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Abençoados os pobres de espírito

Domingo, 4 de Maio, 2008

Hoje, na Universidade de Aveiro, realiza-se a Benção dos Finalistas. Esta cerimónia que se realiza um pouco por todas as academias do país deixa-me doente, irritado e deprimido.

Por um lado, há a hipocrisia extrema e muito portuguesa de encerrar um período em que se cometem todos os excessos e todos os pecados, quase por obrigação, com uma cerimónia religiosa, bem comportada, para emoção das famílias e satisfação de egos parolos e provincianos.

Depois há esta doença social profunda e muito mais debilitante do que se pensa de aceitar a ideia duma religião dominante e da “normalidade” de se organizarem cerimónias para multidões que se supõem diversas, mas unidas nesse padrão quase nunca praticado e cada vez menos professado. A associação entre a vontade popular (ou estudantil, neste caso) de celebrar ou assinalar com pompa e circunstância um momento mais ou menos determinante com a incompreensível e muito pouco debatida necessidade da sua sacralização é um sintoma claro da pequenez do nosso país. Da nossa pobreza de espírito.

Não questiono (nem tal me passaria pela cabeça) que os estudantes, individualmente ou em grupo, sintam uma necessidade de integrar na sua eventual prática religiosa estes momentos. É natural. O que não é nada natural e resulta apenas e só da perigosa presunção nacional de que, a não ser que nos manifestemos em contrário, somos todos católicos e que ninguém se incomodará com a imposição dessa religião dominante porque “sempre foi assim” e toda a gente sabe que até somos “tolerantes”, é que as instituições (Universidades, Órgãos de Soberania, Associações de Pessoas, etc.) não compreendam a necessidade de fronteiras claras e definidas entre a sua esfera pública e a religiosidade presumida.

Países com uma maior presença de diversas culturas e religiões, que não admitem (porque não podem) que religiões historicamente dominantes se confundam com a expressão do que é público e colectivo, não limitam a liberdade religiosa de ninguém ao atribuir exclusivamente às igrejas e aos indivíduos a responsabilidade de organizarem as suas práticas.

O envolvimento que os nosso poderes públicos, das Câmaras aos Governos, passando pelas Universidades, corporações de Bombeiros, colectividades várias e Associações de Estudantes, por exemplo, continuam a assumir com a Igreja Católica é, por isso mesmo, uma manifestação triste da nossa pequenez e da nossa pobreza de espírito.

Não sei se isso nos garante a benção, mas acho que garante parte do nosso atraso civilizacional.

Governo criou o regime de “estudante a tempo parcial”

Sábado, 3 de Maio, 2008

As Universidades sabem?
Esta é claramente a primeira pergunta que me ocorre face a esta notícia.

O regime proposto é comum em vários sistemas de ensino superior que, curiosamente, têm muito poucas parecenças com o nosso. Não me interessam, apesar de me fazerem sorrir, os comentários e piadas que sugerem que a vasta maioria dos actuais estudantes do ensino superior já o são apenas a tempo parcial, porque se dá nessa análise demasiada importância a quem se dedica quase a tempo inteiro à bebedeira travestida de “vida académica” e quase nunca se pensa nos exemplos de quem poderia de facto beneficiar (para si e para a sociedade) de um sistema mais flexível. Eu não sou o melhor exemplo disso mesmo (estive vários anos inscrito na FAUP sem concluir licenciatura nenhuma e estou inscrito na UA, apesar de não ter conseguido frequentar nenhuma disciplina nos últimos dois anos), mas sou um exemplo, ainda assim. Um exemplo que conheço. E a minha experiência diz-me que as Universidades enquanto instituições e os seus docentes, particularmente, não estão muito preparados ou disponíveis para estes graus de autonomia e flexibilidade na construção dos currículos e percursos escolares por parte dos alunos. O que vou conhecendo das “transições para Bolonha” e do desenvolvimento de projectos transdisciplinares reforça essa convicção de que as Universidades funcionam como capelas de “autistas”, fechados ao(s) exterior(es) e aos seus parceiros naturais. É óbvio que há exemplos que contradizem esta ideia e, optimisticamente, gostaria de pensar que essas não são as excepções que contrariam a regra. Mas não sei.

O que sei, das Universidades que conheço, é que um regime em que alunos “avulsos”, de outras instituições ou de nenhuma, possam frequentar e concluir disciplinas a gosto, por muito que seja uma ideia que me agrade, é um regime que obriga a pequenas “revoluções”. Se elas se fizerem, óptimo. Mas suspeito que, na maioria dos casos, se proceda apenas a um conjunto de alterações cosméticas para parecermos todos muito “modernos”.

Quando os programas de formação e apoio se transformam num fim em si mesmos…

Sexta-feira, 2 de Maio, 2008

O Banco de Portugal estudou os programas de apoio aos desempregados dos últimos anos da década passada e concluiu que os milhões gastos foram pouco eficazes (notícia no Público).
Percebo que seja notícia, mas não creio que seja surpresa para quem quer que conheça uma parte desses programas, especialmente os programas de formação.

Os economistas referem, e bem, que um dos problemas foi não se ter apostado também em subsídios aos salários. É engraçado como o subsídio estatal é apontado ora como um mal terrível, criador de parasitas, ora é apontado como um instrumento importante para regular as áreas em que o mercado falha.  Mas, para lá dessa questão, a minha experiência diz-me que o problema maior deestes programas foi terem-se transformado num fim em si mesmos, em vez de se assumirem como meios de qualificação, transformação e progressão no mercado de trabalho para os diversos envolvidos. O negócio da formação financiada em Portugal— que deu até vários escândalos giros— tem uma dimensão tal e está de tal forma empenhado na sua auto-preservação que são raras as propostas formativas sérias e verdadeiramente voltadas para um processo de integração do indivíduo no mercado de trabalho real.

Isso vê-se, por exemplo, na distribuição da oferta formativa por áreas disciplinares, que obedece muito mais a lógicas estranhas que servem as próprias estruturas de formação e a maximização do seu lucro estão muito pouco viradas para o mercado “real”.

Há uma “anedota” real que ilustra muito bem esta lógica retorcida:
Um empresário de determinado sector da indústria necessitava de operários qualificados e contactou o Centro de  Emprego e Formação Profissional da sua área para que fosse criado um curso, para o qual ele dava condições de formação específica e garantia estágios (e empregos com futuro), cabendo ao Centro a integração desse curso num dos percursos formativos existentes e a garantia das outras áreas disciplinares necessárias à formação completa. Acordo feito e estabelecido, iniciam-se as entrevistas para recrutamento. A empresa participa na fase inicial do recrutamento e envia os jovens seleccionados para o Centro de Emprego para a finalização do processo. Chegados ao Centro de Emprego uma técnica de recursos humanos convence os jovens recrutados (que tinham ido à procura daquela oportunidade) que é muito melhor fazerem um Curso de Informática, porque “tem muito mais futuro”. Moral da história: o empresário ficou sem os operários qualificados de que precisava e que queria formar, os jovens foram fazer um curso que não tinha estágios garantidos, muito menos integração no mercado de trabalho assegurada, mas o Centro de Emprego deve ter cumprido uma quota qualquer de formação tecnológica e não teve que lidar com profissões “sujas”.

É só uma “anedota”, mas ilustra bem a realidade dos programas de formação e de outros apoios a desempregados.

E, enquanto não se quebrar esta lógica viciada, nada há a fazer.

De pequenino se torce o pepino

Quinta-feira, 24 de Abril, 2008

Uma das mais eficazes (e desprezíveis) formas de fomentar o uso de aplicações e linguagens proprietárias e viciar o mercado e o contexto de produção informática é apostar no mercado da educação, com campanhas que, efectivamente, perpetuam e reforçam o ciclo vicioso da aparente falta de alternativas. Várias empresas de software usam estas estratégias: empresas como a Microsoft ou a Autodesk (os exemplos que conheço mais de perto) incentivam a utilização das suas ferramentas no contexto académico, apostam fortemente no circuito da formação financiada e tentam manter relações privilegiadas com o sector, promovendo acções de marketing mais ou menos disfarçadas de formação dirigidas a alunos, professores e demais responsáveis pela selecção de ferramentas a utilizar nas salas de aulas.

Já diz o povo, e com razão, que “de pequenino é que se torce o pepino“, e os efeitos destas acções são evidentes: o percurso formativo em variadíssimas áreas que necessitam de apoios tecnológicos são fortemente marcados por uma única aplicação ou suite. E a emergência de “pseudo” standards, a que algumas pessoas chamam os “standards de mercado”, mesmo que o seu crescimento resulte da manipulação do próprio mercado, é um exemplo claro de como esta é uma estratégia ganhadora para as empresas beneficiárias e altamente prejudicial para a sociedade.

Não me interessam lutas quixotescas contra a Microsoft, que é o exemplo mais completo desta forma de actuar, porque me incomoda (quase) tanto a sua hegemonia na área do “escritório e produtividade”, como me incomoda a hegemonia da Autodesk na arquitectura, engenharia e construção, ou da Adobe nas artes gráficas e multimédia ou mesmo da Apple em certas áreas do áudio e vídeo e como plataforma de hardware nas artes gráficas, ainda que quase não se sinta em Portugal.

As hegemonias, todas, incomodam-me porque resultam num encurtar de perspectivas para os utilizadores e, por esse facto, numa limitação da sua liberdade. É um processo no qual cada indivíduo participa, é certo. E, por isso mesmo, o caminho percorrido durante os períodos iniciais de formação, pelo menos esse, deveria ser marcado pela promoção e exploração de alternativas e deveria ser feita a distinção clara entre os tais “standards de mercado”, circunstanciais, e os standards de facto, dando especial atenção a questões como a interoperabilidade das soluções adoptadas. Esquecer a interoperabilidade é, acima de tudo, viciar as “regras do jogo” e prender os utilizadores numa espécie de “jaula invisível”.

Vem esta reflexão a propósito dum concurso que a Microsoft está a promover, em conjunto com a DGIDC (Direcção Geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação),  dirigido a estudantes do 2º e 3º ciclos do Ensino Básico e do Ensino Secundário, que premiará sites sobre Segurança na Internet, mas onde se privilegiará a utilização de ferramentas da Microsoft, numa jogada claramente denunciada pelo Rui Seabra.

O concurso promove não só a utilização de software proprietário, como contribui para a relativização da importância dos web standards e isso deveria ser razão mais do que suficiente para que os responsáveis públicos da DGIDC/eCRIE se manterem ao largo. Até porque os termos do concurso contrariam a estratégia positiva de promoção de soluções baseadas em Software Livre , como o Moodle e o Joomla, que, além de serem open source e gratuitas, estão envolvidos na promoção de standards reais e não levantam problemas de interoperabilidade.

Discutir e denunciar as condições de promoção deste concurso são tarefas que nos cabem a todos e espero que a Associação Ensino Livre possa vir a participar também nesta denúncia.

Profissional? Eu?

Segunda-feira, 21 de Abril, 2008

A convite do Dr. Nelson Lopes, psicólogo no Gabinete de Apoio ao Jovem da Câmara Municipal de Aveiro, participei num Painel de Profissionais, com a missão de partilhar com alunos do 12º ano da Escola Secundária Jaime Magalhães Lima, alguma da minha experiência na qualidade de web designer. Todas as minhas reservas— não ter um percurso de formação minimamente regular, ser demasiado jovem e inexperiente para poder dar uma visão completa de qualquer exercício profissional e ser excessivamente disperso na minha actividade para me poder assumir como profissional seja de que área for— foram sendo rebatidas pelo Nelson Lopes, a quem a ideia de trazer um “agente provocador” ao painel, parecia agradar.

Participei, por isso, nessa qualidade e, apesar do cansaço (o painel foi de manhã e tinha tido filme-concerto do Space Ensemble em Barcelos na noite anterior), acho que não se perdeu tudo e ninguém ficou demasiado melindrado (espero) com a minha presença.

Comecei, destacando a velocidade vertiginosa a que a web, enquanto suporte, se desenvolve e modifica e, por isso, a necessidade imperiosa de, quem se interessar por ela, não se afeiçoar demasiado a ferramentas, linguagens ou procedimentos específicos e, necessariamente circunstanciais, e investir numa formação flexível, centrada no “aprender a aprender” e no “aprender a pensar“, muito mais “estáveis” e úteis a médio e longo prazo do que o “aprender a fazer“. Partilhei também a parte mais “dramática” do meu percurso escolar (uma prolongadíssima desistência do curso de arquitectura) e aconselhei, nos limites do que me é permitido, a não ter medo de mudar de sonhos e vontades e, acima de tudo, fugir das armadilhas das expectativas externas (ou da percepção que temos delas) e quebrar este ciclo vicioso de prolongar os percursos formativos ad nauseam, sem convicções.

Não se metam num curso superior qualquer só porque é o que se espera que façam ou, pior, porque é aquele em que conseguem entrar. O curso não pode ser um fim em si mesmo.

Não sei se o disse com esta convicção, mas tentei.

Para ilustrar a questão da velocidade, usei uma citação do Boris Vian, tirada de “Os Construtores de Impérios“:

Corremos com toda a força para o futuro e vamos tão depressa que o presente nos escapa e a poeira da nossa corrida nos esconde o passado.

Timeline of major browser releases, Wikipediae, para dar um aspecto mais “técnico”, mostrei-lhes esta timeline dos lançamentos dos principais browsers, que pode ser vista em detalhe na Wikipedia.

Para quem nasceu à volta de 1990, este ritmo de desenvolvimento, a par das datas de lançamento dos principais serviços web que fazem parte do nosso quotidiano— Amazon, 1994; Yahoo e Sapo, 1995; hi5, 1996; Google, 1997, MSN, Blogger e RSS, 1999; Wikipedia, 2001, Last.fm, 2002; Skype e MySpace, 2003, YouTube, 2005— deve fazer pensar 2 vezes todos aqueles que aspiram a um futuro sossegado (que espero que sejam sempre cada vez menos).

Datas de lançamento de serviços web emblemáticos

O tempo não era muito (15 minutos para a apresentação) e não consegui fazer nada de tão rigoroso ou completo como gostaria. Até porque não podia evitar a “provocação” final que, infelizmente, não tivemos tempo para debater, nem com os alunos, nem com os professores, nem com os restantes profissionais presentes: o matemático Manuel Scotto, o engenheiro electrotécnico/telecomunicações José Carlos Pedro, o engenheiro civil João Paulo Tavares (CMA) e o professor de educação física / empresário Ricardo Silva.

Quem sabe se a podemos debater aqui no blog? Cá vai:

O trabalho é a porca chantagem da sobrevivência.
Movimento Situacionista

Sectarismo Superior

Domingo, 16 de Março, 2008

Conversa (pouco) ficcionada entre dois ilustres docentes duma prestigiada instituição do Ensino Superior público:

— Acabei finalmente o livro em que ando a trabalhar há anos!

— Óptimo! Isso vai ser muito útil para todas as pessoas da nossa área científica. Quando vai ser editado?

— Isso é um problema… a editora especializada com que falei mostrou-se interessada mas está numa fase de contenção. Vou ter que falar com outras.

— E porque é que não editas com a chancela da Universidade?

— Porque isto tem um interesse geral e se sair com a chancela desta Universidade, as outras não o vão adoptar.

— Pois é. Tens razão. Era o que nós faríamos também…

— Pois…

A parte ficcionada é o tom literário e artificial e a omissão de nomes.

O imenso poder dos professores

Domingo, 9 de Março, 2008

A manifestação de ontem marca o país de várias maneiras. A principal, na minha opinião, prende-se com o facto de manifestar, em vez de convicções políticas ou laborais, descontentamento, desconforto, cansaço, estados de espírito… as mudanças em curso na escola pública são muitas e quase todas violentas. Os professores sentem-se maltratados, com razão, por se lhes exigir um esforço desproporcionado no contexto da sociedade portuguesa. A diminuição das taxas de abandono escolar, o alargamento dos horários, a diversificação das actividades alternativas dentro das escolas, a garantia de acompanhamento dos alunos no contexto escolar… muitas destas mudanças que sempre foram necessárias e que a democratização do ensino exigia que se fizessem com planificação, cuidado e investimento, para se ajustarem às brutais diferenças de escala, foram concentradas num curto e violento espaço de tempo. E os professores, naturalmente, ficaram com imensas razões de queixa. Não acredito, apesar dos esforços de alguns sectores da desinformação, que se queixem ou reclamem contra os objectivos destas medidas. Mas assiste-lhes o direito de se queixarem e reclamarem contra as condições objectivas em que se lhes atribuem novas responsabilidades, se impõem novos procedimentos e tarefas, sem que, no horizonte, se vislumbre a justa retribuição. E por muitos agradecimentos e discursos que façam governantes e por muito que se fale da dignidade da função, na memória recente e no quotidiano dos professores actuais há remunerações congeladas, falta de condições físicas, stress associado à velocidade das mudanças.

E é por isso que a manifestação de ontem é, acima de tudo, uma manifestação de descontentamento, desconforto e cansaço. Podia ser uma manifestação de outra coisa, se o alvo maior da contestação fosse o novo Modelo de Gestão e não o de Avaliação. E é importante e interessante perceber porque é que a Avaliação é mais capaz de unir os professores do que a Gestão Democrática das Escolas, não é?

A mim, parece-me que o sistema de avaliação de desempenho, limpo das tretas da propaganda dum lado e doutro, é mais uma medida cuja bondade dos objectivos não se discute. É mais uma mudança de rotinas e procedimentos, num curto espaço de tempo, com impactos difíceis de perceber. Já o Modelo de Gestão, pelo que consigo perceber, preconiza mudanças “reais” na gestão democrática das escolas e suscitaria discussões políticas de princípio. Mas, para isso, não se mobilizarão nunca 100 mil professores. Porquê?

Por causa do imenso poder dos professores. O imenso poder que raramente exercem e que está na base de muitos dos confrontos actuais. É que o poder de todo o sistema educativo está nas mãos dos professores. É pela acção e omissão dos professores que se determina, actualmente, quem exerce os diferentes poderes na escola pública. Na sala de aula, nas coordenações de disciplina ou departamento, no Conselho Pedagógico, no Conselho Executivo, na Assembleia de Escola, são os professores que fazem a escola avançar ou regredir. É a eles que compete compreender, adaptar e implementar as orientações do Ministério. Se o exercício desse poder fosse normal para a maioria dos professores, este nível de contestação não era possível. Talvez nem fosse possível que determinadas mudanças fossem decretadas nos termos em que o foram. É interessante notar que, acerca dos potenciais “mediadores”, a Ministra se referiu aos Sindicatos, referindo que, entre o Ministério e os Professores e a Escola, os sindicatos ocupam esse papel. E é (devia ser) verdade. Só não é assim, ou parece não ser assim aos olhos esbugalhados da comunicação social, porque ninguém dignifica, de facto, o papel da Escola e dos Professores no processo de tomada de decisão. É mais fácil achar que as Escolas e os Professores são “trabalhadores” cujo patrão é o ME e reduzir isto tudo a uma caricatura de conflito laboral clássico. O problema é que isso não é verdade, nem pouco mais ou menos. Os Professores e as Escolas são locais de exercício de poder e partilham da tomada de decisão em todo o sistema. Isso é mais ou menos visível, dependendo do envolvimento real dos Professores nos seus “postos”.

Mas este tecido está todo atacado e tem sido atacado sucessivamente para proveito de todos, menos da própria classe. O poder de que os professores decidem abdicar, serve os interesse do ME e dos sindicatos, por ser por eles disputado. Mas é dos Professores.

Por isso, discutir o Modelo de Gestão é fundamental. É preciso garantir a manutenção do poder dos Professores na Escola Pública para que estas mudanças e as próximas sejam feitas e decididas com e por eles.

O plano B, sobre o qual JPP se interroga, é o exercício desse poder nas escolas.

A ver vamos…

Quem nos educa?

Terça-feira, 26 de Fevereiro, 2008

Os debates sobre a educação em Portugal são os únicos verdadeiramente fundamentais porque só ganhando essa aposta podemos sequer pensar em ter um futuro.

Mas assistir a debates destes torna-se quase doloroso, frequentemente, porque passamos o tempo todo à espera de um sinal de esperança, de rumo e de alguma estabilidade. Hoje, no Prós e Contras, houve muitos sinais contraditórios, alguma agitação pueril, sinais claros (para mim) da crescente diluição das estruturas sindicais enquanto interlocutores sérios e construtivos em algumas das questões fundamentais (o que é um sinal complicado para a democracia) e a consolidação duma sensação de grande “viscosidade” de todo o habitat educativo.

A Ministra insiste em identificar “equívocos” na base de todas as diferenças de opinião— o que é muito irritante e diz muito acerca da capacidade comunicativa do Ministério— os sindicatos especializaram-se, aparentemente, no combate administrativo e judicial, de tal forma que não chegam a formular convicções, muitos professores fazem questão em dar razão à Ministra, anunciando despudoradamente visões enviesadas das políticas e dos seus instrumentos… no meio de tudo isto, a tentação maniqueísta de Fátima Campos Ferreira (que parece gostar bastante de dedos apontados e pouco de diagnósticos complexos), não ajuda a navegar e filtrar o que pode ser inércia de classe, o que pode ser legítima desconfiança, o que pode ser violência e desadequação das medidas propostas, o que podem ser caminhos alternativos.

Pergunto-me se as participações do meu pai, Arsélio de Almeida Martins, poderão ter ajudado a fracturar alguma da “crosta” acumulada em cima destas questões, que nos impedem de as ver pelo que elas são, de tão saturados estamos de contra-informação das mais variadas fontes. Espero que sim. Mas não tenho grandes ilusões: as visões lúcidas, não simplistas, responsáveis e comprometidas que lhe são características não são de digestão televisiva fácil. Além do mais, estes são assuntos sobre os quais quase toda a gente se sente à vontade para emitir opinião e sobre os quais demasiadas pessoas têm opiniões formadas a priori, que não têm nenhuma relação com a realidade.

Mas se tiver estado gente atenta nesta noite de segunda-feira (que raio de horário para este programa, meus senhores!), pode ser que se tenha dado mais um passo para, pelo menos, aproximar a questão a mais portugueses.

Depois, logo se vê.

Até onde pode ir o Software Livre no Estado Português?

Sexta-feira, 15 de Fevereiro, 2008

É uma óptima pergunta, não é?

O site Software Livre na AP procura ser parte da resposta:

Este local é um repositório de conhecimento em software livre (Open Source Software - OSS) das entidades do Estado Português e destina-se a ser um ponto de encontro e troca de experiências entre todos aqueles que, ao serviço do Estado, o utilizam. Deste contributo resulta uma mais-valia incalculável para quem pretende vir a utilizá-lo.

Associação Ensino LivreMas a navegação pelos incipientes exemplos de boas práticas dá-nos uma visão deprimente, ainda que realista, do panorama. Uma das áreas fulcrais (porque tem grandes impactos a prazo) é a Educação, e é por isso que a recém-criada Associação Ensino Livre pode vir a ter uma grande importância na definição duma dinâmica diferente.

É que a resposta à pergunta que serve de título a este artigo está na educação. É nas escolas, em todos os graus de ensino, que se podem inverter práticas perversas, criar novos hábitos, difundir novas posturas éticas.

Pessoalmente (e localmente), não posso deixar de lamentar o afastamento que a Universidade de Aveiro, que tanto se orgulha do seu papel pioneiro em tantas áreas, mantém, relativamente ao Software Livre. E não posso deixar de me interrogar, por causa do peso que a UA tem na dinâmica “local”, como seriam as coisas na autarquia, por exemplo, se o “contexto” fosse mais favorável à adopção destas soluções.

Mas quais serão os factores que determinam o grau de penetração do Software Livre nas diferentes áreas da Administração Pública portuguesa (nas autarquias, por exemplo)?

  • Opções políticas?
  • Dimensão e complexidade dos sistemas implementados?
  • Grau e antiguidade da informatização dos serviços?
  • Dependências económicas?
  • Competência do apoio técnico disponível?
  • Proximidade de prestadores de serviços/soluções diversificados?

A resposta será sempre multifacetada e há algumas partes da resposta mais defensáveis (e confessáveis) do que outras, como é óbvio. Mas era importante que se reflectisse publicamente sobre isto, porque esta é uma questão pública, por mais que se tente disfarçar.

Para esta reflexão, todas as contribuições são bem vindas.

Petições em Defesa do Ensino Artístico e Contra o Fim do Ensino Especializado da Música em Portugal

Domingo, 3 de Fevereiro, 2008

As petições anunciadas aqui, num comentário, merecem a atenção de todos e contam já com a minha assinatura.

São duas, uma dirigida ao Ministério da Educação, Contra o Fim do Ensino Especializado da Música em Portugal, e outra dirigida ao Primeiro Ministro e ao Presidente da República, em Defesa do Ensino Artístico em Portugal.

Esta é (mais) uma luta desesperada e, será até difícil de entender para muita gente que não teve nunca nenhum tipo de relação com o ensino artístico público, particularmente com o ensino da música, como é assegurado nos Conservatórios.
Eu estou convencido que a urgência de travar (mais) esta batalha reside precisamente no facto de o país estar tão empobrecido, no que à educação artística diz respeito, que não se percebe que estão a usar demagogicamente os argumentos em favor da tão necessária generalização do Ensino Pelas Artes para rebentar de vez com o Ensino das Artes (ou, pelo menos, com o ensino especializado da Música, no caso vertente). Ninguém no seu perfeito juízo discutirá da justiça e da necessidade de investir (seriamente) no Ensino Pelas Artes. Mas aceitar que isso possa ser feito sacrificando o ensino especializado da Música é como aceitar uma amputação desnecessária, prescrita como placebo.

Foi por isso que acrescentei à minha assinatura nas petições:

Como músico, formado em grande parte no Conservatório de Música de Aveiro de Calouste Gulbenkian, sinto-me pessoalmente violentado por estas medidas que deturpam, de forma intencional, as opções que eu e centenas de colegas fizemos ao usar os Conservatórios como verdadeiras Escolas, onde aprendemos algumas das coisas mais valiosas de todo o nosso percurso, sem nos preocuparmos com diplomas ou outras burocracias. Parece-me ainda evidente a necessidade de explicar ao Ministério da Educação a vital diferença que existe entre o Ensino das Artes e o Ensino Pelas Artes. São ambos aspectos fundamentais em qualquer sistema educativo e têm sido sistematicamente mal-tratados no nosso país e é maquiavélico usar um— o Ensino Pelas Artes— como pretexto para acabar com o outro— o Ensino das Artes. Dessa forma, a prazo, acaba-se com tudo.

Peço-vos encarecidamente que usem alguns minutos do vosso precioso tempo para lerem, reflectirem e, quem sabe, se associarem a estas duas petições: