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oCulto (d)a banda

Quinta-feira, 2 de Outubro, 2008

Os Secret Chiefs 3 deram o seu primeiro concerto em Portugal, mais precisamente no Porto, na passada terça-feira, no PlanoB, num evento Soopa / AmplificaSom.

Secret Chiefs 3, cartaz do concerto no Porto

Este projecto de Trey Spruance, colaborador habitual de Mike Patton e um dos responsáveis dos extintos Mr. Bungle, é um híbrido de luxo, onde se juntam referências esotéricas a estilos musicais exóticos e sub-apreciados, numa mistura alucinada, relativamente contagiante, virtuosa e exigente. As complexas estruturas rítmicas colhidas nas músicas do médio oriente e do sub-continente indiano, juntam-se a referências mainstream de surf-rock e música de filme à la Morricone, polvilhadas de massas agressivas q.b. colhidas nos contextos do metal e rematadas com linhas melódicas verdadeiramente assombrosas. O jogo instrumental é impressionante e o rigor e qualidade de execução ao vivo, mesmo em condições longe de ideiais, exige muito respeito.

E é verdadeiramente incompreensível como é que a estreia em Portugal dum projecto destes acontece num espaço da dimensão do PlanoB e como, apesar dos melhores esforços dos promotores, passa relativamente despercebido.

Que algo de muito estranho se passa na imprensa dita especializada e na generalidade das redacções dos generalistas que, teoricamente, deveriam compreender a importância relativa dos eventos em agenda, já todos sabíamos, mas o que parece ser evidente é que o último critério em uso, actualmente, é a verdade essencial do acontecimento (seja música, seja outra coisa qualquer). Essa “verdade” é preterida permanentemente por aproximações subjectivas a quem promove, em que local e em que contexto, por oscilações de humor pessoais e intransmissíveis e níveis de conforto relativo que trarão constantemente à ribalta as banalidades próximas dos círculos restritos de editores e redactores, normalmente quase tão ignorantes como arrogantes e preguiçosos.

E assim, bandas de culto merecido, como os Secret Chiefs 3, são confundidas com bandas “ocultáveis”. Mas um dia isto muda…

Uma proposta modesta (e revolucionária)

Terça-feira, 16 de Setembro, 2008

Sigo com atenção e frequência o blog do Jeffrey Zeldman. O que me levou ao blog são questões eminentemente técnicas e especializadas— o Zeldman é uma sumidade no campo do web design e dos standards—, mas o que me faz voltar e mais me impressiona é a qualidade da escrita e, acto contínuo, do pensamento.
Ontem, numa “proposta modesta“, o Jeffrey Zeldman escreveu algumas coisas fundamentais acerca da natureza do actual sistema político-mediático norte-americano. Proponho esta tradução (não oficial nem autorizada) porque vale a pena aceder ao pensamento dum norte-americano lúcido e porque esta proposta modesta podia e devia ser levada a sério um pouco por todo o lado.

Uma proposta modesta

por Jeffrey Zeldman (trad. João Martins)

É ilegal difundir falsidades em anúncios de televisão ou rádio, a não ser que se esteja a concorrer a um cargo político.

Se estiver a vender pasta de dentes, as suas alegações têm que ser validadas por profissionais médicos e juristas. Mas não se estiver a vender um cadidato.

Se estiver a vender um candidato, não só pode mentir acerca do seu passado, mas, de forma mais clara, pode mentir acerca do seu adversário.

Estas mentiras são vistas e ouvidas por milhões de pessoas, não só quando são difundidas como anúncios pagos, mas também quando circulam de forma gratuita nas redes noticiosas em funcionamento permanente, ávidas de controvérsia. E, depois de circularem gratuitamente, tornam-se assuntos para conversas “independentes” e “sem preconceitos”, onde se defende que existem sempre dois lados em qualquer história, mesmo quando um deles mente. Duas palavras: Swift Boat [referência a campanhas contra John Kery em 2004].

As mentiras, e os esforços humilhantes dos candidatos para se livrarem delas, preenchem o ciclo noticioso e formam o discurso nacional. E esta ruptura com a realidade, terrível e moralmente indefensável, persiste, mesmo quando o país está de rastos.

Se as redes emissoras recusam anúncios de cigarros, como é que podem aceitar, sem hesitações, anúncios políticos desonestos? Os cigarros matam pessoas, mas os anúncios políticos mentirosos ferem todo o país. Nenhuma democracia pode permitir isto, menos ainda quando o pais está em guerra, sob a ameaça existencial de terroristas e com a economia em queda livre.

Por isso, esta é a minha ideia. Uma que poderia funcionar, se as redes emissoras norte-americanas se lembrassem que são Americanas, em primeiro lugar, e prospectoras de lucro, em segundo.

Assim como se uniram para acabar com os anúncios a cigarros, as estações de televisão e as rádios, e os publicitários, têm que se juntar e chegar a acordo relativamente à necessidade de deixar de tolerar falsas declarações em anúncios políticos. Se emitissem um anúncio político que se viesse a provar ser uma mentira, as redes emissoras passariam a pagar uma elevada multa e o anunciante, uma ainda maior.

Para evitar multas esmagadoras, as emissoras, insistiriam em provas das declarações feitas em anúncios políticos, da mesma forma que exigem provas das declarações feitas nos anúncios a pastilhas elásticas sem açúcar.

Os anunciantes políticos não poderiam mentir acerca dos seus adversários. Teriam que os atacar de forma honesta, ou falar acerca dos problemas reais do país e sobre as soluções propostas pelo seu candidato.

Imaginem. Poderíamos ouvir anúncios sobre a crise bancária e sobre as propostas de cada candidato para a enfrentarem.

Os candidatos poderiam apresentar de forma resumida as suas posições acerca do Iraque e do Afeganistão e acabar com ligações para posições mais aprofundadas nos seus websites.

O público poderia discutir os assuntos reais que nos afectam, em vez das “controvérsias” fabricadas ao estilo “Entretenimento da Noite”. As pessoas poderiam votar nos candidatos com base nos seus percursos e nas posições que têm sobre os diferentes assuntos.

Seria mesmo como uma democracia.

Insegurança: a guerra de audiências e a guerra de aparências

Domingo, 31 de Agosto, 2008

A visibilidade das questões da segurança e dos crimes violentos, como todos sabemos, é alimentada pela guerra de audiências que destrói toda a necessidade ética de verdade na comunicação social. Não quero com isto dizer que a sensação que os crimes são embustes (tenho imenso respeito pelas vítimas), mas apenas salientar que o real aumento da sensação de insegurança é alimentado pela ganância de quem não olha a meios para fazer manchetes ou aberturas de telejornais verdadeiramente “espectaculares”.

O Estado reagiu a esta anomalia sazonal com uma estratégia assombrosa: à guerra de audiências sobrepõe uma gerra de aparências, colocando, aparentemente, todos os efectivos de todas as forças de segurança na rua, em acções igualmente “espectaculares”: cercos a bairros sociais, rusgas e operações stop de dimensão épica, num esforço inusitado de, pela manipulação mediática, inverter a tal sensação de insegurança que cresce. O Governo Socialista concretiza assim o discurso demagógico das direitas populistas, sobre a necessidade de exercitar o músculo do aparelho repressivo e, duma só vez, aparenta querer tirar margem de manobra ao discurso da direita e ocupar, com a ilusão de segurança que as operações policiais “espectaculares” encenam, o espaço da ilusão de insegurança que a excessiva mediatização de alguns crimes instalou.

Quando o “barulho das luzes” diminuir, vamos continuar a viver no mesmo país, com as mesmas desigualdades e assimetrias sociais e económicas, com as mesmas razões para a marginalidade, os mesmos níveis de exclusão e os mesmos níveis de insegurança. Ou então, a “espectacularização” de que são vítimas os suspeitos do costume fará com que fiquemos um bocadinho piores, com fossos um bocadinho mais difíceis de transpôr à volta de cada um de nós.

O Público errou

Sábado, 2 de Agosto, 2008

Há uma secção com este nome no jornal Público, mas duvido que aquilo que para mim é um erro, seja assumido como tal pela redacção ou pelos seus editores.

Pela segunda vez, este blog aparece citado no jornal, na secção “Blogues em Papel”, na qual a equipa do Público escolhe um tema que esteja a dar que falar na blogosfera, mas não necessariamente bom para vender jornais e publica excertos, muitas vezes contraditórios, de opiniões que, para o leitor do jormal, não passam de vox populi. Em si mesmo é um procedimento que me causa estranheza e disse-o quando aconteceu a primeira vez e me vi catapultado para uma página de jornal, a esgrimir argumentos de crítica musical com um respeitado e respeitável crítico, a propósito da ópera de Emmanuel Nunes. Desta vez, foi a minha opinião acerca do lançamento fantasista do portátil Magalhães que atraiu a atenção dos jornalistas. Mas, quer num caso quer noutro, sem elementos adicionais que permitam filtrar de algum modo estas opiniões, cuja publicação acontece de forma unilateral e sem consulta prévia, estes excertos de opinião colhidos na blogosfera servem uma dupla função que em nada dignifica o Público.

Por um lado, aparentemente, liberta o jornal do seu trabalho de informar (a cobertura do Público do lançamento do Magalhães limita-se à transcrição dos comunicados de imprensa e pouco mais [1] [2]) e veicula opiniões contraditórias, mais ou menos bem fundamentadas sobre assuntos com os quais o jornal, através dos seus jornalistas e colunistas, parece não estar interessado em se envolver. É uma manobra oportunista e calculada: informações erradas ou opiniões extremadas são da responsabilidade dos autores dos blogues, com os quais o Público não tem nenhum tipo de vínculo e assim se encontra uma forma rápida barata e indolor de cobrir assuntos cuja polémica não traz benefícios ao jornal.

Na minha opinião, aquela coluna dos “blogues em papel”, nestes termos, é um erro. Se o assunto tiver honras de cobertura jornalística séria e empenhada e, eventualmente, suscitar opinião dos responsáveis da área temática, ou seja, se o trabalho do jornal estiver feito, faz sentido temperar as posições e opiniões mais ligadas ao status quo, com a tal vox populi que os blogs representam. Sem o trabalho do jornal feito, é esperteza saloia e não ajuda nem o jornal, nem os leitores, nem a blogosfera.

Digo eu, que gosto de dizer coisas. E fico curioso para saber o que dirá o Provedor do Leitor, já que lhe vou enviar esta pequena opinião.

Culpar os gratuitos é fácil

Sábado, 3 de Maio, 2008

Segundo esta notícia, os responsáveis dos jornais portugueses acham que os “jornais gratuitos provocaram a queda das vendas dos diários e semanários pagos”. Pois. Porque a pergunta foi essa, certo? Se a pergunta fosse construída à volta do fenómeno dos blog e da difusão de notícias online, seriam esses os responsáveis, suponho. Ou outra coisa qualquer que sirva como forma de “sacudir a água do capote” e sustentar decisões de gestão de recursos como o “aumento das rescisões contratuais”, a exigência de “multi-tasking” excessivo e a persistência na precariedade como condição para o trabalho na comunicação social.

Quem anda atento, sabe que os gratuitos são um fenómeno comum um pouco por todo o lado e que a melhor reacção é assumir que se tratam de campeonatos “à parte”. Há até gratuitos que são fomentados e partilham recursos dos pagos, certo?

Para isso, é preciso apostar na qualidade, no rigor, na diferença e na diversificação estratégica. E isso faz-se com investimento e com projecto.

Os gratuitos têm o seu lugar e a sua função. Se em Portugal o seu impacto é maior, a culpa não é deles: é da diminuição acentuada do poder de compra e de décadas de desinteresse face à leitura e à comunicação social.

Wormhole na secção de Cultura do Público?

Sábado, 3 de Maio, 2008

Nas últimas 20 notícias desta secção de Cultura há um salto de 2004 para 2008

Não sei se já repararam, mas na secção de Cultura do Público existe uma espécie de wormhole noticioso, em que se salta de notícias de 2004 para notícias de 2008. Já tinha reparado, mas pensei que fosse um bug temporário. Pelos vistos não é.

A questão fundamental é saber se este salto resulta de reestruturações editoriais que fazem com que as notícias relevantes tenham ido parar a outra secção, ou se se perderam notícias, ou, alas, se não houve. Qualquer uma das hipóteses é estranha e dá uma imagem infeliz da relação que este jornal de referência tem com a Cultura, não acham?

Volteface

Sexta-feira, 14 de Setembro, 2007

Volteface no caso Maddie McCannA propósito do caso Maddie e da reacção nacional e internacional à autêntica montanha-russa em que todo o caso se transformou já se disse quase tudo. Desde as intervenções mais esotéricas de pseudo-psicólogos capazes de ler uma culpa específica nas caras que aparecem nas televisões, à indignação de quem investiu horas na justa luta por encontrar a criança e se sente traído pelos acontecimentos, aos episódios trágico-cómicos de luta entre órgãos de imprensa  ou as intervenções acabrunhantes de supostos especialistas (sim, estou a pensar no Barra da Costa)…

Esta imagem, no entanto pareceu-me uma boa síntese do estado de espírito comunitário: no café onde vou diariamente, desde o início do caso que estava afixado um apelo para que ajudássemos a encontrar a Maddie, impresso a partir duma notícia do Diário Digital, com uma fotografia da criança inglesa numa folha rosa, com intenção carinhosa e chamativa.

Após o “volteface” recente, sem retirar o apelo, os donos do café acrescentaram uma tira bem ao jeito “jornalismo-choque” do 24 Horas, com a fotografia da mãe e da filha e a “Suspeita da Morte da Própria Filha” como título…

A sobreposição destes dois documentos conta uma história e é um reflexo do estado de espírito dos donos do café que estão alinhados com o estado de espírito geral. O que é interessante é que, se pensarmos bem, apesar de todas as tentativas maniqueístas de alguma imprensa para reduzir um caso deste dramatismo e complexidade a um sistema dual, facilmente descodificável ou traduzido num sistema de Preto-e-Branco, Bem-e-Mal, Certo-e-Errado, parece que resiste um espaço no interior emocional das pessoas que percebe que não há, neste momento, nenhum desfecho capaz de satisfazer o nosso quintessencial desejo de paz de espírito e tranquilidade. E muito menos capaz de satisfazer a voracidade dos lobos mediáticos, por muito diversificada que seja a sua dieta.

Carta aberta ao director do Diário Regional de Aveiro

Sexta-feira, 3 de Agosto, 2007

cc: Jornal O Aveiro, Lusomundo Cinemas, Cineclube de Aveiro

Ex.mo Sr. Adriano Callé Lucas:

No passado dia 22 de Junho de 2007 enviei para vários órgãos locais de comunicação social a transcrição de um artigo do meu blog acerca das condições de exibição de cinema na cidade de Aveiro, referindo, nomeadamente, problemas na sala 4 do complexo da Lusomundo Cinemas no Forum Aveiro.

Esse artigo teve seguimento neste mesmo blog, através da publicação de uma réplica do Cineclube de Aveiro, também visado no artigo original e duma outra da Lusomundo Cinemas, logo no dia seguinte e, aproximadamente um mês depois, através da notícia de que o problema da Sala 4 estaria resolvido, notícia essa que me me foi dada pelo director-geral da Lusomundo Cinemas.

A publicação do referido artigo de 21 de Junho no semanário O Aveiro, poucas semanas depois, sem que algum contacto tivesse sido feito nesse sentido por parte da redacção e sem a publicação das réplicas disponíveis à data, pareceu-me estranha, mas poderia a redacção de O Aveiro ter encarado a minha comunicação como uma “carta ao director” e, nesse sentido, a publicação não seria abusiva, apesar de se justificar, na altura, a indicação do endereço do blog, referência que O Aveiro decidiu omitir e que permitiria aos leitores a consulta das réplicas.

O que não se percebe, de forma nenhuma, é que um jornal diário com forte implantação e projecção local— como é o que V. Ex.cia dirige— publique este mesmo artigo, 6 semanas depois e sem nenhum contacto prévio com o autor e sem sequer referir a sua data original! Nem que fosse porque o artigo, com o seguimento de que foi alvo no blog, deixou de ter qualquer sentido ou relevância.

Percebo que o preenchimento das páginas dum diário local nos meses de Verão seja difícil e percebo até que estamos na chamada “silly season”, mas creio que a publicação feita hoje não serve os interesses de ninguém. Pelo contrário: tem um elevado custo na credibilidade do jornal e da minha pessoa como autor do artigo e na imagem da Lusomundo Cinemas, que fez um esforço notável (e reconhecido no blog, mas não no jornal), para corrigir a situação denunciada.

A consulta do blog e dos comentários ao artigo original ter-lhe-iam poupado (e a mim, também) este embaraço duplo: a publicação de um artigo que já tinha estado nas páginas de um outro jornal local várias semanas antes e que, ainda por cima, estava já ultrapassado pelos factos.

Estou certo de que encontrará a melhor forma de dar a volta a esses embaraços. Eu, da minha parte, aprendi a lição: nunca voltarei a enviar textos para nenhum órgão de comunicação social confiando na capacidade dos seus profissionais fazerem o que lhes compete. Adicionarei os termos de utilização do texto enviado e, quem sabe, uma declaração com “termos de responsabilidade” para evitar complicações posteriores.

Despeço-me com os melhores cumprimentos,

João Martins

Let’s go to the movies!

Terça-feira, 24 de Julho, 2007

Lembram-se das minhas queixas acerca das condições de exibição de cinema em Aveiro e das respostas recebidas?

Pois hoje é dia de boas notícias para os cinéfilos cá da terra (e chegaram-me por e-mail):

Exmo. Sr.:
O ecrã da sala já encontra em excelentes condições.

Cumprimentos

Luis R Mota
Lusomundo Cinemas
Director Geral / Managing Director

Que bela sensação de dever cumprido…

Nota importante: a publicação do meu primeiro artigo acerca deste assunto nas páginas d’O Aveiro não foi da minha responsabilidade. O artigo foi enviado por e-mail para esse e para outros órgãos de comunicação social (local e nacional), para lhes dar conhecimento. A direcção d’O Aveiro decidiu, sem me consultar, proceder à sua publicação ipsis verbis numa secção destacada do semanário e sem referência à origem (blog ou e-mail), privando os leitores do acompanhamento que o assunto mereceu no blog. Não levei isso a mal, mas achei estranho… mas sobre esse episódio e sobre o funcionamento dos jornais locais em geral tenho um artigo em banho maria já há algum tempo.

Os movimentos de cidadãos não são “modas”

Segunda-feira, 16 de Julho, 2007

Quem não for capaz de perceber isso, Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, e quem quiser fazer de conta que o movimento liderado por Helena Roseta tem alguma coisa que ver com os pseudo-movimentos que elegeram Isaltino Morais ou Fátima Felgueiras, ou com o pseudo-movimento que deu este resultado a Carmona Rodrigues, ou está alheado da realidade ou quer alhear e confundir os seus interlocutores.

O resultado de Helena Roseta é um dos únicos bons sinais desta eleição. E o modelo de democracia participativa que ela preconiza (e que faz parte do discurso bloquista desde a sua fundação) é muito mais do que uma “moda”. Trata-se da evolução inevitável dum sistema democrático capaz de se renovar e aprofundar, por oposição à cristalização que tão confortável seria para os grandes partidos e os seus opinion makers de serviço.

Ameaçar com o possível abuso futuro deste modelo por parte de autarcas mal intencionados é duma baixeza inqualificável.

Como nota final, fica o desplante da afirmação de Carmona Rodrigues de que os números da abstenção revelam que os lisboetas não quereriam estas eleições intercalares e a minha estranheza ao concordar com Nuno Rogeiro, que acha que, acima de tudo, os candidatos não souberam estar à altura da ocasião e mostrar porque é que estas eleições eram importantes. Isso é verdade, assim como é verdade que o tratamento geral dado pela imprensa à candidatura de Carmona e aos casos em que está envolvido não facilitou em nada a atenção ao facto de que ele e parte da sua equipa entraram nesta corrida na condição de arguidos. A perspectiva de que o resultado eleitoral poderia ser este, tornando-o peça fundamental na “dança de cadeiras”, pôs toda a gente de bicos de pés e luvinhas à volta dele…

Aliás, em tudo isto, os casos em que Carmona e a sua equipa estão envolvidos parecem ter feito perder mais tempo em esclarecimentos e defesas de posições à candidatura de José Sá Fernandes e ao seu irmão, denunciante e testemunha chave no processo Bragaparques.