jazz.pt | Rodrigo Amado: The Abstract Truth

The Abstract Truth, capa do disco
The Abstract Truth,
de Rodrigo Amado, Kent Kessler e Paal Nilssen-Love

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

“The Abstract Truth” é o segundo disco resultante da colaboração entre Rodrigo Amado, um dos mais proeminentes saxofonistas nacionais e o contrabaixista norte-americano Kent Kessler e o baterista norueguês Paal Nilssen-Love, eminentes improvisadores da cena internacional, secção rítmica regular das frequentes colaborações Chicago-Escandinávia, como as protagonizadas por Ken Vandermark e Peter Brötzmann.

Mas Kessler e Nilssen-Love encontram na presença de Rodrigo Amado, apesar das semelhanças instrumentais com Vandermark e Brötzmann, um desafio singular, já desde “Teatro” (European Echoes, 2006). Repete-se, em “The Abstract Truth” o formato de improvisação colectiva, gravada numa única sessão e a forte personalidade destes 3 músicos resulta, novamente, numa explosão enérgica e vibrante de música “urgente”. Não uma explosão descontrolada, massiva e destrutiva ou avassaladora, mas uma que estilhaça e tanto produz momentos de alguma agressividade, como pequenas construções/destruições efémeras, “urgentes” e enérgicas, ainda que contidas. Amado, Kessler e Nilssen-Love encontraram uma fórmula que lhes permite gerir a energia extrema e a urgência que colocam na música que fazem, sem comprometer a intelegibilidade e a variedade dinâmica que a transmissão e partilha duma complexa mensagem a 3 exige. A receita depende da apurada sensibilidade musical dos 3, da sua capacidade de se ouvirem, de procurarem os seus espaços e cederem tempo a solos e duos, ainda que fugazes, e de partilharem material de forma praticamente imediata, bastando a insinuação de temas ou padrões e respondendo às solicitações do grupo. À energia “crua” dos momentos mais histriónicos, o trio sabe responder com espaço para momentos mais líricos assegurados regra geral por algum do vocabulário mais pungente dos saxofones de Amado, que assegura uma prestação assinalável pela entrega e pela riqueza tímbrica. Mas Kessler e Nilssen-Love demonstram igualmente momentos de grande delicadeza, assegurando, ao longo do disco, uma experiência intensa, mas variada.
Regra geral, a personalidade musical de Rodrigo Amado, promotor deste encontro, parece liderar parte do desenvolvimento das peças, que, com um formato menos longo do que é habitual em registos deste tipo, se tornam menos dispersivas. Mas o tipo de liderança de Amado é, além de discreto e pontual, acima de tudo, musical, pela participação com o seu vocabulário particular, que navega inteligentemente, entre os limites dum jazz “genuíno” e “visceral”, como encontramos em Archie Shepp ou Sonny Rollins, e a liberdade explosiva de um Ken Vandermark, complementados com desenhos melódicos frequentemente não-jazzísticos e até com memórias eruditas.
De resto, todo o trio demonstra um enorme envolvimento no processo e, mais do que isso, um envolvimento informado, fruto da maturação desta colaboração, com soberbas transições e sobreposições tímbricas, notáveis em “Enigma of the Arrival”, entre Amado e Kessler, por exemplo.
Conhecem-se, ouvem-se, respeitam-se, querem comunicar entre eles e com quem os ouve. E o resultado, ainda que abstracto é, sem dúvida, verdadeiro.

+ info: www.rodrigoamado.com

The Abstract Truth, de Rodrigo Amado, Kent Kessler e Paal Nilssen-Love

Edição European Echoes 2009
Gravado em Lisboa, Julho de 2008

  • Rodrigo Amado saxofone tenor e barítono
  • Kent Kessler contrabaixo
  • Paal Nilssen-Love bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.