Estetização da Política vs. Politização da Arte

“(…) quando o uso natural das formas produtivas é paralisado pelo regime da propriedade, o crescimento dos meios técnicos, dos ritmos, das fontes de energia, tende a um uso contranatura. Este uso contranatura é a guerra que, pelas destruições que arrasta, demonstra que a sociedade não tem a maturidade suficiente para fazer da técnica o seu órgão, que a técnica não está suficientemente elaborada para dominar as forças sociais elementares. A guerra imperialista, com os seus aspectos atrozes,  tem como factor determinante o desfasamento entre a existência de poderosos meios de produção e a insuficiência do seu uso para fins produtivos (por outras palavras, o desemprego e a falta de mercados). A guerra imperialista é uma revolta da técnica que reclama sob forma de «material humano» aquilo que a sociedade lhe arrancou como matéria natural. Em vez de canalizar os rios,  dirige o caudal humano para o leito das trincheiras; em vez de usar os seus aviões para semear a terra, espalha as suas bombas incendiárias sobre as cidades; no uso bélico do gás, encontrou um novo meio de acabar com a aura.
Fiat ars, pereat mundus [que se faça arte, mesmo que o mundo pereça], é esta a palavra de ordem do fascismo que, como Marinetti reconhece, espera da guerra a satisfação artística de uma percepção sensível modificada pela técnica. Aí reside, evidentemente, a perfeita realização da arte pela arte. Na época de Homero a humanidade oferecia-se em espectáculo aos desuses do Olimpo; agora converteu-se no seu próprio espectáculo. Tornou-se bastante estranha a si mesma para conseguir viver a sua própria destruição como uma fruição estética de primeira ordem. Esta é a estetização da política que o fascismo pratica. A resposta do comunismo é politizar a arte.
Walter Benjamin, in “A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica” (1936)

do Facebook para o blog

Às vezes acontecem coisas destas: um tipo escreve alguma coisa como comentário, opinião ou resposta numa rede social qualquer e apercebe-se umas horas depois que aquela ideia, com maior ou menor desenvolvimento, poderia perfeitamente ser um artigo do blog pessoal. A natureza das redes e da nossa participação estilhaça, de facto, a manifestação da nossa identidade e, volta e meia, é preciso repescar e reunir algumas coisas.

Hoje, em resposta a um curioso “concurso” promovido no Facebook pelo Vítor Rua (que é reincidente nestas brilhantes provocações), onde se perguntava “Qual é o movimento artístico mais importante do século XX?“, dei por mim a defender que

O movimento artístico mais importante do século XX, não tem nome próprio e, tendo tido uma importância tremenda desde os alvores da humanidade, no século XX afirmou todo o seu potencial transformador. O movimento de que falo é o que ocorre no contexto das GUERRAS. No século XX, com 2 guerras “mundiais” e inúmeros conflitos locais e regionais, alterou-se a geografia, a identidade cultural, territorial, social, política e económica da esmagadora maioria dos habitantes do planeta. Assistimos a saltos tecnológicos impensáveis, estabelecemos capacidades de arquivo e transmissão de informação avassaladoras… em suma, a GUERRA, durante o século XX, alterou a face do planeta. Presumir que qualquer manifesto artístico pode ter tido maior impacto sobre a produção artística é ingenuidade.
(Até a emancipação da mulher se deve, em grande parte, à GUERRA.)

No contexto das respostas produzidas percebem-se melhor alguns detalhes da intervenção, como a questão da emancipação da mulher, mas, genericamente, acho mesmo que a particularidade do século XX, manifesta também na diversidade das suas expressões artísticas, é a globalização da Guerra como instrumento de definição de modelos sociais, políticos e económicos, o seu papel perverso como motor de desenvolvimento tecnológico e científico, o tremendo impacto nos processos de industrialização, nos sistemas de comunicação e registo… e na construção duma identidade global, nos fundamentos duma consciência ética universal, no reconhecimento da alteridade e nos processos de uniformização.

Disso mesmo, devemos manter a consciência sempre bem presente.