Jazz na Relva, em Paredes de Coura: a consagração

Aparentemente, para alguns dos presentes, o Spy Quintet, do Space Ensemble, foi um momento muito alto na programação do Festival de Paredes de Coura.

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Cobertura vídeo pelo Instituto Politécnico de Viana do Castelo.

A mística de Paredes de Coura

Amanhã, como já anunciei aqui, vou estar, na qualidade de membro fundador, saxofonista de serviço e fã incondicional da Fanfarra Recreativa e Improvisada Colher de Sopa (F.R.I.C.S., para os amigos) no Palco Ruby do Festival de Paredes de Coura.

Mas, mais do que estar preocupado com a divulgação, estava aqui a pensar na minha “relação pessoal” com o festival de Coura.
Não me preocupa a divulgação porque não serão muitas as pessoas disponíveis para ir propositadamente a Paredes de Coura para o concerto de F.R.I.C.S. e o “fenómeno” da “fanfarra psicadélica” tem uma visibilidade crescente assegurada nos meios relevantes (apesar de marginais), suficiente para justificar o convite dos programadores de Coura…

Em 1999 ou 2000 (não tenho a certeza), os Ohmalone foram convidados para a programação dum espaço que, na altura, creio que ainda não se chamava “Jazz na Relva”. Democraticamente, votámos pela não aceitação do convite, com base na descrição feita pelos escassos frequentadores de festivais de verão que conhecíamos: “nesses concertos à tarde ninguém está mesmo a ouvir nada e há grupos de gajos a tocar djembés espalhados pelo recinto”.
A maioria dos “Ohmaloners” reagia (e continua a reagir, espero) com violentos arrepios de indignação e nojo à ideia de “grupos de gajos a tocar djembés” e essa foi a principal razão para declinarmos o amável convite. A reacção está ligada ao profundo respeito que temos pelo djembé enquanto instrumento e pelos bons percussionistas que conhecemos, pelo que não podemos deixar de nos indignar com esse espectáculo triste que é assistir a um grupo de gajos, certamente simpáticos e bem intencionados, mas igualmente destituídos de sentido musical e geralmente alienados do ambiente que os rodeia, a martelar de forma tão violenta como desinteressante os pobres djembés, comprados em feiras de artesanato, no Avante ou em festivais de verão. O curioso é que, se estas mesmas pessoas escolhessem gaitas de foles ou pífaros irlandeses como instrumento a violentar, seriam provavelmente agredidos violentamente, em legítima defesa, pelas multidões em volta. Sendo djembés, a “malta” acha “giro”… ??
Será uma generalização abusiva, mas, para efeitos de caricatura, percebe-se. E, digam lá quantas vezes viram grupos destes que escapem à minha descrição?

Depois dessa primeira possibilidade abortada, surgiu uma nova oportunidade em 2005, numa altura em que o “Jazz na Relva” já era um espaço afirmado e por onde tinham passado grandes nomes (Carlos Bica, por exemplo). Sendo Ohmalone um projecto semi-extinto e chegando o convite através do Space Ensemble, a operacionalização acabou por estar a cargo do Cheesecake Trio (do Jorge Queijo), de Gheegush (o nosso trio que viria a adoptar a designação Lost Gorbachevs) e da junção dos dois, numa apresentação de Space Ensemble.
Esse convite não só representou a minha primeira presença num festival de verão (como músico ou público), como justificou a criação do projecto Lost Gorbachevs que é, a par da Fanfarra, o principal projecto musical em que estou envolvido neste momento.

Nessa altura fiquei a saber que uma parte significativa dos receios relativos ao ambiente dos festivais não se justificam. Claro que o nível de atenção do público não é o mesmo que num concerto isolado ou num recinto fechado, mas, sabendo-se isso, é interessante trabalhar as próprias motivações do público e procurar estratégias adequadas. A receita de Lost Gorbachevs— temas curtos, referências mistas de Jazz/Free Jazz e Rock/Punk Rock— foi feita a pensar precisamente nesse constrangimento e o nosso sucesso, lá e, posteriormente, em vários palcos, contextos e países, obriga-nos a estar agradecidos ao Jazz na Relva.

Tanto é assim que, desde o início da consolidação do projecto da Fanfarra que falávamos, entre nós, sobre uma hipotética presença em Paredes de Coura como um objectivo lógico e um ambiente que nos interessava explorar. A receita da Fanfarra é muito distante da de Lost Gorbachevs, mas o nosso potencial “popular-psicadélico” é demasiado para que não o testemos num público como o do Jazz na Relva. Faz mesmo muito sentido.

Além disso, ouvi ontem um comentador duma televisão radical dizer que Paredes de Coura é um festival conhecido por convidar bandas emergentes e pouco conhecidas que, normalmente, pouco depois de passarem por Coura, “explodem”, confirmando as apostas dos programadores… ele estava-se a referir a bandas que passam pelos palcos principais, claro, mas isso aconteceu com Lost Gorbachevs e acontecerá, certamente com a Fanfarra.

É a mística de Paredes de Coura… ;)

F.R.I.C.S. @ Paredes de Coura 2007

Um projecto como a Fanfarra e Recreativa Improvisada Colher de Sopa está “condenado” a associar-se à loucura dos Festivais de Verão. Era inevitável e está mesmo confirmado:

Festival Paredes de Coura 2007


Programação


Ou seja, no dia 15 (é quarta-feira, segundo dia do festival, feriado e dia de Sonic Youth no palco principal), às 16h00, a animação psicadélica da Fanfarra chega a Paredes de Coura.

E este torna-se o segundo projecto em que eu o Gustavo e o Henrique nos envolvemos que vai parar ao palco do Jazz na Relva pouco depois de ter sido criado. :)