O sequestro do Orkut

Um comentário aqui no blog alertou-me para a “invasão de utilizadores brasileiros” a que o Orkut estava sujeito e os sinais que fui encontrando lá e, por exemplo, no artigo dedicado ao Orkut na Wikipedia, deixaram-me, de facto, surpreendido com a demografia da plataforma, por um lado e, por outro, com o comportamento altamente “territorial” dos utilizadores brasileiros.

Quer a “distorção” na demografia, quer o comportamento social destes utilizadores mereceriam um estudo mais aprofundado que, certamente alguém já terá feito, mas, na utilização, traduz-se num desconforto mais ou menos permanente que, no meu caso, se traduz numa espécie de tensão latente, semelhante ao stress sentido por crianças que são maltratadas por rufias de recreio de escola: tentei escrever em inglês numa comunidade que, tecnicamente, tinha escolhido esse idioma e fui gozado e maltratado por um conjunto de utilizadores brasileiros, que, aparentemente são os únicos activos. As minhas tentativas de explicação de que me parecia pouco razoável a invasão de todos os espaços comuns do Orkut pela nossa língua, já que afastaria outros utilizadores, provocou mais reacções de gozo e insulto. O típico comportamento de uma multidão “violenta”.

Como já não sou nenhuma criança, observo com curiosidade este tipo de comportamento “territorial”…

Espero encontrar algumas referências adicionais para perceber melhor a dinâmica que está por trás disto e, quem sabe, compreender a vantagem do Google ao manter a sua associação a esta plataforma.

Em jeito de ilustração, cá fica uma das minhas intervenções que suscitou reacções de gozo e insulto:

Sou novo no Orkut e tenho reparado que há muito conteúdo em português em comunidades que escolheram outras línguas. Acho que é uma enorme falta de respeito para com os utilizadores do Orkut em geral, invadir todos os espaços comunitários com conteúdos em Português, mesmo se a maioria dos utilizadores activos for lusófona.
Até porque qualquer pessoa pode criar criar uma comunidade acerca de qualquer assunto, em Português ou noutra língua.
Se estas regras elementares não forem respeitadas, a única coisa que acontecerá será a crescente invasão do Orkut por pessoas muito parecidas entre si, sendo as pessoas mais educadas ou civilizadas (escolham) obrigadas a procurar ambientes mais amigáveis.
Seria muito estranho se este fenómeno bárbaro ficasse associado a um povo tão amistoso como o Brasileiro. E essa já é a ideia que passa na net: os brasileiros tomaram conta do Orkut e inundaram-no de conteúdo tonto, spam e outras porcarias escritas em português.
Como utilizador lusófono, isso chateia-me.

À beira do abismo

Lembram-se dum jogador de futebol que, a propósito duma boa performance da sua equipa numa situação particularmente difícil, disse, com profundidade poética “estivemos a beira do abismo mas soubemos dar o passo em frente”? ;)

Foi mais ou menos isso que fiz a propósito das minhas angústias e inquietações com as plataformas de social networking. Numa atitude de “coragem, audácia e total desprezo pela vida”— o verdadeiro espírito dum casamento, segundo um outro “poeta”— registei-me em todas as que me lembrei com a secreta esperança de encontrar um procedimento de “avaliação comparativa” que me seja útil e, eventualmente, venha a ser útil a outros.

Resumo:

  • MySpace – estou registado como músico, tenho conteúdos específicos disponibilizados— música e calendário de eventos— e mais de 400 ligações já estabelecidas (“amigos”). É a mais “eficaz” e dinâmica, “socialmente”, em parte porque é onde estão presentes algumas das minhas ligações óbvias (outros projectos musicais). Tem um código de susto, permite integrar vídeos do YouTube, fotos do Flickr (estou a usar o Slide.com para isso) e tabelas da Last.fm, mas não importa o feed do blog, nem calendários externos…
  • Virbº – estou registado como músico, tenho conteúdos específicos disponibilizados — música e calendário de eventos—, mas só tenho 22 ligações estabelecidas (“amigos”). Consigo ter como blog o conteúdo que está aqui e as fotos do Flickr, através dos feeds. Os vídeos do YouTube vão lá parar “manualmente” e as tabelas da Last.fm também devem poder ir lá parar assim. O código é mais limpo e o aspecto base é muito melhor que o MySpace. Acima de tudo não parece ser frequentado pelo mesmo tipo de gente. É mais cool. Demasiado?
  • hi5 – estou registado como utilizador regular, porque só depois é que percebi que também há registos específicos para “bandas”. Não tenho conteúdos específicos. Tenho fotos do Flickr introduzidos por intermédio do Slide.com e tenho 18 ligações (“amigos”) feitas em tempo recorde. Pelos dados disponíveis no Alexa é a rede mais usada em Portugal, mas parece demasiado orientada para o engate adolescente. Posso ficar com essa sensação por estar registado como músico nas outras redes…
  • orkut – registei-me ontem depois de ver que, de acordo com o Alexa, é uma rede mais usada que o MySpace, em Portugal. Parece tudo extraordinariamente fraco, para um serviço afiliado do Google, mas consegue-se pôr lá todo o tipo de feeds e tem integração com os vídeos do YouTube. Espero não ser mal interpretado, mas parece uma rede feita por e para brasileiros… até nas comunidades em inglês ou nas comunidades regionais portuguesas a presença de brasileiros é avassaladora… não percebo bem o funcionamento desta rede e nem sequer sei explicar como é que posso ser encontrado… Não tenho ligações nenhumas e uma das minhas expectativas é perceber como é que elas vão aparecer (o processo básico de submeter endereços dos meus serviços webmail não resultou em nada, ou seja, aparentemente não conheço ninguém que use o orkut)
  • Multiply – acabei por me registar e tive algumas agradáveis supresas na integração de conteúdos: vai buscar fotos ao Flickr e vídeos ao YouTube, por exemplo. Só é pena que importe os conteúdos em vez de usar os feeds, o que faz com que as actualizações não sejam automáticas e que, relativamente aos blogs, não esteja preparado para vir buscar conteúdos aos WordPress. Tenho 1 ligação (“amigo”) que é a pessoa que me convidou para lá ir e despoletou isto tudo. Pelos processos sugeridos não encontrei outros amigos ou conhecidos nesta rede. Não percebo bem o mecanismo de partilha de playlists de música, porque não parece ser necessário ser autor das músicas para as colocar lá…
  • Facebook – uma rede já orientada segundo alguns dos princípios mais inteligentes de concentrar o “core” na criação e manutenção da rede de ligações, deixando os conteúdos e coisas restantes para “widgets” externos a que chamam “apps” e que, entre outras coisas, me permitiram colocar no perfil fotografias do Flickr, através do Slide.com e as tabelas da Last.fm. O código parece bom e moderno, o aspecto é o que se esperaria duma aplicação web moderna. Ligações ainda não tenho e aí é que a lógica do Facebook falha, parece-me. Se o princípio é replicar on-line as redes de contactos físicos, o objectivo é conseguido, já que as formas de associação são a proximidade regional ou a partilha de estabelecimentos de ensino ou locais de trabalho. O problema é que, na minha opinião, as redes com maior potencial são as que se baseiam na partilha de interesses e não de locais. Usar a web para coordenar a minha vida social “física” não me interessa muito. Mas descobrir pessoas à escala global que partilham interesses de “nicho”… isso a Last.fm e até o MySpace já me mostraram que tem algum interesse.

Um das formas óbvias de perceber o que é que resulta ou não, além do funcionamento estrito e das possibilidades oferecidas é analisar a dinâmica “social” da coisa. Afinal de contas, são redes sociais.

Uma primeira análise mostra-me que, no meu caso específico, será difícil surgir alguma coisa que possa tomar o lugar do MySpace, por muito que me custe. Só o hi5 parece ter um universo de utilizadores  e uma dinâmica comparável.
Assim sendo, espero que eles decidam cooperar com os esforços de integração propostos pelo Brad Fitz.

Mas a “minha” rede de eleição é, cada vez mais a Last.fm, por se basear na simples partilha de gostos musicais, que no meu caso, é central na “avaliação social” que faço das pessoas. Entre isso e a funcionalidade de Internet Radio… fico rendido.

Mas vou, apesar de tudo, tentar encontrar outros indicadores de desempenho das redes. Um que é fácil de implementar, mas não tão fácil de acompanhar é a eficácia de cada plataforma como mecanismo de divulgação, por exemplo, dos discos de Ohmalone à venda na iTunes Music Store (ainda está só o primeiro).

Só preciso de encontrar uma forma de publicitá-los da mesma forma em todos os suportes e, mais difícil, de avaliar o impacto real em cada rede. Alguém tem sugestões?