jazz.pt | Jeffery Davis Quartet: Haunted Gardens

Haunted Gardens, Jeffery Davis Quartet
Haunted Gardens, Jeffery Davis Quartet

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

Haunted Gardens” é a estreia em disco, como compositor e líder do virtuoso percussionista luso-canadiano Jeffery Davis. O percurso relativamente meteórico, ainda que pouco notado, de Jeffery Davis é justamente assinalado, neste momento, com este registo de altíssima qualidade, onde se afirma, a par do seu virtuosismo como instrumentista, quer no vibrafone, quer na marimba, o seu talento e inteligência como compositor, a sua criatividade como improvisador e a sua visão enquanto líder. Desde logo, a escolha do grupo de músicos que constituem este quarteto e a adequação da escrita e desenvolvimento dos temas à sua personalidade, tem uma contribuição decisiva para a coesão do resultado final. André Fernandes, Nelson Cascais e Marcos Cavaleiro encontram na escrita de Jeffery Davis e na dinâmica de funcionamento do quarteto amplo espaço para a afirmação das suas identidades musicais em diversos registos, sendo de destacar a prestação de André Fernandes, que se apropria dos temas com grande conforto e solidez, mas também para Marcos Cavaleiro, que encontra e inventa, dentro da relativa convencionalidade estrutural dos temas, os momentos ideais para pontuar, esclarecer ou (des)equilibrar a dinâmica do grupo, com as doses certas de rigor e subtileza. Nelson Cascais, por sua vez, adapta-se muito bem às diferentes funções que lhe competem e à diversidade da escrita, em função, também do papel desempenhado por Jeffery Davis, que consegue, com grande rapidez, alternar entre funções rítmicas, harmónicas e melódicas.
“The Pitbull’s Revenge” a 4ª faixa do disco, destaca-se, de algum modo, por esclarecer de forma inequívoca o impacto da opção pela utilização do vibrafone e da marimba no universo tímbrico do quarteto e por representar, na fluidez com que o quarteto se move em estruturas rítmicas menos convencionais, o delicado equilíbrio entre simplicidade e virtuosismo que se mantém ao longo de todo o álbum.
Pela qualidade geral da composição e da interpretação, face à maturidade e ao equilíbrio na afirmação individual das personalidades musicais do quarteto, considerando a diversidade presente e a coesão global estética, que parece afirmar um arco narrativo consequente, da leveza do “Joao’s Cafe” à densidade de “Viktoria’s Nightmare”, onde o solo de Jeffery Davis se afirma como um gesto “precioso”, também na transição para o tema seguinte, mesmo tratando-se dum primeiro disco e apesar de não ser imaculado, creio ser justo dizer que estamos perante uma consagração.

Haunted Gardens, Jeffery Davis Quartet

TOAP Tone of a Pitch (2009)
Gravado em Lisboa (2009)

  • Jeffery Davis vibrafone e marimba
  • André Fernandes guitarra
  • Nelson Cascais contrabaixo
  • Marcos Cavaleiro bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 29 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Voladores, Tony Malaby’s Apparitions

Voladores, Tony Malaby's Apparitions
Voladores, Tony Malaby’s Apparitions

CLASSIFICAÇÃO: 5/5

Este quarteto Apparitions, de Tony Malaby, na sua própria constituição de saxofone, contrabaixo e 2 baterias contém uma agenda, que se entende tão melhor, quanto mais se observa o perfil e história dos 4 instrumentistas: Tony Malaby, o líder da formação, nascido no Arizona, afirma-se cada vez mais como um dos grandes saxofonistas criativos do nosso tempo, aliando técnica, musicalidade e versatilidade para colaborar com nomes incontornáveis no jazz americano e europeu, como Charlie Haden, Michel Portal, Paul Motian ou Daniel Humair. Drew Gress, contrabaixista, improvisador e compositor, actualmente dedicado à improvisação contemporânea e de vanguarda, colabora habitualmente com John Abercrombie, Tim Berne, Don Byron, Uri Caine, Bill Carrothers, Ravi Coltrane, Marc Copland e Mark Feldman, entre outros. Tom Rainey é um dos mais requisitados e flexíveis bateristas da actualidade, com colaborações regulares com Tim Berne e um historial interminável de gravações e concertos, onde se destaca a sua versatilidade na exploração da bateria como instrumento completo. E John Hollenbeck é, além dum baterista e percussionista completíssimo, um compositor e maestro requisitado, com uma expressão e universo musical muito próprio.
Para quem a singularidade da formação ou o perfil dos músicos é relativamente indiferente, a abertura do álbum com um tema inédito de Ornette Coleman, “Homogeneous Emotions”, é, de facto, um bom ponto de partida. Há, neste quarteto peculiar, e em parte da abordagem expressiva de Tony Malaby e na sua escrita, referências a Ornette, numa certa ambiguidade ou abertura harmónica e uma certa disponibilidade polirrítmica, que é, por isso, mais sensível à (con)sequência de frases e motivos melódicos expostos sobre bases rítmica e harmonicamente livres, onde o espaço dos músicos, independentemente do seu instrumento, é em grande parte definido pela capacidade de reacção/criação e pela interpretação subjectiva do significado do momento musical e do seu espaço.
Com 1 tema de Ornette Coleman, 3 improvisações em grupo e 7 temas de Tony Malaby, a sensação geral é a duma música que resulta coerente e que tem significado(s), multidireccional, que se eleva à condição de muitíssimo mais do que a soma das partes, sendo as partes, as contribuições de cada músico.
De facto, em cada momento de cada tema, o universo de possibilidades face à criatividade, flexibilidade e destreza técnica de cada um dos músicos parece inesgotável, mantendo-se, em cada configuração e independentemente da instrumentação disponível, uma enorme coesão, resultado da intencionalidade da escrita e liderança de Malaby, mas, sem dúvida, da atenção e da grande experiência musical dos seus parceiros, cada um deles, igualmente responsável pela construção de momentos verdadeiramente surpreendentes. Com as improvisações de grupo a pontuarem o disco com momentos de procura “pura”, a versatilidade e expressividade que aí ouvimos é generosamente utilizada nos momentos mais direccionados do disco.
O encontro entre John Hollenbeck e Tom Rainey é verdadeiramente extraordinário, sem redundâncias, nem sobreposições, com Hollenbeck a povoar todo o disco com timbres e sonoridades complementares à já diversificada paleta de Tom Rainey e, com a melódica, a dobrar a voz de Malaby com sucesso, por exemplo em “Lilas”. Com bases rítmicas e texturas excepcionalmente ricas, Drew Gress, consegue encontrar o seu justo papel, sem ficar preso a funções convencionais e usando todo o potencial do contrabaixo, de acordo com as exigências dos temas, entre um baixo mais convencional de “Homogeneous Emotions”, por exemplo, e os harmónicos e arcadas nervosas em “East Bay”. Tony Malaby, com um som profundo e cru, quer no tenor, quer no soprano, afirma uma voz urgente, mas determinada, capaz de grande beleza e fragilidade, mas também de vigor, excitação e mesmo violência.
Emoções geridas e equilibradas de forma consequente, num disco que corre seriamente o risco de se tornar imprescindível.

Voladores, Tony Malaby’s Apparitions

Clean Feed (2009)
Gravado em Nova Iorque (2009)

  • Tony Malaby saxofone tenor e soprano
  • Drew Gress contrabaixo
  • Tom Rainey bateria
  • John Hollenbeck bateria, percussão, marimba, vibrafone, glockenspiel, melódica, pequenos utensílios de cozinha
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 29 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Empty Cage Quartet, Gravity

Gravity, Empty Cage Quartet
Gravity, Empty Cage Quartet

CLASSIFICAÇÃO: 3.5/5

Sobre o Empty Cage Quartet a prestigiada The Wire escreveu que é “uma das melhores coisas no jazz a emergir no novo milénio”. Aos cínicos bastaria dizer que o milénio ainda agora começou, mas depois de ouvir “Gravity” não podemos, com seriedade, ignorar a proposta deste grupo emergente da costa leste. Tanto pela música que apresentam como pelos processos sugeridos. “Gravity”, consiste na interpretação de duas obras, “Gravity” de Kris Tine e “Tzolkien”, de Jason Mears, que se apresentam como processos de fazer nova música, modulares, contendo um conjunto de possibilidades rítmicas e melódicas, incluindo palíndromos e complexos exercícios de simetrias melódicas e harmónicas, assim como explorações numéricas, que possibilitam interpretações lineares e recombinações da responsabilidade dos intérpretes e das suas escolhas em tempo real.
Sem privilégio aparente de nenhuma perspectiva idiomática, a música do Empty Cage Quartet lembra, a espaços, um híbrido de jazz e música conteporânea erudita, por exemplo quando Jason Mears opta pelo clarinete, em “Tzolkien 1+13″, reminiscente de Anthony Braxton, mas pode aproximar-se dum jazz livre, próximo das estratégias harmolódicas de Ornette Coleman, como em “Gravity: Section 8″, ou do M-Base de Steve Coleman, por exemplo, mas, na diversidade de abordagens e sonoridades, este quarteto, que parece desdobrar-se em múltiplas personalidades, mantém, misteriosamente, uma identidade bastante particular.
A complexidade conceptual não é audível (não de forma avassaladora, felizmente), mas fornece uma matriz estrutural que permite que as 4 vozes individuais atravessem os mesmos espaços, em ondas largas ou sinuosas e por vezes, de forma bastante angulosa ou em sentidos inversos, mas, nos seus cruzamentos, encontros e desencontros, a música produzida reflecte, de facto, a existência dum sistema intrigante que nos permite identificar os tais “pontos de gravidade”.
Uma música e um sistema que nos desafia, mas não aliena nem os intérpretes, músicos de grande qualidade técnica e criativa- com experiência de formação e colaboração com nomes como Milford Graves, Wadada Leo Smith, Vinny Golia, Nels Cline, Ken Filiano, Marilyn Crispell e Charlie Haden- nem os ouvintes.

Gravity, Empty Cage Quartet

Clean Feed (2009)
gravado em Nova Iorque (2008)

  • Jason Mears saxofone alto, clarinete
  • Kris Tiner trompete
  • Ivan Johnson contrabaixo
  • Paul Kikuchi bateria, percussão
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 29 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt #31 já nas bancas

jazz.pt #31

Na capa: Evan Parker no Jazz em Agosto e Danilo Perez na Lisbon Jazz Summer School.

Lá dentro, muita leitura interessante, incluindo as minhas modestas contribuições:

  • Chicago Tentet de Peter Brötzmann na Casa da Música
  • “Violino Escravo – A True Story of a Slave Violinist”, de Jon Rose na Fundação de Serralves
  • 4 lançamentos Clean Feed:
    • “West”, Lawnmower (2/5)
    • “Seeing you see”, Keefe Jackson Quartet (3/5)
    • “Deluxe”, Chris Lightcap’s Bigmouth (3,5/5)
    • “Dual Identity”, Rudresh Mahanthappa / Steve Lehman (4/5)

Em breve, disponíveis aqui no blog.

jazz.pt | João Paulo Esteves da Silva & Dennis González

João Paulo Esteves da Silva & Dennis González

Casa da Música, Sala 2 | 16 de Janeiro

Depois da muito bem sucedida edição de “ScapeGrace” (CleanFeed, 2009)— considerado pela jazz.pt o melhor disco nacional do ano— João Paulo Esteves da Silva e Dennis González apresentaram-se na Sala 2 da Casa da Música para um concerto que, para ser fiel ao disco, teria que reflectir a situação/estratégia de improvisação usada que, como João Paulo referiu em jeito de apresentação, haverá gente que não acredite (porque é de fé que se trata) e outros considerarão despudorada.
Mas, acredite-se ou não, é através da improvisação, sem ensaios nem temas escritos, que se constrói o disco e os concertos desta dupla, que até à proposta da editora lisboeta nem sequer se conheciam ou ao trabalho respectivo.
Sem ensaios, nem temas escritos, mas não sem referências: a ampla bagagem musical de cada um dos músicos e a partilha que originou “ScapeGrace” permitem aos músicos e aos ouvintes ancorar esta experiência musical em motivos melódicos e rítmicos que cruzam, no território do jazz contemporâneo, as fortes referências às músicas populares tradicionais que dão corpo a uma parte significativa dos percursos individuais de João Paulo (o pianista que mantém um projecto de exploração da herança da música sefardita em Portugal e que colaborou com Fausto, Vitorino, José Mário Branco, Sérgio Godinho, entre tantos outros) e Dennis González, cuja procura constante de derrubar barreiras passa por integrar no seu discurso linguagens enraizadas nos locais que percorre.
Assim, apesar da estratégia de improvisação e da construção de música completamente nova, ouviram-se na Casa da Música vários dos motivos presentes em “ScapeGrace” e outros motivos familiares, introduzidos ora por João Paulo, ora por Dennis González, que se sucederam no lançamento de introduções a solo para a posterior exploração do duo.
Nesse contexto, a facilidade com que João Paulo acompanha, complementa, cita e desenvolve qualquer motivo, por mais simples que seja, associada a uma eventual retracção por parte de Dennis González, concedeu ao piano um protagonismo desproporcionado, com cadências a solo em cada um dos 7 temas. Era, de resto, aparente a dificuldade do trompetista em acompanhar as rápidas inflexões harmónicas do piano que, muitíssimo inspirado, rápido e eventualmente mais complexo (ou pelo menos mais denso) do que em encontros anteriores, limitava a margem de manobra em termos de fraseado e improvisação, impondo um discurso harmonicamente mais direccionado e fechado. Energia ou “inspiração” a mais de João Paulo que, por vezes, parecia desligar-se da situação de duo, com a anuência do trompetista texano, para regressar, depois de belíssimas (mas por vezes demasiado longas) explorações, onde as raízes populares da lírica de base do duo passava por metamorfoses sucessivas, com recurso a diversas referências e linguagens, desde os nacionalismos nas músicas clássicas eruditas nos séculos XIX e XX, ao jazz técnica e mentalmente exigente de Keith Jarrett ou aos mais próximos Laginha e Sassetti.
Dennis González, por seu turno, parecia dosear cuidadosamente as suas intervenções, estabelecendo motivos simples, pontuando momentos fundamentais e alimentando os processos de João Paulo. Em sentido contrário, apenas ocasionalmente se tornava possível ao trompetista identificar e explorar temas sugeridos pelo piano, mais fechados e enquadrados em contextos harmónicos menos previsíveis. Nesse sentido podemos falar dum duo e duma improvisação “dirigida”, com momentos verdadeiramente fulgurantes, mas com um certo desequilíbrio entre as personalidades musicais em presença.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 29 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Dave Burrell na Culturgest Porto

Dave Burrell

Culturgest Porto, 15 de Janeiro

Num contexto muito intimista, com o público disposto em cadeiras à volta do piano, o quase septuagenário e muito empático Dave Burrell, um histórico das vanguardas do jazz, apresentou um recital de piano solo excepcionalmente convencional, quer na forma, quer no conteúdo. Não tanto pela já anunciada revisitação de standards e do songbook norte-americano, processo que faz parte do seu percurso de intérprete, compositor e arranjador— com marcas recentes na colaboração com a cantora Leena Conquest (com quem o vimos no Porto, no grupo de William Parker, em 2009, no concerto dedicado a Curtis Mayfield) e já presente desde 1968, em “High Won, High Two” (Black Lion)—, mas por uma utilização, quer do reportório, quer do piano, muito estrutural e orquestral, e muito pouco “solista”.
As canções de Billy Strayhorn, Hoagy Carmichael, George Gershwin, Duke Ellington, Thelonious Monk, António Jobim e do próprio Dave Burrell foram-nos apresentadas “completas” e sólidas- com as linhas de baixo, os padrões rítmicos, as vozes principais e os riffs, em todas as voltas, coros e codas-, com a expressão ou intenção “solista” de Burrell a infiltrar-se na densidade destas “reduções ao piano”, mais pelas ocasionais derivas harmónicas ou nas suspensões e inversões dos arcos de tensão das canções, do que pela expressão melódica de frases solistas que, sendo de grande qualidade, vigor e virtuosismo, eram, sem grandes excepções, rigorosamente enquadradas numa perspectiva historiográfica da música apresentada.
Solidamente assente no rigor académico e na capacidade de execução que a sua longa formação académica como compositor, arranjador e intérprete parece ter gravado no seu código genético— primeiro na Universidade do Hawaii, depois na Berklee, de onde saiu em 1965 para a cena de vanguarda nova-iorquina, afirmando-se como um dos mais inovadores pianistas do panorama, tendo colaborado com Marion Brown, Pharoah Sanders, Archie Shepp e Albert Ayler, entre tantas outras referências do free e do avant-jazz— Dave Burrell, aparentemente empenhado na redescoberta da capacidade expressiva das grandes canções “clássicas”, nas suas versões “orquestrais” e “intactas”, prestou um tributo às canções, aos seus compositores e arranjadores, numa forma de concerto que, apesar da proximidade física entre o público e o criador, parece ter usado as próprias canções como barreira em substituição do palco, tornando-se o seu solo— normalmente um exercício de grande risco e exposição—, num fluxo organizado e denso, com a solidão e exposição do criador-intérprete a ser completamente “atropelada” pela quantidade de vozes e funções que a sua técnica convocou.
Mas este exercício de enquadramento estrutural das canções operou também, em alguns casos de forma surpreendente, a construção de novas-velhas “imagens” ou “espaços” deste reportório “clássico”: sugeriu imagens de cabaret quase brechtiano para “Embraceable You”, de Gershwin- cuja relação com Kurt Weill é objecto interessante de estudo na definição dum certo “jazz clássico”- e invocou o ambiente das salas de cinema mudo e das suas pianolas mecânicas nos ragtimes originais do próprio Burrell, como “Astoria Rag” ou “Margy Pargy”, mas também em “It don’t mean a thing if it ain’t got that swing”, de Duke Ellington, com uma certa ironia.
Com o (pouco) público que enchia a sala da Culturgest Porto a aderir com algum entusiasmo, mais claro no momento de apresentação dos temas do que nas ocasionais derivas expressivas, Dave Burrell despediu-se com dois temas originais, “The Edge” e “With a Little Time”, que confirmaram a sua capacidade composicional e orquestral na invocação rápida de imagens fortes e no estabelecimento duma narrativa.
De alguma forma, e em resumo, este concerto a solo assemelha-se mais à apresentação de “reduções ao piano” dum reportório que Dave Burrell domina e apresenta com inteligência e vigor, num formato mais comum no universo da música clássica erudita, que pode resultar “estranho” ou pelo menos excessivamente formalizado, académico ou até abstracto, dependendo da experiência pessoal dos ouvintes.

Uma última nota para o piano disponível na Culturgest Porto que, para sermos justos, só disfarçou as suas fragilidades até ao 4º tema, deixando depois no ar uma insinuação permanente de desafinação e fragilidade tímbrica, completamente desnecessária.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 29 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Pirouet Records: Transatlânticos (3 discos em análise)

Estes 3 recentes títulos da editora baseada em Munique, Pirouet, têm vários elementos em comum: o papel relevante dos saxofonistas (frontmen de 2 dos discos), a relativa juventude dos seus autores, a afirmação de algumas nuances dum certo jazz transatlântico, com os 3 discos liderados por músicos europeus, mas com a inequívoca presença do jazz norte-americano, não só na escolha de alguns intérpretes norte-americanos genuínos, mas no percurso e formação de todos os músicos envolvidos.

Virgo, Nicholas Thys
Virgo, de Nicolas Thys

CLASSIFICAÇÃO: 2.5/5

“Virgo”, do contrabaixista belga Nicolas Thys, apresenta-nos uma escrita escorreita, sem grandes sobressaltos, mas com assinalável eficácia lírica nos 6 temas (todos da autoria do contrabaixista), apresentados por uma formação coesa e tecnicamente irrepreensível, ainda que em relações algo convencionais, com Chris Cheek e Ryan Scott a explorarem habilmente a combinação do saxofone com a guitarra na apresentação dos temas e no desenvolvimento dos solos, sem momentos de afirmação individual de génio, mas servindo a estrutura dos temas com rigor. Dos 3 álbuns, este é o que se apresenta mais uniforme e que parece arriscar menos, quer na escrita, quer na interpretação, parecendo apostar em criar momentos de grande conforto- que consegue, sem dúvida-, mas correndo o sério risco de não afirmar nenhum traço identitário assinalável. A energia de “Disco Monkey”, tema de abertura, esgota-se rapidamente, e a sucessão de temas relativamente longos, sem particularidades estruturais ou singularidades assinaláveis, e sem significativas variações de humor ou tensão, afirmam uma música quase utilitária, muitíssimo bem executada, mas cuidadosamente planeada para não provocar grandes emoções.

Virgo, de Nicolas Thys

Gravação: Maio 2008, Nova Jérsia (EUA)
Edição: 2009, Pirouet Records, Munique

  • Chris Cheek, saxofone tenor
  • Jon Cowherd, piano
  • Ryan Scott, guitarra
  • Nicholas Thys, contrabaixo
  • Dan Rieser, bateria

Winter Fruits, Loren Stillman
Winter Fruits, de Loren Stillman

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

A escrita do britânico Loren Stillman tem características significativamente diferentes, apesar do resultado final adquirir, globalmente, também, uma certa contenção dinâmica. Stillman não faz uso frequente dos moldes harmónicos e melódicos mais vulgares, nem procura estabelecer “prisões” rítmicas e as suas linhas mais sinuosas, distribuídas pelo quarteto e cuidadosamente integradas de acordo com proximidades tímbricas servem, simultaneamente, a estrutura dos temas e a partilha interpretativa, permitindo que a formação opere sem demasiadas restrições “hierárquicas”. As inflexões de registo do órgão de Gary Versace expandem o universo tímbrico expectável dum quarteto desta natureza e a variabilidade rítmica presente, que Ted Poor serve com rigor e criatividade, permite a progressão dos temas com relativa frescura e explorando as diferentes combinações presentes. É realmente notável a capacidade de partilha duma escrita exigente e a forma como os 4 músicos envolvidos encontram e trocam motivos melódicos, harmónicos e rítmicos, com extraordinária subtileza e um apurado sentido de timing, respeitando os necessários espaços individuais, mas mantendo um elevado sentido de compromisso para com a música, a todo o tempo. E, simultaneamente, a forma individual como cada um dos músicos se relaciona com o material base, enriquece-o, dando novas perspectivas e lançando pistas de compreensão e fruição para vários públicos. A inclusão de 2 temas escritos por Ted Poor (“Muted Dreams” e “Winter Fruit”, este último com espaços para os momento de maior intensidade do disco), permite comprovar que este compromisso resulta, de facto, duma forte cumplicidade entre os músicos e as performances individuais são irrepreensíveis, com destaque, eventual, para as capacidades expressivas do saxofone de Stillman.
O contorno global da dinâmica do disco é, ainda assim, relativamente contido, numa opção que lhe confere unidade, mas lhe retira, eventualmente, alguma energia.

Winter Fruits, de Loren Stillman

Gravação: Junho 2008, Nova Jérsia (EUA)
Edição: 2009, Pirouet Records, Munique

  • Loren Stillman, saxofone alto
  • Nate Radley, guitarra
  • Gary Versace, órgão
  • Ted Poor, bateria

Starbound, Robin Verheyen
Starbound, de Robin Verheyen

CLASSIFICAÇÃO: 3.5/5

Por último, o disco do jovem belga Robin Verheyen, agora radicado em Nova Iorque, é aquele onde o contorno dinâmico se expande e a paleta de estímulos se diversifica mais, num esforço de demonstração de possibilidades que poderá custar ao disco alguma coesão ou lógica interna, mas torna a experiência de audição mais rica. Verheyen afirma-se, de forma mais evidente, como “frontmen” e assume a responsabilidade de conduzir a esmagadora maioria dos temas e o seu desenvolvimento obedece frequentemente a alguns dos canônes dum jazz mais clássico, ainda que se note que o vocabulário de Verheyen está marcado por uma cultura musical mais vasta. A escrita parece, de resto, asumir um lugar secundário, com os temas, relativamente simples, a serem entregues à exploração pelo quarteto, onde Bill Carrothers ganha algum destaque, assim como Dré Pallemaerts, muito rigoroso e seguro nas estruturas mais convencionais, mas com um óptimo sentido de oportunidade na resposta pontual às intervenções e flexões solísticas, criando uma base rítmica bastante orgânica e reactiva. As mudanças profundas de tempo e contexto harmónico entre temas, permite que o disco assuma alguns cortes evidentes e desenhe um arco narrativo mais complexo, com “Lamenting”, em que Verheyen opta pelo saxofone tenor a funcionar como ponto de apoio significativo na viagem. O espaço atribuído a cada um dos músicos permite ouvir as configurações habituais dum quarteto desta natureza, com espaço para avaliar a elevada qualidade interpretativa dos músicos que integram este agrupamento com quem Verheyen assegura o seu estatuto de artista residente no CC de Warande (Turnhout, Bélgica). Ainda assim, alguns momentos do disco, como o tema que dá nome ao álbum, “Starbound”, carecem de melhor enquadramento, deixando a impressão de que pouco mais serão do que exercícios de grupo sobre temas ainda incipientes. Verheyen, com 27 anos, apresenta sinais extraordinários de maturidade (na escrita, na interpretação, na técnica e na expressividade) em momentos como “Lamenting”, mas parece revelar ainda alguma insegurança no que diz respeito à construção dum álbum completo.

Starbound, de Robin Verheyen

Gravação: Abril 2009, Munique
Editação: 2009, Pirouet Records, Munique

  • Robin Verheyen, saxofone soprano e tenor
  • Bill Carrothers, piano
  • Nicolas Thys, contrabaixo
  • Dré Pallemaerts, bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 28 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt| ESSL.BURGER Live!

ESSL.BURGER live!
ESSL.BURGER live!, por Essl.Burger

CLASSIFICAÇÃO: 3.5/5

“ESSL.BURGER live!” é uma edição da netlabel portuguesa XS-Records que regista 2 sessões de improvisação da dupla austro-germânica Essl.Burger, ocorridas em 2007. Esta colaboração entre Karlheinz Essl e Klaus Burger começou em 2004 e a combinação entre os sopros de Burger e a electrónica de Essl realiza-se em contexto de improvisação livre com um nível de fluidez e diversidade discursiva invulgar para um duo desta natureza. As 2 sessões, apesar de pouco separadas no tempo, dão-nos a conhecer uma grande diversidade de universos sonoros, nem sempre coesos, mas geralmente interessantes e, apesar da menor qualidade da gravação realizada no Museu Essl (faixas 3 e 4), o disco na sua totalidade propõe-nos uma experiência bastante completa.
Mas convém apresentar estes protagonistas: Klaus Burger é um notável e reconhecido tubista alemão, músico de vanguarda que Mauricio Kagel disse ser “uma honra para a classe dos tubistas; explora(ndo) incasavelmente o futura da tuba e (…) soprando por todas as suas possibilidades” e que, além da tuba, toca didgeridoo, conchas e cimbasso– um instrumento semelhante ao trombone contrabaixo– expandindo o seu vocabulário sempre em volta de instrumentos de sopro, com grandes extensões e fundamentais sub-graves; Karlheinz Essl é um compositor experimentalista austríaco e figura proeminente ma cena europeia na improvisação com recurso à electrónica em tempo real, devido a ferramentas computacionais que desenvolveu especificamente para processamento em tempo real em contexto de improvisação e interacção. O trabalho de Essl nesta área, centrado à volta do ambiente m@zeº2, apresenta preocupações não só com o desenvolvimento de interfaces que permitam uma reacção e manipulação rápida das realidades sonoras, mas também uma capacidade de interagir com outros músicos em tempo real e improvisar de facto com as ferramentas computacionais. Dois músicos de vanguarda, fortemente implicados com a improvisação e o experimentalismo que demonstram nestas gravações um conjunto vasto de possibilidades quer nos universos sonoros criados, quer nas formas de interacção e reacção escolhidas.
Klaus Burger demonstra um domínio notável dos instrumentos e uma capacidade aparentemente inesgotável de explorar todos os seus parâmetros musicais, transformando o seu discurso numa extensão natural do seu organismo e a música que produz num “ensaio” sobre a relação entre o som e o sopro, ou mesmo a respiração. Karlheinz Essl age e reage de forma fluída, produzindo som e trabalhando sobre o som produzido por Burger (em tempo real e previamente) e a capacidade expressiva, mas mais do que isso, interactiva ou de “interplay” das suas ferramentas, asseguram que este duo apresenta, de facto, uma improvisação em tempo real e são um inidcador das potencialidades muitas vezes ignoradas das ferramentas computacionais como instrumentos de improvisação.
O disco inicia-se, de resto, com uma faixa exemplar pela coesão, pela pertinência musical e sonora das intervenções, pela sua riqueza e complementaridade, pelo diálogo que se estabelece entre os dois músicos e até por um certo sentido estrutural, prometendo, estes primeiros 17 minutos, um disco genial. Infelizmente, a altíssima qualidade destes primeiros 17 minutos– absolutamente a não perder– não se mantém por todo o disco, havendo mesmo alguns momentos francamente fracos, ainda durante a sessão no artact, na faixa 2, quando Essl quebra uma certa lógica instrumental centrada na ideia de sopro, mantida até aí, procurando introduzir novos instrumentos e padrões rítmicos duma forma que soa, no contexto, algo desastrada. A 2ª parte do disco, o concerto no Museu Essl, retoma algumas das boas práticas dos 17 minutos iniciais, sem que se sintam repetições excessivas de materiais, e mantém o interesse, apesar da menor qualidade técnica da gravação, adivinhando-se, especialmente na parte final do disco, o elevado nível performativo e musical que se ouve claramente no início do disco.
Em geral, trata-se de um disco exigente, mas não asséptico nem aborrecido, e a qualidade dos seus melhores momentos não poderá deixar indiferente nenhum apreciador de música, especialmente se se interessar por instrumentos de sopro e por práticas de improvisação.
E está disponível online, para quem o quiser ouvir!

ESSL.BURGER live!, por Essl.Burger

Editora: XS-Records
Data de edição: Junho de 2009

Data das gravações:
1º set: 4 de Março de 2007 | artacts ’07, Festival de Jazz e Música Improvisada em St. Anton (Tirol, Áustria)
2º set: 3 de Junho de 2007 | Museu Essl, em Klosterneuburg, Viena (Áustria)

  • Klaus Burger tuba, cimbasso, didgeridoo, conchas
  • Karlheinz Essl m@ze°2 (laptop & live-electronics)
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Samuel Blaser, Pieces of Old Sky

Pieces of Old Sky, capa do disco
PIECES OF OLD SKY, de Samuel Blaser Quartet

CLASSIFICAÇÃO: 4.5/5

Nostálgico e meditativo, como o nome do álbum sugere, este “Pieces of Old Sky”, é um álbum envolvente e resulta duma extraordinária combinação de instrumentistas e abordagens que servem os temas com detalhe e generosidade. Não existe, em nenhum momento no disco, como é habitual quando se conta com a  participação dum baterista como Tyshawn Sorey, uma secção rítmica tradicional: todos os instrumentos, bateria incluída, são vozes melódicas e, mesmo nos momentos mais singelos, existe uma liberdade total da ideia duma pulsação, fluindo as ideias musicais, exploradas amplamente por cada um dos instrumentistas.
A escrita de Samuel Blaser e o seu desenvolvimento pelo quarteto permite compreender o potencial de elementos melódicos simples na afirmação de estados de espírito complexos e a energia emocional e musical flutua de acordo com uma gestão muito criteriosa de cada participação e contando com elevado nível de atenção e capacidade de resposta constante do quarteto, que reage, repete e reinterpreta as intervenções mais significativas, definindo um enquadramento eficaz e encontrando caminhos de desenvolvimento musical aprofundado. O acerto e a coesão tímbrica é notável, especialmente na relação entre o trombone de Blaser e a guitarra de Neufeld que criam diálogos riquissímos. Thomas Morgan funciona frequentemente como ponto de apoio das inflexões estruturais, mas sem nunca ceder a um papel tradicional procurando fraseados relevantes e explorando os harmónicos, por exemplo.
Em temas ritmicamente mais definidos, como “Red Hook” ou “Speed Game”, o papel não convencional de Tyshawn Sorey, torna-se ainda mais evidente: o quarteto toca o riff em uníssono e a sua interpretação faz uso da totalidade da bateria, para tocar não só a componente rítmica do riff, mas também o seu envelope melódico e dinâmico, desenvolvendo posteriormente formas de apoiar e pontuar o desenvolvimento do tema e as intervenções solistas, sem nunca perder a noção da pulsação implícita, mas escapando a qualquer tentação de vulgaridade. A liberdade que esta forma de tocar de Tyshawn Sorey traz ao grupo é fundamental para permitir a escolha de novos caminhos e inflexões eventualmente inesperadas, assim como o seu rigor é surpreendentemente eficaz na afirmação dos riffs.
Assumidamente nostálgico, “Pieces of Old Sky” é também, fortemente evocativo, com um certo carácter cinemático, como acontece com os corais, em duo de Blaser com Neufeld.
Não se deixa, no entanto, encurralar num registo frágil, encontrando os caminhos, quando necessário, para momento mais intensos, como acontece no final de “Mystical Circle”, enriquecendo a experiência global.
A elevada cumplicidade e a extraordinária flexibilidade de todos os músicos presentes garante uma experiência de audição completa, onde o registo límpido e o lirismo inteligente do trombone de Samuel Blaser aponta uma direcção, sem limitar demasiado os caminhos.

PIECES OF OLD SKY, de Samuel Blaser Quartet

Clean Feed (2009)
gravado em Nova Iorque (2008)

  • Samuel Blaser trombone
  • Todd Neufeld guitarra
  • Thomas Morgan contrabaixo
  • Tyshawn Sorey bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Rodrigo Amado: The Abstract Truth

The Abstract Truth, capa do disco
The Abstract Truth,
de Rodrigo Amado, Kent Kessler e Paal Nilssen-Love

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

“The Abstract Truth” é o segundo disco resultante da colaboração entre Rodrigo Amado, um dos mais proeminentes saxofonistas nacionais e o contrabaixista norte-americano Kent Kessler e o baterista norueguês Paal Nilssen-Love, eminentes improvisadores da cena internacional, secção rítmica regular das frequentes colaborações Chicago-Escandinávia, como as protagonizadas por Ken Vandermark e Peter Brötzmann.

Mas Kessler e Nilssen-Love encontram na presença de Rodrigo Amado, apesar das semelhanças instrumentais com Vandermark e Brötzmann, um desafio singular, já desde “Teatro” (European Echoes, 2006). Repete-se, em “The Abstract Truth” o formato de improvisação colectiva, gravada numa única sessão e a forte personalidade destes 3 músicos resulta, novamente, numa explosão enérgica e vibrante de música “urgente”. Não uma explosão descontrolada, massiva e destrutiva ou avassaladora, mas uma que estilhaça e tanto produz momentos de alguma agressividade, como pequenas construções/destruições efémeras, “urgentes” e enérgicas, ainda que contidas. Amado, Kessler e Nilssen-Love encontraram uma fórmula que lhes permite gerir a energia extrema e a urgência que colocam na música que fazem, sem comprometer a intelegibilidade e a variedade dinâmica que a transmissão e partilha duma complexa mensagem a 3 exige. A receita depende da apurada sensibilidade musical dos 3, da sua capacidade de se ouvirem, de procurarem os seus espaços e cederem tempo a solos e duos, ainda que fugazes, e de partilharem material de forma praticamente imediata, bastando a insinuação de temas ou padrões e respondendo às solicitações do grupo. À energia “crua” dos momentos mais histriónicos, o trio sabe responder com espaço para momentos mais líricos assegurados regra geral por algum do vocabulário mais pungente dos saxofones de Amado, que assegura uma prestação assinalável pela entrega e pela riqueza tímbrica. Mas Kessler e Nilssen-Love demonstram igualmente momentos de grande delicadeza, assegurando, ao longo do disco, uma experiência intensa, mas variada.
Regra geral, a personalidade musical de Rodrigo Amado, promotor deste encontro, parece liderar parte do desenvolvimento das peças, que, com um formato menos longo do que é habitual em registos deste tipo, se tornam menos dispersivas. Mas o tipo de liderança de Amado é, além de discreto e pontual, acima de tudo, musical, pela participação com o seu vocabulário particular, que navega inteligentemente, entre os limites dum jazz “genuíno” e “visceral”, como encontramos em Archie Shepp ou Sonny Rollins, e a liberdade explosiva de um Ken Vandermark, complementados com desenhos melódicos frequentemente não-jazzísticos e até com memórias eruditas.
De resto, todo o trio demonstra um enorme envolvimento no processo e, mais do que isso, um envolvimento informado, fruto da maturação desta colaboração, com soberbas transições e sobreposições tímbricas, notáveis em “Enigma of the Arrival”, entre Amado e Kessler, por exemplo.
Conhecem-se, ouvem-se, respeitam-se, querem comunicar entre eles e com quem os ouve. E o resultado, ainda que abstracto é, sem dúvida, verdadeiro.

+ info: www.rodrigoamado.com

The Abstract Truth, de Rodrigo Amado, Kent Kessler e Paal Nilssen-Love

Edição European Echoes 2009
Gravado em Lisboa, Julho de 2008

  • Rodrigo Amado saxofone tenor e barítono
  • Kent Kessler contrabaixo
  • Paal Nilssen-Love bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 27 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.