Futureplaces Impromptu All-stars Orchestra CD

Faz parte do programa do festival Future Places – Digital Media and Local Cultures deste ano o lançamento de um CD com música criada a partir de recolhas e trabalhos realizados durante a edição do ano passado, na qual colaborei com Blaine L. Reiniger, Marc Behrens, Filipe Silva e Henrique Fernandes, entre outros. Fui convidado para assinar uma das faixas e é muito estimulante fazer parte de tão ilustre colectivo.

Mais novidades em breve.

[pub] JAZZMINDE 2011, 6 a 8 de Maio

JAZZMINDE 2011

Nos dias 06, 07 e 08 de Maio de 2011 vai realizar-se o VII FESTIVAL DE JAZZ DE MINDE.
O local escolhido foi uma antiga nave industrial que foi reabilitada para o evento, num espaço místico da indústria têxtil que irá receber um excelente programa internacional numa viagem pelo mundo do jazz. Três dias, três géneros: Blues, Jazz e Big Jazz.
De Barcelona vêm o Chino & The Big Bet num tributo o Robert Jonhson. De Itália recebemos o pianista Gianluca Tagliazucchi acompanhado de Aldo Zunino e Giampaolo Casati. Victor Zamora & Havana Way trazem-nos os ritmos de Cuba.
A turma dos Cais Sodré Funk Connection encerrará a frenética noite de sexta-feira, e a voz de Maria Anadon serenará os espíritos no serão de sábado, que incluirá um momento de dança aérea pela companhia Schmertterling. A Xaral´s Band e Petra Camacho encerrarão o festival na tarde de domingo.
É O JAZZ NA FÁBRICA!!!!

VII ARRAIAL DA DO ANDRÉ DA TROMPETE DO NINHOU
VII FESTIVAL DE JAZZ DE MINDE
06, 07, 08 MAIO 2011
Local: MINDE / Tinturaria da Fábrica

  • 06 MAIO – 22h – BLUES NIGHT
    GROOVE INCORPORATION
    CHINO & THE BIG BET (ES)
    CAIS SODRÉ FUNK CONNECTION
  • 07 MAIO – 22h – JAZZ NIGHT
    SCHMETTERLING Comp. Dança Aérea
    GIANLUCA TAGLIAZUCCHI  (IT)
    MARIA ANADON LATIN QUARTET
  • 08 MAIO – 17h – BIG JAZZ
    VICTOR ZAMORA & HAVANA WAY (CUB)
    XARAL’S BAND + PETRA CAMACHO

Minde é de fácil acesso, a 50 minutos de Lisboa através da A1 e a 13 Kms de Fátima.

+ info: http://jazz.minde.eu

Informação recebido por mail, com um apelo à divulgação.

jazz.pt | Jazz no Parque 2009, Regresso à História

Jazz no Parque

18ª edição
18 e 25 de Julho e 1 de Agosto de 2009
Ténis do Parque de Serralves

A edição que marca a maioridade do Jazz no Parque e que coincide com o duplo aniversário de Serralves (20 anos da Fundação e 10 anos do Museu de Arte Contemporânea) teve como principal novidade o facto de se apresentarem 2 projectos originais, resultantes de encomendas do seu programador, António Curvelo, facto que não sucedia desde 2002. As encomendas, dirigidas a Mário Barreiros e a Bennie Wallace, ilustram com rigor a orientação programática deste festival— em rigor, trata-se dum ciclo de 3 concertos— que aposta na divulgação e afirmação dum Jazz de pés bem assentes na história. Se em anos anteriores assistimos a alguns concertos mais “arriscados”, protagonizados por músicos que circulam com gosto por algumas fronteiras estilísticas e se aventuram, a espaços, por algum discurso mais vanguardista, esta edição, em grande parte, graças às encomendas dirigidas, afirma um regresso a um Jazz mais convencional, que celebra respeitosamente o passado e arrisca muito pouco na definição de futuros (im)possíveis.

18 Julho 2009, 18h00
Mário Barreiros
Kind Steps – O Legado de 1959

  • Mário Barreiros bateria
  • Abe Rábade piano e direcção musical
  • Carlos Barretto contrabaixo
  • Avishai Cohen trompete
  • Ben Van Gelder sax alto
  • Jesús Santandreu sax tenor

A Mário Barreiros, António Curvelo sugeriu a invocação do ano mítico de 1959 em que se editaram obras incontornáveis para o futuro do Jazz— como “Kind of Blue”, de Miles Davis, “Giant Steps”, de John Coltrane, “The Shape of Jazz to Come” e “Change of the Century”, de Ornette Coleman e “Mingus Ah Um” e “Blues and Roots”, de Charles Mingus—, ao mesmo tempo que se consolidavam alguns dos alicerces sobre os quais se construía esse futuro— com edições como “Portrait in Jazz”, de Bill Evans, Scott LaFaro e Paul Motian, “Sevem Pieces”, de Jimmy Giufre 3, “Modern Jazz Classics”, de Art Pepper com Eleven ou “Blowin’ the Blues Away”, de Horace Silver. Uma viagem de 50 anos no tempo para a qual Mário Barreiros chamou o pianista galego Abe Rábade, para dirigir um sexteto e se debruçar sobre os propostos “Kind of Blue”, “Giant Steps”, “Mingus Ah Um” e “The Shape of Jazz to Come”, acrescentando “Cannonball Takes Charge”, de Cannonball Adderley e “Anatomy of a Murder” de Duke Ellington.
“Kind Steps – O Legado de 1959″, pelo sexteto de Mário Barreiro e com direcção musical de Abe Rábade foi, assim, a primeira proposta a subir ao palco do Ténis do Parque de Serralves, no dia 18 de Agosto, com Avishai Cohen (trompete), Ben Van Gelder (sax alto), Jesús Santandreu (sax tenor), Carlos Barretto (contrabaixo) e os próprios Mário Barreiros (bateria) e Abe Rábade (piano).
Mário Barreiros e Abe Rábade, na escolha dos temas e nos arranjos, aprofundaram o carácter historiográfico da encomenda e todo o ensemble pareceu empenhado numa reconstituição relativamente fiel, ou pelo menos, académica, dos temas seleccionados. Uma de muitas opções possíveis, eventualmente a menos pertinente, dada a miríade de reconstituições a que este reportório é submetido diariamente em escolas e clubes de jazz. Uma selecção mais criteriosa dos temas a abordar ou um tratamento estilístico- quer nos arranjos, quer na interpretação, quer nos solos- menos “colado” aos originais teria eventualmente sido mais refrescante e poderia mesmo ter-se afirmado como uma estratégia mais confortável para os músicos que, com excepção de Abe Rábade, claramente alinhado com a proposta e Avishai Cohen, o único solista que parecia confortável nas mudanças de registo e se libertou um pouco mais nos seus solos, pareciam demasiado constrangidos.
De forma geral, o concerto em forma de revisitação desta música seminal, mas com mais de 50 anos, poderia ter sido uma oportunidade de perspectivar futuros, mas o ensemble conduziu o concerto de forma quase reverencial, acertando os registos, as sonoridades e os vocabulários de improvisação de acordo com os originais, eliminando quase por completo a afirmação de alguma singularidade. E ao debruçar-se mais sobre as edições menos controversas de 1959 (de Ornette Coleman só tocaram “Chronology”, por exemplo), seleccionando clássicos como “All Blues”, de Miles Davis, “Blue in Green” de Bill Evans/Miles Davis, “Almost Cried” de Duke Ellington, “Syeda’s Song Flute” de Coltrane e “Better Get it in your soul” e “Goodbye Porcupine” de Mingus, que só muito raramente foram tratados como material “novo”, o concerto tornou-se académico e até, em alguns casos, aborrecido, apesar da excelente qualidade técnica dos intérpretes.

25 de Julho de 2009, 18h00
Donny McCaslin Group

  • Donny McCaslin sax tenor
  • Ricky Rodriguez contrabaixo
  • Jonathan Blake bateria

A presença do trio dirigido pelo saxofonista norte-americano Donny McCaslin foi o único concerto que não resultou de encomenda directa do Jazz no Parque e consistiu na apresentação dos álbuns já editados pelo grupo, particularmente “Recommended Tools” (GreenLeaf Music 2008), gravado com Jonathan Blake e Hans Glawischnig. Donny McCaslin apresenta um jazz contemporâneo ancorado em referências históricas sólidas, articulado num vocabulário bem estruturado, dialogante com um universo musical externo, mas próximo— como a música brasileira (Hermeto Pascoal é uma das suas referências) ou a pop (um dos temas é dedicado a Madonna)—, mas um dos factores determinantes no impacto que a sua performance tem sobre o público é o seu virtuosismo e o extraordinário rigor técnico que todo o grupo assegura, sem sacrifício da musicalidade. A significativa capacidade técnica de Donny McCaslin, quer na fluidez e rapidez do fraseado, quer no rigor da afinação e no detalhe tímbrico expressivo, acompanhado a grande nível quer por Jonathan Blake, quer por Ricky Rodriguez, colocam a performance do trio num nível de execução difícil de atingir e permitem uma grande exploração dos temas, cuja construção demonstra à partida uma enorme confiança na capacidade técnica dos intérpretes. Ainda assim, a “força da técnica” não esmaga a musicalidade da performance, fazendo lembrar a máxima dedicada aos bailarinos clássicos e aos patinadores do gelo de que não devem em nenhuma altura deixar transparecer a dificuldade associada aos seus movimentos, já que isso se traduzirá em desconforto para o público. O Donny McCaslin Group cumpre esse requisito clássico, apresentando uma performance envolvente e, em alguns momentos estonteante, com o virtuosismo a servir propósitos musicais.
E se, globalmente, a música do Donny McCaslin Group se mantém fiel a formas clássicas do jazz, a disponibilidade do solista em assumir papéis tradicionalmente atribuídos à secção rítmica, liberta a estrutura do trio para outras explorações e para a afirmação completa de cada um dos intérpretes, que acontece quer em solos, quer em duos, quer na forma de pergunta-resposta.
O concerto evolui, passando revista e reconhecendo algumas das influências menos óbvias de Dony McCaslin, como Hermeto Pascoal e Bill Frisell. O seu registo, recorda, a espaços, e de acordo com os ambientes, a fluidez de fraseado de Michael Brecker ou o timbre luminoso de Jan Garbarek, mas a sua voz afirma-se de forma inequívoca, com o acompanhamento certeiro e cúmplice de Jonathan Blake (com 1 grande solo em “3 Signs” entre várias intervenções notáveis) e a grande qualidade de Ricky Rodriguez, quer em papéis mais tradicionais, quer no desenvolvimento de solos, ou na introdução de temas como “Late Night”, com a devida vénia a Bill Frisell.

1 de Agosto de 2009, 18h00
“Bennie Walace Plays Monk”

  • Bennie Wallace sax tenor
  • Donald Vega piano
  • John Hebert contrabaixo
  • Yoron Israel bateria

Ao saxofonista norte-americano Bennie Wallace, António Curvelo sugeriu uma nova incursão ao universo do génio Thelonious Monk, recuperando um projecto de 1981 do saxofonista do Tennessee. Bennie Wallace, já com uns respeitáveis 62 anos, aceitou o convite com generosidade e entusiasmo, dada a presença regular do reportório de Monk nos seus projectos, o seu enorme potencial e as possibilidades criativas ainda por realizar. Apresentou-se numa formação clássica de quarteto, com Donald Vega, John Hebert e Yoron Israel e entregou-se a um concerto que teve grandes momentos, mas no qual se puderam também notar as naturais fragilidades associadas à sua idade: quer nas dificuldades de articulação mais rápida de algum fraseado, quer na afinação e timing de algumas intervenções.
Mas esses momentos mais frágeis humanizam uma performance marcada pela generosidade e entrega e pelo inconformismo: Bennie Wallace, logo na primeira introdução a solo, em “Twinkle, Twinkle”, mostrou que pretendia explorar e reinventar o genial reportório de Monk, mais do que se limitar a interpretá-lo, e assim o fez, quer nos solos, quer na forma de apresentar os temas. Entre os músicos que o acompanhavam, destaque, pela positiva, para o contrabaixista John Hebert (grande solo em “Heavy Rotation”), muito atento e alinhado com Bennie Wallace e, pela negativa, para o baterista Yoron Israel, a quem parecia faltar convicção na interpretação mais livre e criativa deste reportório.
As flutuações na performance de Bennie Wallace, a quem, por vezes, parecia faltar em forma física o que sobrava em energia criativa marcaram o desenvolvimento do concerto, mas o génio de Monk foi assinalado de forma genuína e momentos como o solo (mesmo a solo) de Bennie Wallace, em “Round About Midnight”, elevaram o concerto a um outro nível, musical e emocional.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Vibrafonias, apresentação do Jeffery Davis Quartet

Jeffery Davis Quartet: “Haunted Gardens”

Ficha Técnica do disco
título: Haunted Gardens
editora: Tone of a Pitch
gravação: Novembro de 2008 e Março de 2009, Estúdios Timbuktu, Lisboa
lançamento: Julho de 2009
staff: Jeffery Davis (Vibrafone e Marimba), André Fernandes (Guitarra), Nelson Cascais (Contrabaixo) e Marcos Cavaleiro (Bateria)
Todos os temas compostos por Jeffery Davis.

Jeffery Davis é um músico invulgar: com apenas 28 anos, este percussionista português nascido no Canadá, acumula no currículo uma vastíssima formação, um invejável número de distinções e longa experiência nos principais palcos e com alguns dos nomes maiores, quer da música erudita, quer do jazz, em Portugal e fora de portas. A sua progressão académica foi meteórica e merecedora de atenção: concluiu, com nota máxima, a licenciatura em percussão na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo do Porto, onde estudou com Miguel Bernat e Manuel Campos e colaborou, entre outros, com o Drumming – Grupo de Percussão, tendo estreado peças de compositores tão diversos e distintos como Emmanuel Nunes, João Pedro Oliveira, Mário Laginha e Carlos Azevedo; concluiu, com o estatuto Summa Cum Laude, o curso de “Jazz Performance Vibraphone” na importante Berklee College of Music, onde ingressou após vencer o primeiro prémio no Concours International de Jazz, em Paris, em 2002, tendo sido igualmente reconhecido na Berklee como “Most Active Mallet Player”, com a “Gary Burton Scholarship” e o prémio por excelência académica “Dean of Curriculum”. Durante a sua estadia nos EUA recebeu também do IAJE (International Association for Jazz Education) o prémio de “Outstanding Musicianship” e colaborou com alguns nomes incontornáveis da cena jazzística norte-americana: Hal Crook, Joe Lovano, Gary Burton, Dave Liebman, Dave Samuels, Phil Wilson, Terrence Blanchard, Michel Camilo, Bob Mintzer, entre outros.
Mas, apesar deste sucesso e reconhecimento, Jeffery Davis, actualmente professor de Vibrafone na Licenciatura em Jazz da ESMAE, entre outras tarefas pedagógicas no mundo da música erudita e do jazz, não cedeu à tentação de se especializar na linguagem jazzística e distanciar-se da música erudita porque, como afirma, não vê “grande separacão entre os dois: é tudo música.” Para Jeffery, “tocar um estilo ajuda-me a tocar melhor o outro. A enorme diferença que existe entre os dois é a preparação necessária. Para o Jazz sinto que para tocar é muito mais de momento, não é preciso uma preparação tão específica para um determinado concerto, embora, obviamente, tudo depende da banda e dos temas que se vai tocar. Para o clássico é preciso uma preparação bastante mais específica e minuciosa, para um determinado concerto. Mas o estudo diário e bastante intenso é preciso para os dois mundos. Se não estiver em forma, nem um estilo nem o outro serão executados com rigor.”
Esta visão global do fenómeno musical e da sua interpretação é bastante precoce na formação de Jeffery: “sempre ouvi muito Jazz, desde miúdo, e sempre ouvi muita música erudita.”
Mas é uma convicção amadurecida ao longo do tempo, consciente e atenta: “também acho que cada vez mais estes dois estilos se estão a aproximar um do outro. A existência de músicos que tocam estes dois estilos é cada vez (mais rara), na minha opinião, só pelo enorme trabalho que é (preciso para) fazer as duas coisas: são precisas longas horas de estudo diário para se sobreviver nos dois mundos.” E Jeffery faz bem mais do que “sobreviver”: no universo da música erudita, mantém uma sólida carreira como concertista, além das actividades pedagógicas, e importantes colaborações, nomeadamente nos duos com percussionista Pedro Carneiro e com o saxofonista Fernando Ramos, tendo estreado várias peças escritas propositadamente para estes agrupamentos; no universo do jazz, além do seu próprio quarteto, que se apresentará no festival jazz.pt, Jeffery lidera um trio e integra de forma activa muitos projectos nacionais: Quinteto de Nelson Cascais, Lift Off, Duo Erro de Sintaxe, Yeti Project, Quarteto de Vasco Agostinho, Septeto de Michael Lauren, Trio de Percussão “Jeffery Davis, Pedro Carneiro e Alexandre Frazão”, entre outros. E na cena internacional, quer como jazzman, quer como intérprete de música erudita, Jeffery Davis é um músico activo e reconhecido pelos pares e pela crítica, merecendo de forma continuada a atenção de compositores e líderes de agrupamentos.
E, apesar da elevada exigência que a sua actividade de instrumentista impõe, Jeffery afirma-se como músico criativo completo, compondo para diversos músicos e agrupamentos de música erudita e jazz, numa experiência completa de afirmação duma identidade musical madura, exigente e em constante crescimento.
O próprio processo de consolidação do quarteto e do reportório que poderemos ouvir no disco “Haunted Gardens” e no seu concerto de lançamento, durante o Festival Jazz.pt, reflecte bem essa exigência e esse crescimento constante, como nos diz Jeffery: “quando voltei dos Estados Unidos andei bastante tempo à procura dos músicos ideais para desenvolverem este projecto, porque tinha algumas ideias bastante claras. O André Fernandes, para mim, era uma escolha óbvia, desde o princípio, porque me relaciono muito bem com o que ele faz e porque dei por mim a escrever especificamente para ele, a pensar nas coisas que ele faz. Depois conheci o Nelson Cascais e percebi que era com ele que  projecto podia resultar. O que me custou mais foi o baterista, até porque o Marcos (Cavaleiro) andava ocupado com outros afazeres. O disco já esteve para sair antes, mas eu re-escrevi quase tudo: tocámos durante algum tempo e eu fui-me apercebendo que as coisas não estavam a funcionar como eu queria. Só fazemos no disco uma peça minha mais antiga, que é uma suite que escrevi ainda quando estava na América e que foi sofrendo um processo de metamorfose.”
“Haunted Gardens” é, por isso, o encontro entre estes músicos, todos eles notáveis e amplamente reconhecidos, e as ideias, em constante crescimento e evolução, de Jeffery Davis, que assina todos os temas, numa escrita que, pela amostra, faz justiça aos talentos interpretativos e criativos do quarteto e às imensas possibilidades que uma personalidade musical completa e sem preconceitos pode alcançar: o som que esta escrita e este quarteto produzem é singular e, por vezes, surpreendente, explorando um ambiente que o próprio Jeffery classifica de “sombrio – daí o título (Haunted Gardens)”, com as lâminas do vibrafone e da marimba em grande destaque– pelo virtuosismo verdadeiramente musical, pela forte expressividade, pela clareza do gesto, pela enorme paleta dinâmica e tímbrica– mas com espaço para a expressão também singular de André Fernandes, Nelson Cascais e Marcos Cavaleiro (no concerto, substituído por Carlos Miguel), em estruturas articuladas e coesas, onde o discurso solístico parece cumprir funções no arco dramático.
Sombria a música? Positivamente densa, isso sim. Mas claramente em contraste com a personalidade afável, acessível e simples do luso-canadiano que se afirma “português de gema, gajo de aldeia, daqueles que vai beber umas minis à taberna, com os amigos“, que um acaso biográfico fez nascer no Canadá, pátria paterna, e a incompatibilidade entre o frio e a bronquite trouxe de regresso à pátria materna, Febres, Cantanhede.

A promessa está feita: a apresentação de “Haunted Gardens”, disponível a partir de Julho através da “Tone of a Pitch”, tem todas as condições para ser um concerto notável, rico, intenso e fortemente empático, a cargo de Jeffery Davis, no vibrafone e marimba, de André Fernandes, na guitarra, de Nelson Cascais, no contrabaixo e de Carlos Miguel, na bateria.

+ info: www.toapmusic.com | www.jefferydavis.net

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 26 da revista jazz.pt, como parte da apresentação do Festival jazz.pt 2009. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Jazz na Relva, em Paredes de Coura: a consagração

Aparentemente, para alguns dos presentes, o Spy Quintet, do Space Ensemble, foi um momento muito alto na programação do Festival de Paredes de Coura.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=HE6IjhoVq54[/youtube]
Cobertura vídeo pelo Instituto Politécnico de Viana do Castelo.

Fotografias em Músicas @ Festa do Mundo

Cartaz da Festa do Mundo, Festival pela Interculturalidade, Ermesinde

Celebra-se este fim-de-semana, a Festa do Mundo, Festival pela Interculturalidade, no Parque Urbano de Ermesinde.

A convite do Pedro Almeida, participarei na sessão de Fotografias em Músicas, amanhã, dia 18 de Julho, a partir das 22h45. As Fotografias em Músicas são sessões de improvisação onde a música e a fotografia se complementam e dialogam. Seremos

  • João Martins sax – that’s me!
  • Horácio Marques guitarra
  • Álvaro Almeida trompete
  • João Soares contrabaixo
  • Pedro Almeida bateria electrónica+laptop
  • kitato fotografias

Parque Urbano Dr. Fernando Melo, junto ao Fórum Cultural de Ermesinde (perto da Estação da CP), dia 18 de Julho, às 22h45. Ao ar livre, com espaço para todos e entrada livre. Apareçam!

PS: Será a primeira vez que toco na terra natal da Cláudia. ;)

jazz.pt | Guimarães Jazz 2008

Texto escrito por João Martins, a 01/12/2008, relativo à 1ª semana do Guimarães Jazz 2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes e em conjunto com a cobertura da 2ª semana, da responsabilidade de Gonçalo Falcão, foi publicado no nº 22 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Guimarães Jazz 2008

Considerações Gerais:
Um Festival de Dimensão Regional

O Festival de Jazz que Guimarães acolhe anualmente, apesar de não deixar de ser “de” Guimarães, atingiu já, de alguns anos a esta parte, uma dimensão regional que abrange, na atracção de público, não só todo o Norte do País— se falarmos de público “geral”, já que o pouco público especializado nacional está, à partida, conquistado— mas as regiões espanholas (cada vez) mais próximas. Essa dimensão, que resulta também do investimento e da prioridade definida pela cidade e pelo seu Centro Cultural, tem reflexos na programação dos concertos do festival, na organização geral, nas actividades paralelas, nas extensões que levam o Festival (e o seu público) a outros pontos da cidade— as sessões de cinema, as exposições, as Jam Sessions da primeira semana…
Considerar, portanto, o público para quem o festival é concebido e, obviamente, os efeitos “secundários” que dele se esperam na cidade, é de elementar justiça na apreciação das opções programáticas.
Em 2 fins-de-semana prolongados consecutivos, o festival propõe-se equilibrar diferentes visões do fenómeno jazzístico, procurando abrir mais portas do que aquelas que fecha (exercício sempre complicado), satisfazendo o apetite de vários públicos (dos mais generalistas aos mais especializados), assegurando uma componente formativa e (algum) espaço para músicos nacionais, num contexto global que envolva a cidade, em vez de a “colonizar”.
Só quem habita a cidade de Guimarães poderá aferir dos resultados destas apostas ao longo do tempo, mas quem, como eu, a visita regularmente, não pode deixar de reparar em sinais evidentes e, aparentemente, consolidados no tecido cultural/musical da cidade, atribuíveis, em grande parte, ao Festival e à atenção que ele faz incidir sobre a cidade.
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jazz.pt | Jazz no Parque 2008

Texto escrito por João Martins, a 23/09/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 21 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Jazz no Parque 2008

12, 19 e 26 de Julho de 2008
Campo de Ténis do Parque de Serralves

A cada ano que passa, interrogo-me se a relação do Jazz no Parque com a Fundação de Serralves e com o(s) seu(s) público(s) sofrerá algum tipo de evolução. É que os 3 concertos ao ar livre, em 3 fins-de-semana estivais consecutivos permanecem aparentemente desligados da programação geral do Museu de Arte Contemporânea e, apesar da sua longevidade e do estatuto adquirido, não se vislumbram iniciativas que promovam vivências mais profundas das propostas que o Jazz no Parque apresenta ao público.

Em 2008, a proposta de programação de António Curvelo repete a fórmula de 2007, trazendo ao Ténis de Serralves, um concerto “norte-americano” (Matt Wilson’s Arts & Crafts, em 2007 e Steve Kuhn Trio, em 2008), um “português” (OJM com John Hollenbeck, em 2007 e “Cubo“, de André Fernandes em 2008) e um “europeu” (Strada Sextet de Henri Texier, em 2007 e o Quarteto de Michel Portal, em 2008). A repetição desta “visão tripartida” não apresenta “per se” qualquer inconveniente, assim como a presença de “repetentes” (Joey Baron, Michel Portal, Bruno Chévillon, Daniel Humair, André Fernandes, Mário Laginha, Alexandre Frazão são alguns dos músicos que regressam ao Jazz no Parque) não é, “per se” “sinal de fraqueza”. Concordo com António Curvelo quando afirma que, no jazz contemporâneo, o mesmo músico se pode apresentar “com identidades múltiplas, conforme o(s) tempo(s) e o(s) modo(s) em que se move”, pelo que a repetição de nomes não conduz à repetição da música ou do evento.
Porém, acredito que estes dois factores cruzados e o número crescente de “repetentes” num festival que se faz de 3 eventos apenas, com agrupamentos, em regra, pequenos, pode conduzir a um fenómeno de desgaste e conduz certamente, apesar dos melhores esforços de António Curvelo, a um certo sentimento de “déja vu“, ou “déjà entendu” por parte do público mais fiel.
Num evento com a dimensão do Jazz no Parque e com o perfil de público que se vai afirmando/cristalizando, poderá até ser uma opção estratégica. Mas programar um festival de jazz, ainda que apenas com 3 concertos, sem (alguma) ousadia e sem correr (grandes) riscos não parece coerente nem com a natureza da música que se pretende divulgar, nem com a natureza da instituição promotora.

Mas há Verões e Verões, e há Outonos que se parecem precipitar, pelo que estas considerações pessoais valem apenas e só por isso mesmo e em nada beliscam a qualidade de cada um dos concertos apresentados.

Da memória dos 3 concertos, surpreendentemente, realçam-se 3 nomes: Joey Baron, Alexandre Frazão e Daniel Humair.
Os 3 bateristas, por razões puramente emocionais-musicais, foram os que deixaram memórias mais marcadas e vivas, no que é apenas mais um sinal do lugar que a bateria, enquanto conjunto de instrumentos, ocupa no panorama do jazz contemporâneo e da importância de bateristas capazes de construir e usar criativamente uma voz inconfundível no instrumento, além de respeitarem os constrangimentos “funcionais-operacionais” básicos do jazz.

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Meio Dia Meia Noite

O Teatro do Frio promove 12 horas de actividades constantes hoje, 22 de Novembro, entre teatro, circo, concertos e vários híbridos. Do meio dia à meia noite, na Fábrica da Rua da Alegria, no Porto.

Meio Dia Meia Noite, cartaz

Ao meio dia, lá estarei, com os F.R.I.C.S., na abertura. E, para garantir que tudo corre bem, lá estarei no fecho, também, com Alfred 23 Harth, naquela que será a minha estreia como membro do Mental Liberation Ensemble.

Mais informação e detalhes sobre a programação do evento, aqui: http://www.teatro-do-frio-meiomeia.blogspot.com/

A mística de Paredes de Coura

Amanhã, como já anunciei aqui, vou estar, na qualidade de membro fundador, saxofonista de serviço e fã incondicional da Fanfarra Recreativa e Improvisada Colher de Sopa (F.R.I.C.S., para os amigos) no Palco Ruby do Festival de Paredes de Coura.

Mas, mais do que estar preocupado com a divulgação, estava aqui a pensar na minha “relação pessoal” com o festival de Coura.
Não me preocupa a divulgação porque não serão muitas as pessoas disponíveis para ir propositadamente a Paredes de Coura para o concerto de F.R.I.C.S. e o “fenómeno” da “fanfarra psicadélica” tem uma visibilidade crescente assegurada nos meios relevantes (apesar de marginais), suficiente para justificar o convite dos programadores de Coura…

Em 1999 ou 2000 (não tenho a certeza), os Ohmalone foram convidados para a programação dum espaço que, na altura, creio que ainda não se chamava “Jazz na Relva”. Democraticamente, votámos pela não aceitação do convite, com base na descrição feita pelos escassos frequentadores de festivais de verão que conhecíamos: “nesses concertos à tarde ninguém está mesmo a ouvir nada e há grupos de gajos a tocar djembés espalhados pelo recinto”.
A maioria dos “Ohmaloners” reagia (e continua a reagir, espero) com violentos arrepios de indignação e nojo à ideia de “grupos de gajos a tocar djembés” e essa foi a principal razão para declinarmos o amável convite. A reacção está ligada ao profundo respeito que temos pelo djembé enquanto instrumento e pelos bons percussionistas que conhecemos, pelo que não podemos deixar de nos indignar com esse espectáculo triste que é assistir a um grupo de gajos, certamente simpáticos e bem intencionados, mas igualmente destituídos de sentido musical e geralmente alienados do ambiente que os rodeia, a martelar de forma tão violenta como desinteressante os pobres djembés, comprados em feiras de artesanato, no Avante ou em festivais de verão. O curioso é que, se estas mesmas pessoas escolhessem gaitas de foles ou pífaros irlandeses como instrumento a violentar, seriam provavelmente agredidos violentamente, em legítima defesa, pelas multidões em volta. Sendo djembés, a “malta” acha “giro”… ??
Será uma generalização abusiva, mas, para efeitos de caricatura, percebe-se. E, digam lá quantas vezes viram grupos destes que escapem à minha descrição?

Depois dessa primeira possibilidade abortada, surgiu uma nova oportunidade em 2005, numa altura em que o “Jazz na Relva” já era um espaço afirmado e por onde tinham passado grandes nomes (Carlos Bica, por exemplo). Sendo Ohmalone um projecto semi-extinto e chegando o convite através do Space Ensemble, a operacionalização acabou por estar a cargo do Cheesecake Trio (do Jorge Queijo), de Gheegush (o nosso trio que viria a adoptar a designação Lost Gorbachevs) e da junção dos dois, numa apresentação de Space Ensemble.
Esse convite não só representou a minha primeira presença num festival de verão (como músico ou público), como justificou a criação do projecto Lost Gorbachevs que é, a par da Fanfarra, o principal projecto musical em que estou envolvido neste momento.

Nessa altura fiquei a saber que uma parte significativa dos receios relativos ao ambiente dos festivais não se justificam. Claro que o nível de atenção do público não é o mesmo que num concerto isolado ou num recinto fechado, mas, sabendo-se isso, é interessante trabalhar as próprias motivações do público e procurar estratégias adequadas. A receita de Lost Gorbachevs— temas curtos, referências mistas de Jazz/Free Jazz e Rock/Punk Rock— foi feita a pensar precisamente nesse constrangimento e o nosso sucesso, lá e, posteriormente, em vários palcos, contextos e países, obriga-nos a estar agradecidos ao Jazz na Relva.

Tanto é assim que, desde o início da consolidação do projecto da Fanfarra que falávamos, entre nós, sobre uma hipotética presença em Paredes de Coura como um objectivo lógico e um ambiente que nos interessava explorar. A receita da Fanfarra é muito distante da de Lost Gorbachevs, mas o nosso potencial “popular-psicadélico” é demasiado para que não o testemos num público como o do Jazz na Relva. Faz mesmo muito sentido.

Além disso, ouvi ontem um comentador duma televisão radical dizer que Paredes de Coura é um festival conhecido por convidar bandas emergentes e pouco conhecidas que, normalmente, pouco depois de passarem por Coura, “explodem”, confirmando as apostas dos programadores… ele estava-se a referir a bandas que passam pelos palcos principais, claro, mas isso aconteceu com Lost Gorbachevs e acontecerá, certamente com a Fanfarra.

É a mística de Paredes de Coura… ;)