O que é uma Universidade?

Por coincidência, ou talvez não, tropecei recentemente em casos estranhos de decisões administrativas ou de (má) gestão da Universidade de Middlesex (Londres)— especificamente a decisão de encerrar o prestigiado departamento de Filosofia e acabar com o curso BA em Sonic Arts— e comecei a acompanhar uma interessante discussão sobre o significado destas decisões e, a montante disto tudo, sobre a integração do ensino das Belas Artes e Letras nas Universidades, que tem tido lugar na Arena, mailing list promovida pela Virose. Sendo o rastilho circunstancial as ilógicas decisões dos administradores da dita universidade londrina— alguém referia no Facebook que a extinção do Departamento de Filosofia e a criação da equipa de Futebol Americano estavam relacionadas, já que para tomar a segunda decisão seria preciso excluir a lógica— a verdade é que os fundamentos e as estratégias a que assistimos aqui, não nos são estranhas. Os ataques sistemáticos às áreas de estudo consideradas “não rentáveis”, com “baixos níveis de empregabilidade” e coisas que tais, são fenómenos globais que, como tal, têm que ser combatidos globalmente. E, em Portugal, temos também razões para nos empenharmos na defesa dum conceito de Universidade que resiste a lógicas puramente mercantilistas, porque o que está em causa é precisamente o próprio conceito de Universidade.

Muito a propósito, o Fernando José Pereira, trouxe à discussão na Arena, um editorial da Art Monthly relativo ao processo de integração dos processos de aprendizagem das Artes na própria estrutura académica convencional. Com fortes raízes num sistema baseado na prática de atelier e na relação mestre/discípulo, a integração de todo o sistema de aprendizagem das Belas Artes nas estruturas universitárias foi sempre um processo conflituoso entre aquilo que tem que ser diferente e o que pode ser equiparado. Vale a pena ler e reflectir, sobre a forma como esse processo de integração e equiparação descaracterizou (ou não) o próprio processo de ensino/aprendizagem das Artes (e o que é isso?), colocando-o, neste momento, em risco. Citando o tal editorial da Art Monthly:

Dan Mitchell asks whether art can be taught, whether there is even such a thing as ‘fine art education’ (Letters). It is a good question. It has always been a good question, or at least since the idea of art ‘education’, as opposed to art training rooted in craft traditions and the apprenticeship system, began to take shape in Europe in the 15th century. In fact, the question lies at the heart of what a fine art education is or could be.

When art schools were absorbed into the university sector under the last Conservative government, the process was achieved with the minimum of fuss or protest. For some art schools it was a matter of survival, for others it was a matter of status. But now, even those that welcomed the move have discovered, too late, that academic parity has been gained at the cost of a totalloss of autonomy (see Editorial AM316). Now that the idea that a fine art education is somehow different from an education in other, acadernic, subjects has largely been relinquished, it would seem that it can, indeed, be ‘taught’. And, given the subsequent proliferation of fine art courses in the UK, it is big business, too.

When New Labour repackaged the arts as the ‘R&D’ wing of the so-called creative industries, the laudable aim was to persuade the Treasury that they were financially viable and, as such, worth funding. The strategy proved successful and, when New Labour came to power, the funding was forthcoming. But, as everyone now knows, it came with strings attached. A less obvious, but arguably even more pernicious effect of this rebranding of the arts, one that has been highlighted by Stephen Lee (Letters AM316), was the way that corporate jargon – with its emphasis on ‘transferable skills’, ‘creative outcomes’ and ‘economic returns’ – began to supersede the language, and values, of the existing art educational culture.

With the corporatisation of art and education came the inevitable process of ‘rationalisation’ – shedding staff while boosting student numbers – and asset-stripping: the selling off of property and shutting down or merging of smaller, less profitable departments. In this new corporate culture, departments compete against one another for much-needed space and resources. At the University of the Arts, for example, as Alexander Myers points out (Letters), the proposal to move the fine art department of Central Saint Martins from its highly desirable West End site to a new site at King’s Cross will mean not only that there will be ’38% less space’ available, but also that access to resources will be shared with other courses. The implied threat is that, unless it turns a profit, fine art will be closed down or absorbed by another course or department.

At a time when cuts are being made across the whole university sector, a move described by Sally Hunt, General Secretary of the University and College Union, as ‘an act of academic vandalism’, fine art departments are particularly vulnerable because they demand access to space and materiaIs, as well as to staff.

Mitchell and Myers are right, it is time for all concerned to sit down and talk before it is too late and all fine art departments, along with all other arts departments, are subsumed into the non-category of ‘visual culture’. Is there such a thing as a fine art education? As long as the question is being asked, and contested, then perhaps there is. As Duchamp said of art, it can only be declared dead when no one is talking about it. Indifference is deadly.

Fala-se aqui sobre a situação no Reino Unido. Mas as semelhanças com a situação portuguesa são mais que muitas. Que fazemos?

Portugal 2010- Ideias Para a Década

Hoje, a SIC transmitiu uma Grande Reportagem em que 10 portugueses foram convidados a partilhar desejos ou propostas para a década, com comentários do filósofo José Gil. O meu pai, Arsélio Martins, foi um dos participantes, partilhando alguma da sua visão acerca do papel central da educação e da escola na construção dum país melhor, mais equilibrado e capaz de progredir. E também reforçou a ideia de que isso se consegue não necessariamente através de investimento em infraestruturas, mas, e principalmente, através do reconhecimento dos valores humanos em causa: a importância dos pais na construção de perspectivas de futuro para os seus filhos que passam pela valorização (social e económica) do conhecimento e o reforço da dignidade dos professores e da escola enquanto instituição central no desenvolvimento do país. Para mim e para quem o conhece, nada de novo, a não ser a frequência com que lhe sai um “totó!” da boca, enquanto interage com os alunos mais novos, pelos corredores da José Estêvão, por onde continua a circular com o assobio como companheiro inseparável.

Felizmente, a opinião do meu pai, assim como alguns dos desejos e propostas que ele sempre foi formulando, estão à minha disposição, pelo que vi o programa mais para perceber como é que a ideia de articular os desejos e propostas de 10 portugueses e concretizava (ou não) numa qualquer ideia dum país, passado, presente ou futuro. Foi, obviamente, apenas um programa de televisão, mas, além da participação do meu pai, interessaram-me, em mais detalhe, a do António Câmara (Ydreams) e da Né Barros (Balleteatro), por razões diferentes, e não dei o tempo por perdido, apesar de achar que os comentários e a espécie de conclusão, a cargo do José Gil, tenham deixado um bocado a desejar.

O que me surpreendeu mais foi, além do taxista que citou Alvin Toffler (músico, emigrante regressado), o estado de degradação do Shopping dos Clérigos e a clareza de pensamento do polícia do Porto que percebe que é pela prevenção da exclusão e pelos apoios sociais que se resolvem os problemas de marginalidade e segurança. Tivesse o edil da cidade a mesma clareza de espírito…

do Facebook para o blog

Às vezes acontecem coisas destas: um tipo escreve alguma coisa como comentário, opinião ou resposta numa rede social qualquer e apercebe-se umas horas depois que aquela ideia, com maior ou menor desenvolvimento, poderia perfeitamente ser um artigo do blog pessoal. A natureza das redes e da nossa participação estilhaça, de facto, a manifestação da nossa identidade e, volta e meia, é preciso repescar e reunir algumas coisas.

Hoje, em resposta a um curioso “concurso” promovido no Facebook pelo Vítor Rua (que é reincidente nestas brilhantes provocações), onde se perguntava “Qual é o movimento artístico mais importante do século XX?“, dei por mim a defender que

O movimento artístico mais importante do século XX, não tem nome próprio e, tendo tido uma importância tremenda desde os alvores da humanidade, no século XX afirmou todo o seu potencial transformador. O movimento de que falo é o que ocorre no contexto das GUERRAS. No século XX, com 2 guerras “mundiais” e inúmeros conflitos locais e regionais, alterou-se a geografia, a identidade cultural, territorial, social, política e económica da esmagadora maioria dos habitantes do planeta. Assistimos a saltos tecnológicos impensáveis, estabelecemos capacidades de arquivo e transmissão de informação avassaladoras… em suma, a GUERRA, durante o século XX, alterou a face do planeta. Presumir que qualquer manifesto artístico pode ter tido maior impacto sobre a produção artística é ingenuidade.
(Até a emancipação da mulher se deve, em grande parte, à GUERRA.)

No contexto das respostas produzidas percebem-se melhor alguns detalhes da intervenção, como a questão da emancipação da mulher, mas, genericamente, acho mesmo que a particularidade do século XX, manifesta também na diversidade das suas expressões artísticas, é a globalização da Guerra como instrumento de definição de modelos sociais, políticos e económicos, o seu papel perverso como motor de desenvolvimento tecnológico e científico, o tremendo impacto nos processos de industrialização, nos sistemas de comunicação e registo… e na construção duma identidade global, nos fundamentos duma consciência ética universal, no reconhecimento da alteridade e nos processos de uniformização.

Disso mesmo, devemos manter a consciência sempre bem presente.

Art 2.0… where to, Mr. Benjamin?

Quando li, pela primeira vez, este artigo a classificar o David Fonseca como um “Artista 2.0″, pela estratégia recente de difusão do seu trabalho, com um recurso inteligente à web, e por acumular competências artísticas em vários domínios (a propósito do acto de ser o realizador do seu último videoclip, Superstars), achei que não o deveria comentar porque, não sendo eu minimamente próximo do mundo da música pop, era mais do que provável que qualquer comentário fosse mal interpretado.

Mas fiquei a matutar nisso e o lançamento do iLife ’08, por razões não muito fáceis de explicar, deu-me vontade de avançar alguns comentários.

o iLife e a Renascença

Antes de outras coisas, preciso de tentar explicar a relação que encontro entre a suite de aplicações Life, da Apple, e o conceito mais ou menos mitológico do “Homem da Renascença” ou “Homo Universalis”, que é, na verdade, aquilo que leva algumas pessoas a olhar para artistas que “acumulam” competências em várias valências ou disciplinas, como Artistas (mais) completos ou (mais) à frente do seu tempo— é curioso à partida que uma atitude historicamente associada à segunda metade do século XV continue a servir para classificar uma certa ideia de vanguarda ou, pelo menos, de modernidade…

Ao fornecer um pacote muito acessível de aplicações extraordinariamente intuitivas, mas fortemente pré-modeladas, para a manipulação rápida e com relativa qualidade técnica de vários media (música, fotografias e vídeos) a Apple fez uma revolução, ou contribui para a revolução em curso na relação entre consumidores e produtores de bens culturais de grande consumo, ao diluir as fronteiras técnicas que faziam depender de equipamentos e profissionais altamente especializados qualquer operação de produção e divulgação desses bens culturais. O que a Apple fez com a filosofia subjacente ao GarageBand e ao iMovie na área dos meios de produção, fizeram os novos serviços da chamada Web 2.0 aos canais de distribuição e, tão ou mais importante do que a real utilização e potencial destas ferramentas, no ambiente altamente mediatizado em que vivemos, é a rapidez de difusão da ideia de que, com estes novos meios digitais e com estas “apps e gadgets bués de cool“, os processos criativos passavam a estar ao alcance de qualquer um.
Se a diluição de algumas fronteiras técnicas e o acesso facilitado a melhores meios de criação e produção nas áreas da música e do vídeo são sempre boas notícias, em termos de promoção da criatividade e nivelamento do campo, o pitch de marketing muito apetecível de que “qualquer um pode ser uma estrela e criar um sucesso“, além de ser ofensivo para uma parte significativa de criadores e artistas emergentes ou estabelecidos, introduz uma perigosa distorção na avaliação do trabalho desenvolvido e apresentado ao público, dada a desvalorização acentuada dos meios e das competências necessárias nas várias áreas artísticas.
Este problema não resulta duma postura exclusiva da Apple, nem é um problema exclusivo do nosso tempo, e talvez seja uma “faca de dois gumes” que não pode deixar de ir abrindo caminho e feridas à sua passagem.
(Este é o meu principal engulho actual com a Apple, do qual resulta também a minha apreciação da iCreate, para quem estiver a pensar nisso).

Neste contexto, esta espécie de iRenascença que os novos meios tecnológicos nos oferecem não passa dum aprofundamento da situação analisada por Walter Benjamin em “A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica“, temperada pela lógica consumista do fast-food e do ready-made que, para lá das suas aplicações filosóficas e estéticas, levantam problemas éticos reais na avaliação do papel do criador, do técnico especializado e da ferramenta… problemas com que vivemos quotidianamente, aliás.

Art 2.0… como estar à frente do seu tempo

Perceber-se-á que, neste contexto, me custa engolir a ideia de que o esforço do David Fonseca possa ser levado demasiado a sério, como “um novo tipo de artista”, e nem sequer me parece que o próprio dê um valor por aí além às suas incursões, naturais nos tempos que correm, às áreas afins da concepção e realização plástica dum videoclip. Não sou especialista mas creio que não será difícil fazer uma lista de artistas (nacionais e estrangeiros) que em várias áreas musicais têm apostado numa lógica de criação que excede a simples escrita e produção de canções, integrando num conjunto coerente a experiência plástica dos concertos, o conceito de eventuais videoclips ou outros métodos de distribuição ou a construção de “personagens” que resultam em concept albuns, em concept bands… e uma parte significativa desses criadores reconhece, há muito, o papel da web, não só como montra, mas como espaço de interacção com o público e suporte de novas experiências.

De facto, a geração MTV consome doses cavalares de híbridos audiovisuais que já há muito deixaram de ter identidade musical autónoma das suas representações gráficas ou de uma identidade plástica, no que poderia passar por um alucinado cumprimento do ideal Wagneriano da GesamtKunstWerk. :D

Em tal contexto, parece necessário olhar para as diferentes atitudes entre criadores (na música e em todo o lado) e valorizar as reflexões mais críticas acerca dos meios de produção e distribuição, e seria particularmente interessante destacar alguns exemplos de quem procurou, realmente avant-la-lettre, novos meios de interagir e partilhar ideias com o seu público, integrando a Internet e as TIC na sua existência, em vez de usarem simplesmente receitas já conhecidas e gastas. Exemplos já reconhecidos, como o dos Einstürzende Neubauten e do seu Supporter Project, estabeleceram verdadeiramente novos padrões na avaliação da relação de projectos musicais com a internet e têm frutos visíveis, ainda que não óbvios, um pouco por todo o lado.

em jeito de conclusão

A capacidade de encontrar e explorar novos meios para a expressão e partilha de ideias e objectos artísticos em suportes interligados, complementares e trandisciplinares será, provavelmente, um recurso bastante mais frutuoso do que a simples acumulação de habilidades técnicas que as sucessivas revoluções computacionais tornam mais comuns. E essa capacidade passa por atravessar fronteiras disciplinares e partilhar com outros criadores e técnicos a realização de ideias e conceitos, criando sinergias e gerindo talentos.

Algures por aí andará a Art 2.0.

Concorda, Mr. Benjamin? E os leitores?