jazz.pt | Searching for Adam

Texto escrito por João Martins, a 28/09/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 21 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Searching for Adam
de Rodrigo Amado

  • Rodrigo Amado, saxofones
  • Taylor Ho-Bynum, cornetas
  • John Hebert, contrabaixo
  • Gerald Cleaver, bateria

Casa da Música, 18 de Setembro de 2008, Sala II

O concerto do novo projecto de Rodrigo Amado, que pretende cruzar de algum modo as suas duas ferramentas artísticas, fotografia e música, estreou-se na Casa da Música, no Porto, com a particularidade de não estar disponível para o público da cidade a exposição de fotografia que é parte integrante da “experiência”. No entanto, quer pela projecção das imagens que acompanha e participa no concerto (da responsabilidade de Guillaume PazatKameraphoto), quer pela música produzida pelo quarteto em estreia (Rodrigo Amado convida para este projecto músicos notáveis com quem nunca tinha tocado antes), a veia fotográfica do projecto é extraordinariamente nítida e visível, mesmo para quem apenas usufrui do concerto.
O desenvolvimento da música improvisada por Rodrigo Amado, Taylor Ho-Bynum, John Hebert e Gerald Cleaver, permite a audição-visualização de “planos fotográficos” de alguma forma relacionados com as imagens recolhidas por Rodrigo Amado em Nova Iorque ao longo dos anos e em exposição na Galeria Módulo, em Lisboa. Como as fotografias, esta música é muito mais instantânea do que meticulosamente preparada, nasce muito mais da reacção instintiva do indivíduo à realidade que o envolve e se desenrola perante ele, fixa expressões e estados de espírito em caras e poses naturais, sem esconder ou mascarar a complexidade para lá do primeiro plano, capta pormenores e detalhes que “habitam” estruturas vivas e complexas… a música, como a fotografia, tem profundidade de campo, mostra-nos temas e detalhes focados em primeiro plano, sem esconder os seus vivos ambientes urbanos.
O contraste entre o fraseado mais linear e narrativo usado por Rodrigo Amado e a vasta paleta tímbrica e quase impressionista de Taylor Ho-Bynum, nas cornetas assegura parte substancial deste “efeito”. Mas a eficácia do concerto enquanto objecto musical conseguido, deve-se igualmente à segurança estrutural da secção rítmica, com a bateria de Gerald Cleaver e o contrabaixo de John Hebert que, sem limitarem a margem de manobra do ensemble, conduzem e acompanham as inflexões rítmicas e dinâmicas necessárias para a construção das várias paisagens e para a afirmação dos sujeitos em observação.
De resto, o “movimento” do colectivo (e do concerto) tem também qualquer coisa de fotográfico, na forma como sentimos variações “focais”, conduzidas sabiamente por cada um dos músicos, capazes de liderar e afirmar um detalhe, com a mesma eficácia com que acompanham o percurso seguinte, numa oscilação delicada e bem conseguida entre primeiros e últimos planos.
Uma estreia auspiciosa para um projecto que, sem pretensões despropositadas, e com extraordinária simplicidade na apresentação, nos coloca, de facto, perante uma forma alternativa e muito bem conseguida de cruzamento transdisciplinar, onde a fotografia se afirma como excelente catalisador da criação e improvisação musical.

Texto escrito por João Martins, a 28/09/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 21 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Rodrigo Amado: Searching for Adam

Assisti ontem na Casa da Música ao concerto de estreia do projecto Searching for Adam, de Rodrigo Amado. A exposição de fotografia, central no projecto, está patente apenas em Lisboa, mas o concerto, com Taylor Ho-Bynum, John Hebert e Gerald Cleaver, além do próprio Rodrigo Amado, estreou-se no Porto.

Rodrigo Amado: Searching for Adam

Guardo as impressões mais completas e profundas para o artigo que escreverei para a Jazz.pt, mas aconselho o concerto vivamente e sem reservas, a quem ainda puder ir hoje à Culturgest.

O que raio é que se passa com o Público?

Quando me mostraram, não queria acreditar.
O Público, diário generalista dito “de referência”, publicou na edição deste sábado, no caderno P2, um artigo intitulado “Do outro lado da cidade”, assinado pela jornalista Ana Cristina Pereira.

"Do outro lado da cidade", página 1 "Do outro lado da cidade", página 2

Em circunstâncias normais, uma tal visibilidade do “Vou ao Porto“, o projecto do Paulo Pimenta e do Visões Úteis, que resultou dum desafio no contexto de “O Resto do Mundo“, deixar-nos-ia a todos bem contentes, mas, assim,

Sem dizer que as fotografias de que fala, e que mostra, são muito mais do que a ilustração de um artigo. São parte de um projecto artístico muito mais vasto, da autoria do fotógrafo Paulo Pimenta e da companhia de teatro Visões Úteis (que não é sequer referida).
Aquelas 6 imagens fazem parte de uma exposição composta por 21 imagens criadas ao longo de um projecto que nos acompanha há quase dois anos.
Aquele conceito de traçar uma geografia do Porto através de retratos de famílias que habitam zonas marginalizadas da cidade, nasceu do discurso do Visões Úteis sobre a cidade e da cumplicidade com o Paulo Pimenta.

Assim, trata-se apenas e só dum erro muito grave e de mais um sinal da degradação dos órgãos de comunicação social, particularmente, do Público. Espero que quer o Paulo Pimenta (que se encontra na situação particularmente complicada de ter sido “traído” no seu próprio local de trabalho), quer o Visões Úteis façam chegar a sua justa indignação ao director do Jornal e ao Provedor e que estes sejam capazes de agir em conformidade, explicando o que houver a explicar e assumindo e corrigindo os erros.

Por falar nisso, a minha mais recente mensagem ao Provedor não teve qualquer eco.