O primeiro domingo de 2010

Acordei não muito tarde. Desde manhã que estou a dedicar grande parte do meu tempo à Maria, com gosto e sem pressões. De manhã aproveitou-se uma aberta no tempo para ir à rua, comprar coisas para a sopa e tomar o café da praxe. Ouvimos música e brincámos com uma das prendas de Natal que mais atenção tem recebido por agora: um conjunto de pratos, chávenas, uma torradeira, um bule de chá e quejandos, para festas de bonecas, presumo, onde nós ocupamos o lugar das bonecas e vamos alternando entre a brincadeira convencional e a exploração dos barulhos que se conseguem fazer com aquelas “percussões”. Também tivemos um balão, cheio por pouco tempo que a Maria é bastante eficiente na arte de rebentar balões sem se assustar, que como “pele” deu para perceber quais são os recipientes que dão melhores caixas de ressonância. Almoçámos e fui eu que a pus a dormir a sesta, o que não é muito comum, porque nenhum de nós os três costuma ter pachorra para as birras que ela acha que tem que fazer se for eu a acompanhá-la para o quarto na hora da sesta. Não sei o que fiz (ou sei?), mas ela hoje percebeu que não ia haver problema e que não era preciso fazer a birra e adormeceu a agarrar a minha mão. Eu, sentado no sofázito que pusemos ao lado da cama dela, adormeci um bocadinho antes dela, logo que senti a cadência segura da respiração dela a dirigir-se rapidamente para o sono. O meu foi um daqueles sonos de 1 minuto, ao fim do qual ela dormia profundamente e eu acordei com calma e recomposto. Deixei ficar a mão um bocadinho, só para ter a certeza que tudo tinha corrido bem e depois arranjei os lençóis e saí do quarto.

Agora, não estou exactamente à espera que ela acorde, mas quase. Com a Cláudia a precisar de tempo para acabar um trabalho importante para amanhã, tenho este bocadinho da sesta para me organizar e pensar num “programinha” para o resto da tarde.

Não fiz grandes resoluções de ano novo, mas as pequenas que fiz e que, pela sua natureza se manterão privadas, pretendem alterar o meu quotidiano, especialmente na disciplina necessária para estar mais e melhor com a minha filha e com a minha mulher. Este primeiro domingo de 2010 ajusta-se bem a essas resoluções.

Como é que conseguem?

A Cláudia está a frequentar um Curso de Mestrado em Guimarães. Tem aulas à sexta e ao sábado, pelo que eu e a Maria ficamos entregues um ao outro durante um dia e meio por semana. É óptimo pelas razões óbvias da exclusividade de mimos e brincadeiras, mas também é muito difícil e trabalhoso, às vezes. Muitas vezes, nas coisas mais elementares e em que pensamos menos, é incrível a falta que faz mais um par de braços ou pernas, para segurar aqui, enquanto se pega nisto e “aproveita e chega-me aí o creme, que ela já está a fugir”… ufa! São principalmente estas rotinas “funcionais” do início e do fim do dia, com mudanças de roupa e higienes, que me fazem ter um respeito enorme por quem consegue exercer este papel de pai ou mãe a solo e de forma permanente. Imagino que esta minha condição “intermitente” seja uma das razões para tanta nabice e eventual frustração, mas é verdadeiramente notável, para mim, o trabalho que os pais e mães sozinhos conseguem fazer. Autênticas proezas quotidianas.

Por isso, daqui vai uma grande vénia de respeito para todos vós.

Maravilhas da Maria

Estou a olhar para a Maria, sentada na sua cadeira, garfo na mão, a comer alegremente grandes pedaços de melão, depois de ter despachado um belo prato de massa e, claro, a sopinha da praxe. Esta habilidade de comer sozinha tudo o que se possa espetar com um garfito tem umas semanas e é espantosa, como são espantosas tantas outras coisas que ela faz e é e que não se percebem no finzinho redentor do último artigo que escrevi sobre ela.

Por isso, com a ajuda da Cláudia, para ser mais imparcial ;) , decidi listar 7 Maravilhas da Maria, sem nenhuma ordem em particular e que são apenas a ponta do icebergue.

A Maria diz muito bem “olá” desde muito pequenina

O simpático “olá” que é dirigido a desconhecidos que lhe chamam a atenção, mas não “a pedido”, antecedeu o “mãmã” e “papá”, o “anda”, o “qué”, que pode querer dizer muitas coisas e uma série de sons quase-palavras que usa de forma consistente para se dirigir ou referir coisas muito significativas: bolachas, saídas à rua, encontros com animais, que despertam um “au-au”, independentemente das nossas tentativas de lhe explicar que nem tudo são cães.

A Maria identifica com facilidade crianças e animais

Seja na vida real, seja em representações (fotografias, vídeos e mesmo desenhos), as crianças despertam-lhe uma atenção muito particular e distingue mesmo entre bébés e outras crianças, aparentemente. Assim como os animais, que identifica com o tal “au-au”. Quer num caso, quer noutro, há sempre dedos apontados e uma vontade enorme de aproximação.

A Maria gosta de laréu

Há poucas coisas que a entusiasmem tanto como a ideia de sair de casa. De qualquer casa. Sair, em geral é motivo de grande entusiasmo. E identifica sinais de que isso está para acontecer: se alguém veste um casaco ou pega numa mala ou carteira, a Maria dirige-se à porta ou ao carrinho e deixa claro que, se alguém vai sair, ela também vai. Às vezes é embaraçoso, porque ela está pronta para sair com quem quer que seja e, mesmo que a alternativa seja um colo de pai ou mãe, ela prefere dirigir-nos um xau com a mãozita e insiste na saída. E se não há sinais de saída e ela tem vontade, vai até à porta e faz-nos saber que são horas de sair. Não faz birras nem tantras como já vimos noutras crianças: deixa apenas claro que gostaria de sair e fica incrivelmente satisfeita se a levamos a passear nem que seja para uma volta de 20 metros, no passeio em frente a casa. Reconhece, além disso, várias palavras relacionadas com as saídas: ir à rua, sair, ir ao laréu, dar uma volta, passear… tudo são expressões que o “radar” dela reconhece.

A Maria brinca com quase tudo

Sozinha e acompanhada, a Maria encontra formas de brincar e testar as suas capacidades em muitos contextos e com os mais variados objectos. Gosta dos seus brinquedos, incluindo os Legos que ainda não consegue montar muito bem, mas com os quais dá instruções precisas ao montador de serviço, mas brinca igualmete com gosto com um telemóvel, vários tupperwares, sapatos, panos, garrafas vazias nas quais possa tentar enroscar as tampas e o que mais houver. E a cada brincadeira, descobre possibilidades novas e surpreende-nos com a sua perícia manual. Além disso tem um óptimo sentido de humor e ri-se com umas gargalhadas luminosas quando encontra um divertimento mesmo giro.

A Maria adora música e dança que é uma maravilha

Ouve-se muita música cá em casa e não se ouve música para bébés. A Maria, parece que gosta que assim seja: gosta de muitas músicas, de músicas variadas e reage aos estímulos com várias danças, parecidas entre si (ora abana o rabiote, ora abana a cabeça, ora põe as mãos no ar), mas que denunciam uma percepção muito clara das diferenças entre um disco dos Gaiteiros de Lisboa e do Anthony Braxton, por exemplo. Ritmos bem marcados ajudam-na a perceber como dançar, músicas curtas e com finais claros garantem palminhas no fim, mas a variedade de reacções é estonteante. Ainda hoje, a ouvir Hermeto Pascoal fazer um dos seus solos cantando com água, a Maria desatou a cantar passando os dedos pela boca (numa habilidade vocal que já tinha aprendido), conjugando admiravelmente o “glu-glu-glu” do Hermeto com o seu “brle-brle-brle”.
De resto, a quantidade incrível de sons que já faz deve-se tanto à capacidade de imitação dos tontinhos dos pais e dos avós, como à panóplia de músicas e sons que se ouvem cá em casa e a que ela presta muita atenção.

A Maria gosta de livros

A Maria escolhe livros que nos traz para nós contarmos as histórias. Fica radiante quando recebe um livro novo e alterna entre querer ver, querer ouvir e querer morder os livros. Aponta para as figuras, vira as páginas e gosta muito de chegar ao fim e dizer “tá-tá”, para recomeçar tudo do princípio. Durante algum tempo, todos os livros mereciam um “olá” sonoro, porque um dos seus primeiros livros tinha uma girafa na capa que dizia “olá”, mas agora já nem todos os livros têm o mesmo título.

A Maria dá beijinhos

Uma habilidade extraordinária, que muita inveja tem causado entre outros pais e adultos em geral. Não só dá beijinhos, como decide quando os dar e a quem, dirigindo um beicinho muito evidente. Os pais são os destinatários mais comuns destas ternuras, mas também já assim dirigiu beijos aos avós e outros familiares e mesmo a amigos da família. E, mais do que isso não o faz só a pedido e nem sempre reage aos pedidos. Há alturas em que é ela que se lembra de dar beijinhos, já oportunisticamente, por vezes, quando fez um disparate ou nos quer pedir alguma coisa, e há alturas em que simplesmente não lhe apetece dar beijinhos.
Mas é ternurenta e sabe dirigir essa ternura, a bem da paz familiar.

Já me estou a passar contigo, Maria!

Volta e meia, sai-me uma barbaridade destas pela boca fora. Quando a Maria está muito irrequieta, durante uma muda de fralda mais complicada, ou quando me escapa pela enésima vez para ir fazer de conta que brinca com uma tomada1, dou mostras da minha falta de paciência com uma destas afirmações absurdas de se dirigir a uma filha com quase 15 meses. Porque é absurdo dizer que me estou passar, considerando tudo o que ainda aí vem: se me estiver a passar por ela insistir em coçar o rabiote ou passear quando lhe mudo a fralda ou por gatinhar a alta velocidade até um ponto proibido2 e fazer uma das fitinhas dela, o que é que faço quando ela chegar à idade das perguntas repetitivas ou quando for, simplesmente autónoma a caminhar, ou nessa maratona de esforço parental que há-de ser a adolescência?

Ainda assim, às vezes sai-me um “já me estou a passar contigo, Maria!“, com mais ou menos colorido3 e, logo a seguir a dizê-lo, tenho vontade de rir. É que é verdade que me estou a passar com a Maria, mas precisamente por todas as outras coisas: pela autonomia, pelo sentido de humor, pela ternura, pela inteligência, pela perspicácia, pela rapidez, pela curiosidade, pela beleza4… por tudo.

Não me lembro de ter feito nada para merecer tão boa experiência enquanto pai. A não ser “encontrar” uma mãe estupenda. Seja o que for, obrigado a quem de direito.

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1 estão todas protegidas, mas é importante educar para o perigo como se não estivessem
2 ela já conhece bem os “pontos proibidos” da casa e uma forma de o demonstrar é ir muito depressa até eles, estender uma mãozita e fazer um olhar maroto como quem diz “é aqui que eu não posso mexer, não é?”
3 recuperei o “caramba” para o meu vocabulário desde que sou pai
4 deixem-me ser vaidoso

Parabéns a você

Nesta data querida,
Muitas felicidades,
Muitos anos de vida.

Hoje é dia de festa,
Cantam as nossas almas,
P’rá menina Maria,
uma salva de palmas!

Assistir ao crescimento da minha filha tem sido, sem nenhuma dúvida e de forma arrasadora, a experiência mais intensa, feliz e enriquecedora de toda a minha vida.

Maria num baloiço, com o seu disfarce de aviadora

É impressionante estarmos hoje a celebrar o primeiro aniversário da Maria… passou tão depressa, mas a quantidade de coisas que ela faz, que já experimentou, as fases porque ela passou, as habilidades que descobriu e que nos vai mostrando…

Estou, como qualquer pai normal, completamente apaixonado.

E hoje é mesmo dia de festa!

PS: Contrariando a nossa política habitual, publico uma fotografia da Maria, para gáudio do público. Os óculos escuros e o gorro em uso (por razões estritamente funcionais) são, esperamos nós, garante suficiente da privacidade a que achamos que ela tem direito.

O conforto, a tranquilidade e a sedução dum mundo a preto e branco

Aldo Naouri, em entrevista ao Público, fala dum mundo que eu desconheço. Um mundo a preto e branco, rigorosamente binário, em que os “Os maus pais são os que acham que a criança tem direito a tudo“, em que “As crianças de famílias monoparentais são crianças sós” e “Quanto aos casais homossexuais, a criança é como que um produto“. Este respeitável pediatra, já reformado, debita estas verdades absolutas com o á-vontade e a experiência de quem atende crianças e seus pais, cujos principais problemas são “Falta de disciplina, mau comportamento, desobediência nas horas de comer, tomar banho ou de dormir“, tratados em 48 línguas no seu consultório parisiense, de onde se vê que “São poucas as [crianças europeias] que vivem essas situações [miséria, vítimas de abusos e de maus tratos]“. Eu talvez gostasse de viver nesse mundo mais simples e, aparentemente, onde a vida e a educação das crianças é mais simples. Um mundo onde a forma e o tom das instruções dadas pelos pais é mais importante e significativo que o conteúdo dessas instruções. Um mundo onde uma educação autoritária dá origem a democratas convictos e uma educação democrática expele fascistas empedernidos…

Mas, a sério: “Os pais nunca pedem desculpa. Devem falar com firmeza e ternura. Nunca temos de nos justificar, nem de dar argumentos à criança. Podemos explicar, mas não justificar. O limite entre ambas é ténue, por isso defendo que na maior parte das vezes nem se explique.” ?? Até que idade é que se faz isso? Quando é a que a construção da identidade e autonomia da criança passa a ser assunto? É suposto que os pais se isentem da participação nesse processo? E se se sugere uma correlação entre a frequência dos divórcios e o estado divorciado dos progenitores, ou um estado particular de solidão nos filhos de pais sozinhos… porque não se concretiza uma relação entre uma educação autoritária e um indicador de convicção democrática ou o contrário? E porque é que me parece que este discurso absolutista, absolutamente anacrónico e desfasado da realidade é usado de forma oportunista, por ter um enorme potencial mediático?

Resumidamente, por muito que me reveja em algumas afirmações sobre a necessidade de estabelecer relações mais verticalizadas entre pais e filhos ou sobre a necessidade de perceber que, com o desmantelamento de relações tradicionalmente autoritárias e, mais do que isso, com a falta de confiança dos pais, poderemos estar a criar “tiranos”, não me passa pela cabeça que a demonstração de confiança por parte dos pais tenha que passar pela construção duma relação autoritária e opaca. Instruções estúpidas dadas com plena confiança e autoridade são instruções estúpidas que prejudicam a criança. Instruções inteligentes explicadas e até discutidas, continuam a ser instruções inteligentes. E nada em nenhum processo tão complexo, completo e total como a educação duma criança é assim tão simples. Nem tão congelado no tempo.

Ser crescido

Ocorre-me frequentemente pensar até que ponto já sou “crescido”. Principalmente quando faço coisas que é suposto não se fazer, quando se é “crescido”.

Um dia destes, caí na rua, por distracção. Isso é coisa que acontece a qualquer pessoa, crescida ou não, não é? Mas portei-me como um “crescido”: não fiz grandes fitas por ter rasgado as calças ou pelo sangue no joelho e limitei-me a culpar os arquitectos responsáveis pela reabilitação urbana do Porto 2001, porque usam materiais iguais em níveis diferentes de pavimento, o que dificulta a visibilidade dos degraus do passeio ou das rampas, especialmente à noite e com muita gente na rua. Além disso, tratei eu próprio de desinfectar a ferida quando cheguei a casa, com a água oxigenada a criar aquela espuminha branca em cima da ferida recente e betadine, como deve ser. Percebi que a espuminha branca é a prova de que não é bem verdade o que os “crescidos” dizem aos mais pequenos acerca da água oxigenada não arder nada, mas fingi bem. E tenho sido “crescido” q.b. com toda a história do joelho ferido. Não me tenho queixado por aí além, nem tenho deixado de fazer nada do que era suposto.

Mas ontem, fiz uma coisa típica de quem ainda não é “crescido” e senti-me bem por isso. Foi uma parvoíce, mas a ingenuidade às vezes sabe bem.
Lembram-se de ser pequenos e não resistir a coçar as feridas e arrancar as crostas, contrariando os bem intencionados e insistentes conselhos e avisos dos pais? Pois… mesmo aos 32 anos, continuo incapaz de resistir a uma boa crosta. ;)

Mas tenho a ideia de que, depois desta experiência, posso ser mais eficaz a passar conselhos para a Maria, quando ela tiver idade para esmurrar os joelhos. ;)

Desabafo

Estou plenamente convencido que a capacidade dum pai se sentir confortável afastado dum filho é inversamente directamente proporcional à idade deste último.

Quero com isto dizer que este afastamento forçado por pouco mais duma semana da minha Maria, que ainda só tem 4 meses, está-me a pôr com os nervos em franja. Chamem-me frágil, papá-galinha, mariquinhas ou outra coisa qualquer, mas cada dia que passa é um dia arrancado a ferros. Felizmente recebo fotografias novas todos os dias e tenho novidades frescas à distância dum telefonema. Mas nada (nem a generosidade da Cláudia), me convence que não estou a perder, dia-a-dia, momentos irrepetíveis.

E sei que, com o passar do tempo, a tolerância a este afastamento vai melhorar. Faz parte do crescimento dela, enquanto criança e do nosso, enquanto pais. Mas agora (e até domingo) tudo me faz falta.