Entradas com Etiqueta ‘música’

A trama está montada

Sábado, 26 de Junho, 2010

Estreia hoje, n’A Moagem, no Fundão, o projecto trama³. Já não há muito mais a dizer. Estamos à vossa espera.

trama³, trama ao cubo

trama³, trama ao cubo (vista do concerto)

trama³

um projecto de João Martins, com Gustavo Costa e Henrique Fernandes

+ info: http://joaomartins.entropiadesign.org/2010/06/08/trama-3-trama-ao-cubo/
podcast: http://joaomartins.entropiadesign.org/2010/06/23/trama%c2%b3-uma-amostra/

trama³ | uma amostra

Quarta-feira, 23 de Junho, 2010

trama³, trama ao cubo

Com a aproximação da estreia do projecto trama³ (dia 26 de Junho no Fundão e apresentação no dia 2 de Julho em Aveiro), haverá quem se interrogue sobre o que verdadeiramente interessa: a que soa este novo instrumento.

Pode soar a muita coisas e esta gravação que partilho é um exemplo. É a primeira improvisação que gravámos durante o processo de construção e creio que é um bom cartão de visita para o projecto. Adequado, pelo menos.

 
icon for podpress  trama³ | session01 take01 [7:30m]: Play Now | Play in Popup | Download (169)

trama³

um projecto de João Martins, com Gustavo Costa e Henrique Fernandes

Neste projecto, um tear artesanal transforma-se num hiper-instrumento musical, com diversos registos tímbricos em configurações interligadas que permitem aos 3 músicos abordá-lo ora como um instrumento único, ora como um ensemble quase orquestral. Sobre a estrutura do tear, em intervenções que procuram compreender o seu funcionamento primário, enquanto exploram um vasto conjunto de possibilidades sónicas— sugeridas, na sua maior parte, pela observação de teares nos seus contextos originais—, fixam-se cordas, molas, caixas e vários objectos comuns, distribuindo pelas várias “faces visitáveis” da máquina, modos de produção de som interligados.

E, do mesmo modo que a concepção e construção do próprio instrumento procura compreender e valorizar os aspectos funcionais pré-existentes, a concepção global do projecto procura estabelecer pontes tangíveis entre os modos e os conteúdos da nova produção musical e as técnicas artesanais, as pessoas e os locais que compõem a memória do objecto. Gestos da tecelagem e das actividades relacionadas são recuperados como gestos de produção sonora no novo instrumento; recolhas de sons quer dos teares, quer das paisagens sonoras em que os descobrimos integram, como texturas e como motivos, o reportório concebido.
Estes teares— os seus “corpos”, o seu universo e identidade particular— são por isso, física e conceptualmente, o material de base para mais dois músicos— cúmplices de longa data—, artesãos, inventores e construtores de instrumentos que interpretam com as suas próprias ferramentas o desafio original.
Uma intrincada teia que cruza Música e Arte Sonora, aborda várias definições possíveis de instrumento musical e estende uma ponte audível, atenta e crítica entre práticas artísticas e práticas artesanais, enquanto reconhece o valor primordial das paisagens naturais e humanas genuínas.

Uma encomenda do Município do Fundão
Co-produção: Câmara Municipal do FundãoA Moagem - Cidade do Engenho e das Artes / Granular Associação
Produção executiva e acolhimento: A Moagem - Cidade do Engenho e das Artes

História do Projecto

Em 2005, como parte do processo de concepção dum espectáculo de teatro, concebi e construí um instrumento musical reutilizando a estrutura dum tear manual de mesa, que tinha utilizado em trabalhos oficinais como aluno do ensino secundário. O instrumento, a que chamei Contratear- a partir do nome da peça, “O Contrabaixo” (Visões Úteis, 2005)-, foi usado posteriormente em vários concertos e performances e passou a integrar o meu instrumentário regular. Em 2009, A Moagem - Cidade do Engenho e das Artes, propõe à Granular o desenvolvimento dum projecto musical centrado nos esforços de dinamização da actividade artesanal de grupos de tecedeiras nas Aldeias do Xisto e a Granular contacta-me, por causa do Contratear. E, assim, em Maio de 2009, estive em residência artística nas Aldeias do Xisto (Janeiro de Cima e Bogas do Meio), tendo como objectivo de curto prazo a concepção duma performance a apresentar na LX Factory, em Junho de 2009 e, como objectivo final a concepção e construção dum novo instrumento musical construído a partir dum tear. Essa primeira fase, a solo, mudou consideravelmente a minha relação com o Contratear, não tanto pela performance que realizei na Arthobler / Ler Devagar (LX Factory), mas pela imersão no universo dos teares artesanais e pela descoberta de imensos pontos de contacto entre os objectos da tecelagem e diversos instrumentos musicais, mas também entre os processos de concepção e registo dos padrões em uso nas práticas artesanais e técnicas de composição e escrita musical. A compreensão, também nessa altura, do carácter primordial do tear, enquanto máquina-ferramenta universal e a reflexão sobre o seu desenvolvimento mecânico e técnico, especialmente a partir da Revolução Industrial, e sobre o significado que a manutenção das práticas artesanais tem, face a esse desenvolvimento, influenciaram de forma decisiva, ainda que menos visível, a orientação conceptual do projecto para o qual, desde o início, contava com a colaboração do Gustavo Costa e do Henrique Fernandes, parceiros em variadíssimos projectos e, eles próprios, inventores e construtores de instrumentos. A estratégia usada na performance a solo de 2009, recorrendo a uma base audiovisual construída pela selecção, edição e manipulação de recolhas áudio e vídeo feitas durante a residência provou a sua eficácia quer como mecanismo de referenciação, quer como partitura estrutural e com base nessa primeira experiência, a segunda fase do projecto avançou para a concepção e construção dum novo instrumento sobre a estrutura pré-existente dum daqueles teares. Nesta segunda fase, trabalhámos já em conjunto, no Fundão, procurando transferir todas estas preocupações para o próprio processo de construção, a que acrescia a vontade e necessidade de diversificar os modos de produção de som, por forma a aproveitar ao máximo a área disponível na estrutura e alcançar o objectivo de, em vez de sobrepôr vários pequenos instrumentos à estrutura, usá-la como base dum instrumento único, polivalente, com o máximo de módulos interligados. A interpretação do desafio original, concretizou-se e expandiu-se no encontro das 3 personalidades e experiências específicas e com o contributo crítico de quem acompanhou este processo e, especialmente, de Albrecht Loops. Além da concepção e construção deste novo instrumento, realizámos novas recolhas sonoras e testámos novas formas de utilização e manipulação e desenvolvemos estratégias composicionais baseadas em regras simples e padrões que referenciam, de alguma forma, o universo das práticas artesanais e estudámos e estruturámos vários modos performativos. Um processo desta natureza evolui constantemente e não tem um fim natural; apenas
pontos de paragem e reflexão que sugerem novos desenvolvimentos. O ponto onde nos encontramos é particularmente rico: não só possuímos um instrumento poderoso e flexível, como dominamos formas performativas coerentes e consequentes. A documentação e enquadramento da globalidade do projecto permitirão uma leitura mais completa e rica do objecto em si mesmo, mas as suas actuais possibilidades performativas são inegáveis.

trama³, trama ao cubo

Terça-feira, 8 de Junho, 2010

trama³, trama ao cubo

trama³

um projecto de João Martins, com Gustavo Costa e Henrique Fernandes

Neste projecto, um tear artesanal transforma-se num hiper-instrumento musical, com diversos registos tímbricos em configurações interligadas que permitem aos 3 músicos abordá-lo ora como um instrumento único, ora como um ensemble quase orquestral. Sobre a estrutura do tear, em intervenções que procuram compreender o seu funcionamento primário, enquanto exploram um vasto conjunto de possibilidades sónicas— sugeridas, na sua maior parte, pela observação de teares nos seus contextos originais—, fixam-se cordas, molas, caixas e vários objectos comuns, distribuindo pelas várias “faces visitáveis” da máquina, modos de produção de som interligados.

E, do mesmo modo que a concepção e construção do próprio instrumento procura compreender e valorizar os aspectos funcionais pré-existentes, a concepção global do projecto procura estabelecer pontes tangíveis entre os modos e os conteúdos da nova produção musical e as técnicas artesanais, as pessoas e os locais que compõem a memória do objecto. Gestos da tecelagem e das actividades relacionadas são recuperados como gestos de produção sonora no novo instrumento; recolhas de sons quer dos teares, quer das paisagens sonoras em que os descobrimos integram, como texturas e como motivos, o reportório concebido.
Estes teares— os seus “corpos”, o seu universo e identidade particular— são por isso, física e conceptualmente, o material de base para mais dois músicos— cúmplices de longa data—, artesãos, inventores e construtores de instrumentos que interpretam com as suas próprias ferramentas o desafio original.
Uma intrincada teia que cruza Música e Arte Sonora, aborda várias definições possíveis de instrumento musical e estende uma ponte audível, atenta e crítica entre práticas artísticas e práticas artesanais, enquanto reconhece o valor primordial das paisagens naturais e humanas genuínas.

Uma encomenda do Município do Fundão
Co-produção: Câmara Municipal do FundãoA Moagem - Cidade do Engenho e das Artes / Granular Associação
Produção executiva e acolhimento: A Moagem - Cidade do Engenho e das Artes

História do Projecto

Em 2005, como parte do processo de concepção dum espectáculo de teatro, concebi e construí um instrumento musical reutilizando a estrutura dum tear manual de mesa, que tinha utilizado em trabalhos oficinais como aluno do ensino secundário. O instrumento, a que chamei Contratear- a partir do nome da peça, “O Contrabaixo” (Visões Úteis, 2005)-, foi usado posteriormente em vários concertos e performances e passou a integrar o meu instrumentário regular. Em 2009, A Moagem - Cidade do Engenho e das Artes, propõe à Granular o desenvolvimento dum projecto musical centrado nos esforços de dinamização da actividade artesanal de grupos de tecedeiras nas Aldeias do Xisto e a Granular contacta-me, por causa do Contratear. E, assim, em Maio de 2009, estive em residência artística nas Aldeias do Xisto (Janeiro de Cima e Bogas do Meio), tendo como objectivo de curto prazo a concepção duma performance a apresentar na LX Factory, em Junho de 2009 e, como objectivo final a concepção e construção dum novo instrumento musical construído a partir dum tear. Essa primeira fase, a solo, mudou consideravelmente a minha relação com o Contratear, não tanto pela performance que realizei na Arthobler / Ler Devagar (LX Factory), mas pela imersão no universo dos teares artesanais e pela descoberta de imensos pontos de contacto entre os objectos da tecelagem e diversos instrumentos musicais, mas também entre os processos de concepção e registo dos padrões em uso nas práticas artesanais e técnicas de composição e escrita musical. A compreensão, também nessa altura, do carácter primordial do tear, enquanto máquina-ferramenta universal e a reflexão sobre o seu desenvolvimento mecânico e técnico, especialmente a partir da Revolução Industrial, e sobre o significado que a manutenção das práticas artesanais tem, face a esse desenvolvimento, influenciaram de forma decisiva, ainda que menos visível, a orientação conceptual do projecto para o qual, desde o início, contava com a colaboração do Gustavo Costa e do Henrique Fernandes, parceiros em variadíssimos projectos e, eles próprios, inventores e construtores de instrumentos. A estratégia usada na performance a solo de 2009, recorrendo a uma base audiovisual construída pela selecção, edição e manipulação de recolhas áudio e vídeo feitas durante a residência provou a sua eficácia quer como mecanismo de referenciação, quer como partitura estrutural e com base nessa primeira experiência, a segunda fase do projecto avançou para a concepção e construção dum novo instrumento sobre a estrutura pré-existente dum daqueles teares. Nesta segunda fase, trabalhámos já em conjunto, no Fundão, procurando transferir todas estas preocupações para o próprio processo de construção, a que acrescia a vontade e necessidade de diversificar os modos de produção de som, por forma a aproveitar ao máximo a área disponível na estrutura e alcançar o objectivo de, em vez de sobrepôr vários pequenos instrumentos à estrutura, usá-la como base dum instrumento único, polivalente, com o máximo de módulos interligados. A interpretação do desafio original, concretizou-se e expandiu-se no encontro das 3 personalidades e experiências específicas e com o contributo crítico de quem acompanhou este processo e, especialmente, de Albrecht Loops. Além da concepção e construção deste novo instrumento, realizámos novas recolhas sonoras e testámos novas formas de utilização e manipulação e desenvolvemos estratégias composicionais baseadas em regras simples e padrões que referenciam, de alguma forma, o universo das práticas artesanais e estudámos e estruturámos vários modos performativos. Um processo desta natureza evolui constantemente e não tem um fim natural; apenas
pontos de paragem e reflexão que sugerem novos desenvolvimentos. O ponto onde nos encontramos é particularmente rico: não só possuímos um instrumento poderoso e flexível, como dominamos formas performativas coerentes e consequentes. A documentação e enquadramento da globalidade do projecto permitirão uma leitura mais completa e rica do objecto em si mesmo, mas as suas actuais possibilidades performativas são inegáveis.

Serralves em Festa 2010

Sexta-feira, 4 de Junho, 2010

O Serralves em Festa é já este fim de semana. São 40 horas non-stop de actividade cultural num evento que não tem paralelo, pelo menos no norte do país. Este ano, lá estarei, a participar e a assistir e não posso deixar de aconselhar esta experiência. Quem lá esteve em anos anteriores sabe que é qualquer coisa de muito especial. Quem nunca experimentou, tem mesmo que experimentar. Pelos eventos, mas também pela atmosfera de festa verdadeira à volta da criação e da fruição artística, coisa rara em Portugal.

Nas centenas de actividades programadas em todas as áreas e formatos imagináveis, há, de certeza, alguma coisa que vos interessa. Consultem o programa no site.

E porque não custa nada puxar a brasa à minha sardinha, recordo:

E chamo a atenção para o facto de, na Casa de Serralves, se poder assistir à apresentação de dois trios especiais: Martin Brandlmayr, Steve Heather e Gustavo Costa (sábado às 15h00) e B. Fleischmann, João Pais Filipe e Jorge Queijo (domingo, às 16h30).

jazz.pt | João Paulo Esteves da Silva & Dennis González

Terça-feira, 1 de Junho, 2010

João Paulo Esteves da Silva & Dennis González

Casa da Música, Sala 2 | 16 de Janeiro

Depois da muito bem sucedida edição de “ScapeGrace” (CleanFeed, 2009)— considerado pela jazz.pt o melhor disco nacional do ano— João Paulo Esteves da Silva e Dennis González apresentaram-se na Sala 2 da Casa da Música para um concerto que, para ser fiel ao disco, teria que reflectir a situação/estratégia de improvisação usada que, como João Paulo referiu em jeito de apresentação, haverá gente que não acredite (porque é de fé que se trata) e outros considerarão despudorada.
Mas, acredite-se ou não, é através da improvisação, sem ensaios nem temas escritos, que se constrói o disco e os concertos desta dupla, que até à proposta da editora lisboeta nem sequer se conheciam ou ao trabalho respectivo.
Sem ensaios, nem temas escritos, mas não sem referências: a ampla bagagem musical de cada um dos músicos e a partilha que originou “ScapeGrace” permitem aos músicos e aos ouvintes ancorar esta experiência musical em motivos melódicos e rítmicos que cruzam, no território do jazz contemporâneo, as fortes referências às músicas populares tradicionais que dão corpo a uma parte significativa dos percursos individuais de João Paulo (o pianista que mantém um projecto de exploração da herança da música sefardita em Portugal e que colaborou com Fausto, Vitorino, José Mário Branco, Sérgio Godinho, entre tantos outros) e Dennis González, cuja procura constante de derrubar barreiras passa por integrar no seu discurso linguagens enraizadas nos locais que percorre.
Assim, apesar da estratégia de improvisação e da construção de música completamente nova, ouviram-se na Casa da Música vários dos motivos presentes em “ScapeGrace” e outros motivos familiares, introduzidos ora por João Paulo, ora por Dennis González, que se sucederam no lançamento de introduções a solo para a posterior exploração do duo.
Nesse contexto, a facilidade com que João Paulo acompanha, complementa, cita e desenvolve qualquer motivo, por mais simples que seja, associada a uma eventual retracção por parte de Dennis González, concedeu ao piano um protagonismo desproporcionado, com cadências a solo em cada um dos 7 temas. Era, de resto, aparente a dificuldade do trompetista em acompanhar as rápidas inflexões harmónicas do piano que, muitíssimo inspirado, rápido e eventualmente mais complexo (ou pelo menos mais denso) do que em encontros anteriores, limitava a margem de manobra em termos de fraseado e improvisação, impondo um discurso harmonicamente mais direccionado e fechado. Energia ou “inspiração” a mais de João Paulo que, por vezes, parecia desligar-se da situação de duo, com a anuência do trompetista texano, para regressar, depois de belíssimas (mas por vezes demasiado longas) explorações, onde as raízes populares da lírica de base do duo passava por metamorfoses sucessivas, com recurso a diversas referências e linguagens, desde os nacionalismos nas músicas clássicas eruditas nos séculos XIX e XX, ao jazz técnica e mentalmente exigente de Keith Jarrett ou aos mais próximos Laginha e Sassetti.
Dennis González, por seu turno, parecia dosear cuidadosamente as suas intervenções, estabelecendo motivos simples, pontuando momentos fundamentais e alimentando os processos de João Paulo. Em sentido contrário, apenas ocasionalmente se tornava possível ao trompetista identificar e explorar temas sugeridos pelo piano, mais fechados e enquadrados em contextos harmónicos menos previsíveis. Nesse sentido podemos falar dum duo e duma improvisação “dirigida”, com momentos verdadeiramente fulgurantes, mas com um certo desequilíbrio entre as personalidades musicais em presença.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 29 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Dave Burrell na Culturgest Porto

Segunda-feira, 31 de Maio, 2010

Dave Burrell

Culturgest Porto, 15 de Janeiro

Num contexto muito intimista, com o público disposto em cadeiras à volta do piano, o quase septuagenário e muito empático Dave Burrell, um histórico das vanguardas do jazz, apresentou um recital de piano solo excepcionalmente convencional, quer na forma, quer no conteúdo. Não tanto pela já anunciada revisitação de standards e do songbook norte-americano, processo que faz parte do seu percurso de intérprete, compositor e arranjador— com marcas recentes na colaboração com a cantora Leena Conquest (com quem o vimos no Porto, no grupo de William Parker, em 2009, no concerto dedicado a Curtis Mayfield) e já presente desde 1968, em “High Won, High Two” (Black Lion)—, mas por uma utilização, quer do reportório, quer do piano, muito estrutural e orquestral, e muito pouco “solista”.
As canções de Billy Strayhorn, Hoagy Carmichael, George Gershwin, Duke Ellington, Thelonious Monk, António Jobim e do próprio Dave Burrell foram-nos apresentadas “completas” e sólidas- com as linhas de baixo, os padrões rítmicos, as vozes principais e os riffs, em todas as voltas, coros e codas-, com a expressão ou intenção “solista” de Burrell a infiltrar-se na densidade destas “reduções ao piano”, mais pelas ocasionais derivas harmónicas ou nas suspensões e inversões dos arcos de tensão das canções, do que pela expressão melódica de frases solistas que, sendo de grande qualidade, vigor e virtuosismo, eram, sem grandes excepções, rigorosamente enquadradas numa perspectiva historiográfica da música apresentada.
Solidamente assente no rigor académico e na capacidade de execução que a sua longa formação académica como compositor, arranjador e intérprete parece ter gravado no seu código genético— primeiro na Universidade do Hawaii, depois na Berklee, de onde saiu em 1965 para a cena de vanguarda nova-iorquina, afirmando-se como um dos mais inovadores pianistas do panorama, tendo colaborado com Marion Brown, Pharoah Sanders, Archie Shepp e Albert Ayler, entre tantas outras referências do free e do avant-jazz— Dave Burrell, aparentemente empenhado na redescoberta da capacidade expressiva das grandes canções “clássicas”, nas suas versões “orquestrais” e “intactas”, prestou um tributo às canções, aos seus compositores e arranjadores, numa forma de concerto que, apesar da proximidade física entre o público e o criador, parece ter usado as próprias canções como barreira em substituição do palco, tornando-se o seu solo— normalmente um exercício de grande risco e exposição—, num fluxo organizado e denso, com a solidão e exposição do criador-intérprete a ser completamente “atropelada” pela quantidade de vozes e funções que a sua técnica convocou.
Mas este exercício de enquadramento estrutural das canções operou também, em alguns casos de forma surpreendente, a construção de novas-velhas “imagens” ou “espaços” deste reportório “clássico”: sugeriu imagens de cabaret quase brechtiano para “Embraceable You”, de Gershwin- cuja relação com Kurt Weill é objecto interessante de estudo na definição dum certo “jazz clássico”- e invocou o ambiente das salas de cinema mudo e das suas pianolas mecânicas nos ragtimes originais do próprio Burrell, como “Astoria Rag” ou “Margy Pargy”, mas também em “It don’t mean a thing if it ain’t got that swing”, de Duke Ellington, com uma certa ironia.
Com o (pouco) público que enchia a sala da Culturgest Porto a aderir com algum entusiasmo, mais claro no momento de apresentação dos temas do que nas ocasionais derivas expressivas, Dave Burrell despediu-se com dois temas originais, “The Edge” e “With a Little Time”, que confirmaram a sua capacidade composicional e orquestral na invocação rápida de imagens fortes e no estabelecimento duma narrativa.
De alguma forma, e em resumo, este concerto a solo assemelha-se mais à apresentação de “reduções ao piano” dum reportório que Dave Burrell domina e apresenta com inteligência e vigor, num formato mais comum no universo da música clássica erudita, que pode resultar “estranho” ou pelo menos excessivamente formalizado, académico ou até abstracto, dependendo da experiência pessoal dos ouvintes.

Uma última nota para o piano disponível na Culturgest Porto que, para sermos justos, só disfarçou as suas fragilidades até ao 4º tema, deixando depois no ar uma insinuação permanente de desafinação e fragilidade tímbrica, completamente desnecessária.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 29 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Serralves em Festa, uma participação em grande

Segunda-feira, 31 de Maio, 2010

Nos últimos anos tenho tido participações pontuais nessa grande iniciativa que é o Serralves em Festa, integrado em algum dos projectos colectivos em que milito, como a F.R.I.C.S. ou o Space Ensemble, mas este ano, os convites “choveram”, fruto provavelmente de alterações na própria forma de programar a festa, pelo que, durante as 40 horas non stop, estarei envolvido em 3 apresentações independentes, entre sexta, dia 4 e sábado, dia 5. A saber:

  • F.R.I.C.S. - Fanfarra Improvisada Colher de Sopa
    Sexta-feira, dia 4, às 21h30, na Praça Parada Leitão ao Café Piolho (Baixa)
  • Margareth Kammerer, Gustavo Costa, Henrique Fernandes e João Martins
    Sábado, dia 5, às 16h30, na Casa de Serralves
    O nosso trio mais constante junta-se à cantora alemã Margareth Kammerer, para uma sessão de improvisação seguramente inesperada.
  • Derek Shirley’s CARD BLANCHE ENSEMBLE
    Sábado, dia 5, às 18h00, na Casa de Serralves
    Uma das estratégias da Festa deste ano é convidar músicos do Porto a integrarem colectivos de improvisação, com a designação genérica de CARD BLANCHE ENSEMBLE, dirigidos por alguns dos músicos estrangeiros convidados a participar no evento e o contrabaixista canadiano Derek Shirley, manifestou interesse na minha colaboração.

Prémio Crítica de Arte para “Paredes Meias”

Terça-feira, 18 de Maio, 2010

Os criadores do documentário “Paredes Meias” (2009), Sandro Araújo e Pedro Mesquita, foram distinguidos com a primeira edição do prémio Crítica de Arte 2009.
(…)
O documentário “Paredes Meias”, uma co-produção da Muzzak/Cinemactiv e da RTP, mostra o caso do conjunto habitacional da Bouça, situado na Rua da Boavista, no Porto, projeto de habitação económica desenhado pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira que demorou 30 anos a ser concluído.

O Space Ensemble participou na banda sonora deste filme-documentário, contribuindo com o tema principal “Paredes Meias”, composto por Sérgio Bastos.

Parabéns aos premiados. E parabéns ao Sérgio pelo excelente tema que compôs. Permitam-me, por isso, um certo sentimento de orgulho (mais do que vaidade) por fazer parte dum ensemble tão talentoso.

jazz.pt | Pirouet Records: Transatlânticos (3 discos em análise)

Domingo, 16 de Maio, 2010

Estes 3 recentes títulos da editora baseada em Munique, Pirouet, têm vários elementos em comum: o papel relevante dos saxofonistas (frontmen de 2 dos discos), a relativa juventude dos seus autores, a afirmação de algumas nuances dum certo jazz transatlântico, com os 3 discos liderados por músicos europeus, mas com a inequívoca presença do jazz norte-americano, não só na escolha de alguns intérpretes norte-americanos genuínos, mas no percurso e formação de todos os músicos envolvidos.

Virgo, Nicholas Thys
Virgo, de Nicolas Thys

CLASSIFICAÇÃO: 2.5/5

“Virgo”, do contrabaixista belga Nicolas Thys, apresenta-nos uma escrita escorreita, sem grandes sobressaltos, mas com assinalável eficácia lírica nos 6 temas (todos da autoria do contrabaixista), apresentados por uma formação coesa e tecnicamente irrepreensível, ainda que em relações algo convencionais, com Chris Cheek e Ryan Scott a explorarem habilmente a combinação do saxofone com a guitarra na apresentação dos temas e no desenvolvimento dos solos, sem momentos de afirmação individual de génio, mas servindo a estrutura dos temas com rigor. Dos 3 álbuns, este é o que se apresenta mais uniforme e que parece arriscar menos, quer na escrita, quer na interpretação, parecendo apostar em criar momentos de grande conforto- que consegue, sem dúvida-, mas correndo o sério risco de não afirmar nenhum traço identitário assinalável. A energia de “Disco Monkey”, tema de abertura, esgota-se rapidamente, e a sucessão de temas relativamente longos, sem particularidades estruturais ou singularidades assinaláveis, e sem significativas variações de humor ou tensão, afirmam uma música quase utilitária, muitíssimo bem executada, mas cuidadosamente planeada para não provocar grandes emoções.

Virgo, de Nicolas Thys

Gravação: Maio 2008, Nova Jérsia (EUA)
Edição: 2009, Pirouet Records, Munique

  • Chris Cheek, saxofone tenor
  • Jon Cowherd, piano
  • Ryan Scott, guitarra
  • Nicholas Thys, contrabaixo
  • Dan Rieser, bateria

Winter Fruits, Loren Stillman
Winter Fruits, de Loren Stillman

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

A escrita do britânico Loren Stillman tem características significativamente diferentes, apesar do resultado final adquirir, globalmente, também, uma certa contenção dinâmica. Stillman não faz uso frequente dos moldes harmónicos e melódicos mais vulgares, nem procura estabelecer “prisões” rítmicas e as suas linhas mais sinuosas, distribuídas pelo quarteto e cuidadosamente integradas de acordo com proximidades tímbricas servem, simultaneamente, a estrutura dos temas e a partilha interpretativa, permitindo que a formação opere sem demasiadas restrições “hierárquicas”. As inflexões de registo do órgão de Gary Versace expandem o universo tímbrico expectável dum quarteto desta natureza e a variabilidade rítmica presente, que Ted Poor serve com rigor e criatividade, permite a progressão dos temas com relativa frescura e explorando as diferentes combinações presentes. É realmente notável a capacidade de partilha duma escrita exigente e a forma como os 4 músicos envolvidos encontram e trocam motivos melódicos, harmónicos e rítmicos, com extraordinária subtileza e um apurado sentido de timing, respeitando os necessários espaços individuais, mas mantendo um elevado sentido de compromisso para com a música, a todo o tempo. E, simultaneamente, a forma individual como cada um dos músicos se relaciona com o material base, enriquece-o, dando novas perspectivas e lançando pistas de compreensão e fruição para vários públicos. A inclusão de 2 temas escritos por Ted Poor (”Muted Dreams” e “Winter Fruit”, este último com espaços para os momento de maior intensidade do disco), permite comprovar que este compromisso resulta, de facto, duma forte cumplicidade entre os músicos e as performances individuais são irrepreensíveis, com destaque, eventual, para as capacidades expressivas do saxofone de Stillman.
O contorno global da dinâmica do disco é, ainda assim, relativamente contido, numa opção que lhe confere unidade, mas lhe retira, eventualmente, alguma energia.

Winter Fruits, de Loren Stillman

Gravação: Junho 2008, Nova Jérsia (EUA)
Edição: 2009, Pirouet Records, Munique

  • Loren Stillman, saxofone alto
  • Nate Radley, guitarra
  • Gary Versace, órgão
  • Ted Poor, bateria

Starbound, Robin Verheyen
Starbound, de Robin Verheyen

CLASSIFICAÇÃO: 3.5/5

Por último, o disco do jovem belga Robin Verheyen, agora radicado em Nova Iorque, é aquele onde o contorno dinâmico se expande e a paleta de estímulos se diversifica mais, num esforço de demonstração de possibilidades que poderá custar ao disco alguma coesão ou lógica interna, mas torna a experiência de audição mais rica. Verheyen afirma-se, de forma mais evidente, como “frontmen” e assume a responsabilidade de conduzir a esmagadora maioria dos temas e o seu desenvolvimento obedece frequentemente a alguns dos canônes dum jazz mais clássico, ainda que se note que o vocabulário de Verheyen está marcado por uma cultura musical mais vasta. A escrita parece, de resto, asumir um lugar secundário, com os temas, relativamente simples, a serem entregues à exploração pelo quarteto, onde Bill Carrothers ganha algum destaque, assim como Dré Pallemaerts, muito rigoroso e seguro nas estruturas mais convencionais, mas com um óptimo sentido de oportunidade na resposta pontual às intervenções e flexões solísticas, criando uma base rítmica bastante orgânica e reactiva. As mudanças profundas de tempo e contexto harmónico entre temas, permite que o disco assuma alguns cortes evidentes e desenhe um arco narrativo mais complexo, com “Lamenting”, em que Verheyen opta pelo saxofone tenor a funcionar como ponto de apoio significativo na viagem. O espaço atribuído a cada um dos músicos permite ouvir as configurações habituais dum quarteto desta natureza, com espaço para avaliar a elevada qualidade interpretativa dos músicos que integram este agrupamento com quem Verheyen assegura o seu estatuto de artista residente no CC de Warande (Turnhout, Bélgica). Ainda assim, alguns momentos do disco, como o tema que dá nome ao álbum, “Starbound”, carecem de melhor enquadramento, deixando a impressão de que pouco mais serão do que exercícios de grupo sobre temas ainda incipientes. Verheyen, com 27 anos, apresenta sinais extraordinários de maturidade (na escrita, na interpretação, na técnica e na expressividade) em momentos como “Lamenting”, mas parece revelar ainda alguma insegurança no que diz respeito à construção dum álbum completo.

Starbound, de Robin Verheyen

Gravação: Abril 2009, Munique
Editação: 2009, Pirouet Records, Munique

  • Robin Verheyen, saxofone soprano e tenor
  • Bill Carrothers, piano
  • Nicolas Thys, contrabaixo
  • Dré Pallemaerts, bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 28 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

“A Comissão” estreia a 27 de Maio

Quarta-feira, 12 de Maio, 2010

A Comissão, cartaz de entropiadesign a partir de imagem de Ricardo Lafuente

A COMISSÃO

36ª Criação Visões Úteis

27 de Maio a 5 de Junho 2010
Hotel Dom Henrique, Porto

Terça a Sábado às 22h00
Domingo e Segunda às 18h30, integrado no 33º FITEI - Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica

Uma bem humorada reflexão acerca dos actuais mecanismos de decisão política e económica, nomeadamente em Portugal e na Europa.
Apresentado na sala de um Hotel onde uma Comissão se reúne, o espectáculo questiona a linguagem utilizada pelos decisores políticos enquanto mecanismo de exercício de poder e domínio.
Espécie de Lado B do recentemente estreado “Boom & Bang” onde abordámos as circunstâncias que levaram à crise financeira que atravessamos, “A Comissão” enquadra-se no desenvolvimento do projecto artístico do Visões Úteis, num cruzamento constante entre os temas que fazem o nosso aqui e agora e a procura de linguagens performativas contemporâneas.

  • Texto e Direcção: Ana Vitorino e Carlos Costa
  • Colaboração na Dramaturgia: Nuno Casimiro
  • Figurinos e Adereços: Inês de Carvalho
  • Banda Sonora Original e Sonoplastia: João Martins
  • Desenho de Luz: José Carlos Gomes
  • Infografismo e Audiovisuais: João Martins / entropiadesign
  • Projecto Fotográfico: Paulo Pimenta
  • Coordenação Técnica: Luís Ribeiro
  • Produção Executiva: Joana Neto
  • Assistência de Produção: Helena Madeira
  • Design Gráfico: entropiadesign a partir de imagem de Ricardo Lafuente
  • Interpretação: Ana Vitorino, Carlos Costa, Pedro Carreira e ainda Joana Neto e Luís Ribeiro com a participação especial (em vídeo) de Nuno Casimiro, João Teixeira Lopes, José Pinto da Costa, Miguel Guedes, Alice Costa, Carolina Gomes, Raquel Carreira, Ana Azevedo, João Martins e José Carlos Gomes
  • Produção: Visões Úteis
  • M12 | 80 minutos
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