Remorsos

Chego ao fim deste mês de Agosto com a certeza de ter feito quase tudo mal. Quase tudo o que interessava, bem visto. Pela simples razão de saber que, quando a Maria voltar ao infantário e os meninos partilharem memórias das suas férias, é bem provável que eu não faça partes dessas memórias.

Pensando nisso, fico triste e penso “que se lixe o trabalho…”.

Ainda vamos ter as nossas férias, Maria. Desculpa.

O primeiro domingo de 2010

Acordei não muito tarde. Desde manhã que estou a dedicar grande parte do meu tempo à Maria, com gosto e sem pressões. De manhã aproveitou-se uma aberta no tempo para ir à rua, comprar coisas para a sopa e tomar o café da praxe. Ouvimos música e brincámos com uma das prendas de Natal que mais atenção tem recebido por agora: um conjunto de pratos, chávenas, uma torradeira, um bule de chá e quejandos, para festas de bonecas, presumo, onde nós ocupamos o lugar das bonecas e vamos alternando entre a brincadeira convencional e a exploração dos barulhos que se conseguem fazer com aquelas “percussões”. Também tivemos um balão, cheio por pouco tempo que a Maria é bastante eficiente na arte de rebentar balões sem se assustar, que como “pele” deu para perceber quais são os recipientes que dão melhores caixas de ressonância. Almoçámos e fui eu que a pus a dormir a sesta, o que não é muito comum, porque nenhum de nós os três costuma ter pachorra para as birras que ela acha que tem que fazer se for eu a acompanhá-la para o quarto na hora da sesta. Não sei o que fiz (ou sei?), mas ela hoje percebeu que não ia haver problema e que não era preciso fazer a birra e adormeceu a agarrar a minha mão. Eu, sentado no sofázito que pusemos ao lado da cama dela, adormeci um bocadinho antes dela, logo que senti a cadência segura da respiração dela a dirigir-se rapidamente para o sono. O meu foi um daqueles sonos de 1 minuto, ao fim do qual ela dormia profundamente e eu acordei com calma e recomposto. Deixei ficar a mão um bocadinho, só para ter a certeza que tudo tinha corrido bem e depois arranjei os lençóis e saí do quarto.

Agora, não estou exactamente à espera que ela acorde, mas quase. Com a Cláudia a precisar de tempo para acabar um trabalho importante para amanhã, tenho este bocadinho da sesta para me organizar e pensar num “programinha” para o resto da tarde.

Não fiz grandes resoluções de ano novo, mas as pequenas que fiz e que, pela sua natureza se manterão privadas, pretendem alterar o meu quotidiano, especialmente na disciplina necessária para estar mais e melhor com a minha filha e com a minha mulher. Este primeiro domingo de 2010 ajusta-se bem a essas resoluções.

Realização pessoal instantânea?

Andas à procura duma forma instantânea de te sentires realizado, satisfeito contigo mesmo e com a auto-estima lá em cima? Pega numa vassoura e varre a praia de cotão que deixaste acumular debaixo da cama, ou vai tratar da pilha de louça suja que deixaste acumular na cozinha ou pega num pano e limpa a tua área de trabalho, passando a limpo e arrumando as notas que são para guardar e pondo no lixo os papéis amarrotados que deixaste acumular à tua volta. Ou pega numa daquelas coisas simples que tens para fazer, mas que foste adiando precisamente por ser simples e poder ser feita em qualquer altura e faz.

Os exemplos são vários e devem ser adaptados às necessidades reais do teu habitat pessoal e ao estado actual da tua auto-estima, mas actividades simples, muito objectivas, com impacto real a curtíssimo prazo, podem ter um impacto gigantesco num dia de menos entusiasmo e/ou num período de demasiada auto-complacência contra-produtiva.

Acima de tudo, não deixes as coisas chegarem ao ponto de teres que passar uma parte significativa da manhã em tarefas domésticas só para ficares de consciência tranquila. ;)

Nota para artigo futuro: implicações da gestão das tarefas domésticas na vida de quem trabalha em casa, com reflexão sobre as particularidades de casais em que ambos trabalham em casa.

Ser crescido

Ocorre-me frequentemente pensar até que ponto já sou “crescido”. Principalmente quando faço coisas que é suposto não se fazer, quando se é “crescido”.

Um dia destes, caí na rua, por distracção. Isso é coisa que acontece a qualquer pessoa, crescida ou não, não é? Mas portei-me como um “crescido”: não fiz grandes fitas por ter rasgado as calças ou pelo sangue no joelho e limitei-me a culpar os arquitectos responsáveis pela reabilitação urbana do Porto 2001, porque usam materiais iguais em níveis diferentes de pavimento, o que dificulta a visibilidade dos degraus do passeio ou das rampas, especialmente à noite e com muita gente na rua. Além disso, tratei eu próprio de desinfectar a ferida quando cheguei a casa, com a água oxigenada a criar aquela espuminha branca em cima da ferida recente e betadine, como deve ser. Percebi que a espuminha branca é a prova de que não é bem verdade o que os “crescidos” dizem aos mais pequenos acerca da água oxigenada não arder nada, mas fingi bem. E tenho sido “crescido” q.b. com toda a história do joelho ferido. Não me tenho queixado por aí além, nem tenho deixado de fazer nada do que era suposto.

Mas ontem, fiz uma coisa típica de quem ainda não é “crescido” e senti-me bem por isso. Foi uma parvoíce, mas a ingenuidade às vezes sabe bem.
Lembram-se de ser pequenos e não resistir a coçar as feridas e arrancar as crostas, contrariando os bem intencionados e insistentes conselhos e avisos dos pais? Pois… mesmo aos 32 anos, continuo incapaz de resistir a uma boa crosta. ;)

Mas tenho a ideia de que, depois desta experiência, posso ser mais eficaz a passar conselhos para a Maria, quando ela tiver idade para esmurrar os joelhos. ;)

Desistir

Apesar de muitas considerações comuns, também há mérito em saber desistir. E o segredo duma boa desistência é o mesmo que o da comédia: o timing.

Quando desistimos cedo demais, desistimos para nos protegermos, muitas vezes apenas por egoísmo ou preguiça. Ou falta de coragem.
Quando desistimos tarde demais, desistimos irremediavelmente magoados, muitas vezes apenas por teimosia ou vergonha. Ou falta de coragem.

A coragem é, claramente, uma das virtudes mais difíceis de controlar.

Quem são vocês?

A desvantagem de não seguir os conselhos dos mestres e gurus da blogosfera é que nunca decidi especializar este blog e vou acumulando reflexões pessoais misturadas com intervenções cívicas, polvilhadas por opiniões técnicas sobre webdesign e outros ofícios, edições de podcast com música experimental e improvisada, anúncios de concertos e outros eventos culturais… uma salada que reflecte o que sou e o que faço, mas, de certa maneira, está constantemente a alienar uma parte substancial dos potenciais leitores. Como (quase) todos os blogs pessoais, no fundo, este é um espaço sobre mim e o meu umbigo e é também por não abdicar da consciência desse facto que me recuso a dar ouvidos aos gurus.

Mas, ainda assim, perco demasiado tempo a pensar se determinado assunto tem ou não tem lugar aqui e vou acompanhando com um misto de espanto e expectativa os altos e baixos nas visitas e nas subscrições do feed, sempre sem conseguir perceber quem são os leitores do blog e o que procuram aqui.

Não há estatísticas nem Analytics que me valham e nem o registo dos artigos mais lidos ou mais comentados serve de grande ajuda. A única conclusão minimamente sustentada é que existe uma relação directa entre a frequência de escrita e o número de visitantes.

Fico assim com uma ideia vaga de uma (pequena) massa disforme de pessoas que, por razões muito diferentes, mantêm este espaço debaixo do radar e acompanham o meu ritmo de escrita, provavelmente, como quem espera que, desta roleta russa, salte um assunto de jeito. Imagino, às vezes, caras de espanto, desencanto e aborrecimento em quem me visita à procura do seguimento dum tema apenas para descobrir que tudo continua baralhado e desconexo.

Não pondero, no entanto, alterar este estado de coisas. Desculpem lá.

Assumo, sem grande pudor, o carácter narcisista desta “coisa”.

Mas não deixo de me perguntar, com uma frequência proporcional ao número de visitas*, quem são vocês?

Alguém quer ensaiar uma resposta?

* – este blog tem uma média de 100+ visitantes diários