didgeridoo, conchas e cimbasso– um instrumento semelhante ao trombone contrabaixo– expandindo o seu vocabulário sempre em volta de instrumentos de sopro, com grandes extensões e fundamentais sub-graves; Karlheinz Essl é um compositor experimentalista austríaco e figura proeminente ma cena europeia na improvisação com recurso à electrónica em tempo real, devido a ferramentas computacionais que desenvolveu especificamente para processamento em tempo real em contexto de improvisação e interacção. O trabalho de Essl nesta área, centrado à volta do ambiente m@zeº2, apresenta preocupações não só com o desenvolvimento de interfaces que permitam uma reacção e manipulação rápida das realidades sonoras, mas também uma capacidade de interagir com outros músicos em tempo real e improvisar de facto com as ferramentas computacionais. Dois músicos de vanguarda, fortemente implicados com a improvisação e o experimentalismo que demonstram nestas gravações um conjunto vasto de possibilidades quer nos universos sonoros criados, quer nas formas de interacção e reacção escolhidas.
Klaus Burger demonstra um domínio notável dos instrumentos e uma capacidade aparentemente inesgotável de explorar todos os seus parâmetros musicais, transformando o seu discurso numa extensão natural do seu organismo e a música que produz num “ensaio” sobre a relação entre o som e o sopro, ou mesmo a respiração. Karlheinz Essl age e reage de forma fluída, produzindo som e trabalhando sobre o som produzido por Burger (em tempo real e previamente) e a capacidade expressiva, mas mais do que isso, interactiva ou de “interplay” das suas ferramentas, asseguram que este duo apresenta, de facto, uma improvisação em tempo real e são um inidcador das potencialidades muitas vezes ignoradas das ferramentas computacionais como instrumentos de improvisação.
O disco inicia-se, de resto, com uma faixa exemplar pela coesão, pela pertinência musical e sonora das intervenções, pela sua riqueza e complementaridade, pelo diálogo que se estabelece entre os dois músicos e até por um certo sentido estrutural, prometendo, estes primeiros 17 minutos, um disco genial. Infelizmente, a altíssima qualidade destes primeiros 17 minutos– absolutamente a não perder– não se mantém por todo o disco, havendo mesmo alguns momentos francamente fracos, ainda durante a sessão no artact, na faixa 2, quando Essl quebra uma certa lógica instrumental centrada na ideia de sopro, mantida até aí, procurando introduzir novos instrumentos e padrões rítmicos duma forma que soa, no contexto, algo desastrada. A 2ª parte do disco, o concerto no Museu Essl, retoma algumas das boas práticas dos 17 minutos iniciais, sem que se sintam repetições excessivas de materiais, e mantém o interesse, apesar da menor qualidade técnica da gravação, adivinhando-se, especialmente na parte final do disco, o elevado nível performativo e musical que se ouve claramente no início do disco.
Em geral, trata-se de um disco exigente, mas não asséptico nem aborrecido, e a qualidade dos seus melhores momentos não poderá deixar indiferente nenhum apreciador de música, especialmente se se interessar por instrumentos de sopro e por práticas de improvisação.
E está disponível online, para quem o quiser ouvir!

ESSL.BURGER live!, por Essl.Burger

Editora: XS-Records
Data de edição: Junho de 2009

Data das gravações:
1º set: 4 de Março de 2007 | artacts ’07, Festival de Jazz e Música Improvisada em St. Anton (Tirol, Áustria)
2º set: 3 de Junho de 2007 | Museu Essl, em Klosterneuburg, Viena (Áustria)

  • Klaus Burger tuba, cimbasso, didgeridoo, conchas
  • Karlheinz Essl m@ze°2 (laptop & live-electronics)
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Samuel Blaser, Pieces of Old Sky

Pieces of Old Sky, capa do disco
PIECES OF OLD SKY, de Samuel Blaser Quartet

CLASSIFICAÇÃO: 4.5/5

Nostálgico e meditativo, como o nome do álbum sugere, este “Pieces of Old Sky”, é um álbum envolvente e resulta duma extraordinária combinação de instrumentistas e abordagens que servem os temas com detalhe e generosidade. Não existe, em nenhum momento no disco, como é habitual quando se conta com a  participação dum baterista como Tyshawn Sorey, uma secção rítmica tradicional: todos os instrumentos, bateria incluída, são vozes melódicas e, mesmo nos momentos mais singelos, existe uma liberdade total da ideia duma pulsação, fluindo as ideias musicais, exploradas amplamente por cada um dos instrumentistas.
A escrita de Samuel Blaser e o seu desenvolvimento pelo quarteto permite compreender o potencial de elementos melódicos simples na afirmação de estados de espírito complexos e a energia emocional e musical flutua de acordo com uma gestão muito criteriosa de cada participação e contando com elevado nível de atenção e capacidade de resposta constante do quarteto, que reage, repete e reinterpreta as intervenções mais significativas, definindo um enquadramento eficaz e encontrando caminhos de desenvolvimento musical aprofundado. O acerto e a coesão tímbrica é notável, especialmente na relação entre o trombone de Blaser e a guitarra de Neufeld que criam diálogos riquissímos. Thomas Morgan funciona frequentemente como ponto de apoio das inflexões estruturais, mas sem nunca ceder a um papel tradicional procurando fraseados relevantes e explorando os harmónicos, por exemplo.
Em temas ritmicamente mais definidos, como “Red Hook” ou “Speed Game”, o papel não convencional de Tyshawn Sorey, torna-se ainda mais evidente: o quarteto toca o riff em uníssono e a sua interpretação faz uso da totalidade da bateria, para tocar não só a componente rítmica do riff, mas também o seu envelope melódico e dinâmico, desenvolvendo posteriormente formas de apoiar e pontuar o desenvolvimento do tema e as intervenções solistas, sem nunca perder a noção da pulsação implícita, mas escapando a qualquer tentação de vulgaridade. A liberdade que esta forma de tocar de Tyshawn Sorey traz ao grupo é fundamental para permitir a escolha de novos caminhos e inflexões eventualmente inesperadas, assim como o seu rigor é surpreendentemente eficaz na afirmação dos riffs.
Assumidamente nostálgico, “Pieces of Old Sky” é também, fortemente evocativo, com um certo carácter cinemático, como acontece com os corais, em duo de Blaser com Neufeld.
Não se deixa, no entanto, encurralar num registo frágil, encontrando os caminhos, quando necessário, para momento mais intensos, como acontece no final de “Mystical Circle”, enriquecendo a experiência global.
A elevada cumplicidade e a extraordinária flexibilidade de todos os músicos presentes garante uma experiência de audição completa, onde o registo límpido e o lirismo inteligente do trombone de Samuel Blaser aponta uma direcção, sem limitar demasiado os caminhos.

PIECES OF OLD SKY, de Samuel Blaser Quartet

Clean Feed (2009)
gravado em Nova Iorque (2008)

  • Samuel Blaser trombone
  • Todd Neufeld guitarra
  • Thomas Morgan contrabaixo
  • Tyshawn Sorey bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Marty Ehrlich Rites Quartet: Things Have Got To Change

Thinhs Have Got To Change, capa do disco
THINGS HAVE GOT TO CHANGE
Marty Ehrlich Rites Quartet

CLASSIFICAÇÃO: 4.5/5

“Rites Rhythms”, a primeira faixa do álbum e a que dá nome a este quarteto liderado por Marty Ehrlich apresenta-nos um disco singularmente luminoso e as faixas que se seguem, ora da autoria de Marty Ehrlich, ora de Julius Hemphill, confirmam uma construção rigorosa e extraordinariamente bem executada dum disco que não tem receio de ser quase “ligeiro” no carácter festivo e na efervescência dos riffs rítmicamente muito eficazes e melodicamente atractivos, mas que não é em momento algum superficial.
O funcionamento da dupla Erik Friedlander/Pheeroan Aklaff afirma-se como estruturante na construção de vários temas com um swing elegante e inteligente, mas a complementaridade das abordagens de Zollar e Ehrlich é igualmente decisiva para assegurar a eficácia do quarteto. E, em temas como “Some Kind of Prayer”, mais meditativo, podemos escutar o funcionamento dum trio com os 2 sopros e Friedlander, menos “rítmico”, no arco e em pizzicatto, com Pheeroan ritmicamente livre para pontuar e enriquecer algumas explorações mais nostálgicas num ambiente que vagueia entre reflexões líricas, encontros e desencontros num jogo que permite compreender melhor os papéis relativos dos 4 músicos na construção quer da diversidade, quer da coerência do quarteto.
A beleza do disco reside, de facto, na conjugação destes factores: se por um lado o álbum se apresenta como um todo muito consistente, coerente e lógico, a verdade é que os diferentes registos, como por exemplo, a introdução de Erik Friedlander em “On The One”, alternando entre o estudo clássico e a canção popular, e a forma como se sobrepõem e conjugam ao longo do disco, seguindo critérios de elevada musicalidade, garantem uma identidade forte em cada tema, mas criam ligações, pelo tratamento nos solos e pela própria sequência de apresentação em disco.
Os temas de Ehrlich e de Hemphill apresentam algumas semelhanças na lógica de construção, e garantem a afirmação bastante clara de cada tema, mas criam largos espaços para a improvisação, que é muitas vezes colectiva e que, apesar das características e léxicos individuais reconhecíveis de cada músico, se refere a espaços-ambientes relativamente nítidos em cada tema, apesar da sua amplitude.
A capacidade de Ehrlich e Zollar alternarem entre um registo mais límpido, na afirmação dos temas em uníssono, com ou sem Friedlander, e de recorrerem a outros timbres e  registos ao longo dos solos, complementa na perfeição a alternância de Friedlander entre o papel de “contrabaixo” e o papel de “solista” melódico e a flexibilidade de Pheeroan entre a afirmação de pulsações com swing e registos mais ilustrativos, em escolhas que procuram servir os temas e demonstram um elevado grau de cumplicidade entre todos os músicos.
“Dogon A.D.”, de Julius Hemphill, com a pulsação clara e a estrutura simples, ainda que curiosamente desequilibrada, encerra o disco num ambiente que recorda a luminosidade inicial, mas reafirma a diversidade e riqueza do disco.

THINGS HAVE GOT TO CHANGE, de Marty Ehrlich Rites Quartet

Clean Feed (ed. 2009)
Gravado em Lisboa, 2008

  • Marty Ehrlich sax alto
  • James Zollar trompete
  • Erik Friedlander violoncelo
  • Pheeroan Aklaff bateria e percussão
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Steve Swell: Planet Dream

Planet Dream, capa do disco
Planet Dream, de Steve Swell

CLASSIFICAÇÃO: 5/5

5 improvisações, 4 temas compostos por Steve Swell. 3 músicos que se conhecem profundamente e partilham um universo sonoro que surge naturalmente da abundante e peculiar cena free jazz nova-iorquina. Um universo que está plasmado nas composições de Swell, mas que se constrói através das longas cumplicidades entre estes 3 músicos (Rob Brown e Daniel Levin tocam na big band de Steve Swell, The Nation of We, Steve Swell e Rob Brown integram a Little Huey Creative Music Orchestra, de William Parker e Rob Brown e Daniel Levin tocam em duo e trio com Satoshi Takeishi). Trombone, saxofone e violoncelo podem constituir uma combinação invulgar, mas o talento e versatilidade destes músicos permite-lhes explorar com intensidade e pertinência as diversas possibilidades e combinações, quer pelas similaridades, quer pelo constrastes, pintando este “Planet Dream” com uma vasta e luminosa paleta de cores. Se nos 4 momentos de improvisação total, temos oportunidade de ouvir de forma mais evidente momentos de encontro e partilha sonora mais abstracta, como na faixa que dá nome ao disco, em explorações técnicas e tímbricas que procuram desafiar as fronteiras dos instrumentos de formas enriquecedoras para o conjunto, e podemos acompanhar jogos de interacção riquíssimos, nos temas compostos por Steve Swell, ao fornecer-se um mote melódico-rítmico, como no multi-swing de “Juxtsuppose”, o trio consegue apresentar e desenvolver os temas com grande expressividade e liberdade, prosseguindo então para a sua desconstrução e exploração, alimentando o processo de improvisação com as ideias sugeridas nos próprios temas ou por cada um dos músicos.
E a riqueza deste universo engloba mesmo muitas realidades: por exemplo, em “Airtight”, o pizzicato de Daniel Levin mostra como um violoncelo pode segurar um groove, para quem, depois de Tom Cora e Erik Friedlander, ainda precisava de explicações sobre o papel dum violoncelo num ensemble de jazz, enquanto as intervenções de Rob Brown e Steve Swell, lembram desenhos de John Zorn com George Lewis— o genial trio de John Zorn, George Lewis e Bill Frisell em “News For Lulu” é, de facto, uma das formações mais próximas da sonoridade de “Planet Dream”. Já em “City Life”, a introdução virtuosa e vertiginosa de Levin, primeiro com o arco, depois em pizzicato, coloca-nos de imediato no plano agitado e anguloso, sobre o qual o tema se desenvolve, com as intervenções de Brown e Swell, mais marcadas e quase soluçantes, a polviharem um quadro sugestivo duma paisagem urbana quotidiana, sem caírem na tentação da ilustração. E, em “Texture #2″, padrões numéricos são tocados em uníssono, e desconstruídos até se atingirem interesantes clusters, que Daniel Levin explora em cordas dobradas, enquanto Swell e Brown retomam o carácter pontuado dos padrões.
Mas, acima de tudo, “Planet Dream” é o resultado singular da colaboração específica destes 3 músicos de excepção e do encontro destes 3 instrumentos tão carismáticos.
Como Steve Sweel, desejava, um universo completo, complexo e múltiplo onde há, aparentemente, espaço para tudo e, ainda assim, o que se ouve parece estar no sítio certo, na altura certa. Naturalmente.

Planet Dream, de Steve Swell

Edição Clean Feed, 2009
Gravação: Nova Iorque, 2008

  • Steve Swell, trombone
  • Rob Brown, saxofone alto
  • Daniel Levin, violoncelo
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Simak Dialog: Demi Masa

Simak Dialog: Demi Masa, capa do disco
Demi Masa, de Simak Dialog

CLASSIFICAÇÃO 2/5

Simak Dialog, o grupo de jazz-rock progressivo, liderado por Riza Arshad (compositor da quase totalidade dos temas) e baseado em Jacarta, capital da Indonésia, existe desde 1993 e este “Demi Masa” é já o seu quinto álbum de originais. A origem exótica é notada em raros momentos do disco, onde as percussões sudanesas kendang têm espaço para conferir ao disco uma sonoridade particular em algumas introduções de temas, como “Salilana Pertuma” e “Salinana Kerdua”, ou em “Trah Lor – Tapak”, onde pontua a voz de Mian Tiara, e são esses momentos mais exóticos, ou genuínos, que se afiguram como mais interessantes, já que o disco, globalmente, repete fórmulas ora dum Ambient Jazz (muitos discos da ECM vêm à memória aqui e ali) ou dum jazz fusão, relativamente datado, e mantém-se demasiado próximo, quer do ponto de vista da composição, quer do ponto de vista da sonoridade, dos seus modelos (Chick Corea, John Scofield, Pat Metheny…) que trilharam caminhos já exaustivamente explorados.
O disco alterna entre momentos “eléctricos” e momentos “acústicos”, com Riza Arshad e Tohpati Ario Hutomo, clássicos “frontmen”, a alinharem rigorosamente a guitarra acústica com o piano e a eléctrica com o fender rhodes e os sintetizadores, decalcando com algum brilhantismo muitos dos clichés e imagens de marca dos seus modelos, mas sem conseguirem acrescentar alguma frescura ou uma nova perspectiva. As percussões sudanesas, apesar do seu som característico, ou, por isso mesmo, parecem aprisionadas nos estreitos modelos rítmicos dos modelos ocidentais e têm muito pouco espaço para mostrarem o seu potencial, parecendo, a espaços, “transplantadas” para este projecto, mais por um capricho de marketing do que por uma real intenção de explorar eventuais interacções entre este jazz-rock e as músicas do mundo.
O disco, globalmente, tem momentos interessantes, aqui e ali, mas torna-se aborrecido na repetição, ainda que virtuosa, de modelos muito datados e na incapacidade de criar um espaço de encontro entre esses modelos ocidentais e as músicas locais, proposta que seria bem mais interessante.

Demi Masa, de Simak Dialog

Editora MoonJune Records 2009
Indonésia, 2009

  • Riza Arshad: piano eléctrico fender rhodes, piano, sintetizador analógico
  • Tohpati Ario Hutomo: guitarra eléctrica e acústica
  • Adhitya Pratama: guitarra baixo
  • Endang Ramdan: percussões sudanesas kendang (líder), pandeireta, palmas, brinquedos e vozes
  • Erlan Suwardana: percussões sudanesas kendang, palmas, brinquedos, vozes

Convidados;

  • Emy Tata: percussões sudanesas kendang, palmas, vozes
  • Mian Tiara: vozes
  • Dave Lumenta: paisagens sonoras
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Trespass Trio: … was there to illuminate the night sky…

Trespass Trio, capa do disco
“… was there to illuminate the night sky…”, Trespass Trio

CLASSIFICAÇÃO: 5/5

«O que é que podemos conseguir com cordas, palhetas, peles e paus?
Além de sermos ignorantes fazedores de música, o que é que somos?
Estamos a tentar ver através do esventramento da nossa sociedade, mas com sons– uma tarefa impossível, poderão dizer. Uma audição cega. (…)
Como fazer música no ano 2009? Digam-me vocês!»

Esta angústia de Martin Küchen, expressa nas notas da edição, marca este “… was there to illuminate the night sky…” da primeira à última nota, concedendo à experiência de audição uma intensidade emocional verdadeiramente invulgar. A substância exacta ou a motivação da mensagem política de Martin Küchen, da sua ira e frustração, é verdadeiramente de angústia que se trata, não são sequer necessárias para que o disco nos arrepie e entre por baixo da pele, nos interrogue e nos preencha com essa angústia, uma tristeza profunda e paralisante, que tememos, mas aceitamos.
Através dos seus saxofones e da sua escrita musical, profunda, genuína e desesperada, Martin Küchen envolve os seus parceiros do Trespass Trio e os ouvintes numa experiência quase catártica e o disco parece transcender a superficialidade de registo sonoro e transforma-se em instrumento terapéutico ou arma de combate… E se a construção dum projecto musical à volta duma genuína mensagem política de revolta é, nos dias que correm, relativamente rara, raríssimo é que o resultado desse projecto seja capaz de sensibilizar fisicamente os seus ouvintes, mobilizando-nos emocionalmente exclusivamente através da música.
“… was there to illuminate the night sky…” corre seriamente esse risco, na alternância consequente entre um grande ira e revolta e uma simplicade e pungência avassaladoras, colocando os melhores recursos destes 3 instrumentistas escandinavos de referência ao serviço da construção de momentos emocionalmente densos, sem medo do belo trágico ou falsos pudores líricos. Essa pungência, assim como o carácter militante, recorda vagamente, “Alerte à l’eau / Water Alert” (Label Bleu, 2007), do sexteto de Henri Texier, Strada, com o som de François Corneloup no sax barítono. Mas na militância ambientalista do veterano francês Texier, há réstias de esperança e sinais de vida, enquanto que na obra do saxofonista sueco, parece não existir outra luz que não a de uma bomba de fósforo. Eventualmente uma vela tremeluzente.
Martin Küchen despeja a sua alma através das suas composições, primeiro, mas, de forma mais evidente, através dos saxofones, com especial eficácia visceral no barítono. E conta com a solidária companhia e o apoio empenhado de Per Zanussi e Raymond Strid, uma secção rítmica de sonho na música improvisada escandinava.
E um homem que despeja a sua alma na música que faz, tem em si a coragem de mudar o (seu) mundo. E oferece a quem ouve essa magnífica e rara oportunidade de, com ele, lavarmos um pouco da nossa própria alma. Intenso, eventualmente perigoso, mas precioso.

“… was there to illuminate the night sky…”, Trespass Trio

Edição: Clean Feed, 2009
Gravação: Oslo, 2007

  • Martin Küchen: saxofone alto e barítono
  • Per Zanussi: contrabaixo
  • Raymond Strid: percussão
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jazz.pt | Quad Quartet: Now Boarding

Texto escrito por João Martins, a 01/04/2009.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
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Quad Quartet: Afirmação de Identidade

É um quarteto de saxofones e tem matriz na música erudita, mas a sua estreia em disco (com edição de autor, o que denuncia a urgência de mostrar o seu trabalho) utiliza temas de Jazz de Carlos Azevedo e Mário Laginha. Uma óptima surpresa!

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

Capa do CD Now Boarding do Quad Quartet

Como edição de estreia, “Now Boarding” é um projecto surpreendente. E, se pensarmos que se trata duma edição de autor, mais surpreendente se torna: o rigor e exigência que se sente em cada aspecto desta edição é, francamente, acima da média: desde a escolha do repertório, à sua apresentação no suporte final, passando pela qualidade da gravação e produção, “Now Boarding” é o reflexo duma estrutura profissional e empenhada na concretização dum projecto musical completo.
Se o saxofone é um instrumento peculiar no lugar que ocupa como ponte entre as músicas eruditas e populares (por ser um instrumento recente, a sua adopção no universo da música erudita deve-se, em grande parte, ao seu sucesso como instrumento no jazz ou nas bandas filarmónicas), um quarteto de saxofones é um agrupamento paradoxal, já que se trata da configuração paradigmática da música de câmara erudita, construído à semelhança do quarteto de cordas. Por isso mesmo, é no espaço do quarteto que a maioria dos saxofonistas de formação clássica se formam enquanto músicos, onde a diversidade e profundidade do repertório original e adaptado permite uma formação abrangente a a maturação musical. Mas, também por isso, apesar da quantidade de quartetos existentes, a afirmação de identidades de tipo “autoral”, duma “voz”, se quisermos, torna-se particularmente difícil. No caso do Quad Quartet, essa identidade constrói-se de duas formas: através da escolha criteriosa do repertório e do seu encadeamento consequente e através dum processo de descodificação técnica da obra que assenta acima de tudo em soluções musicais.
“Now Boarding” é um momento claro de afirmação dessa identidade: o repertório escolhido une compositores portugueses e holandeses, numa ponte entre o país de origem destes saxofonistas e o país onde construíram parte da sua formação. Mas o que une os membros deste quarteto a Luís Tinoco, Carlos Guedes e Mário Laginha, os compositores portugueses, ou a Chiel Meijering, o compositor holandês, não são só coincidências geográficas: a este quarteto de saxofonistas de formação clássica interessa uma música que seja contemporânea e “familiar”, uma música feita agora e que, ao reflectir de diferentes formas a realidade quotidiana, se aproxime das pessoas. Para lá de géneros musicais ou convenções e sem preconceitos. Ao intercalar as peças histriónicas de Chiel Meijering, onde o caos das paisagens urbanas contemporâneas se traduz em rápidas colagens e transições de clichés musicais, ou texturas e ambientes fílmicos e efeitos mais ou menos caricaturais, com as peças jazzísticas de Carlos Guedes e Mário Laginha e a escrita mais ambiental de Luís Tinoco, não só o quarteto demonstra uma grande parte do imenso espectro sonoro à disposição da formação, como cria um todo coeso, não monótono, que justifica esta edição em disco.
A viagem que o disco nos propõe, atravessa ambientes familiares, em diversas representações, sempre musicais e sempre actuais. Um testemunho do potencial contido na união de quatro saxofonistas talentosos e da pertinência das práticas musicais escritas que não se deixam espartilhar por fronteiras estilísticas artificiais.

Quad Quartet, Now Boarding
Ed. de Autor, Portugal 2009

João Figueiredo (Sax Soprano), Fernando Ramos (Sax Alto), Henrique Portovedo (Sax Tenor) e Romeu Costa (Sax Barítono)

+ info: http://www.quadquartet.com

Texto escrito por João Martins, a 01/04/2009.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
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