Instrumento descartável – palhinha 01

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=MQbS87qFPak[/youtube]

Há imensas instruções disponíveis online sobre como fazer este “instrumento de palheta dupla” e muitas variações. Mas basta achatar e cortar a ponta duma palhinha de plástico para fazer a palheta dupla e cortar uns furos para os dedos na própria palhinha para ficar com um brinquedo giro que quase parece capaz de tocar uma escala. Um dos sítios onde tudo isto está bem explicado é no site sciencetoymaker.org e há várias actividades propostas ali que funcionam bem com miúdos e graúdos.

O Júlio Vasconcelos também tem uma versão mais elaborada no seu canal do YouTube.

Nota: a Maria, que tem 3 anos, consegue, ocasionalmente fazer um ruído com esta “palheta”, mas uma das amiguinhas dela, com a mesma idade, não consegue. Creio que seja simples fazer coisas com este instrumento com crianças a partir dos 4. Talvez possa experimentar daqui a pouco.

A trama está montada

Estreia hoje, n’A Moagem, no Fundão, o projecto trama³. Já não há muito mais a dizer. Estamos à vossa espera.

trama³, trama ao cubo

trama³, trama ao cubo (vista do concerto)

trama³

um projecto de João Martins, com Gustavo Costa e Henrique Fernandes

+ info: http://joaomartins.entropiadesign.org/2010/06/08/trama-3-trama-ao-cubo/
podcast: http://joaomartins.entropiadesign.org/2010/06/23/trama%c2%b3-uma-amostra/

trama³ | uma amostra

trama³, trama ao cubo

Com a aproximação da estreia do projecto trama³ (dia 26 de Junho no Fundão e apresentação no dia 2 de Julho em Aveiro), haverá quem se interrogue sobre o que verdadeiramente interessa: a que soa este novo instrumento.

Pode soar a muita coisas e esta gravação que partilho é um exemplo. É a primeira improvisação que gravámos durante o processo de construção e creio que é um bom cartão de visita para o projecto. Adequado, pelo menos.

trama³

um projecto de João Martins, com Gustavo Costa e Henrique Fernandes

Neste projecto, um tear artesanal transforma-se num hiper-instrumento musical, com diversos registos tímbricos em configurações interligadas que permitem aos 3 músicos abordá-lo ora como um instrumento único, ora como um ensemble quase orquestral. Sobre a estrutura do tear, em intervenções que procuram compreender o seu funcionamento primário, enquanto exploram um vasto conjunto de possibilidades sónicas— sugeridas, na sua maior parte, pela observação de teares nos seus contextos originais—, fixam-se cordas, molas, caixas e vários objectos comuns, distribuindo pelas várias “faces visitáveis” da máquina, modos de produção de som interligados.

E, do mesmo modo que a concepção e construção do próprio instrumento procura compreender e valorizar os aspectos funcionais pré-existentes, a concepção global do projecto procura estabelecer pontes tangíveis entre os modos e os conteúdos da nova produção musical e as técnicas artesanais, as pessoas e os locais que compõem a memória do objecto. Gestos da tecelagem e das actividades relacionadas são recuperados como gestos de produção sonora no novo instrumento; recolhas de sons quer dos teares, quer das paisagens sonoras em que os descobrimos integram, como texturas e como motivos, o reportório concebido.
Estes teares— os seus “corpos”, o seu universo e identidade particular— são por isso, física e conceptualmente, o material de base para mais dois músicos— cúmplices de longa data—, artesãos, inventores e construtores de instrumentos que interpretam com as suas próprias ferramentas o desafio original.
Uma intrincada teia que cruza Música e Arte Sonora, aborda várias definições possíveis de instrumento musical e estende uma ponte audível, atenta e crítica entre práticas artísticas e práticas artesanais, enquanto reconhece o valor primordial das paisagens naturais e humanas genuínas.

Uma encomenda do Município do Fundão
Co-produção: Câmara Municipal do FundãoA Moagem - Cidade do Engenho e das Artes / Granular Associação
Produção executiva e acolhimento: A Moagem - Cidade do Engenho e das Artes

História do Projecto

Em 2005, como parte do processo de concepção dum espectáculo de teatro, concebi e construí um instrumento musical reutilizando a estrutura dum tear manual de mesa, que tinha utilizado em trabalhos oficinais como aluno do ensino secundário. O instrumento, a que chamei Contratear- a partir do nome da peça, “O Contrabaixo” (Visões Úteis, 2005)-, foi usado posteriormente em vários concertos e performances e passou a integrar o meu instrumentário regular. Em 2009, A Moagem – Cidade do Engenho e das Artes, propõe à Granular o desenvolvimento dum projecto musical centrado nos esforços de dinamização da actividade artesanal de grupos de tecedeiras nas Aldeias do Xisto e a Granular contacta-me, por causa do Contratear. E, assim, em Maio de 2009, estive em residência artística nas Aldeias do Xisto (Janeiro de Cima e Bogas do Meio), tendo como objectivo de curto prazo a concepção duma performance a apresentar na LX Factory, em Junho de 2009 e, como objectivo final a concepção e construção dum novo instrumento musical construído a partir dum tear. Essa primeira fase, a solo, mudou consideravelmente a minha relação com o Contratear, não tanto pela performance que realizei na Arthobler / Ler Devagar (LX Factory), mas pela imersão no universo dos teares artesanais e pela descoberta de imensos pontos de contacto entre os objectos da tecelagem e diversos instrumentos musicais, mas também entre os processos de concepção e registo dos padrões em uso nas práticas artesanais e técnicas de composição e escrita musical. A compreensão, também nessa altura, do carácter primordial do tear, enquanto máquina-ferramenta universal e a reflexão sobre o seu desenvolvimento mecânico e técnico, especialmente a partir da Revolução Industrial, e sobre o significado que a manutenção das práticas artesanais tem, face a esse desenvolvimento, influenciaram de forma decisiva, ainda que menos visível, a orientação conceptual do projecto para o qual, desde o início, contava com a colaboração do Gustavo Costa e do Henrique Fernandes, parceiros em variadíssimos projectos e, eles próprios, inventores e construtores de instrumentos. A estratégia usada na performance a solo de 2009, recorrendo a uma base audiovisual construída pela selecção, edição e manipulação de recolhas áudio e vídeo feitas durante a residência provou a sua eficácia quer como mecanismo de referenciação, quer como partitura estrutural e com base nessa primeira experiência, a segunda fase do projecto avançou para a concepção e construção dum novo instrumento sobre a estrutura pré-existente dum daqueles teares. Nesta segunda fase, trabalhámos já em conjunto, no Fundão, procurando transferir todas estas preocupações para o próprio processo de construção, a que acrescia a vontade e necessidade de diversificar os modos de produção de som, por forma a aproveitar ao máximo a área disponível na estrutura e alcançar o objectivo de, em vez de sobrepôr vários pequenos instrumentos à estrutura, usá-la como base dum instrumento único, polivalente, com o máximo de módulos interligados. A interpretação do desafio original, concretizou-se e expandiu-se no encontro das 3 personalidades e experiências específicas e com o contributo crítico de quem acompanhou este processo e, especialmente, de Albrecht Loops. Além da concepção e construção deste novo instrumento, realizámos novas recolhas sonoras e testámos novas formas de utilização e manipulação e desenvolvemos estratégias composicionais baseadas em regras simples e padrões que referenciam, de alguma forma, o universo das práticas artesanais e estudámos e estruturámos vários modos performativos. Um processo desta natureza evolui constantemente e não tem um fim natural; apenas
pontos de paragem e reflexão que sugerem novos desenvolvimentos. O ponto onde nos encontramos é particularmente rico: não só possuímos um instrumento poderoso e flexível, como dominamos formas performativas coerentes e consequentes. A documentação e enquadramento da globalidade do projecto permitirão uma leitura mais completa e rica do objecto em si mesmo, mas as suas actuais possibilidades performativas são inegáveis.

Vuvuzelas: não há nada que possamos fazer?

Desde que o Mundial da África do Sul se aproximou e ficámos a conhecer melhor as Vuvuzelas, que muitas queixas têm surgido relativamente à irritação provocada pelo “instrumento”. Mas há 2 tipos de irritação:

  1. A irritação nos estádios para quem não está habituado, sejam jogadores, treinadores, árbitros ou público. Quanto a essa, nada a fazer, até porque as práticas que visam incomodar a equipa adversária são comuns em todo o mundo. No caso concreto, a Vuvuzela faria mais sentido nos jogos da África do Sul contra outras nação, mas o uso da Vuvuzela é sistemático na África do Sul e “faz parte da festa”, como é o da Corneta no Brasil e outros aparelhos, como as sirenes em spray que alguns hooligans europeus gostam de usar. Tudo coisas irritantes e incomodativas que contribuem para as “atmosferas dos estádios”.
  2. A irritação para quem assiste remotamente aos jogos através das várias transmissões. Neste caso concreto a Vuvuzela afirma-se como uma prática diferente das outras já citadas, porque objectivamente, o som produzido interfere muitíssimo com todo o ambiente. As razões são várias, como vamos ver.

Uma das razões que fazem da Vuvuzela um aparelho mais irritante é o facto da sua utilização resultar num fluxo contínuo de som. Como produz um único som, as pessoas vão soprando, de forma orgânica e de acordo com as suas possibilidades, excitação e cansaço, o que dá origem a uma onda contínua, mais ou menos densa, dum som único. E porque é que o som é único? Uma das razões é o facto das Vuvuzelas serem, em grande parte exactamente iguais, principalmente num evento altamente patrocinado como é este, onde todo o merchandising é industrializado, Vuvuzelas incluídas. O modelo massificado tem uma medida única, pelo que o som fundamental, que depende do comprimento e largura do tubo, é o mesmo, na esmagadora maioria dos casos. E mesmo nos casos em que há variações e possamos ver Vuvuzelas com fundamentais mais agudas ou graves, a verdade é que todos estes instrumentos são tocados da mesma forma (o som é produzido como numa trompete, pela vibração do ar, que começa nos lábios e é modulada e amplificada pelo tubo) e, sendo do mesmo material, plástico, têm características tímbricas muito semelhantes. O que é que isto quer dizer? O timbre é, de forma resumida, a característica do som que engloba tudo o que não está definido em conceitos como dinâmica (volume) e altura (agudo-grave), ou seja, o que nos permite identificar instrumentos diferentes a tocar a mesma nota (mesma altura) na mesma dinâmica (mesmo volume). Um dos elementos definidores do timbre que nos permite distinguir um saxofone dum clarinete ou dum piano, mas também duma Vuvuzela, é o número de harmónicos e a sua amplitude relativa. Para quem não percebe nada de acústica, uma explicação simples é dizer que, apesar de podermos fazer corresponder diferentes notas musicais (ou alturas) a frequências específicas— o chamado lá central corresponde a 440Hz, por exemplo—, os instrumentos musicais que usamos, não produzem sons puros, ou seja, não produzem ondas sinusóides (ou outra forma de onda) com uma frequência e amplitude única. Esses sons puros podem ser produzidos electronicamente, mas são percebidos como artificiais, porque estamos habituadas aos sons naturais que são complexos. Sons complexos correspondem à soma de várias ondas, com frequências e amplitudes diversas. Os instrumentos musicais têm, normalmente, a característica de produzirem sons que resultam da soma de parciais harmónicos, ou seja, podemos decompôr o seu som numa sequência de ondas simples cujas frequências têm relações harmónicas (o resultado da divisão pela fundamental, onda mais grave, é um número inteiro). Num saxofone, por exemplo, o tal Lá central, ouve-se acompanhado de imensos parciais pares e ímpares, ou seja, a frequência fundamental multiplicada por 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, etc…, enquanto que num clarinete, os harmónicos ímpares (3,5,7, etc.) são muito mais presentes que os pares. A presença destes harmónicos e a sua força relativa permite-nos detectar as diferenças entre instrumentos da mesma formas que nos permite, por exemplo, compreender as diferentes “formantes” que nos fazem distinguir as vogais no nosso discurso. Há também sons enarmónicos, ou seja, sons onde os parciais não são harmónicos e todo este universo é fascinante, garanto-vos. Dentro do som enarmónico, como exemplo extremo, temos o “ruído”, fala-se de “ruído branco” e “ruído rosa”, em termos dos modelos teóricos, mas a característica importante do ruído é a presença de tantos parciais enarmónicos que o espectro audível fica saturado e não conseguimos mesmo distinguir uma fundamental.

Dito isto, que som faz uma Vuvuzela? A Vuvuzela, teoricamente, é semelhante a uma trompete, que tem muitos parciais harmónicos, responsáveis pela sua estridência, mas o facto de ter um corpo de plástico e ser tocado “à maluca”, faz com que só se estejam a produzir parciais mais agudos e, em vez da estridência do metal, temos um efeito indescritível, a que poderíamos chamar a “estridência do plástico”. Conseguimos, por isso, identificar uma fundamental, mas o som parece ser um ruído, porque os parciais acima da fundamental audível estão muito “esborrachados” e próximos (a Matemática disto é simples, a Acústica é que nem por isso) e porque a ressonância do material reforça esses aspectos, emudecendo todo o espectro mais agudo.

“Avança lá para a solução, por amor de Deus!”, dizem os leitores mais desesperados, mas há uma razão para esta introdução labiríntica. E complica.
A questão fundamental seria saber se seria possível “filtrar” o som das Vuvuzelas nas emissões das televisões e das rádios, para que, pelo menos em casa, estivéssemos mais confortáveis.

Há e é simples, mas não adianta nada. “Como disse?”

Com tempo, poderei ilustrar isto com uns gráficos e exemplos, mas o cerne da questão é: a razão pela qual as Vuvuzelas são tão irritantes é que a fundamental percebida se situa bem no centro da nossa capacidade auditiva. Saberão alguns, os que não sabem passam a saber, que os nossos ouvidos não ouvem da mesma forma todas as frequências. Todos sabem que os infrasons são demasiado graves para que os possamos ouvir e que os ultrassons são demasiado agudos. Mas nem todos saberão que a evolução natural nos preparou para estarmos particularmente optimizados, do ponto de vista da audição, para nos percebermos uns aos outros (até parece que é ao contrário, às vezes, não é?), pelo que na região dos 300Hz, que corresponde ao centro do som que produzimos quando falamos, nós ouvimos bastante melhor que acima e abaixo disso. Essa característica psico-acústica permitiu, por exemplo, o desenvolvimento dos filtros, algoritmos e compressores que usamos nos rádios, nos telefones e noutros dispositivos de registo e comunicação de voz, uma vez que, ainda que haja alterações no som, a eliminação de frequências acima e abaixo dessa zona óptima do discurso, não tem impacto significativo na compreensão do discurso normal (estatístico).
Essa mesma característica permite, através da utilização dum equalizador simples, reduzir enormemente o impacto das Vuvuzelas nas transmissões, como sugere o Cliff:

Tune out the vuvuzela buzz on a Samsung TV. Menu/Vol/EQ Drop 300Hz and boost adjacent eqs. Save as Custom. Done!

Vejam a imagem do filtro por EQ das Vuvuzelas, proposto pelo Cliff

Porque é que isto funciona? Porque a fundamental da maioria das Vuvuzelas está ali, à volta dos 300Hz, mas, acima de tudo, porque o que esta equalização faz é corrigir a nossa optimização natural e, com ela, não só estamos mais confortáveis, face às Vuvuzelas, como estamos mais protegidos do discurso dos comentaristas e de tudo. Basicamente, a área que ouvimos melhor, naturalmente, e que é a mais afectada pela Vuvuzela (porque ela foi naturalmente feita para isso), é aliviada com esta compensação, mas não se trata dum filtro anti-Vuvuzela. É o equivalente a um par de tampões nos ouvidos, reduz o volume global e elimina a sensibilidade natural do ouvido. Até podemos aumentar o volume da TV a seguir e percebemos os comentários e o resto dos sons, que soarão, ora mais estridentes (as vozes, por exemplo), ora mais abafados (graves).

Digamos que esta forma de equalização nos protege das Vuvuzelas, mas também nos protege de toda e qualquer coisa que nos soe irritante nas televisões e é, provavelmente, por isso, que os emissores não podem fazer nada na origem.

De facto, como nós fomos evoluindo para ouvirmos como ouvimos, também os instrumentos, incluindo a Vuvuzela, evoluíram para serem eficazes: o saxofone, combinando a facilidade de tocar do clarinete (sistema de chaves Bohm) com a estridência da trompete, para ser usado em marchas militares, a Vuvuzela, encontrando o nosso ponto sensível para irritar e ensurdecer toda a gente.

Há que ter respeito pela Vuvuzela.

EDIT#1
PARA MAIS SOLUÇÕES E MENOS PALEIO:
http://vuvuzelafiltering.com/ com referência a estratégias de equalização mais avançadas (ver aqui, em alemão, seguindo as figuras) e ao Vuvux— o mais recente lançamento da Prosoniq—, um filtro em tempo real, gratuito, com a única desvantagem de só correr em Mac OS X (é Audio Unit).

EDIT #2
E EM LINUX? Aparentemente, ainda mais simples, usando JACK e JACK Rack: vejam aqui http://fetzig.org/2010/06/13/vuvuzela-filter-using-fedora/ e aqui http://ahans.de:8081/blog/entry/7 (o segundo parece mais completo que o primeiro)

trama³, trama ao cubo

trama³, trama ao cubo

trama³

um projecto de João Martins, com Gustavo Costa e Henrique Fernandes

Neste projecto, um tear artesanal transforma-se num hiper-instrumento musical, com diversos registos tímbricos em configurações interligadas que permitem aos 3 músicos abordá-lo ora como um instrumento único, ora como um ensemble quase orquestral. Sobre a estrutura do tear, em intervenções que procuram compreender o seu funcionamento primário, enquanto exploram um vasto conjunto de possibilidades sónicas— sugeridas, na sua maior parte, pela observação de teares nos seus contextos originais—, fixam-se cordas, molas, caixas e vários objectos comuns, distribuindo pelas várias “faces visitáveis” da máquina, modos de produção de som interligados.

E, do mesmo modo que a concepção e construção do próprio instrumento procura compreender e valorizar os aspectos funcionais pré-existentes, a concepção global do projecto procura estabelecer pontes tangíveis entre os modos e os conteúdos da nova produção musical e as técnicas artesanais, as pessoas e os locais que compõem a memória do objecto. Gestos da tecelagem e das actividades relacionadas são recuperados como gestos de produção sonora no novo instrumento; recolhas de sons quer dos teares, quer das paisagens sonoras em que os descobrimos integram, como texturas e como motivos, o reportório concebido.
Estes teares— os seus “corpos”, o seu universo e identidade particular— são por isso, física e conceptualmente, o material de base para mais dois músicos— cúmplices de longa data—, artesãos, inventores e construtores de instrumentos que interpretam com as suas próprias ferramentas o desafio original.
Uma intrincada teia que cruza Música e Arte Sonora, aborda várias definições possíveis de instrumento musical e estende uma ponte audível, atenta e crítica entre práticas artísticas e práticas artesanais, enquanto reconhece o valor primordial das paisagens naturais e humanas genuínas.

Uma encomenda do Município do Fundão
Co-produção: Câmara Municipal do FundãoA Moagem - Cidade do Engenho e das Artes / Granular Associação
Produção executiva e acolhimento: A Moagem - Cidade do Engenho e das Artes

História do Projecto

Em 2005, como parte do processo de concepção dum espectáculo de teatro, concebi e construí um instrumento musical reutilizando a estrutura dum tear manual de mesa, que tinha utilizado em trabalhos oficinais como aluno do ensino secundário. O instrumento, a que chamei Contratear- a partir do nome da peça, “O Contrabaixo” (Visões Úteis, 2005)-, foi usado posteriormente em vários concertos e performances e passou a integrar o meu instrumentário regular. Em 2009, A Moagem – Cidade do Engenho e das Artes, propõe à Granular o desenvolvimento dum projecto musical centrado nos esforços de dinamização da actividade artesanal de grupos de tecedeiras nas Aldeias do Xisto e a Granular contacta-me, por causa do Contratear. E, assim, em Maio de 2009, estive em residência artística nas Aldeias do Xisto (Janeiro de Cima e Bogas do Meio), tendo como objectivo de curto prazo a concepção duma performance a apresentar na LX Factory, em Junho de 2009 e, como objectivo final a concepção e construção dum novo instrumento musical construído a partir dum tear. Essa primeira fase, a solo, mudou consideravelmente a minha relação com o Contratear, não tanto pela performance que realizei na Arthobler / Ler Devagar (LX Factory), mas pela imersão no universo dos teares artesanais e pela descoberta de imensos pontos de contacto entre os objectos da tecelagem e diversos instrumentos musicais, mas também entre os processos de concepção e registo dos padrões em uso nas práticas artesanais e técnicas de composição e escrita musical. A compreensão, também nessa altura, do carácter primordial do tear, enquanto máquina-ferramenta universal e a reflexão sobre o seu desenvolvimento mecânico e técnico, especialmente a partir da Revolução Industrial, e sobre o significado que a manutenção das práticas artesanais tem, face a esse desenvolvimento, influenciaram de forma decisiva, ainda que menos visível, a orientação conceptual do projecto para o qual, desde o início, contava com a colaboração do Gustavo Costa e do Henrique Fernandes, parceiros em variadíssimos projectos e, eles próprios, inventores e construtores de instrumentos. A estratégia usada na performance a solo de 2009, recorrendo a uma base audiovisual construída pela selecção, edição e manipulação de recolhas áudio e vídeo feitas durante a residência provou a sua eficácia quer como mecanismo de referenciação, quer como partitura estrutural e com base nessa primeira experiência, a segunda fase do projecto avançou para a concepção e construção dum novo instrumento sobre a estrutura pré-existente dum daqueles teares. Nesta segunda fase, trabalhámos já em conjunto, no Fundão, procurando transferir todas estas preocupações para o próprio processo de construção, a que acrescia a vontade e necessidade de diversificar os modos de produção de som, por forma a aproveitar ao máximo a área disponível na estrutura e alcançar o objectivo de, em vez de sobrepôr vários pequenos instrumentos à estrutura, usá-la como base dum instrumento único, polivalente, com o máximo de módulos interligados. A interpretação do desafio original, concretizou-se e expandiu-se no encontro das 3 personalidades e experiências específicas e com o contributo crítico de quem acompanhou este processo e, especialmente, de Albrecht Loops. Além da concepção e construção deste novo instrumento, realizámos novas recolhas sonoras e testámos novas formas de utilização e manipulação e desenvolvemos estratégias composicionais baseadas em regras simples e padrões que referenciam, de alguma forma, o universo das práticas artesanais e estudámos e estruturámos vários modos performativos. Um processo desta natureza evolui constantemente e não tem um fim natural; apenas
pontos de paragem e reflexão que sugerem novos desenvolvimentos. O ponto onde nos encontramos é particularmente rico: não só possuímos um instrumento poderoso e flexível, como dominamos formas performativas coerentes e consequentes. A documentação e enquadramento da globalidade do projecto permitirão uma leitura mais completa e rica do objecto em si mesmo, mas as suas actuais possibilidades performativas são inegáveis.

Projecto Teares, slideshow

Fotografias tiradas durante a residência artística no Fundão. Inclui o processo de construção, demonstração e desmontagem, com pormenores de partes do instrumento e fotografias da sessão de apresentação do instrumento a um grupo de crianças.

Projecto Teares na SIC

Aceito sugestões sobre como aceder e partilhar só a peça respeitante ao nosso projecto, em vez de partilhar toda a segunda parte do Primeiro Jornal da SIC.

Da nossa parte, o processo de documentação do projecto está praticamente concluído, pelo que haverá mais informação em breve (áudio, fotos e vídeo).

Um abraço especial ao Albrecht Loops, por ter tornado esta reportagem possível.

Projecto Teares, início da residência artística no Fundão

A primeira manifestação pública do trabalho que recomecei hoje foi em Junho do ano passado, num evento na LX Factory, intitulado Tecer Devagar. E desde esse primeiro encontro entre o meu Contratear e os teares artesanais das Aldeias do Xisto, promovido pela Granular e A Moagem, que o projecto assumia a intenção de criar um novo instrumento, de maiores dimensões e colectivo, construído sobre um desses teares (ou à sua imagem e semelhança).

Hoje, iniciou-se essa fase de construção do novo instrumento, na qual colaborarei com o Gustavo Costa e com o Henrique Fernandes e temos à nossa disposição este tear artesanal, de construção recente:

O tear sobre o qual se construirá o novo instrumento

Além da concepção e construção deste novo instrumento, o desafio do projecto é a construção duma linguagem musical específica, construída sobre as práticas das tecedeiras artesanais, sobre a arquitectura das Aldeias do Xisto e outras referências.

Inquieta-me, sobretudo, o justo equilíbrio entre a natureza específica da máquina-tear, símbolo curioso da industrialização, as suas extensas implicações musicais, que fui descobrindo desde que criei o contratear, e a necessária criação e articulação dum vocabulário musical pertinente e cativante. Felizmente, não estou sozinho. ;)