Exercício curioso sobre a falta de curiosidade dos públicos

Ando a tentar perceber qual a melhor forma de vos explicar as incríveis relações que vejo entre este acontecimento em Espanha e este outro, em Portugal.

Fico por um resumo de circunstâncias:

  1. em Espanha, no V Festival de Jazz de Sigüenza, um espectador chamou a polícia por achar que o espectáculo de Larry Ochs Sax & Drumming Core não era um espectáculo de jazz e querer o seu dinheiro de volta. O músico, fundador do Rova Saxophone Quartet e com mais de 30 anos de carreira como músico criativo e nas vanguardas do jazz, foi “acusado” de fazer “música erudita contemporânea” que, para o melómano-jazzista em causa, teria contra-indicações clínicas, por perigos psicológicos. Ficou claro que o senhor teria problemas de estabilidade psicológica, não ficou claro se a polícia espanhola compreende o seu papel em situações deste tipo, o que é preocupante.
    [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=_EuW-mIGno0[/youtube]
  2. em Portugal, Lisboa, mais propriamente, um grupo de idosos participantes frequentes em excursões do INATEL foi trazido ao Teatro São Luiz, para assistir à peça “O que se leva desta vida“, que conta com caras conhecidas da televisão, como Gonçalo Waddington (Os Contemporâneos). A linguagem usada na peça (que não conheço), terá chocado os idosos que enchiam o teatro provocando reacções enérgicas, com vaias e insultos, obrigando a um final abrupto, numa cena pouco vista nos nossos palcos. Foram recolhidos testemunhos de alguns dos idosos e dos actores da peça num vídeo disponibilizado pelo I, a que tive acesso via Arrastão e dactilógrafo.
    [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=kaMxdEZeYnM[/youtube]

São episódios radicalmente diferentes, mas parecem convergir em alguns aspectos tão curiosos como perigosos. Tendo tempo, tentarei dizer mais qualquer coisa sobre isto e sobre as legítimas e ilegítimas expectativas do(s) público(s).

A vocês, o que vos parece?

Pobre Emmanuel Nunes

Desconhecia (sinceramente) a polémica ou sucessão de polémicas em que estava envolvida a encomenda e produção de Das Märchen, quando assisti à projecção e sobre ela escrevi. Percebi o “meio”, ao ser catapultado para as páginas do Público, na secção “Blogues em Papel“, quase como defensor isolado da obra e entre várias ofensivas, uma mais ilustres e bem fundamentadas do que outras.

Antes de mais, surgir a minha escrita como algo de minimamente relevante neste contexto, especialmente como aparente contraponto à especializada leitura de Augusto M. Seabra, deixa-me a pensar sobre os critérios editoriais do Jornal, por um lado e sobre o exercício da crítica e o seu papel (ou a sua inexistência) nos nossos órgãos de comunicação social, por outro.

O exercício profissional de crítica de Augusto M. Seabra, que muito prazer me deu ler— mesmo que não concorde com algumas das notas subjectivas e interpretações ou que não seja tão claro para mim que o todo artístico a que assisti é da responsabilidade de Emmanuel Nunes— não é comparável (compaginável seria um termo mais propositado) com as impressões de alguém como eu, que não acompanhou o processo criativo e/ou produtivo e que assistiu à estreia a cerca de 300 km de distância, num “teatro de província”, como Victor Abreu diria.

Aliás, toda a sequência de impressões publicada ontem, acaba por tentar misturar vários tipos de mal-estar, que atingem duma forma ou doutra a obra de Emmanuel Nunes, quase sempre de forma “descentrada”.

Victor Abreu queixa-se do dinheiro dispendido com a transmissão para a “província” e propõe que melhor seria, para “levar a ópera ao povo” (objectivo com que o próprio não se compromete), montar óperas mais modestas e menos vanguardistas para apresentar no Coliseu dos Recreios. O povo ficaria grato, com certeza. Então se, a generosidade de Vossa Excelência permitisse que fosse nos dois Coliseus, o povo da província do norte, teceria loas a Victor Abreu, benemérito da nação!

‘da-se, que, às vezes, aparecem gajos que parece mesmo que estão a gozar.

Além de não acrescentar nada de relevante sobre a ópera de Emmanuel Nunes, que classifica de “interminável, abstrusa e «vanguardista»”, Victor Abreu demonstra várias formas de ignorância. Por mim, mesmo que o público não tenha comparecido em grande número nos teatros onde foi projectada a estreia, esta é a uma boa forma de resolver, num país empobrecido (financeira e culturalmente), a impossibilidade de rentabilizar longas temporadas de ópera ou digressões de ópera. Não se trata apenas da inexistência de condições logísticas nos teatros e salas de concertos por este país fora, mas do custo por apresentação duma forma artística que, ao contrário do teatro ou da música, não pode ser rentabilizada por modelos de repetição, já que não se aplicam economias de escala. O antigo director do TNSC tentou explicar isso mesmo numa entrevista antes de ser substituído, mas não é fácil de perceber.

Nestas condições de extrema pobreza, em que até no único teatro de ópera público português “uma imensa percussão todavia mal se ouça, perdida no trajecto entre o Salão Nobre, para onde teve de ser remetida por óbvios motivos logísticos, e a sala“, a aposta no registo e na projecção em simultâneo ou diferido para salas espalhadas por todo o país onde o público possa ser congregado e estimulado, parece-me de extrema bondade. Se e quando falha, na prática, é preciso perceber porquê, para melhorar os sistemas de gestão dos dinheiros envolvidos e exigir mais empenho na divulgação, por exemplo. Mas achar que a bondade da proposta se mede pelos efeitos… é fraco.

E nada tem a ver com Das Märchen, de Emmanuel Nunes.

As intenções demagógicas discutidas no Cachimbo de Magritte são, obviamente, de discutir. E uma avaliação da relação custo/benefício deste tipo de iniciativas é muito importante. Soubesse eu (que não sei) da verba dispendida para organizar a projecção que, aparentemente, se tornou polémica política nacional, talvez entrasse num jogo de avaliar o seu real impacto.

De forma egoísta, como beneficiário directo desta iniciativa e não sendo “amigo” nem deste Secretário de Estado nem de nenhum outro, posso apoiá-la. Mas que seja claro: não confundo o apoio à projecção das óperas do São Carlos como medida de descentralização, com a apreciação da primeira ópera a ser alvo dessa projecção. Claro que não sei se a projecção testada agora é ou não uma aposta para o futuro, que apoiaria. Assim como não confundo a fraca resposta do público com o desinteresse ou falta de pertinência da proposta.

No meio de tudo isto, a ópera de Emmanuel Nunes perde-se na poeira levantada pelo alvoroço.