A importância da humildade

Relativamente ao título calamitoso do Público, de que falei aqui, os dados actualizados/corrigidos já estão disponíveis noutra notícia no Público online, onde se dá conta da disponibilidade do Governo Regional para assumir falhas de comunicação que terão levado algumas entidades a falar de 250 desaparecidos, em vez de 250 desalojados.
Estranhamente (ou não?), o Público não se assume como uma dessas (poucas) entidades confundidas. Uma nota, ainda que breve, a reconhecer a falha (como fez o Governo Regional), não fazia mal a ninguém.

A importância da informação

Em momentos como o que agora vivemos, face à tragédia que se abateu sobre a Madeira, torna-se ainda mais evidente a importância vital da informação e o papel fulcral dos órgãos de comunicação social no funcionamento da sociedade sob pressão. Por isso se exige, em tempos difíceis como estes, um comportamento exemplar dos media, que passa pela capacidade de fornecer informação rigorosa e atempada.

Por isso mesmo, e a propósito desta notícia do Público, que refere 250 desaparecidos na Madeira sem citar nenhuma fonte, partilho e angustio-me com esta dúvida da Shyznogud, no Jugular, com quem aliás, troquei algumas mensagens via Twitter, para percebermos se mais algum órgão de comunicação social usava estes números de forma mais esclarecedora ou se alguém do Público vinha esclarecer as fontes. Aparentemente, estas coisas não são muito preocupantes, mesmo que estejamos perante um título que “ameaça” tornar a tragédia Madeirense num drama humano muitíssimo maior do que os números oficiais apontam. É que, entre os 4 desaparecidos de acordo com as fontes oficiais e os 250 no título do Público há um mundo de diferença que, além de vender mais jornais, fará verter mais lágrimas e aumentar a ansiedade de todos aqueles que aguardam boas notícias vindas da ilha. Nem que fosse só por isso, além de garantir que correspondem a uma verdade objectiva, um jornal de respeito deveria indicar possíveis fontes de verificação. Ou não.

Sendo assim, quem defende a Constituição?

Cavaco Silva, na sua (não) reacção às alarvidades recentes de Alberto João Jardim, deixou bem claro que não está disponível a sacrificar a sua confortável posição de figura “consensual” e pacífica em nome dos níveis mínimos de funcionamento do sistema da democracia parlamentar consagrados na Constituição que jurou defender.

Mesmo para quem, como eu, nunca acreditou nesse juramento de circunstância do dia da tomada de posse, não deixa de ser incompreensível.

O episódio, mais uma vez, perder-se-á no meio da poeira e a figura abominável de Alberto João celebrará mais uma marca na coronha do revólver de ofensas constantemente apontado a uma República e a uma Democracia que já ninguém defende.

Não chegámos à Madeira, nem o barco encalhou: estamos mesmo é num faroeste sem xerifes nem homens de bem.

O barco da democracia encalhou ao largo da Madeira

Não sei se se usa em todo o país ou se é um regionalismo, mas o meu pai, quando as coisas se começam a complicar e os limites do aceitável ficam em risco, costuma usar a expressão “chegámos à Madeira, ou o barco encalhou?”.

Hoje, ouvi na RTP as declarações de Alberto João Jardim a propósito da visita de Cavaco Silva não incluir uma sessão na Assembleia Regional. Também se pode ler no Público:

“Eu acho bem não haver uma sessão solene, acho que era dar uma péssima imagem da Madeira mostrar o bando de loucos que está dentro da Assembleia Legislativa”, justificou Jardim no sábado. “Eu cá não apresento aquela gente a ninguém”, reforçou. E concluiu: “Acho que isso ia ter repercussões negativas no turismo e na própria qualidade do ambiente”.

Se, neste contexto, não houver nenhuma reacção enérgica do Presidente da República e de todos os órgão de soberania, não se verificar uma alteração na agenda desta visita e não se encarar definitivamente o problema Alberto João Jardim, é seguro afirmar que o barco da democracia encalhou ao largo da Madeira.

Tenho pena dos madeirenses. E terei pena de todos nós, se se deixar, mais uma vez, passar as alarvidades perigosas, ofensivas e anti-democráticas de Alberto João, como questões de “estilo”.