jazz.pt | Jazz no Parque 2010

JAZZ NO PARQUE 2010, 19ª edição
Ténis do Parque de Serralves

A edição deste ano do Jazz no Parque desenrolou-se em 3 tardes de sábado solarengas que fizeram do Parque de Serralves um óptimo sítio para se estar e todos os concertos atraíram um público considerável, com os 2 últimos concertos lotados com alguma antecedência e uma atmosfera de festa que se reflecte em todos os aspectos do festival e contribui para a justa afirmação do evento. O ambiente familiar, com muitas crianças no recinto e grandes grupos de várias gerações de apreciantes de música e jazz, mantém-se como uma das marcas identitárias do ambiente do Jazz no Parque mas este ano, viveu-se também a atmosfera mais intensa que um maior número de pessoas e um eventual maior entusiasmo em alguns momentos, produz.
Quanto à programação, este ano a presença portuguesa foi assegurada pelo Bernardo Sassetti Trio (com o convidado Perico Sambeat), com grande sucesso e entusiasmo por parte do pianista que, desde a primeira edição do Jazz no Parque que esperava voltar a tocar no festival, e, ao contrário do que sucedeu em anos anteriores, os outros 2 concertos vieram do outro lado do Atlântico— o Vijay Iyer Trio e Contact—, mas a diversidade de propostas estéticas que António Curvelo tenta muitas vezes assegurar incluindo uma proposta de jazz “europeu”, estava claramente patente neste tríptico que permitiu ao público que se deslocou a Serralves ouvir propostas claramente alternativas e de grande qualidade, através das quais se podem projectar os futuros do jazz, enquanto se compreende parte da sua história, missão a que o Jazz no Parque se propõe todos os anos, 3 concertos de cada vez. Continuar a ler

jazz.pt | Jazz no Parque 2009, Regresso à História

Jazz no Parque

18ª edição
18 e 25 de Julho e 1 de Agosto de 2009
Ténis do Parque de Serralves

A edição que marca a maioridade do Jazz no Parque e que coincide com o duplo aniversário de Serralves (20 anos da Fundação e 10 anos do Museu de Arte Contemporânea) teve como principal novidade o facto de se apresentarem 2 projectos originais, resultantes de encomendas do seu programador, António Curvelo, facto que não sucedia desde 2002. As encomendas, dirigidas a Mário Barreiros e a Bennie Wallace, ilustram com rigor a orientação programática deste festival— em rigor, trata-se dum ciclo de 3 concertos— que aposta na divulgação e afirmação dum Jazz de pés bem assentes na história. Se em anos anteriores assistimos a alguns concertos mais “arriscados”, protagonizados por músicos que circulam com gosto por algumas fronteiras estilísticas e se aventuram, a espaços, por algum discurso mais vanguardista, esta edição, em grande parte, graças às encomendas dirigidas, afirma um regresso a um Jazz mais convencional, que celebra respeitosamente o passado e arrisca muito pouco na definição de futuros (im)possíveis.

18 Julho 2009, 18h00
Mário Barreiros
Kind Steps – O Legado de 1959

  • Mário Barreiros bateria
  • Abe Rábade piano e direcção musical
  • Carlos Barretto contrabaixo
  • Avishai Cohen trompete
  • Ben Van Gelder sax alto
  • Jesús Santandreu sax tenor

A Mário Barreiros, António Curvelo sugeriu a invocação do ano mítico de 1959 em que se editaram obras incontornáveis para o futuro do Jazz— como “Kind of Blue”, de Miles Davis, “Giant Steps”, de John Coltrane, “The Shape of Jazz to Come” e “Change of the Century”, de Ornette Coleman e “Mingus Ah Um” e “Blues and Roots”, de Charles Mingus—, ao mesmo tempo que se consolidavam alguns dos alicerces sobre os quais se construía esse futuro— com edições como “Portrait in Jazz”, de Bill Evans, Scott LaFaro e Paul Motian, “Sevem Pieces”, de Jimmy Giufre 3, “Modern Jazz Classics”, de Art Pepper com Eleven ou “Blowin’ the Blues Away”, de Horace Silver. Uma viagem de 50 anos no tempo para a qual Mário Barreiros chamou o pianista galego Abe Rábade, para dirigir um sexteto e se debruçar sobre os propostos “Kind of Blue”, “Giant Steps”, “Mingus Ah Um” e “The Shape of Jazz to Come”, acrescentando “Cannonball Takes Charge”, de Cannonball Adderley e “Anatomy of a Murder” de Duke Ellington.
“Kind Steps – O Legado de 1959″, pelo sexteto de Mário Barreiro e com direcção musical de Abe Rábade foi, assim, a primeira proposta a subir ao palco do Ténis do Parque de Serralves, no dia 18 de Agosto, com Avishai Cohen (trompete), Ben Van Gelder (sax alto), Jesús Santandreu (sax tenor), Carlos Barretto (contrabaixo) e os próprios Mário Barreiros (bateria) e Abe Rábade (piano).
Mário Barreiros e Abe Rábade, na escolha dos temas e nos arranjos, aprofundaram o carácter historiográfico da encomenda e todo o ensemble pareceu empenhado numa reconstituição relativamente fiel, ou pelo menos, académica, dos temas seleccionados. Uma de muitas opções possíveis, eventualmente a menos pertinente, dada a miríade de reconstituições a que este reportório é submetido diariamente em escolas e clubes de jazz. Uma selecção mais criteriosa dos temas a abordar ou um tratamento estilístico- quer nos arranjos, quer na interpretação, quer nos solos- menos “colado” aos originais teria eventualmente sido mais refrescante e poderia mesmo ter-se afirmado como uma estratégia mais confortável para os músicos que, com excepção de Abe Rábade, claramente alinhado com a proposta e Avishai Cohen, o único solista que parecia confortável nas mudanças de registo e se libertou um pouco mais nos seus solos, pareciam demasiado constrangidos.
De forma geral, o concerto em forma de revisitação desta música seminal, mas com mais de 50 anos, poderia ter sido uma oportunidade de perspectivar futuros, mas o ensemble conduziu o concerto de forma quase reverencial, acertando os registos, as sonoridades e os vocabulários de improvisação de acordo com os originais, eliminando quase por completo a afirmação de alguma singularidade. E ao debruçar-se mais sobre as edições menos controversas de 1959 (de Ornette Coleman só tocaram “Chronology”, por exemplo), seleccionando clássicos como “All Blues”, de Miles Davis, “Blue in Green” de Bill Evans/Miles Davis, “Almost Cried” de Duke Ellington, “Syeda’s Song Flute” de Coltrane e “Better Get it in your soul” e “Goodbye Porcupine” de Mingus, que só muito raramente foram tratados como material “novo”, o concerto tornou-se académico e até, em alguns casos, aborrecido, apesar da excelente qualidade técnica dos intérpretes.

25 de Julho de 2009, 18h00
Donny McCaslin Group

  • Donny McCaslin sax tenor
  • Ricky Rodriguez contrabaixo
  • Jonathan Blake bateria

A presença do trio dirigido pelo saxofonista norte-americano Donny McCaslin foi o único concerto que não resultou de encomenda directa do Jazz no Parque e consistiu na apresentação dos álbuns já editados pelo grupo, particularmente “Recommended Tools” (GreenLeaf Music 2008), gravado com Jonathan Blake e Hans Glawischnig. Donny McCaslin apresenta um jazz contemporâneo ancorado em referências históricas sólidas, articulado num vocabulário bem estruturado, dialogante com um universo musical externo, mas próximo— como a música brasileira (Hermeto Pascoal é uma das suas referências) ou a pop (um dos temas é dedicado a Madonna)—, mas um dos factores determinantes no impacto que a sua performance tem sobre o público é o seu virtuosismo e o extraordinário rigor técnico que todo o grupo assegura, sem sacrifício da musicalidade. A significativa capacidade técnica de Donny McCaslin, quer na fluidez e rapidez do fraseado, quer no rigor da afinação e no detalhe tímbrico expressivo, acompanhado a grande nível quer por Jonathan Blake, quer por Ricky Rodriguez, colocam a performance do trio num nível de execução difícil de atingir e permitem uma grande exploração dos temas, cuja construção demonstra à partida uma enorme confiança na capacidade técnica dos intérpretes. Ainda assim, a “força da técnica” não esmaga a musicalidade da performance, fazendo lembrar a máxima dedicada aos bailarinos clássicos e aos patinadores do gelo de que não devem em nenhuma altura deixar transparecer a dificuldade associada aos seus movimentos, já que isso se traduzirá em desconforto para o público. O Donny McCaslin Group cumpre esse requisito clássico, apresentando uma performance envolvente e, em alguns momentos estonteante, com o virtuosismo a servir propósitos musicais.
E se, globalmente, a música do Donny McCaslin Group se mantém fiel a formas clássicas do jazz, a disponibilidade do solista em assumir papéis tradicionalmente atribuídos à secção rítmica, liberta a estrutura do trio para outras explorações e para a afirmação completa de cada um dos intérpretes, que acontece quer em solos, quer em duos, quer na forma de pergunta-resposta.
O concerto evolui, passando revista e reconhecendo algumas das influências menos óbvias de Dony McCaslin, como Hermeto Pascoal e Bill Frisell. O seu registo, recorda, a espaços, e de acordo com os ambientes, a fluidez de fraseado de Michael Brecker ou o timbre luminoso de Jan Garbarek, mas a sua voz afirma-se de forma inequívoca, com o acompanhamento certeiro e cúmplice de Jonathan Blake (com 1 grande solo em “3 Signs” entre várias intervenções notáveis) e a grande qualidade de Ricky Rodriguez, quer em papéis mais tradicionais, quer no desenvolvimento de solos, ou na introdução de temas como “Late Night”, com a devida vénia a Bill Frisell.

1 de Agosto de 2009, 18h00
“Bennie Walace Plays Monk”

  • Bennie Wallace sax tenor
  • Donald Vega piano
  • John Hebert contrabaixo
  • Yoron Israel bateria

Ao saxofonista norte-americano Bennie Wallace, António Curvelo sugeriu uma nova incursão ao universo do génio Thelonious Monk, recuperando um projecto de 1981 do saxofonista do Tennessee. Bennie Wallace, já com uns respeitáveis 62 anos, aceitou o convite com generosidade e entusiasmo, dada a presença regular do reportório de Monk nos seus projectos, o seu enorme potencial e as possibilidades criativas ainda por realizar. Apresentou-se numa formação clássica de quarteto, com Donald Vega, John Hebert e Yoron Israel e entregou-se a um concerto que teve grandes momentos, mas no qual se puderam também notar as naturais fragilidades associadas à sua idade: quer nas dificuldades de articulação mais rápida de algum fraseado, quer na afinação e timing de algumas intervenções.
Mas esses momentos mais frágeis humanizam uma performance marcada pela generosidade e entrega e pelo inconformismo: Bennie Wallace, logo na primeira introdução a solo, em “Twinkle, Twinkle”, mostrou que pretendia explorar e reinventar o genial reportório de Monk, mais do que se limitar a interpretá-lo, e assim o fez, quer nos solos, quer na forma de apresentar os temas. Entre os músicos que o acompanhavam, destaque, pela positiva, para o contrabaixista John Hebert (grande solo em “Heavy Rotation”), muito atento e alinhado com Bennie Wallace e, pela negativa, para o baterista Yoron Israel, a quem parecia faltar convicção na interpretação mais livre e criativa deste reportório.
As flutuações na performance de Bennie Wallace, a quem, por vezes, parecia faltar em forma física o que sobrava em energia criativa marcaram o desenvolvimento do concerto, mas o génio de Monk foi assinalado de forma genuína e momentos como o solo (mesmo a solo) de Bennie Wallace, em “Round About Midnight”, elevaram o concerto a um outro nível, musical e emocional.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Jazz no Parque 2008

Texto escrito por João Martins, a 23/09/2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 21 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Jazz no Parque 2008

12, 19 e 26 de Julho de 2008
Campo de Ténis do Parque de Serralves

A cada ano que passa, interrogo-me se a relação do Jazz no Parque com a Fundação de Serralves e com o(s) seu(s) público(s) sofrerá algum tipo de evolução. É que os 3 concertos ao ar livre, em 3 fins-de-semana estivais consecutivos permanecem aparentemente desligados da programação geral do Museu de Arte Contemporânea e, apesar da sua longevidade e do estatuto adquirido, não se vislumbram iniciativas que promovam vivências mais profundas das propostas que o Jazz no Parque apresenta ao público.

Em 2008, a proposta de programação de António Curvelo repete a fórmula de 2007, trazendo ao Ténis de Serralves, um concerto “norte-americano” (Matt Wilson’s Arts & Crafts, em 2007 e Steve Kuhn Trio, em 2008), um “português” (OJM com John Hollenbeck, em 2007 e “Cubo“, de André Fernandes em 2008) e um “europeu” (Strada Sextet de Henri Texier, em 2007 e o Quarteto de Michel Portal, em 2008). A repetição desta “visão tripartida” não apresenta “per se” qualquer inconveniente, assim como a presença de “repetentes” (Joey Baron, Michel Portal, Bruno Chévillon, Daniel Humair, André Fernandes, Mário Laginha, Alexandre Frazão são alguns dos músicos que regressam ao Jazz no Parque) não é, “per se” “sinal de fraqueza”. Concordo com António Curvelo quando afirma que, no jazz contemporâneo, o mesmo músico se pode apresentar “com identidades múltiplas, conforme o(s) tempo(s) e o(s) modo(s) em que se move”, pelo que a repetição de nomes não conduz à repetição da música ou do evento.
Porém, acredito que estes dois factores cruzados e o número crescente de “repetentes” num festival que se faz de 3 eventos apenas, com agrupamentos, em regra, pequenos, pode conduzir a um fenómeno de desgaste e conduz certamente, apesar dos melhores esforços de António Curvelo, a um certo sentimento de “déja vu“, ou “déjà entendu” por parte do público mais fiel.
Num evento com a dimensão do Jazz no Parque e com o perfil de público que se vai afirmando/cristalizando, poderá até ser uma opção estratégica. Mas programar um festival de jazz, ainda que apenas com 3 concertos, sem (alguma) ousadia e sem correr (grandes) riscos não parece coerente nem com a natureza da música que se pretende divulgar, nem com a natureza da instituição promotora.

Mas há Verões e Verões, e há Outonos que se parecem precipitar, pelo que estas considerações pessoais valem apenas e só por isso mesmo e em nada beliscam a qualidade de cada um dos concertos apresentados.

Da memória dos 3 concertos, surpreendentemente, realçam-se 3 nomes: Joey Baron, Alexandre Frazão e Daniel Humair.
Os 3 bateristas, por razões puramente emocionais-musicais, foram os que deixaram memórias mais marcadas e vivas, no que é apenas mais um sinal do lugar que a bateria, enquanto conjunto de instrumentos, ocupa no panorama do jazz contemporâneo e da importância de bateristas capazes de construir e usar criativamente uma voz inconfundível no instrumento, além de respeitarem os constrangimentos “funcionais-operacionais” básicos do jazz.

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jazz.pt | report #2: Jazz no Parque 2007

16ª edição do Jazz no Parque

Texto escrito por João Martins, a 09/08/2007.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 14 da revista jazz.pt, com fotografias de Luís Pedro Carvalho.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

16ª edição do Jazz no Parque | Fundação de Serralves
Programação: António Curvelo
21, 28 de Julho e 4 de Agosto de 2007 | Ténis do Parque de Serralves, 18h00

O Jazz no Parque é um evento especial no calendário do Jazz no Porto e no país.
Um local magnífico, um ambiente informal e quase familiar, uma sequência curta de concertos espaçados, um público fiel e uma distinta “agenda”, definida e defendida pelo seu programador: “manter aberta a geografia contemporânea do jazz, sem exclusivos continentais ou sectarismos conceptuais”.

Não se lhe pode chamar um festival de jazz, nem parece ser essa a ambição ou vocação deste formato baseado em concertos isolados que se apresentam como experiências autónomas, relacionadas apenas de forma ténue nas intenções expressas na programação…
O Jazz no Parque é isso mesmo: uma experiência relativamente pura de fruição de Jazz, no Parque de Serralves, com todas as vantagens e desvantagens assumidas conscientemente pela Fundação.

Se se pode argumentar que num país com tão parca oferta, o aproveitamento da presença de alguns destes músicos para a realização de outras actividades (relacionadas com o Serviço Educativo, por exemplo) ou a contribuição para alguma rotação dos projectos apresentados no curto circuito nacional teria um impacto relevante na consolidação de públicos e comunidades de “fruição” mais aprofundadas ou na formação de novos músicos nacionais, temos que admitir que dificilmente uma abordagem desse tipo permitiria a manutenção do tal ambiente informal e familiar que os concertos destas tardes de verão continuam a ter e que tem um valor em si mesmo, por exemplo, na diversidade dos públicos e das suas atitudes.
O apelo que este ciclo de concertos mantém reside precisamente numa certa “leveza” que lhes está associada: os guarda-sóis no palco e na plateia, os check-sounds abertos ao público, as famílias completas com crianças, alguns apartes dos músicos entre eles e para o público… tudo isto contribui para uma experiência singular.

E esta 16ª edição apostava, no contexto dos objectivos expostos pela programação, numa “triangulação” capaz de passar fronteiras geográficas e conceptuais e a fórmula encontrada parecendo simples, foi, sem dúvida, eficaz: o quarteto norte-americano “Arts & Crafts” de Matt Wilson a tocar “clássicos” com inteligência, muito talento e bom humor, o sexteto francês de Henri Texier, militante em causas sociais e culturais que também passam pelo desenvolvimento de um jazz “internacionalizado” e o empolgante encontro da “nossa” Orquestra Jazz de Matosinhos com a música exigente de John Hollenbeck.

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jazz.pt: um ano de colaboração

jazz.ptO Jazz no Parque começou no fim de semana passado e dei por mim a pensar que, de facto, já passou pouco mais de um ano desde que comecei a colaborar na jazz.pt. Momento de balanço? Pode ser…

Foi a convite do Rui Eduardo Paes que iniciei esta colaboração que me tem dado muito a aprender sobre a música, a escrita sobre música, o gosto (meu e dos outros), o(s) público(s) e as dinâmicas entre músicos, lugares, eventos, instituições e públicos. Combinações voláteis e muitas vezes ilusórias que a observação atenta nunca desmonta completamente. Continua a ser o Rui a “marcar” a minha agenda de colaborações e isso é, apesar de tudo, confortável, até porque me sinto suficientemente apoiado e confiante para poder avançar com propostas minhas e “temperar” algumas das dele. Mas não fui eu que avancei com a ideia do artigo sobre a “minha” Fanfarra (#17) nem sobre as escolas de Jazz em Aveiro (#18), apesar de ser nesses casos, mais responsável e não ser, de todo, um trabalho igual aos “reports” sobre concertos que comecei a fazer em Julho de 2007.

jazz.pt #15, capaMedeski, Scofield, Martin & Wood @ Casa da Música 2007/07/06
O report foi publicado no #15 por falta de espaço no #14. Começar esta nova função com um concerto desta dimensão, na Sala Suggia, com muito público e com várias eminências (umas mais pardas que outras) do Jazz em Portugal nas proximidades foi uma experiência curiosa. A reacção muito simpática do Rui Eduardo Paes ao texto, foi importante para estabelecer a relação de confiança que tem prolongado e aprofundado a colaboração. O facto de ter sido um concerto de (ou com, como preferirem) “consagrados” e de ter ficado abaixo das (minhas) expectativas foi também um desafio, que justificou na altura, e continua a justificar, este meu investimento voluntário. A publicação em diferido, largos meses depois do concerto, habituou-me às contingências duma revista bimestral, que confere aos textos um peso bem diferente do bitaite de circunstância ou do post impressivo/intempestivo. O que eu faço na jazz.pt não se trata (creio) de crítica “pura” ou matéria jornalística (eu sou músico e, por essa via, público especializado, mas não sou nem crítico nem jornalista), mas cumpre parte do papel da crítica e, nesse sentido, reveste-se duma importância que não me passa ao lado. Infelizmente, é (ainda?) um exercício com muito pouco retorno e, por isso, evolui ao meu ritmo.

jazz.pt #15, capaJazz no Parque 2007 @ Serralves 2007/07/21 a 2007/08/04
Matt Wilson’s Arts & Crafts
Orquestra de Jazz de Matosinhos com John Hollenbeck, Theo Bleckmann e André Fernandes
Strada, o sexteto de Henri Texier
O primeiro “festival” que cobri, com publicação no Especial Festivais do #14 e, portanto, a primeira colaboração a chegar às bancas. Escrever sobre os 3 concertos em particular, ao mesmo tempo que escrevia sobre o Festival (ou o seu contrário) foi um óptimo complemento às agradáveis tardes de verão e música.

jazz.pt #17, capaAnthony Braxton @ Casa da Música 2008/01/28
Uma enorme responsabilidade, perante o génio de Anthony Braxton e face à(s) particularidade(s) da(s) sua(s) proposta(s) e da(s) sua(s) relação(ões) com o(s) público(s). O report foi publicado no #17 e é um marco, para mim: um dos melhores (e mais estimulantes) concertos a que assisti nos últimos tempos, deu, felizmente, origem a um texto de que me orgulho.

Marta Hugon | Fieldwork @ Casa da Música 2008/02/03
Uma estranha proposta dupla da Casa da Música: a suavidade (excessiva) de Marta Hugon é verdadeiramente inconciliável com a áspera densidade de Fieldwork. Uma óptima oportunidade para ver como funciona(m) o(s) público(s) de jazz. Report publicado também no #17.

F.R.I.C.S., um ano de estrada
O desafio para escrever sobre a experiência de digressão missionária e contínua da F.R.I.C.S. foi lançado uns meses antes, mas precisou de ser “digerido” até que eu encontrasse um formato adequado. Viu a luz do dia no #17, e é uma peça honesta, algures entre o “diário de guerra” a reportagem objectiva e plena de dados relevantes e a reflexão sobre as nossas particularidades (do projecto, dos músicos portugueses e das pessoas em geral…). Além disso, soberbamente ilustrada com as fotomontagens dos Soopa. Um documento.

jazz.pt #18, capaEscolas de Jazz em Aveiro: Riff e Oficina de Música de Aveiro
A minha primeira colaboração na série de artigos que a revista dedica aos projectos pedagógicos espalhados pelo país aconteceu no #18. Um panorama que tentei que fosse amplo, honesto e construtivo e que espero possa ajudar os projectos da cidade a crescer. Permanece a dúvida sobre quem lê a revista e que reacção terá, infelizmente. Mesmo localmente.

jazz.pt #19, capaBernardo Sassetti e convidados @ Casa da Música 2008/04/28
Jason Moran @ Casa da Música 2008/04/29
Dois concertos unidos pelo piano e pela forma da homenagem a figuras incontornáveis da História do Jazz: Charlie Parker, primeiro e Thelonious Monk., depois. Homenagens reais e com sentido, não simples vénias. Momentos para aprender e comprovar como se constrói o futuro do Jazz aos ombros de gigantes. Grandes concertos. Report neste último #19.

Scorch Trio @ Casa da Música 2008/05/27
Um cruzamento do Ciclo Nórdico com a Programação de Jazz que não foi bem explicado ao(s) público(s) e, por isso mesmo, frustrou muitas expectativas de quem vinha ao engano. O report está neste último #19.

Nos últimos 6 números, “falhei” um, o #16, com o balanço de 2007 e nem tudo tem corrido como devia, mas estou pessoalmente satisfeito com o que já consegui fazer e com o que me parece que já aprendi. E agrada-me estar voluntariamente associado a um projecto desta natureza: corajoso, honesto e exigente, mesmo que fruto do sacrifício pessoal de todos os envolvidos. (mais) Um exercício de militância…

Caso agradem ao editor os textos já submetidos, o próximo número contará com reports sobre a apresentação de Blood on the Floor, de Mark-Anthony Turnage, pelo Remix Ensemble, na Casa da Música (2008/07/05) e sobre o insólito evento protagonizado (involuntariamente) pelo Saxophone Summit na Casa da Música (2008/07/10).

Estou a ponderar a hipótese de pedir autorização à revista para ir publicando online excertos destes reports já publicado, para tentar aumentar a possibilidade de colher comentários e, quem sabe, sensibilizar potenciais leitores para o interesse de apoiar o projecto da revista, comprando-a. A ver vamos.

Mas, para já, este é um possível balanço do primeiro ano de colaboração. Excepção feita à talvez excessiva concentração sobre eventos na Casa da Música, não parece muito mal, pois não?

Nota: para quem não reparou, os links nos eventos da Casa da Música remetem para a Last.fm porque a Casa da Música não tem arquivo de eventos no seu site. Não faz muito sentido pois não?