OOXML: Corrupção à escala global

O OOXML, da Microsoft, contra todos os argumentos técnicos, foi aprovado como standard ISO. A lista de irregularidades registadas no noooxml.org, apesar de ter um lugar especial para o nosso querido jardim à beira-mar plantado, mostra como a Microsoft generalizou comportamentos inaceitáveis de pressão, favorecimento e corrupção para fazer passar a proposta.

Com corrupção à escala global, só podemos sentir vergonha à escala global.

Quanto ao que ainda nos resta fazer, o Marcos Marado dá uma perspectiva útil.

Choque tecnológico é aprovar um falso standard

É assim que me sinto: tecnologicamente chocado.
A Comissão Técnica encarregue de discutir o sentido de voto de Portugal na decisão acerca do OOXML vir a ser um standard decidiu votar YES WITH COMMENTS que é a mesma coisa que votar YES.

A explicação, juntamente com a estranha composição da Comissão e comentários muitíssimos esclarecedores, estão aqui.

A mim, chocam-me especialmente as posições das entidades públicas envolvidas (Câmaras Municipais e Institutos), mas só o processo de constituição da CT é “de gritos e apitos”… :)

Lembram-se do “cambalacho”?

Cambalacho era o nome duma telenovela brasileira que popularizou o termo “cambalacho” como sinónimo de golpe, logro, tramóia.

Cambalacho é o que se prepara na Comissão Técnica de “Linguagem de Normalização de Documentos”, como podem ver neste artigo do Paulo Vilela.

Alegar “falta de espaço” para recusar a participação da Sun Microsystems na CT não é só ridículo: é um sinal grave da falta de vergonha de quem está a preparar um golpe vergonhoso e que tem Portugal em tão má conta que nem acha necessário disfarçar que nos tem no bolso.

Notícias recentes (regionais) relacionadas:

  • Presidente da Câmara de Ílhavo de visita oficial à Microsoft
    O presidente da Câmara de Ílhavo é um dos autarcas portugueses presentes em Seatle, nos Estados Unidos da América, a partir de hoje e até dia 13, a convite da Microsoft, para uma visita à sua sede.
    Este convite (dirigido a dez presidentes de Câmara do nosso país), tem como objectivo a partilha da visão das tecnologias informáticas, de informação e de comunicação, em particular as aplicadas ao sector da gestão autárquica portuguesa.A visita, que decorrerá no Microsoft Executive Briefing Centre, em Seatle, pretende apresentar a visão da Microsoft para a inovação na gestão autárquica, e a prestação de serviços integrados aos Cidadãos/Munícipes, passando por soluções documentais, tramitação e colaboração, bem como ferramentas de apoio à gestão do território, utilizando sempre as mais recentes tecnologias desenvolvidas pela Microsoft Corporation.”Apostado que está na contínua modernização e melhoria da eficiência da gestão autárquica, quer como presidente da Câmara Municipal de Ílhavo, quer como presidente da Junta da GAMA e da AMRia (com a importante experiência constituída pela gestão do programa Aveiro Digital 2003/2006), entendeu por bem o presidente Ribau Esteves aceitar este honroso convite, por entender que o mesmo alargará horizontes na busca de oportunidades que poderão potenciar tais objectivos, no âmbito do desenvolvimento da aplicação das novas tecnologias para o Município de Ílhavo e para a região”, diz nota da Câmara de Ílhavo.
  • ZING criada com nova filosofia assente no desenvolvimento regional
    A localização da Zona Industrial de Nova Geração (ZING) e os resultados do Projecto GeoInvest foram apresentados no seminário sobre «Zonas Industriais de Nova Geração – A Estratégia da Localização» que se realizou no Auditório da AIDA (Associação Industrial do Distrito de Aveiro).
    (…)
    Os representantes da Microsoft e da Inova-Ria – Rede de Inovação em Aveiro estiveram de acordo relativamente aos requisitos que uma ZING deve ter para captar investimento de empresas de Nova Geração, tendo dado especial importância ao funcionamento em Rede e à grande utilização de conhecimento, valorizando assim a necessidade de recursos qualificados e a colaboração com universidades e centros de investigação. Foi ainda referida a necessidade de existirem infra-estruturas de informação, comunicação e transportes, bem como qualidade de vida.
    (…)

(Desafio os leitores a encontrarem na segunda notícia uma explicação sobre o papel dos referidos representantes da Microsoft no seminário… não está lá nada porque já nem é preciso explicar qual é o papel dos representantes desta multinacional específica numa iniciativa sobre a gestão pública apoiada em TI…)

Não tive sequer que procurar estes exemplos. Tropecei neles, já que estão em todo o lado.

Com as coisas neste estado na administração autárquica e na generalidade da administração pública e mesmo em muitas instituições de ensino superior [1], não sei se a luta por standards a sério vai a algum lado neste nosso cantinho deprimente… :(

[1] contaram-me que os computadores da Universidade de Aveiro (os dos docentes, pelo menos) não podem ter instalado o Firefox, porque o contrato/acordo de licenciamento que a UA estabeleceu com a Microsoft não o permite… eu recuso-me a acreditar nesta barbaridade e parto do princípio que foram alguns técnicos do CICUA que perceberam mal as (estranhas) indicações que receberam, mas sei que o Firefox já foi instalado em algumas máquinas com a reserva explícita do técnico: “eu não posso fazer isto, mas é a melhor maneira de resolver o problema…”
Há algum técnico do
CICUA que, em público ou privado, possa explicar o que se passa?

Missão

Foi com uma espécie de espírito de missão que criei um WTF no Technorati a propósito do <No>OOXML. E não posso deixar de me sentir parcialmente realizado por termos conseguido manter o assunto entre os “mais quentes” durante 5 dias (até agora).

Não tenho grande forma de saber qual a eficácia de uma iniciativa destas, mas acho que o objectivo de dar visibilidade às petições (a nacional e a internacional), ao movimento e ao problema subjacente, é apoiado por acções deste tipo.

Por isso, se ainda não votou neste WTF, vá até aqui e vote.

Até dia 16 de Julho devemos empenhar-nos em dar o máximo de visibilidade ao nosso desacordo e protesto.

Portugal diz NÃO ao formato Microsoft Office

Eu assinei esta petição sem pestanejar. E não me venham acusar de fanatismo. A adopção do formato proprietário da Microsoft como standard, a acontecer, seria um desastre.

No próximo dia 16 de Julho, pelas 14.30, no Instituto de Informática, vai ser decidido o sentido de voto de Portugal na aprovação ou não do ISO DIS 29500 (Office OpenXML ou OOXML format).

Os cidadãos Portugueses abaixo assinado pedem-lhes para considerar a REJEIÇÃO de tal formato como standard, como aliás fizeram milhares cidadãos de todo o mundo em http://www.noooxml.org/petition , tendo esta petição atingido as 10000 assinaturas em menos de uma semana.

Existem diversos motivos pelos quais tal proposta deve ser recusada, entre os quais:

1. Já existe um standard ISO26300 chamado Open Document Format (ODF): dois standards aumenta o custo, a incerteza e a confusão na indústria, no governo e nos cidadãos;
2. Não existe nenhuma implementação provada da especificação OOXML: o Microsoft Office 2007 produz uma versão especial do OOXML, não um formato de ficheiro que cumpra com a especificação do OOXML;
3. Existe falta de informação no documento de especificação, como por exemplo como fazer um autoSpaceLikeWord95 ou useWord97LineBreakRules;
4. Mais de 10% dos exemplos mencionados no standard proposto não validam como XML;
5. Não existe nenhuma garantia de que qualquer pessoa possa escrever software que implemente total ou parcialmente a especificação OOXML sem estar sujeito às patentes detidas pela Microsoft;
6. Esta proposta a standard entra em conflito com outros standards ISO, como a ISO 8601 (Representation of dates and times), ISO 639 (Codes for the Representation of Names and Languages) ou ISO/IEC 10118-3 (cryptographic hash);
7. Existe um erro no formato de folha de cálculo que impede a insersão de qualquer data anterior ao ano 1900: erros como estes afectam a especificação OOXM tal como software, como o Microsoft Excel 2000, XP, 2003 ou 2007;
8. Esta proposta a standard não foi criada através da experiência e conhecimento de todas as partes interessadas (tais como produtores, vendedores, consumidores, utilizadores e reguladores), mas apenas pela Microsoft.