Entradas com Etiqueta ‘música’

jazz.pt | Ambrose Akinmusire: Prelude

Sexta-feira, 3 de Julho, 2009
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Prelude, Ambrose Akinmusire

Prelude, de Ambrose Akinmusire

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

Os “sons frescos” a que esta editora se dedica são já reconhecíveis. E este “Prelude”, de Ambrose Akinmusire, encaixa no catálogo sem grande surpresa.
A escrita de Ambrose Akinmusire é a dum jazz contemporâneo, inteligente e articulado: consciente das raízes, da necessidade de expôr formas mais elaboradas, da inevitável miscigenação da linguagem estritamente jazzística com outras expressões, umas mais eruditas, outras mais populares, mas sem a urgência de confrontar ou incomodar o ouvinte com experiências fracturantes: “apiration to evolution and beauty” (aspiração à evolução e beleza) é o mote deste jovem, mas já notável músico, que, recém-licenciado, ganhou em 2007 o Concurso Internacional Carmine Caruso para Solo de Trompete Jazz e o Concurso Internacional de Jazz Thelonious Monk.
“Prelude” é, assim, mais um disco dum jazz inteligente, urbano e contemporâneo, quase tão bem escrito como executado, por um ensemble vasto e diverso, que oferece ao disco uma rica paleta tímbrica. A riqueza dos temas não sobrecarrega os intérpretes com a responsabilidade individual de elevarem a experiência a um outro nível, solísticamente. Trata-se, nesse sentido, pela forma e pelos arranjos, de mais um exemplo de como o jazz pode ser um verdadeiro trabalho de equipa, sem hierarquias artificiais ou dependente de fortes personalidades.
Não quer isso dizer que o trabalho individual dos intérpretes não seja relevante. Pelo contrário: a capacidade técnica e expressiva de cada um dos envolvidos é o que garante a coesão do trabalho, o som distinto do ensemble e a realização completa do potencial da música escrita por Ambrose Akinmusire.

Evolução e Beleza são, de facto, boas palavras-chave para a catalogação deste “Prelude”.

Prelude, de Ambrose Akinmusire
Ed. Fresh Sound Records
Nova Iorque, EUA, 2008

Intérpretes: Ambrose Akinmusire (Trompete), Aaron Parks (Piano), Joe Sanders (Contrabaixo), Justin Brown (Bateria), Chris Dingman (Vibrafone), Walter Smith III (Sax Tenor)
Convidados: Junko Watanabe (Voz), Logan Richardson (Sax Alto)

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | David S. Ware: Shakti

Quinta-feira, 2 de Julho, 2009
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

SHAKTI, David S. Ware

SHAKTI, de David S. Ware

CLASSIFICAÇÃO: 3/5

Em SHAKTI, o quarteto dirigido pelo saxofonista David S. Ware explora o rico filão dos cruzamentos e ligações entre o Jazz e as suas raízes negras, com as ricas tradições indianas. Há uma aproximação mais evidente ao carácter repetitivo e hipnótico dos mantras e drones do que ao microtonalismo ou à complexidade rítmica das estruturas tradicionais indianas, mas parece estar também mais em causa um certo tipo de ligação à transcendência do que uma abordagem especificamente musical. Os temas são elementares e extremamente abertos, proporcionando amplos espaços discursivos para os solos, sobre uma textura rítmica normalmente bastante activa, com Warren Smith a pontuar extensivamente todos os solos e William Parker a manter rápidas linhas no contrabaixo, sem que se afirme nem um contorno harmónico, nem uma pulsação regular. A partir destes temas simples, mas com um forte pendor lírico-espiritual, os solos de David S. Ware desenvolvem-se com níveis de energia notáveis e uma força genuína no que é dito e como é dito, resultando esses momentos em fortes experiências, também pela relação estabelecida com a secção rítmica e parece evidente e, quiçá, intencional a forte dicotomia entre o discurso de Ware no saxofone tenor e o de Joe Morris, na guitarra. Especialmente ao nível da qualidade do som, a limpeza quase cristalina de Morris, parece querer salientar a “crueza” orgânica do som de Ware. Intencionais ou não, estas variações na “intensidade” do discurso apresentam-se como cortes ineficazes na fruição do disco, talvez por não serem acompanhadas por mudanças estratégicas pela secção rítmica que quando é chamada a solar se parece aproximar da abordagem mais visceral de Ware. Paralelamente, em alguns dos momentos de uníssono com Ware e Morris, as frases mais angulares parecem mais ajustadas ao rigor do guitarrista do que à interpretação mais livre e apaixonada de Ware e, também nesses momentos o dualismo é sentido com estranheza.
Globalmente, destacam-se variadíssimos momentos de grande intensidade musical e expressiva, mas periodicamente somos confrontados com estes outros momentos estranhos, cuja presença pode perfeitamente ser intencional, ainda que misteriosa e discutível na concretização.

SHAKTI, de David S. Ware
Edição AUM Fidelity
Nova Iorque, EUA, 2008

Intérpretes: David S. Ware (Sax Tenor e Kalimba), Joe Morris (Guitarra e Percussões), William Parker (Contrabaixo), Warren Smith (Bateria)

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Denman Maroney Quintet: Udentity

Quarta-feira, 1 de Julho, 2009
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Udentity, do Denman Maroney Quintet

Udentity, Denman Maroney Quintet

CLASSIFICAÇÃO: 5/5

O conceito de hiperpiano que Denman Maroney desenvolve e usa é uma forma de extensão do piano tradicional, com recurso a algumas das técnicas de piano preparado desenvolvidas por Jonh Cage, por exemplo, mas também a técnicas de expansão da prática instrumental por manipulação directa das cordas ou da caixa de ressonância, que resultam numa expansão real do timbre do instrumento, com a flexibilidade acrescida das alterações serem provisórias e móveis e da sua manipulação obedecer a critérios musicais explícitos e controlados em tempo real, como parte da interpretação. O potencial deste “instrumento” que é, no fundo, uma “forma de tocar” um dos mais emblemáticos instrumentos da música ocidental é, em si mesmo, aliciante suficiente para muitos ouvintes. Mas, felizmente, “Udentity” não é apenas uma demonstração das potencialidades do “hiperpiano” do seu autor. Pelo contrário: a utilização da diversidade tímbrica do hiperpiano, associada aos restantes instrumentistas, cada um deles capaz de tocar o(s) seu(s) instrumento(s) pelo menos nas fronteiras do possível, é estritamente marcada por intenções musicais consequentes, numa articulação colaborada e reactiva de todos os membros do ensemble. A sonoridade global e individual é, por isso mesmo, universal e identitária, como o título do álbum sugere e as composições sucedem-se, numa exploração bem articulada de ideias musicais onde o timbre e a sua manipulação assumem um papel que, sem se sobrepôr ou substituir outros parâmetros musicais, enriquece o discurso.
O trabalho de Denman Maroney como compositor, intérprete e líder do quinteto é notável: não só se faz rodear de alguns dos mais criativos instrumentistas, capazes, cada um deles, de encontrar os seus “hiper-instrumentos”, como cria as estruturas e contextos para que a obra não seja sobre esse tipo de virtuosismo, mas o use com fins musicais estritos, realizando esse compromisso aparentemente impossível entre exploração sónica/organológica e criação de música para o comum dos mortais.

Udentity, pelo Denman Maroney Quintet
Edição Clean Feed
Nova Iorque, EUA, 2008 (lançado em 2009)

Intérpretes: Ned Rothenberg (Sax Alto, Clarinete e Clarinete Baixo), Dave Ballou (Trompete), Denman Maroney (Hiperpiano), Reuben Radding (Contrabaixo) e Michael Sarin (Bateria)

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Carlos Zíngaro + Mental Liberation Ensemble

Quarta-feira, 1 de Julho, 2009

Na inauguração de A Mula Ruge no Espaço Campanhã, que acontece no dia 4 de Julho, próximo sábado, vamos ter um concerto do Mental Liberation Ensemble com Carlos Zíngaro. É às 18h00 e promete!

Cartaz de A Mula RugeA MULA RUGE
no Espaço Campanhã
de 4 a 25 de Julho de 2009

A Mula Ruge é uma espécie de infantário, onde podem vislumbrar essa maldita e mutante prole de tantos anos de rambóia. É também uma espécie de orgia, pois poderemos ver in actu as trampolinices da Mula com seus novos namorados (alguns deles com idade para ter juízo, mas que ainda revelam ter pêlo na venta). E ainda uma espécie de casamento de aldeia, já que convidaram todos os compadres e comadres para um pé de dança, comezaina e outras vilanias.
Pedro Moura

Exposição colectiva com Miguel Carneiro, Marco Mendes, Arlindo Silva, Filipe Abranches, João Maio Pinto, André Lemos, Berto Fojo, Likenico, Pelucas, Von Calhau, José Feitor, Júcifer, Lígia Paz, Raygal, Mauro Cerqueira, Mike Goes West, Nuno de Sousa, Carlos Pinheiro e Carlos Zíngaro.

(cartaz de Miguel Carneiro & João Marrucho)

Dia 4 de Julho:

  • 15h
    Inauguração da Exposição Colectiva e Feira Laica
    Lançamento da Qu’Inferno
  • 18h
    Concerto Mental Liberation Ensemble & Carlos Zíngaro

O Mental Liberation Ensemble é uma formação cujos membros provêm de áreas musicais que vão do death-metal ao free jazz, colaborando regularmente em vários projectos (F.R.I.C.S., Mécanosphère, Srosh, Lost Gorbachevs, entre outros), e que se juntam como Mental Liberation Ensemble quando surge a oportunidade de acolher um músico convidado.

Para o concerto a formação será constituída por:

João Martins - saxofones
Henrique Fernandes - contrabaixo eléctrico
Gustavo Costa - bateria e percussões várias
João Filipe - percussões
Filipe Silva - electrónica, guitarra
Jonathan Saldanha - electrónica e outros instrumentos

A estes músicos irá juntar-se o convidado Carlos Zíngaro (violino).

  • 20h
    Mega Churrasco Dançante com DJ GoldenShower

Dia 25 de Julho:

  • 18h
    Concerto João Peludo

Cartaz Feira laica

(Cartaz Von Calhau)

Mais informação:

  • Miguel Pinho (responsável pelo espaço) Tel: 912897580 / linha1@plataformacampanha.com
  • José Maia (responsável pelo programa de exposições) Tel: 933288141

Contactos:
Espaço Campanhã
Rua Pinto Bessa 122 - Armazém 4 e Armazém 21 (atrás do BANIF)
4300-472 Porto
Tel. 912897580 | linha1@plataformacampanha.com | www.plataformacampanha.com

jazz.pt | Wayne Shorter Quartet

Quarta-feira, 1 de Julho, 2009
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Wayne Shorter Quartet

Sala Suggia, Casa da Música, Porto | 11 de Março de 2009

Wayne Shorter (Sax Tenor e Soprano), Danilo Perez (Piano), John Patitucci (Contrabaixo), Brian Blade (Bateria)

A actual fase da carreira de Wayne Shorter, com o regresso à forma do quarteto acústico e com os cúmplices de elevadíssimo nível que escolheu para o acompanharem, é marcada, claramente pela afirmação do próprio Shorter que diz “com a idade que tenho, não tenho nada a perder“. Não é claramente por uma questão de idade, mas sim pela vastíssima experiência e pela quantidade de distinções e reconhecimento generalizado da sua importância na história do jazz que Shorter se encontra num patamar em que, não tendo nada a provar, pode assumir um caminho de risco que, nem sempre trilhou com o mesmo à vontade. Tendo ao seu lado músicos com tanta qualidade e mérito reconhecido nas várias áreas musicais em que se movem, o quarteto cumpre essa condição de se poder apresentar sem medos, sem sentimentos de cumprimento obrigatório destas ou daquelas expectativas. Apresentam-se com e pela música, conscientes de que o caminho que percorrerem, seja ele qual for, está de tal forma bem alicerçado na extraordinária capacidade técnica individual e na vastidão do repertório que se dedicam a desconstruir, que a viagem os levará sempre a bom porto, ainda que desconhecido.
De facto, a estratégia empregue pelo quarteto para o set contínuo de quase 1 hora com que brindou a vasta audiência que se dirigiu à Sala Suggia, consitiu na exploração sucessiva de frases e/ou temas, uns mais reconhecíveis do que outros, das várias fases da ecléctica carreira de Shorter. Num fluxo constante de ideias musicais partilhadas, apontamentos pontuais, ora de Shorter, ora de Danilo Perez, ora de Patitucci, realimentavam os ouvidos do público com material familiar e, quase sempre rapidamente, iniciava-se um processo de desmembramento ou escalpelização, passando pelas várias estratégias instrumentais disponíveis. A formação clássica erudita de Danilo Perez e John Patitucci, revelaram “cadenzas” escondidas, encaixadas nas formas mais ou menos jazzísticas ou mais pop(ulares); o virtuosismo técnico de Brian Blade, oferece ao quarteto, a bateria como instrumento solista, livre das hierarquias tradicionais e a veia de Wayne Shorter, que “aqueceu” com o decorrer do concerto, navegava sobre todo o material.
Mas mais do que a capacidade interpretativa ou técnica, o quarteto demonstrou uma imensa capacidade auditiva e colaborativa, trabalhando de forma notável as trocas de material, os processos de pergunta-resposta e mantendo, apesar da inexistência duma base rítmica ou harmónica convencional, uma coesão estrutural assinalável ao longo do (longo) set.
A execução do exercício proposto só aparece prejudicado pela fraca qualidade da amplificação utilizada neste formato acústico, onde a excessiva amplificação do piano de Danilo Perez, cria uma base dinâmica muito comprimida e retira ao quarteto algum do seu potencial expressivo.

O público menos adepto da estratégia inicial terá sido amplamente recompensado pelos 3 encores, onde o quarteto (a)cedeu à apresentação mais convencional de cada tema, com Brian Blade e John Patitucci a assumirem de forma mais clara a posição de secção rítmica e Wayne Shorter a ter mais espaço para “solar”, quer no soprano, quer no tenor.

Para um quarteto que subia ao palco sem nada a perder e se lançou convictamente numa exploração partilhada, podemos dizer que, com os encores, o concerto é uma aposta completamente ganha.

Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Tecer Devagar

Terça-feira, 16 de Junho, 2009

No próximo dia 20 de Junho, sábado, vou participar no Tecer Devagar, uma mostra organizada pelas Aldeias do Xisto na LX Factory, mais concretamente, no espaço da Ler Devagar. A minha participação relaciona-se directamente com a exposição Tapetes Mágicos, que resulta da parceria entre o designer Bruno Carvalho e as tecedeiras da Flor do Linho, em Boga do Meio: vou fazer um concerto de Contratear, que será o primeiro passo visível dum processo que levará à construção dum novo instrumento híbrido, resultante da colaboração com as tecedeiras de Boga do Meio e de Janeiro de Cima, com quem estou a aprender muito sobre teares e que me estão a ajudar a ter ideias interessantes, nestes dois dias em que estou em residência, aqui, por terras do Fundão.

Quem não conhece o Contratear achará isto tudo muito estranho, por isso, republica-se aqui uma amostra deste instrumento que concebi em 2005:

Com esta residência, que serve também para a recolha de sons e imagens que usarei neste concerto na LX Factory, inicia-se um processo de colaboração com A Moagem - Cidade do Engenho e das Artes, através do qual será criado um novo instrumento/dispositivo de maiores dimensões e complexidade e que explorará de forma mais aprofundada as potencialidades destes engenhos têxteis como dispositivos sonoros.

O concerto, às 22h00, no dia 20 de Junho, sábado, na Ler Devagar (LX Factory) é uma co-produção Miguel Rainha / Granular.

Apareçam!

jazz.pt | Jazz Ao Norte, uma pedrada no charco

Quarta-feira, 10 de Junho, 2009
Texto escrito por João Martins.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Jazz ao Norte: Pedrada no Charco

Não é apenas mais uma escola de Jazz. O modelo de exigência e rigor que todos os dias esta instituição do Porto aplica tem como sério objectivo a profissionalização dos músicos de Jazz que dela saírem e apresenta-se como um claro convite à replicação por todo o país.

Lançada em 2006, a Jazz ao Norte assume-se como uma “pedrada no charco” no panorama do ensino do Jazz em Portugal, e pode mesmo dizer-se, no ensino privado da música. Ao contrário de muitos outros projectos, construídos à volta de uma personalidade- músico, pedagogo ou divulgador- ou resultado da evolução orgânica e intuitiva de estruturas pré-existentes (academias de música, escolas de bandas, órfeãos ou outro tipo de associações), esta instituição logo desde o início com objectivos muito claros, usando metodologias claramente relacionadas com a prática profissional como engenheiro do seu fundador e director, Pedro Ferreira. Ao pensar neste projecto, e ao definir objectivos, se foi também a sua costela musical a impeli-lo nesta mudança de percurso (Pedro Ferreira toca saxofone tenor e sempre esteve ligado ao mundo do jazz), foi claramente a sua experiência de planificação e gestão na área da engenharia que conduziu o processo sistemático e rigoroso de definir um modelo de escola profissional que pudesse implementar no nosso panorama experiências de formação certificada e certificável, à semelhança do que se verifica em outros países.
Não há, por isso, espaço para grandes devaneios líricos quando se fala da história da Jazz ao Norte: em 2006, a visão, missão e objectivos definidos no projecto, incluíam a certificação do Curso Profissional que a escola ministra (processo concluído recentemente), a definição clara de estruturas programáticas que permitissem a construção de um percurso estruturado e organizado, rejeitando-se, por sistema, processos pedagógicos individualizados e subjectivos e exigindo-se planificações muito claras aos docentes. A Jazz ao Norte assumia-se já como uma escola dedicada à formação profissional de instrumentistas de jazz, organizando a sua oferta formativa em função da construção de um perfil profissional, comum a outras experiências internacionais (os exemplos norte-americanos, holandeses, franceses ou belgas são recorrentes na conversa que tivemos com Pedro Ferreira), mas que em Portugal se tem evitado, devido à pouca dignificação das profissões ligadas à arte e à criação.
O grau fornecido pela Jazz ao Norte, no fim do seu exigente Curso Profissional de 3 anos, pretende ser, tal como formalizado pelo próprio processo de reconhecimento e acreditação pela Direcção Geral de Emprego e Relações de Trabalho (antigo IQF), um grau profissional, correspondente à formação teórico-prática necessária para um instrumentista de jazz. E, com a conclusão do 4º ano (Curso Propedêutico), considera-se que o aluno está preparado para a prossecução de estudos superiores.
A conversa mantida com Pedro Ferreira tornou evidente que este tipo de aposta estruturada na formação de tipo básico e profissional era o que se esperava dos poderes públicos, num esforço articulado e prévio visando a criação de cursos superiores nesta área. «Em Portugal, gostamos de estar sempre “à frente”, mas esquecemo-nos muitas vezes de fazer os investimentos mais básicos. E isto é verdade no ensino do jazz, mas também na programação dos festivais, por exemplo», disse aquele responsável à jazz.pt. A aposta da Jazz ao Norte é, por isso, uma aposta também na formação básica de públicos e promotores/programadores, dirigindo-se, de forma generalizada à enorme lacuna de formação existente: disciplinas opcionais, das quais se destacam a História do Jazz (dada por José Duarte), os Cursos Livres, frequentáveis exclusivamente na vertente instrumento, mas que podem incluir cadeiras teóricas e/ou Classe de Conjunto, complementam a oferta estruturada dos cursos Profissional e Propedêutico, oferecendo aos mais interessados, a possibilidade de aumentarem os seus conhecimentos musicais.
O Curso Infantil (dos 3 aos 10 anos) assume-se como uma oferta de formação musical e cívica e o resto das actividades promovidas pela empresa (dos “workshops” às lojas, passando pelo agenciamento ou programação de concertos no Auditório José Duarte - Clube Jazz ao Norte) constitui um todo que pretende fortalecer o significado e importância da música em geral e do jazz em particular na saúde cultural da comunidade e propagar uma visão profissionalizada do fenómeno da produção musical jazzística.
Para implementar um projecto tão audacioso e distinto, a Jazz ao Norte apostou em não “reinventar a roda”: recrutou docentes com extensos currículos e formação no estrangeiro que partilham desta visão estruturada e profissional, pedindo a cada um deles a elaboração de planos pedagógicos completos para o Curso Profissional e Propedêutico. As diferentes propostas, resultado das experiências de docentes que passaram por instituições como o Conservatório de Música de Amesterdão ou de Paris ou o Berklee College of Music, foram depois analisadas e reorganizadas por forma a assegurar coesão horizontal (entre disciplinas) e vertical (ao longo dos anos) num trabalho que cabe ao director pedagógico, Hélder Martins, prestigiado académico e autor de “O Jazz em Portugal (1920-1956)”.
O modelo não é pacífico, como o próprio Pedro Ferreira admite, repetindo várias vezes «a malta do Jazz mata-me por dizer isto», mas a lógica é praticamente inabalável e a honestidade da proposta inquestionável: a quantidade de informação colocada à disposição dos potenciais alunos e a clareza das regras para todos (modelos e momentos de avaliação dos alunos e processo de recrutamento dos docentes) são filtros suficientes para garantir a construção saudável de uma comunidade coesa. A apresentação pública, estruturada e regular dos resultados, por outro lado, permite a verificação do cumprimento dos objectivos da escola. E, como pudemos comprovar na Audição da Páscoa, é um momento de consolidação da comunidade educativa mais alargada (professores, alunos, pais e amigos). Esses resultados são, em alguns casos, bastante significativos e animadores.
Mas o projecto não se deixa iludir: «não existem sucessos imediatos», considera Pedro Ferreira. E não perde a perspectiva da sua real dimensão, apesar do significativo investimento nas excelentes instalações e no quadro docente, poder “autorizar” algum entusiasmo. Ferreira assume não só que em menos de 10 anos será difícil avaliar a real eficácia das opções tomadas, como duvida do impacto isolado da Jazz ao Norte, desejando, pelo contrário, que o modelo se possa replicar e distribuir um pouco por todo o país. Também nesse asecto, a mentalidade de rigor e exigência se faz sentir.

+ info: www.jazzaonorte.com

Texto escrito por João Martins.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt #24 já está nas bancas

Quarta-feira, 20 de Maio, 2009

Aliás, já está nas bancas há umas semanas, mas ainda não me chegou à caixa de correio, nem houve ainda tempo para actualizar o site, pelo que a capa digital ainda não está disponível.

É mais um bom número da revista. Fica o índice e os meus destaques (egoístas):

jazz.pt #24: Maio/Junho 2009

  • BD (Carlos Zíngaro)
  • Breves
  • Agenda de concertos
  • Estante do Miguel (Miguel Martins)
  • Ciber Jazz (Daniel Sequeira)
  • Jazz Bridges (Rui Miguel Abreu)
  • New York is Now (Kurt Gottschalk)
  • Blues.pt (António Ferro)
  • Perfil: José Pedro Coelho (António Branco)
  • Às Escuras: José Lencastre (Abdul Moimême)
  • Preview: Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra (António Branco)
  • Portugal Jazz
  • Reports:
    • Portalegre Jazzfest (António Branco)
      com referência ao concerto do Spy Quintet:
      «Para o final, noite dentro, o Spy Quintet recuperou o projecto inspirado no álbum “Spy vs Spy”, de John Zorn e Tim Berne, e foi uma agradável surpresa. Do denso muro rítmico erguido pelos dois bateristas (Gustavo Costa e João Tiago Fernandes) e pelo contrabaixista Henrique Fernandes, soltaram-se os dois saxofonistas (João Martins e Rui Teixeira), que sopraram vigorosamente e com alma, dando muito boa conta de si.
      Terminava em alta um festival que continua a crescer a olhos (e ouvidos) vistos.»
    • Braga Jazz (Nuno Catarino)
    • Dose Dupla (António Rubio, Rui Duarte)
    • Wayne Shorter (João Martins)
      o texto virá parar aqui ao blog dentro de dias
    • Off-Road (Alberto Mourão)
    • André Fernandes Imaginário (Nuno Catarino)
  • Entrevistas:
    • Zé Eduardo (Abdul Moimême)
      o Zé Eduardo, “grande timoneiro”, é o tema da capa e é mesmo uma figura central do Jazz e da sua promoção e ensino, em Portugal; eu tive o prazer de verificar isso directamente, frequentando 2 workshops que ele dirigiu em Aveiro, há uns anos
    • Fred Frith (Charity Chan)
      o Fred Frith é uma figura seminal e nesta entrevista fala sobre o seu papel no ensino da improvisação, no Mills College; vale a pena uma leitura atenta
  • Forward:
    • Bay Area (Rui Eduardo Paes)
    • Jazz ao Norte (João Martins)
      o texto virá parar aqui ao blog dentro de dias
  • 33 RPM: New Phonic Art (Abdul Moimême)
  • Ponto de Escuta (Gonçalo Falcão, Paulo Barbosa, Rui Duarte, Rui Eduardo Paes, João Aleluia, Paulo Gonçalves, José Pessoa, João Pedro Viegas, Alberto Mourão, Nuno Catarino, Abdul Moimême, João Martins)
    foi a primeira vez que participei no “Ponto de Escuta” e tive o prazer de, além de me debruçar sobre discos que a revista me propôs— Udentity de Denman Maroney, Prelude de Ambrose Akinmusire e Shakti de David S. Ware (os textos virão cá parar)—, pude divulgar, através da crítica, uma edição de autor que merece atenção: Now Boarding, do Quad Quartet (também virá cá parar o texto)
  • Discos da Minha Vida: Pedro Costa

And now for something completely different

Segunda-feira, 11 de Maio, 2009

A TSF tem na sua playlist, já há umas semanas, uma canção portuguesa que me tem dado que pensar. A canção chama-se Vinho do Teu Corpo e a banda, Neruda.

Mas em que é que uma música destas me pode fazer pensar? É evidente: Sit on My Face, dos Monty Python, que aborda a mesma temática, mas com outro tom e elevação. ;)

Parabéns aos Neruda pela coragem de escreverem uma música sobre sexo oral (não me lembro de muitas) que peca, na minha opinião, pela falta de entusiasmo que os Monty Python demonstram.

A quem interessar, transcrevo a letra da música dos Neruda e a dos Monty Python, com um conveniente aviso às pessoas com mais sensibilidade: a letra dos Neruda é muito glicodoce, figurativa, cheia de insinuações brejeiras misturadas com imagens hiper-líricas que podem enjoar um bocado. Ah! A dos Monty Python é bastante gráfica e explícita, plena de entusiasmo a respeito da posição sexual a que habitualmente se chama 69.

Cá vão:

Vinho do Teu Corpo

Bebo o vinho do teu corpo
Devagar como se a boca
Fosse uma flor onde o tempo
Desenha um mapa da vida
Corre o vinho do teu corpo
Nos lençóis da madrugada
E há carícias debruçadas
À janela do silêncio
Bebo o vinho do teu corpo
Bebo até morrer de sede
Bebo o vinho do teu corpo
Bebo até morrer de sede
E provo o vinho do teu corpo
Gota a gota e beijo a beijo
Como quem recolhe o sonho
De entre os dedos de um sorriso
Corre o vinho do teu corpo
Nos regatos do luar
Que hão-de vir desaguar
Mansamente nos meus braços
Bebo o vinho do teu corpo
Bebo até morrer de sede
Bebo o vinho do teu corpo
Bebo até morrer de sede
Bebo o vinho do teu corpo
Devagar e quase a medo
Na surpresa dos segredos
Copos cheios de prazer
Bebo o vinho do teu corpo
Bebo até morrer de sede
Bebo o vinho do teu corpo
Bebo até morrer de sede
Gota a gota beijo a beijo

Sit On My Face

Sit on my face and tell me that you love me
I’ll sit on your face and tell you I love you too
I love to hear you oralize
When I’m between your thighs
You blow me away

Sit on my face and let my lips embrace you
I’ll sit on your face and then I’ll love you truly
Life can be fine if we both sixty nine
If we sit on our faces in all sorts of places
And play till we’re blown away 

AveiroSaxFest 2009

Terça-feira, 28 de Abril, 2009

AveiroSaxFest 2009

De 29 de Abril a 3 de Maio, os saxofones estarão em grande, em Aveiro: Concertos, MasterClasses e Workshops numa produção do QuadQuartet, a ter lugar no Conservatório de Música de Aveiro Calouste Gulbenkian e no Estúdio Performas.

Vale a pena ver o programa geral, aqui.

Eu vou tentar retribuir o simpático convite que o Quad me dirigiu e dinamizar um curto workshop de 3 horas, no dia 2, sábado, dedicado à utilização de novas tecnologias na criação e interpretação musical.

Workshop de Composição Interactiva e Novas Tecnologias

As Novas Tecnologias são encaradas no âmbito deste Workshop como extensões possíveis e disponíveis para a prática instrumental criativa. As possibilidades de manipulação sonora em tempo real oferecem possibilidades de expansão tímbrica e expressiva a qualquer instrumentista, mas colocam questões técnicas específicas.
Da mesma forma, estas ferramentas expandem o campo de possibilidades na composição, interessando-nos, especificamente, processos de interacção ambiental e multimédia.
Apesar da sua potencial complexidade, os temas serão abordados de forma prática e generalista, privilegiando-se durante a sessão única, a possibilidade dos participantes testarem e experimentarem as ferramentas e processos de manipulação. Assume-se, como principal objectivo da sessão, a demonstração dum conjunto de ferramentas relativamente elementares e a sensibilização dos participantes para o seu potencial musical e criativo, estabelecendo ligações com algumas das performances que acontecerão durante o AveiroSaxFest.

Estrutura:

  1. Questões Técnicas Elementares
    a) Captação e Amplificação (microfones, amplificadores, altifalantes, etc);
    b) Processamento (unidades independentes, computadores, cadeia de processamento, etc.);
    c) Interfaces (placas de som, controladores MIDI, outros controladores)
  2. Processamento em Tempo Real como Técnica Instrumental
    a) A virtualização dos processos “naturais”: Equalização, Eco e Reverberação
    b) Efeitos “clássicos”: saturação, distorção, chorus, phaser, flanger, panning, etc
    c) Outros efeitos: modulação, vocoding, transposição, etc
    d) Efeitos compostos
  3. Processamento em Tempo Real como Técnica Compositiva
    a) Looping e contraponto
    b) Looping e cânone
    c) Outras técnicas de manipulação em “camadas”
  4. Composição Interactiva
    a) Modelos de manipulação não-musical (gestual, visual, etc)
    b) Interacção entre material sonoro e outras informações “performativas” e “ambientais”

Além do Workshop, participarei no concerto 220 Volts, também no dia 2, no Estúdio Performas, com mais uma incursão no work-in-progress “(ainda que não o diga frequentemente) as tuas criaturas povoam os meus sonhos”.