jazz.pt #37 já nas bancas

O número 37 da jazz.pt já está nas bancas.

O destaque de capa vai para Wadada Leo Smith que vem ao Jazz em Agosto.

O “meu” destaque vai para o “forward” que assinala os 10 anos dos Soopa. Além disso, escrevo sobre a presença de Pauline Oliveros e Elaine Summers em Serralves, sobre o concerto de Elliot Sharp’s Carbon na Casa da Música e sobre os discos de José Valente and Experiences of Today e Tubab, de Jorge Queijo e Sérgio Carolino.

Enjoy!

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=1bumHGnfRVg[/youtube]

jazz.pt | Vienna Art Orchestra @ Casa da Música

“Third Dream”, Vienna Art Orchestra dirigida por Mathias Rüegg

Casa da Música, Sala Suggia
9 de Junho 2010, 22h00

O concerto da Vienna Art Orchestra na Casa da Música, sob a designação geral “Third Dream” e composto exclusivamente por obras do seu fundador e director musical Mathias Rüegg, ofereceu-nos uma imagem bastante completa do projecto actual da VAO. Dividido em 2 partes, a primeira de música de câmara e a segunda com a orquestra em pleno, o concerto foi transparente na apresentação das maiores virtudes e defeitos desta orquestra em permanente renovação e que marca de forma particular o encontro entre dois mundos musicais, representados de formas desiguais. A orquestra fundada por Rüegg em 1977 passou já por inúmeras fases, marcadas pelas personalidades musicais que a integraram, por intenções programáticas claras do seu director e pela natural evolução dum projecto com mais de 3 décadas de história.

O momento actual da VAO, representado por este “Third Dream“, numa referência explícita à “Third Stream” de Gunther Schuller— que pretendia uma síntese entre o jazz e a música erudita ocidental, sem prevalência de um género sobre o outro, numa reacção crítica aos projectos jazzísticos “with strings” ou inspirados nas práticas de Gershwin, assim como às integrações de elementos jazzísticos avulsos em peças eruditas experimentadas por Ravel ou Stravinsky, por exemplo— afirma-se num território marcado pelo encontro do jazz com a música erudita ocidental, mas também com as músicas do mundo, num exercício que, não sendo original, é, neste caso, protagonizado por um dos seus mais sólidos e reconhecidos praticantes. E uma das “fórmulas” desta síntese entre mundos musicais diversos, ainda que vizinhos, é o exercício de racionalização e quase dissecção do fenómeno musical, que a própria composição da orquestra permite. O formato de recital de música de câmara usado na primeira parte é, de alguma forma, a infeliz prova disso mesmo: as pequenas peças de Rüegg escritas para duos e trios, são formalmente similares aos estudos e pequenas peças para solista e piano ou pequeno ensemble, típicas de recital académico ou “soirée” musical, interpretadas brilhantemente pelos jovens e competentíssimos músicos de orquestra que compõem uma parte significativa das suas secções. É verdade que a escrita de Rüegg incorpora motivos melódicos ou rítmicos de tipo jazzístico e até algumas das suas progressões harmónicas, mas o rigor da interpretação desta música escrita soa asséptico e austero, por mais virtuosos que sejam os seus intérpretes. Os cerca de 25 minutos que a interpretação das 5 peças (ou deveria chamar-lhes exercícios?) que constituíam a primeira parte do espectáculo e onde ouvimos jovens músicos académicos, talentosos, mas sem espaço para demonstração da eventual criatividade, foram por isso muito longos e abalaram as expectativas face à performance da orquestra.

Porém, face à aridez dessa primeira parte, o concerto da orquestra foi de grande nível. Se uma parte dos músicos da actual VAO são, de facto, “músicos de orquestra”— intérpretes altamente qualificados mas não necessariamente criativos— encontra-se entre os seus solistas a criatividade e energia necessárias para dar corpo ao tal projecto de síntese do jazz com as músicas eruditas e com as músicas do mundo, ainda que sem escaparem ao cliché quase holywwodesco— um clarinete “klezmérico”, um fabuloso solo de “hang” (um instrumento de percussão de origem suíça, muito recente, com um timbre intencionalmente próximo das percussões asiáticas, mas com afinação ocidental).
Harry Sokal (um dos únicos veteranos da VAO) e Joris Roelofs, nos saxofones, Juraj Bartos, na trompete, Thomas Fischer, na trompa, Thomas Frey, na flauta e Ingrid Oberkanins e Flip Phillip na percussão, todos assinaram momentos dignos de registo, com particular destaque para Sokal, principal solista da Orquestra e Ingrid Oberkanins pelo domínio do “hang”, entre vários momentos altos desdobrados em quase todas as percussões disponíveis.
A escrita de Rüegg para esta segunda parte, assumiu a forma de suite, com os vários andamentos a criarem um fluxo mais ou menos coerente e a assentarem na exploração das diferentes cores orquestrais do ensemble, com espaços amplos para os solistas que, dependendo do seu estatuto tinham maior ou menor grau de liberdade no solo. Objectivamente, o resultado final é uma síntese de vários mundos musicais, conseguida através da selecção criteriosa dos parâmetros que permitem a sua identificação aos ouvidos do público e que se podem encaixar, sem colidir, numa forma agradável, mas relativamente previsível.
Em geral, sem pensarmos na primeira parte, o concerto teve momentos bastante eficazes, a partir da escrita inteligente de Rüegg, à qual a orquestra responde com precisão e sobre o qual os solistas mais criativos conseguiram criar momentos de expressão mais enérgicos e, porventura, genuínos. A fórmula geral, no entanto, faz já parte do nosso quotidiano em músicas de grande consumo especialmente para o cinema e para a televisão, demonstrando simultaneamente a sua eficácia e a sua eventual perda de pertinência.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 32 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Jazz no Parque 2010

JAZZ NO PARQUE 2010, 19ª edição
Ténis do Parque de Serralves

A edição deste ano do Jazz no Parque desenrolou-se em 3 tardes de sábado solarengas que fizeram do Parque de Serralves um óptimo sítio para se estar e todos os concertos atraíram um público considerável, com os 2 últimos concertos lotados com alguma antecedência e uma atmosfera de festa que se reflecte em todos os aspectos do festival e contribui para a justa afirmação do evento. O ambiente familiar, com muitas crianças no recinto e grandes grupos de várias gerações de apreciantes de música e jazz, mantém-se como uma das marcas identitárias do ambiente do Jazz no Parque mas este ano, viveu-se também a atmosfera mais intensa que um maior número de pessoas e um eventual maior entusiasmo em alguns momentos, produz.
Quanto à programação, este ano a presença portuguesa foi assegurada pelo Bernardo Sassetti Trio (com o convidado Perico Sambeat), com grande sucesso e entusiasmo por parte do pianista que, desde a primeira edição do Jazz no Parque que esperava voltar a tocar no festival, e, ao contrário do que sucedeu em anos anteriores, os outros 2 concertos vieram do outro lado do Atlântico— o Vijay Iyer Trio e Contact—, mas a diversidade de propostas estéticas que António Curvelo tenta muitas vezes assegurar incluindo uma proposta de jazz “europeu”, estava claramente patente neste tríptico que permitiu ao público que se deslocou a Serralves ouvir propostas claramente alternativas e de grande qualidade, através das quais se podem projectar os futuros do jazz, enquanto se compreende parte da sua história, missão a que o Jazz no Parque se propõe todos os anos, 3 concertos de cada vez. Continuar a ler

jazz.pt | Cornelius Cardew e a liberdade da escuta

Cornelius Cardew e a liberdade da escuta
Culturgest Porto, 8 de Maio a 26 de Junho de 2010

Curadores: Pierre Pal-Blanc, Lore Gablier, Dean Inkster e Jean-Jacques Palix

De 8 de Maio a 26 de Junho, a Culturgest Porto acolheu o ciclo “Cornelius Cardew e a liberdade da escuta”, um grande evento evocativo da obra multi-facetada do compositor britânico, iniciado no Centre d’Art Contemporain de Brétigny, em 2009 e com passagem pela Künstlerhaus de Estugarda. O evento incluiu uma exposição— constituída por filmes, numerosas gravações musicais e material de arquivo, entre escritos, partituras, registos fotográficos, cartazes, livros e muitos outros elementos associados à vida e obra de Cardew, assim como uma multiplicidade de bibliografia eventualmente útil— e um ciclo de concertos, performances e conversas que trouxe ao Porto um conjunto vasto e ilustre de músicos, performers e artistas que mantêm com a obra de Cardew uma relação estreita e que, em alguns casos, integraram alguns dos colectivos por ele criados como The Scratch Orchestra, ou que ele integrou, como o colectivo AMM.
Para evocar a figura seminal de Cornelius Cardew na música de vanguarda europeia, vieram ao Porto pessoas como Christian Wolff, John Tillbury, Keith Rowe, Rys Chattam, Terre Thaemlitz, Piotr Kurek, entre tantos outros e organizaram-se interpretações envolvendo voluntários (músicos e não músicos) de obras como “The Great Learning”, de Cardew, “Stones” e “Burdocks” de Christian Wolff, dirigidas pelo compositor e “Walk” de Michael Parsons. Ouviram-se igualmente diversas interpretações de excertos de “Treatise”, a monumental partitura gráfica que Cardew desenvolveu entre 1963 e 67 e se afirma como uma das suas obras-primas, e assistiu-se a actividades “Scratch” protagonizadas por elementos originais da The Scratch Orchestra, mas não só.
Quase um trimestre de actividade, com 16 eventos programados, numa tentativa de oferecer uma visão ampla sobre a obra de Cornelius Cardew e o contexto em que ela se desenvolveu, particularmente focados nas suas actividades na década de 60, no contacto permanente com a vanguarda norte-americana, através de John Cage, La Monte Young, Morton Feldman e Christian Wolff e na tentativa de estabelecer uma vanguarda europeia livre do dogma do serialismo total— Cardew trabalhou com Stockhausen em Colónia, após a sua formação na conservadora Royal Academy of Music—, evitando, de certo modo, a militância política dos anos 70 e a negação da vanguarda como “elitista e alienante”.
O Cornelius Cardew dos anos 70 diria que todo este ciclo não passa duma terrível perda de tempo“, disse mesmo John Tillbury, um dos mais importantes intérpretes e biógrafos de Cornelius Cardew, na conversa pública que antecedeu o recital de piano do dia 19 de Junho. E todo este ciclo parece atravessado por uma angústia inevitável, que é a de evocar um criador com um percurso extraordinariamente corajoso e coerente e, por isso mesmo, em constante ruptura com qualquer tentativa de catalogação e enquadramento.

Cornelius Cardew, nos seus curtos 45 anos de vida e, particularmente, nos menos de 30 anos de actividade como músico e compositor, guiou-se de forma relativamente permanente por um inconformismo que o levou, obstinadamente, através dum percurso único, militantemente utópico, que o guiou desde os seus estudos musicais convencionais às vanguardas europeias, onde o serialismo se afirmava como sistema científico e progressista, posteriormente americanas, onde o acaso de Cage, e as notações verbais e gráficas do movimento Fluxus apresentavam-se como alternativa a um sistema de produção musical, sem obstáculos técnicos à criação e interpretação musical, até à afirmação duma “ética da improvisação” e à reflexão sobre os diferentes papéis e funções necessárias à produção e fruição musical e consequente negação dos fenómenos de vanguarda pelo seu carácter “elitista”, já numa lógica militante e eminentemente marxista que leva Cardew, a partir dos anos 70 a abandonar a produção musical enquanto forma de arte e prosseguir apenas na acção política que inclui experiências musicais no domínio da composição, interpretação e arranjo de hinos políticos e canções populares de protesto.
A vida de Cardew, na sua intransigência, é um aspecto fulcral da sua obra e assume-se, eventualmente, como o principal obstáculo à sua visibilidade e compreensão. Se os compositores norte-americanos que Cardew introduziu no circuito das vanguardas europeias, se afirmam actualmente como figuras incontornáveis na história da música contemporânea, assim como alguns dos seus colaboradores que se afirmaram ora nos círculos eruditos, ora nos círculos experimentais, Cardew resiste estoicamente a processos historiográficos completos porque se afirma frequentemente como o seu maior crítico.
Porém, o rol de criadores influenciados por Cardew ou próximos da sua produção são testemunho evidente, ainda que complexo, da relevância do compositor britânico no rumo da vanguarda europeia.
E o ciclo de eventos organizado na Culturgest Porto demonstrou de forma completa, para o bem e para o mal, a acuidade de Cardew.
Tratou-se, de facto, dum evento elitista, com o público a ser normalmente inferior às piores expectativas. Muitas vezes auto-complacente, com algumas performances a arrastarem-se dolorosamente, em artifícios datados, irrelevantes e, aparentemente mais esforçados em reconstituições do que em afirmações de vanguarda, como assistimos no “A Scratch Dealer Concert” e na apresentação de “The Tiger’s Mind”. E, frequentemente, fechados ou isolados em “ilhas de conservação arcaica” para usar a expressão de George Steiner que o mesmo Tillbury citou na sua conversa.
Ainda assim, a possibilidade de assistir a diferentes visões/interpretações de “Treatise”, a primeira das quais com Keith Rowe a “dirigir” um grupo de músicos portugueses, apesar de “Treatise” não pressupôr direcção, ou a oportunidade de receber Christian Wolff pela primeira vez em Portugal, para conversa, direcção de peças suas e recital, ou os recitais a solo de John Tillbury e Rhys Chatham foram momentos marcantes e de grande qualidade e interesse musical.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 32 da revista jazz.pt, integrado no report global do Braga Jazz. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Para todos os gostos (4 lançamentos Clean Feed)

Nestes quatro novos lançamento da Clean Feed, temos a oportunidade de encontrar uma grande diversidade de projectos onde saxofonistas assumem lugares de destaque, seja na qualidade de solistas únicos, como no projecto Lawnmower do baterista Luther Gray, seja em duos e trios de solistas, como no Chris Lightcap’s Bigmouth. E entre eles temos também oportunidade de verificar a condição de alguns saxofonistas-compositores e band leaders, seja no mais convencional Keefe Jackson Quartet, ou no encontro relativamente único de Steve Lehman e Rudresh Mahanthappa, registado no BragaJazz 2009.
No total, estes 4 lançamentos dão-nos uma visão abrangente, tão variada nas opções estéticas como na sua qualidade final, de vários caminhos do jazz onde o saxofone, instrumento quase ícone ou fetiche do mundo jazzístico, marca o seu território. E detectamos a sua presença em experiências que circulam desde a síntese infelizmente pouco conseguido da improvisação livre com o mundo pós-punk e indie-folk de Luther Gray, até ao excepcional encontro de dois dos mais criativos compositores e intérpretes do saxofone alto do nosso tempo, em Dual Identity, passando pelo jazz mais convencional de Keefe Jackson e pelo “groove” do Chris Lightcap’s Bigmouth.
Vários caminhos, para quase todos os gostos.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 31 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | RUDRESH MAHANTHAPPA & STEVE LEHMAN, “DUAL IDENTITY”

Dual Identity, Steve Lehman & Rudresh Mahanthappa
RUDRESH MAHANTHAPPA & STEVE LEHMAN, “DUAL IDENTITY”

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

O encontro de Steve Lehman e Rudresh Mahanthappa no BragaJazz de 2009, agora editado pela Clean Feed, assinala simultaneamente o encontro de dois instrumentistas e improvisadores fora de série num instrumento onde claramente não faltam referências e o encontro de dois compositores com personalidades próprias que conseguem aqui realizar algo que é mais do que a soma dos seus talentos. A escrita dos temas que compõem o disco consegue simultaneamente explorar uma certa condição bicéfala do agrupamento e realizar o potencial dum quinteto de excepção enquanto aproxima os universos composicionais de Lehman e Mahanthappa (integrando também um tema, mais suave, de Liberty Ellman), alternando entre composições de um e outro duma forma fluída e natural, sempre num registo de grande exigência (o rigor, a velocidade e o carácter explosivo destes dois saxofonistas também passa pela escrita e interpretação dos temas) e num nível criativo e interpretativo muito elevado.
Uma característica interessante e enriquecedora, ao nível da composição, é que as estratégias de integração das duas vozes principais variam, passando por exercícios contrapontísticos como no genial “Post-Modern Pharaohs” (Lehman) e no contagiante “Circus” (Mahanthappa) ou recorrendo também a harmonizações e arranjos exigentes como em “1010″ (Mahanthappa)— marcado também por uma introdução a solo de Matt Brewer, no contrabaixo, muito inspirada— e, quer ao nível estrutural, quer ao nível dos arranjos e sucessões solísticas, o quinteto vai afirmando as suas diversas possibilidades, cabendo à secção rítmica a manutenção de padrões de relativa complexidade e a pontuação eficaz dos temas e solos, com destaque para Damion Reid, na bateria, que assina também uma notável introdução a solo para “Extensions of Extensions of”.
Globalmente, este Dual Identity apresenta-se como uma sólida contribuição para o extenso, mas nem sempre rico filão das colaborações entre saxofonistas e permite-nos ouvir dois dos mais criativos saxofonistas-compositores do nosso tempo, num contexto raro de partilha e igualdade. E regista, para a posteridade, aquele que terá sido um dos grandes concertos da história do BragaJazz.

Em jeito de pormenor, dir-se-ia que o calcanhar de Aquiles do disco é, paradoxalmente, a sua condição de existência: o facto de ser uma gravação ao vivo nota-se, de forma negativa, em alguns pormenores técnicos do registo, mas dificilmente teríamos um disco com quase 80 minutos de música deste quinteto se não se tratasse dum registo ao vivo.

RUDRESH MAHANTHAPPA & STEVE LEHMAN, “DUAL IDENTITY”

Clean Feed, 2010
Gravado em Braga, 2009 (BragaJazz)

  • Rudresh Mahanthappa sax alto
  • Steve Lehman sax alto
  • Liberty Ellman guitarra
  • Matt Brewer contrabaixo
  • Damion Reid bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 31 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | CHRIS LIGHTCAP’S BIGMOUTH, “DELUXE”

Chris Lightcap's Bigmouth (Clean Feed)

CHRIS LIGHTCAP’S BIGMOUTH, “DELUXE”

CLASSIFICAÇÃO: 3.5/5

Bigmouth é o título do segundo álbum do quarteto liderado pelo contrabaixista Chris Lightcap editado pela Fresh Sound New Talent, em 2003. Mantendo Tony Malaby e Gerald Cleaver e com Chris Cheek no lugar de Bill McHenry e Craig Taborn nos teclados, “Bigmouth” passa a ser nome do quinteto que agora edita Deluxe pela Clean Feed e apresenta 8 originais do contrabaixista originário da Pensilvânia e sediado em Nova Iorque. Temas alongados construídos sobre bases solidamente definidas e defendidas por Chris Lightcap, Craig Taborn e Gerald Cleaver, leves mas dinâmicas, nas quais se apresentam pequenos temas, quase orquestrais no arranjo dos sopros e onde se privilegia o posterior desenvolvimento dos solos dos 2 saxofonistas, em frequentes situações ora de diálogo ora de confronto— um com o outro ou mesmo com a estrutura do próprio tema, aparentemente—, sem que, ainda assim, seja evidente uma divisão entre secção rítmica e solistas, já que a estrutura base se mantém presente e rica, quer pela articulação do contrabaixo, quer pela expressão dos teclados ou pela variedade de abordagens e pontuações da bateria. O desenvolvimento fluído dos temas e a sobreposição dos solos, associados a uma certa característica “circular” da escrita de Lightcap ilude uma ideia de direcção clara e esse poderá ser o maior handicap do disco, repetindo-se mais do que uma vez a sensação de que ou o tema não vai a lado nenhum ou o tema se pode prolongar eternamente.
A Chris Cheek e Tony Malaby, com Andrew D’Angelo em 3 temas, cabe a tarefa de construir sobre estes “quasi-ostinatos” um discurso / diálogo / confronto que explora o seu potencial e demonstra a complementaridade de abordagens possíveis, na presença de músicos deste calibre. “Two-Face” é, eventualmente, a faixa que mais se afasta deste modelo, com Craig Taborn no piano a contribuir claramente para a desmontagem do alicerce inicial, em clara colaboração com os 2 saxofones e o grupo a divergir globalmente mais, mas mesmo neste tema, o fim é um regresso à estrutura inicial. Mais representativa da estratégia global do disco será a abertura “Platform” ou “Deluxe Version”, com esta segunda a dispôr de espaço para um solo de Craig Taborn, numa estrutura mais “convencional”, sem sobreposição de solos e duma leveza quase excessiva. “Fuzz”, a encerrar o disco, filia, eventualmente, este Deluxe nos férteis cruzamentos do jazz com um certo universo pop-rock, carregado de “groove” e com muita energia criativa.

CHRIS LIGHTCAP’S BIGMOUTH, “DELUXE”

Clean Feed, 2010
Gravado em Nova Iorque, 2008

  • Chris Lightcap contrabaixo
  • Chris Cheek sax tenor
  • Tony Malaby sax tenor
  • Craig Taborn piano e wurlitzer
  • Gerald Cleaver bateria
  • Andrew D’Angelo sax alto (convidado em 3 faixas)
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 31 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | KEEFE JACKSON QUARTET, “SEEING YOU SEE”

Keefe Jackson, Seeing You See (Clean Feed)
KEEFE JACKSON QUARTET, “SEEING YOU SEE”

CLASSIFICAÇÃO: 3/5

Seeing You See é a estreia discográfica do quarteto liderado por Keefe Jackson, jovem saxofonista, clarinetista, compositor e improvisador activo na cena de Chicago desde 2001 que reúne Jeb Bishop, Jason Roebke e Nori Tanaka, numa estrutura de quarteto relativamente convencional, para a interpretação de 10 temas assinados pelo líder, numa escrita que não sendo surpreendente, faz um uso inteligente dos recursos e alterna entre temas algo convencionais como “Put My FInger on It” e estruturas um pouco mais fluídas, como a faixa de abertura, “Maker”, o título “Seeing You See” ou “How-a-Low”, com Jackson no clarinete baixo, que permite igualmente uma mudança interessante de côr, no disco.
Os temas são genericamente interessantes e as interpretações eficazes, com Jeb Bishop a destacar-se pelos maiores riscos que corre e pelos momentos mais “livres” que protagoniza, sendo por isso de destacar a inteligência e generosidade de Keefe Jackson, quer na sua escolha, quer no espaço que lhe dá no desenvolvimento dos temas, mas a escrita, apesar de tudo, afirma-se como um constrangimento, já que denota alguma imaturidade, patente nas vozes sistematicamente dobradas entre Jackson e Bishop, por exemplo.
Tanaka e Roebke asseguram com igual facilidade e eficácia momentos mais swingados e estruturas free ou “simples” texturas, mas nunca saem verdadeiramente do segundo plano, apesar de deixarem boas indicações.
Na “ribalta”, a relação entre Jeb Bishop e Keefe Jackson parece demasiado controlada pela escrita e por estratégias que parecem evitar o diálogo ou o confronto e ao disco, no global, parece sempre faltar qualquer coisa que lhe dê mais identidade, apesar dos belíssimos momentos que oferece.

KEEFE JACKSON QUARTET, “SEEING YOU SEE”

Clean Feed, 2010
Gravado em Chicago, 2008

  • Keefe Jackson sax tenor e clarinete baixo
  • Jeb Bishop trombone
  • Jason Roebke contrabaixo
  • Noritaka Tanaka bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 31 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | LAWNMOWER, “WEST”

Lawnmower, West (Clean Feed)
LAWNMOWER, “WEST”

CLASSIFICAÇÃO: 2/5

Um quarteto dirigido por um baterista, com 2 guitarras eléctricas e um saxofone alto, não é propriamente uma formação habitual. Mas para Luther Gray, baterista originário do movimento punk e com colaborações no mundo da improvisação e do free jazz com nomes como Anthony Braxton, Joe Morris, Joe McPhee ou Ken Vandermark, que tem como objectivo para este seu projecto Lawnmower realizar uma síntese de todas as suas influências musicais, passadas e presentes, a companhia dos 2 guitarristas do indie-folk, Geoff Farina e Dan Littleton— com quem já tinha colaborado em “New Salt”— e do saxofonista Jim Hobbs, uma voz particular, reconhecida pelas suas colaborações com Joe Morris, seria a composição necessária. A junção resulta num universo híbrido, explorado em longas incursões alimentadas pela pulsão de Luther Gray, e pelas guitarras de Farina e Littleton, que afirmam paisagens relativamente áridas e de horizontes abertos, sobre os quais Jim Hobbs plana em linhas livres, num funcionamento geral em 3 camadas: uma onde reside Luther Gray, outra onde as guitarras trocam materiais entre si e definem um “contexto” geral e uma terceira, onde o saxofone parece eventualmente, demasiado livre ou isolado.
Excepções mais notáveis serão “Prayer of Death”, com uma forma harmónica, melódica e rítmica mais determinada pelo canto blues-folk de Littleton, que Hobbs prefere desconstruir lentamente, sem grande resultado ou “Giant Squid” com linhas melódicas herdeiras da tradição de Ornette Coleman, sobre uma paisagem muito angulosa e pontilhada. Os momentos mais interessantes e vivos desta última, com mais trocas de material entre as várias camadas musicais referidas, contam-se entre os momentos mais bem conseguidos do disco, onde se ouve, de facto, alguma síntese e não a sobreposição de referências, mas a sensação geral é a de uma distância excessiva entre os elementos do quarteto que parecem demasiado reticentes em fazer movimentos para fora das suas zonas de conforto respectivas. “Dan”, na (tentativa de) longa sucessão de drones partilhados é talvez o melhor exemplo dessa reticência.
Destaca-se ainda assim, pela negativa, a relação de Jim Hobbs com os guitarristas, quer por alguns excessos expressivos do saxofonista, quer pela frequente dificuldade de afinação (de parte a parte) na partilha do mínimo material melódico ou no encaixe harmónico, que apenas se consegue ouvir na faixa final, “Two” e, mesmo aí, requer alguma boa vontade do ouvinte.

LAWNMOWER, “WEST”

Clean Feed, 2010
Gravação: Cambridge MA, 2008

  • Luther Gray bateria
  • Geoff Farina guitarra
  • Dan Littleton guitarra
  • Jim Hobbs sax alto
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 31 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Violino Escravo, de Jon Rose @ Serralves

“Violino Escravo – A True Story of a Slave Violinist”
de Jon Rose

Auditório de Serralves
13 de Maio de 2010, 21h30

Ciclo Documente-se!
Sentidos do Reconhecimento

“Violino Escravo – A True Story of a Slave Violinist” resulta duma encomenda da Fundação de Serralves a Jon Rose que encontrou neste convite as condições necessárias para a realização dum projecto de “radio art” dedicado à figura e à história de Joseph Emidy, um escravo negro oriundo da Guiné, em finais do século XVIII, violinista quase acidental, com uma vida atribulada que inclui a passagem pela Orquestra da Ópera de Lisboa e por um navio da Marinha Britânica, com um fim de vida na Cornualha, onde se veio a afirmar como um dos mais importantes compositores, violinistas e professores do sudoeste de Inglaterra, nas primeiras décadas do século XIX, sem que alguma das suas composições tenha sobrevivido até aos nossos dias, muito devido à sua condição de ex-escravo e à cor da sua pele. Para nos apresentar esta peculiar biografia, Jon Rose recorre a um dos seus suportes de eleição, a “radio art”, que tem usado com frequência para re-escrever a História do Violino, contando com a colaboração de Flávio Hamilton na voz (gravada) e apresentando a peça com a particularidade de acrescentar à gravação (suporte tradicional destas peças) um solo ao vivo, executado pelo próprio Jon Rose.
A inclusão desta encomenda no Ciclo DOCUMENTE-SE!, que pretende “promover, a partir de um conjunto de propostas artísticas e de abordagens de cientistas sociais, uma reflexão sobre os processos do (não) reconhecimento do eu individual e social na contemporaneidade, estruturando identidades, relações de poder e contextos sociais” assume particular pertinência, não só pela construção própria de um objecto artístico de carácter documental, como pela apresentação dum “formato” que uma parte do público português tem, objectivamente, dificuldade em reconhecer como prática performativa, quer pelo destaque dado a um criador que, em todo o seu percurso, assume uma considerável fixação por processos de (re)conhecimento, particularmente, no que ao seu instrumento de eleição diz respeito.
Com uma vasta obra como compositor e improvisador e sobre um vasto número de suportes e formatos, Jon Rose continua indissociável do violino, enquanto instrumento, mas também enquanto tema central de grande parte da sua obra e a performance que trouxe a Serralves é plenamente ilustrativa disso mesmo.

Ainda antes de “Violino Escravo” ouvimos e vimos 2 partes de “Palinpolin” (2010), para solo de violino tocado com arco interactivo— manipulando som e imagem (no caso da 2ª parte)— num registo eventualmente mais reconhecível da sua obra, já que o arco interactivo e a sua utilização virtuosa constituem uma das imagens de marca mais fortes da carreira de Rose. A apresentação destas peças recentes, constituiu, assim, uma primeira aproximação a um “sentido do reconhecimento”, construindo-se sobre a manipulação extensiva mas relativamente clara e/ou explícita de formas de tocar ou fazer soar um violino e de manipular o material produzido (des)codificando um complexo vocabulário gestual que se constrói sobre a prática violinística convencional, expandindo os significados de cada arcada e cada movimento do arco, com tradução musical e visual imediata.
Destaca-se, na segunda parte de “Palinpolin”, que incluía a manipulação de vídeo, assim como em todos os momentos em que o arco se afastava do violino, clarificando a relação imediata entre os movimentos e os sons produzidos, uma certa preocupação em garantir uma maior adesão do espectador à performance, através duma espécie de demonstração da lógica interna da performance.
A linguagem performativa de Jon Rose não só é consequente, como tem a preocupação de ser explícita, o que, além de refrescante, é compreensível, pedagógico e positivamente assinalável.
Excluindo a eventual fragilidade da realização plástica da componente vídeo de “Palinpolin”, recorrendo a uma manipulação da imagem relativamente elementar e, porventura, demasiado previsível, esta primeira parte do concerto foi um solo entusiasmante de violino e electrónica em tempo real, com som quadrifónico, ao melhor nível do violinista britânico, figura central da música experimental australiana.

“Violino Escravo”, a peça radiofónica, apresentou-nos uma outra faceta de Jon Rose, num registo marcado pela consequência narrativa da peça e pela estrutura híbrida de documentário, reportagem e teatro radiofónico. O solo ao vivo, sem manipulação electrónica, permitiu um outro contacto com a sua técnica instrumental, e os recursos composicionais em uso, na gravação, apresentaram caminhos musicais diversos: pseudo-arqueologias musicais, referências folclóricas e humorísticas, construções ambientais e texturais bastante ilustrativas… Uma experiência interessante, eventualmente enfraquecida pelo recurso demasiado frequente a alguns dos motivos musicais que pareciam cumprir uma função pré-estabelecida no cânone radiofónico em uso.

Duas visões complementares do Violino, primeiro através da expansão da técnica instrumental, depois através dum episódio particular da sua História, quase tão extraordinário como desconhecido.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 31 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.