A disciplina é muito bonita

O PS vai impôr disciplina de voto na sua bancada parlamentar e forçar um voto contra os projectos do Bloco de Esquerda e de Os Verdes sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo.

Porquê?

Não é por serem contra o casamento de homossexuais. Não é por não compreenderem ou discordarem da ideia de que a actual lei do casamento discrimina alguns cidadãos com base na sua orientação sexual, contrariando princípios básicos constitucionais. Não é por identificarem nos projectos estranhas ou perigosas segundas intenções.

Então, porquê? Porque não faz parte do Programa do Governo? Isso seria um bom argumento para que este projecto não surgisse num Conselho de Ministros, mas não para a bancada parlamentar do Partido Socialista disciplinar o voto de forma contrária à convicção confessável de muitos (se não a maioria) dos seus deputados e militantes. Por ser um tema “fracturante”? Mas não será igualmente “fracturante” a ideia de que um dos principais partidos políticos portugueses manipula a realidade democrática, “forjando” o chumbo duma proposta com a qual (aparentemente) concorda, por meras questões de “agenda”?

Ou será que, no conforto das suas câmaras privadas, uma parte substancial dos deputados e deputadas socialistas se afastam das convicções progressistas e “arejadas” que publicitam e revelam inconfessáveis costelas homofóbicas? Disciplinaram para adiar a questão e a porem nos seus termos, ou por terem medo do resultado da liberdade de voto? Ou quiseram dar uma ajudinha ao PSD que, neste contexto e depois das infelizes e ultra-conservadoras declarações da sua líder a propósito do tema, pode apresentar uma face liberal e democrática, dando liberdade de voto aos seus deputados numa matéria que está chumbada à nascença?

E que raio de coisa é esta, a da disciplina de voto?

10 anos é muito tempo

A notícia de hoje de que todos os partidos políticos com representação parlamentar foram multados pelo Tribunal de Contas por irregularidades nas contas de 2004 já não espanta ninguém. Talvez o pormenor do CDS-PP ser o partido mais penalizado seja peculiar, já que têm nas suas fileiras muitos rapazes e raparigas com um aspecto organizadinho e respeitador e um certo “charme” de contabilista ;) … mas, de resto, já perdemos a capacidade para nos admirarmos com estas coisas. E é um mau sinal.

Mas, no meio da notícia, há um detalhe que me saltou à vista e me fez soltar um “porra, que é demais!”: desde 1994, quando o TC começou a analisar as contas dos partidos, que esta situação se repete sempre, com todos os partidos a serem multados.

10 anos de multas (estas são as relativas a 2004) é muito ano! Não há mecanismos para penalizar a reincidência? Não há para aí um paladino do rigor orçamental ou da inflexibilidade do Estado de Direito, disponível para propôr punições exemplares aos maiores e mais reincidentes prevaricadores?

E, sem em vez de partidos, fossem pessoas? Alguém havia de pôr esses “meliantes” na linha, não?

10 anos?!