O Verdadeiro Poder das Artes Performativas, Ben Cameron

Conferência TED de Ben Cameron, de Fevereiro de 2010.

Um interessante paralelo entre o momento actual das Artes Performativas, face à democratização dos meios de criação, difusão e consumo e a Reforma Protestante do século XVI. E uma defesa apaixonada do papel das artes na construção dum mundo mais equilibrado em tempos conturbados.

Dificuldades no registo de domínio .pt após registo de marca

O registo de domínios .pt tem sido sujeito a grandes discussões (liberalização ou não, rigor e complexidade dos normativos e tantas outras coisas) e cirúrgicas alterações. Algumas verdadeiramente inexplicáveis e intoleráveis, como a impossibilidade do legítimo detentor dum registo de marca nacional proceder ao registo do domínio .pt correspondente, caso a marca seja mista, isto é, caso inclua, além da designação nominativa, elementos gráficos, verbais ou não, como é o caso de um logótipo.

Transcrevo comunicação enviada a propósito ao INPI e à FCCN, com conhecimento do ARBITRARE (as referências à empresa e marca estão propositadamente obliteradas).

– início da comunicação

Dirigimo-nos simultaneamente ao INPI e aos serviços de gestão de domínios da FCCN, uma vez que não sabemos exactamente como podemos resolver o problema que nos aflige neste momento: a aparente impossibilidade de registar o domínio .pt relativo a uma marca da qual somos legítimos titulares.

A nossa empresa [Nome da Empresa] é actualmente titular do domínio [nomedaempresa.pt] (registado no momento da sua constituição) e da marca [Nossa Marca], como se pode observar no documento anexo (processo [nº de processo]). O registo corresponde a uma marca mista, dada a necessidade de proteger não apenas a designação nominativa, mas também o sinal figurativo associado e o Registrar a que recorremos informou-nos que, por isso, este não é aceite pela FCCN como base de registo de domíno .pt.
De acordo com o site do INPI “uma marca poderá ser composta por letra(s) ou por palavra(s) (marca nominativa), mas pode também ser composta por figuras (marca figurativa) ou por ambas (marca mista)“, o que, na nossa interpretação, significaria que a marca mista contém uma dupla validade enquanto nominativa e figurativa, até por requerer a indicação da designação nominativa a proteger. Pelo que percebemos do Código de Propriedade Industrial (CPI) e das restantes indicações dadas pelo INPI, esta forma de registo de marca é a mais correcta para a nossa situação e protege a marca nos dois aspectos, designação nominativa e identidade gráfica, sem prejuízo de nenhuma das duas. Parece-nos até uma violação do referido CPI (artigo 235º, unicidade do registo) que um novo registo de marca, exclusivamente nominativo, se possa fazer com uma designação idêntica à que registámos, pelo que nem sequer compreendemos qual o procedimento a adoptar, caso seja correcta a interpretação do regulamento de registo de domínios .pt que originou a recusa de proceder ao registo por parte do Registrar que usamos. De facto, fomos informados de que a FCCN se recusaria, com base no normativo actual, a aceitar o registo dum domínio .pt com base num regito de marca mista, exigindo uma marca nominativa. Encontrámos esta mesma referência noutros locais online, incluindo o comunicado de imprensa associado à campanha euestou.com.pt e o comentário do INPI a esse respeito, mas, face ao já referido artigo 235º do CPI e à explicação da dupla validade da marca mista, constante no próprio site do INPI, não somos capazes de perceber qual o processo preconizado pela FCCN, no contexto da aplicação do CPI, para a correcta protecção da marca, incluindo o registo do domínio e não excluindo outros sinais identitários. Sabíamos da alteração das normas por parte da FCCN, mas a leitura que fazemos do regulamento de registo de domínio .pt, tal como consta no site, não excluiria as marcas mistas. A alínea f) do artigo 11º, ao referir que “apenas são admitidas como base de registo as marcas nominativas tal como constem do respectivo título de registo nacional”, exclui naturalmente, e bem, as marcas figurativas e todos os elementos gráficos, verbais ou não verbais não incluídos na designação nominativa incluída na marca mista. Mas não nos parece que possa excluir liminarmente as marcas mistas, sem que isso constitua, pelo menos, uma leitura enviesada do CPI. A esse respeito, pode ler-se numa decisão recente do ARBITRARE:

«A nosso ver, o disposto na alínea f) do artigo 11º do Regulamento supra referido, ao impôr as condições que analisámos, prejudica, injustificadamente, uma grande percentagem de titulares de marcas, nacionais, comunitárias e internacionais, sendo, por isso, altamente discriminatória quanto aos titulares de marcas mistas ou figurativas contendo um elemento verbal, como é o caso da marca comunitária em apreciação;
(…)
Deste modo, são manifestamente impedidos de, com base nas suas marcas, registarem nomes de domínios, mais de 40% dos titulares de marcas comunitárias e cerca de 49% de titulares de marcas nacionais e internacionais;
A menos que esta elevada percentagem de requerentes de marcas, reconhecendo as funções actuais que, no âmbito comercial e comunicacional, desempenham os nomes de domínio, optem por marcas que sejam exclusivamente nominativas, ou procedam a dois registos: além do registo de marca mista, registarem marcas nominativas contendo apenas os elementos verbais que delas constam, o que nos parece inadmissível;
Não se justifica, assim, a norma por não atender à intenção, finalidades e aos interesses que subjazem à opção pelos titulares pelo registo das marcas mistas no plano das estratégias das empresas no plano jurídico, no plano comercial e comunicacional;
(…)
Nem se justifica pelas próprias funções que actualmente os nomes de domínios são chamados a desempenhar.
(…)
Existem, portanto, razões para se reflectir sobre a disposição do artigo 11º, na sua alínea f), tentando encontrar vias que removam os impedimentos que se colocam a cerca de metade dos requerentes de todos os níveis territoriais de registo de marcas;»

Partilhamos inteiramente dos argumentos e perplexidades expostas por Paulo Serrão a propósito da formulação e aplicação da alínea f) do artigo 11º nesta sua decisão no ARBITRARE e, face ao exposto, gostaríamos de saber:

  • se a prática da FCCN se mantém, como nos informam os Registrars e
    • se sim, qual o procedimento que aconselham, face ao CPI, nomeadamente, se promovem o duplo registo (misto e nominativo)
    • se não, como se deve proceder ao registo do domínio e quais as medidas tomadas pela FCCN para esclarecer os Registrars
  • se o INPI considera esta prática compatível com a aplicação do CPI e com a promoção da propriedade industrial e
    • se sim, se pretende clarificar a explicação acerca das diferenças entre marcas nominativas, figurativas e mistas, para incluir este “pequeno-grande” pormenor e qual o procedimento que preconiza, nomeadamente, como se processaria o duplo registo marca mista + marca nominativa
    • se não, que medidas tomou ou pretende tomar para clarificar a situação, nomeadamente, que seguimento dará às considerações citadas nesta recente decisão do ARBITRARE
  • qual a forma mais expedita de procedermos ao registo do domínio [nossamarca.pt] considerando a nossa condição de detentores do registo da marca nacional mista que contém o registo nominativo [Nossa Marca]?

Agradecemos uma resposta tão completa quanto possível, no mais curto espaço de tempo possível.

– fim da comunicação

Acredito que este seja um assunto que interesse a alguns dos leitores do blog (interessa-me muito e não é só por estar a lidar com a situação de perto, mais uma vez) e, evidentemente, darei toda a atenção às eventuais reacções de qualquer uma das instituições relevantes. Claro que qualquer comentário da parte dos leitores é bem-vindo, também.

Grande confusão no Facebook: Perfil vs Página

Quem usa o Facebook com alguma frequência terá notado nos últimos tempos alguma agitação à volta da conversão dum série de perfis em páginas, justificadas das mais diversas maneiras, todas com base nos termos de serviço desta rede social (que nesse aspecto não mudaram), que reserva a existência de perfis para pessoas individuais, exigindo às “pessoas colectivas”— associações, organização, marcas, empresas, instituições e outros colectivos, com objectivos comerciais ou não—, que criem páginas ou grupos.

Muitos destes perfis criados contra os termos de serviço do Facebook foram fruto de falta de atenção, ignorância ou preguiça de verificar, acrescida da confiança típica “se os outros estão a fazer assim, então deve ser assim que se faz”. Outros resultaram duma opção consciente, discutível, escudada atrás do mesmo argumento dos “outros que fazem assim” e reforçada pela ideia de que a interacção ao nível dos perfis é mais “completa” e “democrática” e, no contexto duma rede social, para algumas “pessoas colectivas”, é melhor ter amigos do que ter “fãs”. É mais fácil pelo menos, a olhar para os números de amigos e de fãs de instituições que optaram por ter as 2 coisas, perfil e página.

Com a tomada de consciência gradual da insustentabilidade desta situação, que começou com o tecto dos 5.000 amigos e se agravou nos últimos tempos com algumas acções concretas por parte do Facebook, relativamente a perfis irregulares (falo de ouvir falar), vemos agora muitos perfis e avisarem que vão deixar de existir e pedidos para que os “amigos” cliquem no “gosto” das páginas (o próprio Facebook abandonou a ideia do “fã”), para que a animação possa prosseguir noutro espaço. Estas “migrações” estão a provocar algum alvoroço, algumas críticas ao Facebook (que, que eu saiba, não mexeu nos termos de serviço neste aspecto nos últimos tempos) e algumas manifestações de desagrado pela menor presença e/ou interacção que estas pessoas colectivas virão a ter na rede social, quando abandonarem o perfil. É verdade que há algumas coisas que se perdem. Muitas delas, felizmente, diria eu.

Utilizar o Facebook como página

Mas é importante para todos, especialmente para quem está a fazer estas alterações agora, saber que há uma nova possibilidade na utilização do Facebook, que passa por Utilizar o Facebook como Página, como se pode ver nesta captura de ecrã. Como muitas outras funcionalidades associadas às “actualizações” do FB, esta não é muito divulgada, nem está muito bem documentada.
(Talvez porque também tenha alguns “bugs” por resolver— eu, depois de a usar, tenho que terminar a sessão no Facebook, para recomeçar com o meu perfil “normal”.)
Mas podem verificar nestas perguntas frequentes (só na versão em inglês, para já), algumas das características desta funcionalidade e ver o que se pode ou não fazer como página:

  • Receber no site notificações sobre novos utilizadores que gostam da sua Página.
  • Receber notificações no site e através de e-mail sobre pessoas que comentam e publicam conteúdos na sua Página.
  • Ver um feed de notícias para a sua Página. Este feed terá publicações sobre a sua Página e sobre outras Páginas de que gosta.
  • Gostar de outras Páginas e publicar itens e comentários nessas Páginas.

O destaque nesta última é meu e creio que responde a muitas das inquietações dos utilizadores.

Quem pode usar o Facebook como Página são os administradores dessa página, pelo que basta que, regularmente, os administradores dessa página, da mesma forma que utilizavam o perfil, mudem a sua “identidade” e percorram a rede como a Página, assinalando outras Páginas com um “gosto” e publicando comentários ou mensagens para que a “animação” continue. Não é exactamente a mesma coisa, mas é parecido. E, do ponto de vista de funcionamento duma rede social, pessoalmente, prefiro que as “pessoas colectivas” estejam diferenciadas dos indivíduos. Parece-me fazer mais sentido. A vocês não?

Cuidado com as aparências

Deparei-me agora com um site, uma conta no Twitter e toda a uma presença online identificada com o Arquitecto Álvaro Siza Vieira que tenho praticamente a certeza que não tem nada a ver com ele, nem com o gabinete dele e pode, eventualmente, ser lesiva da sua imagem pública. Não sei se esta é uma situação já conhecida e relativamente à qual já alertaram o gabinete dele e/ou se foram tomadas medidas no sentido de evitar equívocos. Se sim, peço desculpa pela redundância.

O site é http://www.alvarosizavieira.com e tem uma conta no Twitter: http://www.twitter.com/sizavieira (não coloco links clicáveis, precisamente porque prefiro evitar contribuir para a visibilidade desta “manobra”).

A imagem do Arquitecto e da sua obra é usada extensivamente, como poderão constatar, com o objectivo de fazer dinheiro via anúncios no site e sistemas de filiação em lojas online (vendem livros e vídeos do e sobre o Arquitecto Siza Vieira, via Amazon, por exemplo). Os conteúdos aparecem no site “automagicamente”, rapinando aqui e ali as inúmeras referências online que existem.

Não sei se isso incomoda ou não o Arquitecto e o seu gabinete. A mim incomodou-me ver a cara do Siza na minha timeline do Twitter e descobrir que é só um esquema de republicação de conteúdos e publicidade.

Procurei um site verdadeiramente oficial e contactos fidedignos online, mas não encontrei, por isso, se algum dos leitores tiver forma de o fazer, podem fazer chegar este alerta ao gabinete dele?

Obrigado.

Infinite Loop?

Os últimos dias têm sido dias de viagem. Estamos a percorrer parte da “rede” Clunisiana, procurando parte do seu património imaterial entre monumentos, ruínas e conversas com quem ajuda a manter este património ou, pura e simplesmente, o habita. Andamos por sítios que, outrora, foram o centro do mundo, mas que estão agora “perdidos” no meio das províncias rurais francesas. Visitamos o “berço” dos primeiros cidadãos europeus, como Odilon de Mercœur, mas atravessamos zonas da França rural que não têm cobertura de telefones móveis ou acesso fácil à internet, por falta de habitantes que rentabilizem o negócio.
Por isso, o blog se apresenta, assim, num loop infinito de auto-referências automáticas ao artigo anterior. Como que a dizer “hoje, não se passou nada de virtual na minha vida”. ;)

Em breve regresso, com palavras, imagens e sons. Quem sabe se desse lado ainda estará alguém?

* Infinite Loop é a morada da sede da Apple, em Cupertino.

2009 em números, um balanço deste blog

Segundo o Google Analytics, em 2009, este blog teve 44.172 visitas (-20,35% que 2008) e foram vistas 56.417 páginas (-22,37% do que 2008). Foram identificados 38.578 visitantes exclusivos absolutos (-17,05% que 2008), o Google continua a ser o maior gerador de tráfego (75,95% das visitas) e o nome do blog, “diário de bordo”, continua a ser a expressão que mais visitantes traz, via mecanismos de pesquisa, mas não excede os 4% de visitas e a miríade de termos pesquisados por quem cá chegou não permite identificar tendências ou traçar um perfil de quem lê. Nem eu estaria muito interessado nisso. Só através dos comentários (que são raríssimos) é que poderia realmente interagir com os “leitores” e deixar-me influenciar (ou não) pelas suas opiniões.

A quantidade de dados estatísticos que um serviço como o Google Analytics nos oferece é tal que a sua utilidade depende exclusivamente dos nossos objectivos e da nossa capacidade de os seleccionar, analisar e interpretar. O facto do Internet Explorer ser o browser mais usado nas visitas (+ de 60%) e do Windows ser o Sistema Operativo mais comum entre os leitores (quase 90%) mostra-me que, ao contrário do que se passava há uns anos, quando este era um espaço muito “pessoal”, os meus leitores são uma eventual amostra da “maioria” dos internautas portugueses, distorcida como todas as amostras, mas cada vez menos.

O decréscimo de visitas reflecte, creio eu, considerando a tendência acentuada nos últimos meses do ano e observando o crescimento significativo e sustentado de subscritores do feed, uma maior interacção com os mesmos conteúdos por parte dum número crescente de leitores-utilizadores noutras plataformas (FriendFeed, Facebook, Twitter, etc).

Seja como for, os números indicam que, em média, diariamente, qualquer coisa como 105 visitantes, que realizaram cerca de 121 visitas, visualizaram cerca de 154 páginas do blog. Eu, excluindo anomalias (como esta ou esta), quase não dou pela presença de ninguém. E, por mim, as coisas podem manter-se assim, do ponto de vista da “manifestação” dos leitores, se bem que também não me importo de receber críticas, sugestões e comentários ocasionais. Mas além de repensar a secção de podcast do blog, farei, para me impôr alguma disciplina de escrita, algumas alterações que, se tudo correr bem, serão óbvias. ;)

E, nesse sentido, passo a aceitar sugestão de temas para artigos mais aprofundados.

Está ligado?

Os dados recentes sobre a utilização da internet em Portugal, no contexto dum quadro comparativo da Europa a 27, ilustram um país fracturado, cronicamente atrasado, bem distante da imagem que muitas vezes tentamos ter de nós próprios. O relatório da Comissão Europeia, que pode ser visto na íntegra aqui, coloca-nos na linha da frente em áreas como o eGovernment, eBusiness e eCommerce para Empresas, facto amplamente divulgado e destacado pelas vozes oficiais, mas demonstra também que a percentagem de portugueses que, de facto, está “ligada” é muitíssimo baixa. A justificação “oficial” faz sentido:

Este relatório aponta níveis baixos de utilização regular da Internet pela população (Portugal=38%, UE=56%) que, como sabemos, estão relacionados com a muito baixa percentagem da população adulta que tem educação secundária em Portugal (a mais baixa dos 27 países da UE), sendo que a posição de Portugal no que toca a utilização da Internet por pessoas com educação secundária e não superior (87%) e com educação superior (91%) é das melhores na UE, acima das médias da UE (respectivamente, 67% e 89%), e o mesmo acontece para a utilização da Internet por estudantes (Portugal=97%, UE=94%), muito acima do que seria de esperar pelas características socio-económicas do país.

Mas é muitíssimo deprimente. E ilustra, por si só, a fractura virtualmente inultrapassável que impede o país de progredir: um défice gritante de formação a que, aparentemente, nos rendemos. Esta justificação para um 22º lugar (entre 27) no ranking de utilizadores regulares de internet, ainda que honesta e rigorosa, não pode deixar de nos arrepiar: “a mais baixa (percentagem da população adulta com educação secundária) dos 27 países da UE”.

E estes dados devem-nos fazer pensar a todos em formas de inverter esta situação pela simples razão de que a literacia digital é um factor objectivo de exclusão social. Paradoxalmente agravada pela adopção de medidas que visam facilitar a prestação de serviços públicos por esta via. É, de facto, uma história de “ovos e galinhas”, mas é por demais evidente que nenhuma estratégia será bem sucedida se decidir aproveitar destes dados os indicadores positivos e esquecer os negativos, com a desculpa fácil de que temos muitos “analfabetos funcionais e info-excluídos”. A concentração de esforços na inversão desta tendência deve, por imperativos sociais e democráticos, sobrepôr-se ao investimento na adopção de soluções tecnológicas que servem minorias. Não se trata dum clássico “enquanto houver um analfabeto funcional no país não devemos gastar um tostão em projectos de eGov”, mas de procurar compreender quais as medidas que facilitam o acesso, de facto e quais aquelas que têm sido ineficazes.

Fazer perguntas simples e procurar responder com rigor:

  • como se demonstra e explica a utilidade das novas tecnologias a populações “info-deprimidas”?
  • como se constróem e conquistam espaços de cidadania onde as novas tecnologias desempenham um papel útil e, assim, consolidam o seu espaço?
  • como se utiliza a escola para promover a adopção das novas tecnologias para lá dos seus limites físicos?
  • como se consolida o espaço virtual como espaço de comunicação e participação cívica?
  • como se desenvolve o potencial económico do espaço virtual nacional?

A muitas destas perguntas os especialistas e os homens da propaganda responderão com siglas e nomes de programa já executados e em curso que se orientam, teoricamente, em função destes objectivos. Mas, se olharmos para os dados dos últimos quadros deste relatório, percebemos que talvez alguns desses programas tenham bases pouco sólidas: na percentagem de pessoas empregadas com competências de utilizador de TICs, estamos em 26º, apenas à frente da Roménia, e na percentagem de pessoas empregadas com competências de especialista em TICs, estamos em 21º. Significa isso que uma parte significativa dos esforços desenvolvidos no terreno, junto de empresas e organizações, são realizados no vazio, sem interlocutores válidos para a implementação de medidas nestas áreas. Parece por isso mais relevante, ainda, reforçar a ideia do investimento na formação em TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) como competência cívica elementar: a conquista de novos utilizadores pela via da participação cívica, como indivíduos será mais eficaz do que a sua instrumentalização no local de trabalho, onde as pressões laborais podem ter um efeito adverso. Para a conquista destes novos utilizadores-cidadãos, precisamos, como de pão para a boca, de níveis absolutamente diversos de conteúdos, o eterno calcanhar de Aquiles da internet “portuguesa”. Produzimos poucos conteúdos e de fraca qualidade; nas Universidades, por exemplo, faltam projectos de disponibilização aberta dos poucos conteúdos de qualidade que temos e abundam projectos fechados, nos quais se adivinham, ora grande tesouros, ora “porcas misérias”. As pesquisas em português devolvem sistematicamente resultados produzidos no Brasil, nem sempre com qualidade, mas sem que nunca se perceba a inexistência de equivalente ou alternativas portuguesas. Ou devolvem conteúdos irrelevantes. E, para quem dominar a língua inglesa, mais frustrante será saber que, muitas vezes, há conteúdos de qualidade a serem criados cá, mas na chamada “língua franca”, para aumentar a visibilidade, mas com o efeito perverso de diminuir a acessibilidade aqui.

Na escola, a iniciativa e-escola é bem exemplo do que não se devia fazer, na minha opinião: ao privilegiar e financiar a aquisição privada de computadores e a contratação de serviços de ligação à internet, o estado dinamiza o comércio de serviços e produtos, e esquiva-se ao papel fundamental de assegurar as infra-estruturas humanas, mais que técnicas, que poderiam fazer funcionar comunidades educativas em rede. O dinheiro vertido no comércio de laptops, seria mais útil na formação continuada de professores, na manutenção de redes informáticas adequadas (leia-se com técnicos responsáveis), na criação e difusão de conteúdos em rede, na abertura das infra-estruturas técnicas das escolas às comunidades que ali poderiam (re)construir os seus centros cívicos. Menos computadores, mais bem usados, prioridade a soluções abertas, livres e gratuitas, combate ao desperdício que consiste a aquisição de tantos laptops, cuja obsolescência se confirma em poucos anos… estes factores de rigor na gestão dos recursos permitiriam “fazer mais com menos” e, ao concentrar os recursos técnicos e humanos em torno das escolas, poderíamos assistir a um curiosos fenómeno: as pessoas aproximavam-se umas das outras fisicamente, para descobrir as vantagens de generalizarem essa aproximação no mundo virtual. Compreendia-se de forma mais profunda o significado e a importância das relações (dos vários tipos de relações) no contexto dum mundo tendencialmente virtual. Perceber-se-ia, talvez, que, num mundo de informação e comunicação, passar demasiado tempo a olhar e polir os nossos umbigos é disparatado: há imensa gente e imensos umbigos mais interessantes que o nosso com que nos podemos relacionar.

E, entre olhar para o próprio umbigo e passar a olhar o umbigo do outro, dá-se uma tão grande mudança de postura que talvez possamos ver a linha do horizonte.

Twitter, Facebook e Friendfeed… cuidado com a onda

Quem acompanha este blog terá notado um decréscimo significativo de actividade, inversamente proporcional ao tempo que tenho dedicado à comunicação online. Curioso. A verdade é que, depois de aderir ao Twitter e de sincronizar a partir dali o meu estado no Facebook, comecei a usar com alguma intensidade estas plataformas, porque se ajustam ao meu (pior) comportamento obsessivo-compulsivo, com intervenções curtas, e respostas rápidas. Percebi, de novo, que uma das coisas mais interessantes (e mais perigosas, como distracção) da vida social online é, como na vida real, um nível elevado de interacção. Pergunta, resposta, comenta, faz um aparte, manda uma boca, partilha um link ou uma imagem… tudo isso é fácil, imediato e “real” no Twitter, que tem como principal desvantagem a superficialidade inerente às rajadas de 140 caracteres, a confusão do meio, onde se torna difícil perceber quem disse o quê e a que propósito e um potencial de vício que se torna fundamental combater. O Facebook ajuda a organizar algumas coisas e tem sido um ponto de contacto interessante e até inesperado com muitas amizades reais, mas foi com o Friendfeed, a que aderi, entretanto, que descobri que posso combater parte destas desvantagens, por não ter os mesmo limites de caracteres e, acima de tudo, por poder cruzar conteúdos de várias fontes e republicar nos contextos relevantes.

Com estas novas ferramentas e hábitos, não tenho ainda a certeza de qual pode ser o papel do blog, mas é evidente que muitas coisas que, em tempos, “mereciam” um artigo, agora são mais eficazes, seja na divulgação, seja na recolha de feedback, se forem difundidas como um simples tweet, ou partilhadas via Friendfeed.

Teoricamente já sabia que assim era: li os artigos dos “especialistas” em social media que estão na berra, consultei os sites das plataformas e testei timidamente alguns serviços. Mas mantive-me à distância, acima de tudo, por precaução: sei que este é um terreno em que facilmente posso deixar de distinguir entre o uso razoável, o uso distraído e o uso obssessivo, até porque sou hábil na racionalização dos meus vícios e das minhas distracções. Sempre fui.

Este é, por isso, aquele ponto em que me reconheço no topo da crista da onda que não me pode engolir. Primeiro passo está dado.

Singularidades gravitacionais semânticas no espaço virtual

Como já devem ter percebido, neste blog escreve-se sobre muitos assuntos. Mas como usei a palavra “sedução” no título dum post recente, os avançados algoritmos usados pelo AdSense para apresentar publicidade relevante no contexto do blog parecem ter sido sugado pelo incrível campo gravitacional desta palavra:

Publicidade no blog com a distorção introduzida pela palavra \"sedução\"

Para mim, estas “singularidades gravitacionais semânticas” não são novidade, mas nunca me tinha apercebido dum exemplo tão disparatado e/ou evidente, com excepção dos hilariantes anúncios a comida de cão e remédio para pulgas no blog do Pedro Aniceto, claro.

Também sei que, por causa da classificação deste post no sistema de tabs e categorias, com referências ao AdSense, ao Google e questões similares, tudo isto vai mudar rapidamente para o maravilhoso mundo das optimizações para motores de busca (SEO e SEF), optimização de conteúdos para criação de rendimento através de publicidade and so on… em algumas coisas, as singularidades da web são muito previsíveis. ;)

Uso, Permanência e Existência: os 3 estados “online”

Nos dias com muito tempo livre (mesmo que o tempo só seja livre em algumas áreas mais irresponsáveis do meu subconsciente), dou por mim a pensar em coisas parvas com uma certa conotação filosófica.

Hoje, por exemplo, a propósito de passar grandes temporadas sem ter sequer uma ligação à internet e, apesar disso, haver gente que acha que eu tenho uma existência “online”, cheguei à conclusão de que existem 3 estados ou modos de interagir com a internet (refiro-me a sites, correio electrónico e todos os protocolos e serviços baseados na rede). Estes “estados” são aplicáveis aos indivíduos e às organizações, ainda que com adaptações, como se percebe. E quer os indíviduos, quer as organizações são capazes de mudar entre estados, da mesma maneira que a água se evapora ou solidifica, de acordo com a temperatura.

  • Uso — é o estado mais elementar de interacção. As pessoas que simplesmente “usam” a internet fazem-no da mesma forma que usam telefones, televisões, jornais ou mesas de café. A sua vida não foi (conscientemente, pelo menos) mudada pela utilização desta ferramenta. Abordam os conteúdos online como leitores-consumidores e não interagem profundamente nos sites que consultam. Usam o correio electrónico e/ou trocam mensagens instântaneas com colegas e amigos. Não participam em comunidades ou fóruns, mas podem ocasionalmente, comentar um artigo num jornal e podem até ter um perfil no hi5 ou sucedâneo, porque um amigo ou conhecido sugeriu. Não se sentem parte da internet e não sentem (conscientemente) a sua falta, ainda que possam ser os primeiros, no trabalho ou na escola, a queixar-se se houver um corte no acesso.
  • Permanência — é o que acontece a um utilizador que se entrega aos (ou é absorvido pelos) mecanismos de interacção das diversas plataformas online. As pessoas que “permanecem” ou, mais simplesmente, que “estão” online, não se limitam a “usar” as ferramentas. Sentem-se parte do fenómeno e têm actividades regulares de definição de território pessoal: criam um blog, registam-se em várias redes sociais, de acordo com os seus perfis, comentam artigos em sites de vários tipos, participam em fóruns… isto além de usarem o correio electrónico e as mensagens instantâneas para todas as áreas da sua vida: família, trabalho, lazer, etc. A internet mudou a vida destas pessoas, e elas têm consciência disso. Identificam os “seus” espaços, privados e comunitários. Fazem da sua actividade e do seu “território” online, parte da sua apresentação e descrição como pessoas. E, claramente, há coisas que não saberiam fazer sem estas ferramentas.
  • Existência — quando quem “está” online, fica tão absorvido por ferramentas e serviços online que se convence que para cada uma das áreas da sua vida há alguma coisa online que pode melhorar ou facilitar a sua vida real e que, quando isso não acontece, começa a descurar esses aspectos da realidade, pode-se afirmar com propriedade que essa pessoa passou a “existir” online. São as pessoas que, conscientemente ou não, tentam assegurar-se de que terão sempre uma forma de estar ligados, mas mais do que isso, são as que fazem um investimento emocional desproporcionado na sua actividade virtual. Não são necessariamente as que têm net nos telemóveis e placas de banda larga portátil, mas são as que twittam no percurso entre casa e trabalho, as que, em vez de perguntarem a quem passa, usam um site ou serviço online para saber onde fica a farmácia ou o restaurante mais próximo. As que dão por elas a pensar, a cada momento, que deviam ter consigo uma máquina fotográfica ou de filmar para poderem transformar cada pedaço de realidade em registo digital partilhável. Mais do que isso; as que têm dificuldade em captar, usufruir e reagir ao mundo físico que as rodeia, mas têm um interesse quase mórbido pelas últimas actualizações no seu agregador de conteúdos, ou pelos vídeos mais populares do YouTube, ou…

Acho que já devo ter passado por estes 3 estados, em níveis diferentes e por razões diferentes e acho que conheço pessoas mais ou menos estabilizadas em cada um deles. Mais do que isso, conheço pessoas que ocupam variadíssimos lugares intermédios nesta escala ultra-simplificada e sei que o processo que nos leva duns estados a outros resultam duma mistura complexa de decisões conscientes, omissões e constrangimentos. Sei que me sinto limitado ou “reduzido”, quando não posso fazer mais do que “usar” a internet. Sei que já me assustei com a sensação de que tinha estado a “existir” online. Sei que sinto algum conforto no “meu” espaço online. Mas (agora) sei que nada disto é verdadeiramente relevante comparado com a esmagadora dimensão que tem a vida real.