Entradas com Etiqueta ‘família’

Remorsos

Domingo, 29 de Agosto, 2010

Chego ao fim deste mês de Agosto com a certeza de ter feito quase tudo mal. Quase tudo o que interessava, bem visto. Pela simples razão de saber que, quando a Maria voltar ao infantário e os meninos partilharem memórias das suas férias, é bem provável que eu não faça partes dessas memórias.

Pensando nisso, fico triste e penso “que se lixe o trabalho…”.

Ainda vamos ter as nossas férias, Maria. Desculpa.

Férias em Setembro. Aceitam-se sugestões

Domingo, 29 de Agosto, 2010

Quando regressar de Cluny vou estar exausto e vou mesmo precisar de uns dias de férias em família, para me recompensar a mim e a elas. Tempo para planear não houve / não há e ideias também não abundam.
Quem quer contribuir com sugestões de locais e/ou actividades?

No meio da tragédia, um instante de orgulho familiar

Sexta-feira, 9 de Julho, 2010

Ouço a minha irmã na Assembleia da República e o seu brilhantismo chega a fazer-me esquecer, ainda que por instantes, a gravidade da situação criada pelas opções deste Ministério da Cultura.

«Para poupar o equivalente a três quilómetros de auto-estrada, este Governo decidiu colocar todo o sector cultural em risco. E porque o próprio Ministério da Cultura— qual comissão liquidatária do sector— tem promovido um discurso populista e demagógico de ataque à cultura e aos seus profissionais não será demais esclarecer o que está em causa:o Ministério da Cultura assina contratos com estruturas privadas a quem delega prossecução de políticas públicas e o que o Ministério propõe agora é não cumprir estes contratos. E isto é inédito!

(…)

Todos os cortes são retroactivos porque se referem a contratos já assinados e portanto correspondem a compromissos que os privados já assumiram. E todos os cortes têm efeito irreversíveis: as estruturas que se desmobilizam agora não conseguirão refazer-se.

(…)

Desistir do sector da Cultura é desisitir de uma ideia de futuro para o país.»

E, no registo de intervenção não escrita, também dá gosto. Reparem:

E directamente na cara da Ministra da Cultura, fazendo-a encostar às cordas:

«Vai ou não o Ministério da Cultura cumprir os contratos assinados no âmbito dos concursos da Direcção Geral das Artes e do Instituto do Cinema e do Audiovisual? Lembro que a assinatura destes contratos são a única coisa a que o sector cultural se pode agarrar, de fixo, num Ministério da Cultura cada vez com menos fundos e cada vez com menos critérios. E a partir do momento em que nem os contratos assinados valem, nada vale neste sector. (…) Os contratos eram quase nada e era tudo o que existe. E portanto, senhora Ministra, vai ou não cumprir os contratos assinados pelo Ministério da Cultura?»

Tenho pena de não ter tido ainda acesso à (eventual) resposta da Ministra.

EXTRA: A Ministra parece ter ficado »visivelmente irritada», segundo o Público, e cai mesmo na dupla asneira de acusar o Bloco de «liderar o protesto dos agentes culturais»— numa demonstração de paternalismo e infantilização do sector que os agentes culturais não poderão deixar passar impunemente— e exigir “sangue”, leia-se, querer que lhe mostrem casos concretos de gente que perde o emprego como consequência destes cortes, que considera estarem a ser empolados.

Peixe para o Pedro Couto e Santos

Quarta-feira, 2 de Junho, 2010

Há dias troquei, via Twitter, umas impressões com alguns conhecidos digitais sobre peixe. A conversa começou com referências a sushi e acabou com uma declaração bombástica do Pedro Couto e Santos— cujo Macacos Sem Galho sigo com interesse já há algum tempo, nomeadamente as suas “postas paternais“. Dizia o Pedro, assim, sem mais:

não como peixe

Eu não sou propriamente um maníaco da comida saudável e não tenho interesses particulares no comércio de peixe, mas, talvez por ser de Aveiro, uma afirmação destas faz-me tremer nas bases. “Não come peixe?” Ainda que se depreenda que desta designação geral pode ficar de fora o bacalhau e o atum, porque para muito boa gente, estes “petiscos” não se qualificam para a designação geral— e, frequentemente pejorativa— de “peixe”, faz-me alguma confusão a frequência com que me apercebo da pouca importância que o peixe tem nas dietas de muitas pessoas esclarecidas. Porque será? Deformação/distorção do gosto ao longo do tempo? Prolongada falta de qualidade do peixe disponível nos restaurantes e/ou supermercados nas áreas de residência? Preguiça face ao trabalho acrescido que a preparação do peixe requer muitas vezes, quer a cozinhar, quer a comer?

Confesso que não é coisa para me tirar o sono, mas foi suficiente para me lembrar, ontem, enquanto comia uma belíssima dourada, que talvez umas sugestões simples possam impulsionar algumas experiências de (re)descoberta do peixe. Por isso, cá fica a sugestão:

Pedro: vê neste livro da Paula Veloso (nutricionista), Dieta Sem Castigo, algumas sugestões de preparação simples e adequada a crianças de muitas coisas, entre as quais, alguns pratos de peixe que lá em casa têm feito sucesso. Um deles é o processo de cozinhar peixe fresco no micro-ondas, com resultados extraordinários e sem trabalho nenhum. Podes comprar o peixe já amanhado, mas não escamado e, depois, só tens que o pousar numa cama de sal e cobri-lo com sal, também, e enfiar no micro-ondas. É uma questão de minutos até estar completamente cozinhado e fica muito bom. Podes inclusivamente comprar o peixe e congelá-lo em casa (comprar congelado é que não é aconselhável), desde que depois o deixes a descongelar naturalmente. Nós comemos douradas assim com alguma frequência e gostamos muito. A Maria, particularmente. E, no caso da dourada, tirar a pele (com o sal) e depois as poucas espinhas que tem é mesmo muito fácil.

E então? Nem assim comes peixe?

Do papel social da paternidade

Terça-feira, 30 de Março, 2010

Hoje fui buscar a minha filha ao infantário e, seguindo a rotina habitual, fui com ela à padaria mais próxima, onde ela pede e come, entusiasmada, um pão simples, para grande alegria dos funcionários, e eu aproveito para lanchar. No caminho e na padaria— que é um daqueles estabelecimentos típicos de Aveiro, padaria/confeitaria aberta e mantida por famílias de emigrantes na Venezuela que voltaram—, a boa disposição da Maria, que me vai apresentando a quem passa— “papá, papá”, com o dedito apontado—, enquanto distribui sorrisos e olhares carinhosos tem o estranho efeito de iluminar a cara das pessoas, aliviando-lhes, aparentemente, a carga dos dias e fazendo-as sorrir o que, comprovadamente, é bom para a sua saúde. O efeito é particularmente visível entre as pessoas de mais idade que, eventualmente, estão mais necessitadas desse tónico reconfortante, mas também se nota entre pessoas mais jovens, como são as funcionárias da padaria, para quem estes sorrisos familiares são uma óptima quebra na rotina.

De repente dei por mim a pensar que isto também é um papel social da paternidade que não deve ser menorizado: os pais socialmente responsáveis devem permitir um saudável e necessário contacto de quem os rodeia com a felicidade das suas crianças, que é um remédio natural para tantos males do corpo e do espírito. A bem das crianças, com toda a certeza, mas também como uma espécie de serviço público com recompensa imediata.

Dependendo dos pais, a parte mais difícil será garantir a felicidade das suas crianças ou a generosidade de partilhar publicamente a sua manifestação, mas vale bem a pena.

fim de tarde / fim de semana

Domingo, 10 de Janeiro, 2010

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Depois do ar do mar e da ria, frio, que é como sabe bem em Janeiro e dum pastel de nata na Atlântida, a olhar para o sorriso estafado e satisfeito da Maria, percebe-se melhor o significado dum fim de tarde, num fim de semana.

O primeiro domingo de 2010

Domingo, 3 de Janeiro, 2010

Acordei não muito tarde. Desde manhã que estou a dedicar grande parte do meu tempo à Maria, com gosto e sem pressões. De manhã aproveitou-se uma aberta no tempo para ir à rua, comprar coisas para a sopa e tomar o café da praxe. Ouvimos música e brincámos com uma das prendas de Natal que mais atenção tem recebido por agora: um conjunto de pratos, chávenas, uma torradeira, um bule de chá e quejandos, para festas de bonecas, presumo, onde nós ocupamos o lugar das bonecas e vamos alternando entre a brincadeira convencional e a exploração dos barulhos que se conseguem fazer com aquelas “percussões”. Também tivemos um balão, cheio por pouco tempo que a Maria é bastante eficiente na arte de rebentar balões sem se assustar, que como “pele” deu para perceber quais são os recipientes que dão melhores caixas de ressonância. Almoçámos e fui eu que a pus a dormir a sesta, o que não é muito comum, porque nenhum de nós os três costuma ter pachorra para as birras que ela acha que tem que fazer se for eu a acompanhá-la para o quarto na hora da sesta. Não sei o que fiz (ou sei?), mas ela hoje percebeu que não ia haver problema e que não era preciso fazer a birra e adormeceu a agarrar a minha mão. Eu, sentado no sofázito que pusemos ao lado da cama dela, adormeci um bocadinho antes dela, logo que senti a cadência segura da respiração dela a dirigir-se rapidamente para o sono. O meu foi um daqueles sonos de 1 minuto, ao fim do qual ela dormia profundamente e eu acordei com calma e recomposto. Deixei ficar a mão um bocadinho, só para ter a certeza que tudo tinha corrido bem e depois arranjei os lençóis e saí do quarto.

Agora, não estou exactamente à espera que ela acorde, mas quase. Com a Cláudia a precisar de tempo para acabar um trabalho importante para amanhã, tenho este bocadinho da sesta para me organizar e pensar num “programinha” para o resto da tarde.

Não fiz grandes resoluções de ano novo, mas as pequenas que fiz e que, pela sua natureza se manterão privadas, pretendem alterar o meu quotidiano, especialmente na disciplina necessária para estar mais e melhor com a minha filha e com a minha mulher. Este primeiro domingo de 2010 ajusta-se bem a essas resoluções.

Remédio infalível para a insónia

Sábado, 19 de Dezembro, 2009

O exercício de adormecer uma criança ou a simples assistência a esse acto é, na minha humilde opinião, um remédio infalível para a insónia. Já experimentaram?

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Como é que conseguem?

Sexta-feira, 18 de Dezembro, 2009

A Cláudia está a frequentar um Curso de Mestrado em Guimarães. Tem aulas à sexta e ao sábado, pelo que eu e a Maria ficamos entregues um ao outro durante um dia e meio por semana. É óptimo pelas razões óbvias da exclusividade de mimos e brincadeiras, mas também é muito difícil e trabalhoso, às vezes. Muitas vezes, nas coisas mais elementares e em que pensamos menos, é incrível a falta que faz mais um par de braços ou pernas, para segurar aqui, enquanto se pega nisto e “aproveita e chega-me aí o creme, que ela já está a fugir”… ufa! São principalmente estas rotinas “funcionais” do início e do fim do dia, com mudanças de roupa e higienes, que me fazem ter um respeito enorme por quem consegue exercer este papel de pai ou mãe a solo e de forma permanente. Imagino que esta minha condição “intermitente” seja uma das razões para tanta nabice e eventual frustração, mas é verdadeiramente notável, para mim, o trabalho que os pais e mães sozinhos conseguem fazer. Autênticas proezas quotidianas.

Por isso, daqui vai uma grande vénia de respeito para todos vós.

O valor da família

Quarta-feira, 16 de Dezembro, 2009

O Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, agora distinguido com o Prémio Pessoa (os aspectos irónicos desta atribuição já estão em discussão), a propósito do debate sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, afirma que esta é “uma ocasião para a sociedade reflectir sobre o valor da família“. E diz bem. De facto, reflectir sobre o valor e significado da família é um exercício importante e, se realizado de forma honesta e profunda, pode ajudar a fundamentar não só a justiça, como a necessidade social da legalização e reconhecimento das uniões entre pessoas do mesmo sexo que assim o desejem, como casamentos de pleno direito, e consequentemente a constituição de núcleos familiares importantes e significativos.

É evidente— pelo menos a estrutura da Igreja Católica procura tornar evidente a sua resistência a qualquer forma de progresso, tomando medidas aberrantes como as recentes alterações ao Direito Canónico que invalidam casamentos com não-baptizados e dificultam casamentos inter-religiosos— que o sentido da afirmação de D. Manuel Clemente não é a defesa da legitimidade das uniões homossexuais como núcleos familiares de pleno direito, como forma de defender o valor intrínseco da família enquanto agregado de afectos. Mas é também esse o debate que importa fazer. Até porque os argumentos iniciais lançados pelo ilustre Bispo do Porto não devem ser objecto de aceitação acrítica: só uma leitura apressada e desatenta da história da humanidade em geral e da família, em particular, pode aceitar a ideia de que “no que diz respeito à família, toda a tradição da humanidade sempre se configurou nesse nexo de família em volta de um casal de homem e mulher, aberto a geração de filhos e integrador de gerações“. Aceitar que é assim e que “este núcleo tem sido sempre permanente” é adoptar uma perspectiva muitíssimo redutora do fenómeno “família”. A poligamia em modelos patriarcais e matriarcais é uma marca fundamental da história da humanidade e da família, assim como o exercício intermitente da parentalidade e a inexistência, em muitos modelos sociais, de relações/vínculos definitivos no que à procriação diz respeito. Não são esses os modelos dominantes nas sociedades modernas ocidentais, é verdade, mas não existem, nos modelos de funcionamento das nossas sociedades, um conjunto de mecanismos paralelos ao funcionamento da “família tradicional” que visam responder aos mesmos impulsos e/ou constrangimentos?

Não pretendo teorizar sobre o que é ou deixa de ser a família, ou sobre o papel do matrimónio nessa construção social, ou ainda sobre as condicionantes sociais, económicas, políticas ou religiosas que nos trouxeram até ao modelo de casamento (e de família) que, actualmente, está em crise. Muito desse trabalho está feito desde finais do século XIX. Mas creio que é legítimo afirmar que a defesa da família como núcleo fundamental da nossa sociedade, passa pelo reconhecimento e valorização de todas as uniões baseadas em afectos profundos e duradouros que criam laços estáveis e tecem o delicado equilíbrio social que sustenta o progresso e a solidariedade inter-geracional. Uma parte significativa dessas uniões são homossexuais, pelo que o seu reconhecimento se torna um imperativo dos defensores da família. Ou não?