Pornografia, ou a arte de ser explícito

Uma visita rápida ao site do Correio da Manhã, para completar o post anterior, mostrou-me o que tenho andado a perder no que diz respeito ao carácter explícito do tipo de informação que por ali se pratica:


Correio da Manhã noticia possibilidade de pais bloquearem sexo na net

Para quem for notícia o facto de se poder bloquear ou controlar informaticamente o acesso a conteúdos online de carácter explícito, talvez interesse perceber qual a utilidade de o fazer. Nada melhor, portanto, do que pôr dois bons exemplos na mesma página (a de entrada no site do jornal): a notícia de um crime sexual numa cavalariça da GNR e um anúncio a uma sex shop de nome irrepetível, ilustrado com imagens “picantes”.  Isto sim, é informação útil para todos os pais e encarregados de educação preocupados com os hábitos de navegação das suas crianças!
Não é claro se os filtros que fazem a notícia do Correio da Manhã bloqueariam ou não a página do próprio jornal, mas parece-me óbvio que a sex shop está a fazer um grande negócio, anunciando a um preço normal (presumo), numa página que responde a pesquisas tão apetecíveis como “sexo na net”+”soldado da Guarda Nacional Republicana”+cavalariças… e isto é só um exemplo, sem entrar em detalhe nos resumos das notícias.

Ou será que o Correio da Manhã online está “tão à frente” que os anúncios são colocados por relevância contextual? ;)

O Correio da Manhã explica

Para quem tenha ficado com dúvidas acerca da atitude de distanciamento da UNESCO relativamente à eleição das 7 Novas Maravilhas mesmo depois de ver a lista de nomeados, finalistas e “vencedores”, o Correio da Manhã resolve tudo na sua 3ª página de hoje. Excluindo as fotografias, republico aqui (sem autorização), o texto que esta publicação de referência dedica às novas 7 maravilhas. Mais explícito é difícil:

9639 EUROS PARA VER TODAS AS ‘MARAVILHAS’

O preço total para visitar todas as ‘Novas Sete Maravilhas do Mundo’ pode ascender aos 9639 euros, mas tudo dependerá do tipo de viagem, da época escolhida e do número de pessoas. Uma viagem com tudo incluído e com excursões pagas à parte pode ficar mais barata do que um circuito, no qual se têm de pagar todas as refeições e bebidas. Viajar sozinho também é, normalmente, mais caro porque as agências de viagens e hotéis obrigam ao pagamento de um suplemento especial. As deslocações em época alta, isto é, em Julho e Agosto, também são, em regra, mais caras do que no resto ano.

(Todos os preços são em quarto duplo e não incluem taxas ou suplementos cobrados pelas agências de viagens ou companhias aéreas.)

ITÁLIA/ROMA
2 noites
Hotel Park Amaranto (três estrelas)
Regime de alojamento e pequeno-almoço
264 euros

BRASIL/R. JANEIRO
Cristo Redentor
Miramar Palace Hotel (4 estrelas) em regime de alojamento e pequeno-almoço
1313 euros

JORDÂNIA
Circuito incluindo Petra
7 noites em regime de alojamento e pequeno-almoço
Hotéis turística
1260 euros

PERU
Circuito incluindo Machu Pichu
10 noites em regime de alojamento e pequeno-almoço
Hotéis turística superior
2271 euros

ÍNDIA
Circuito incluindo Taj Mahal
9 noites em regime de alojamento e pequeno-almoço
hotéis de categoria B
1292 euros

MÉXICO/RIVIERA MAIA
Excursão a Chichén Itzá paga à parte no local
7 noites em regime de tudo incluído
Hotel Riu Lupita (cinco estrelas)
1169 euros

CHINA
Circuito incluindo Grande Muralha
9 noites em regime de alojamento e pequeno-almoço
Hotéis de 1.ª categoria
2070 euros

Obrigado, Correio da Manhã.

O que as pessoas procuram

Há dias, a ler este artigo do Pedro Aniceto (que me lembrou antigas crónicas do Nuno Markl) e, partilhando com ele a surpresa por algumas das pesquisas que fazem as pessoas chegar ao blog dele, dei por mim a pensar que, de facto, tudo o que escrevemos num blog, depois de misturado no mar caótico de conteúdos que é a web, acaba distorcido por causa da frequência (e grau de desespero) com que as pessoas conduzem certas pesquisas on-line. Queixava-se o Aniceto de visitantes supreendentes, que chegavam ao blog dele à procura de “casas de meninas em Leiria”, de “vídeos da Elsa Raposo” (esta já é uma clássica de que se queixava o Markl também) e até de— desculpem os leitores mais sensíveis— “putas em Mondim de Basto”. Esses visitantes, como o Aniceto reconhecerá, são relativamente “comuns”, visto que as pesquisas (se excluirmos os regionalismos) são feitas em massa, sem grande critério e basta que as palavras (todas ou algumas) apareçam num ou em vários artigos para que o blog sofra dessa distorção esquisita que é submeter-se aos critérios de busca globais. Eu, por exemplo, já fui visitado por gente que queria saber mais acerca do “estilo de vida dos dreads” ou sobre “albino moura” (quem é albino moura?), mas, até agora as pesquisas de carácter mais “sexual” não me têm afligido. (Este post, pelas razões já explicadas e a explicar vai acabar com isso).

De facto, pus-me a pensar que ao pegar naqueles termos e a voltar a referi-los, o Aniceto corre o risco (calculado, presumo) de voltar a ter picos de novos visitantes que encontram nesta alegre junção de termos razões mais que suficientes para visitar o que à primeira vista pareceria apenas um blog veterinário. ;)
O que é divertido, de certa forma. E perverso…

Voltei a pensar nesta questão e dispus-me a fazer esta experiência— calculo que este artigo em particular constitua uma pequena explosão de visitas— depois de ler artigos recentes do Arrastão, do Daniel Oliveira (este, este e mais este) que, pela quantidade de referências a práticas sexuais e outras formas de exprimir a sexualidade, provavelmente, aumentaram, inadvertidamente, a popularidade do blog (que já é tanta que talvez nem dê por isso) e, dessa forma, enviesam a leitura automatizada dos mecanismos de indexação automática.

A experiência de que falo é mesmo a simples escrita deste artigo com os termos específicos procurados nos blogs, e com links para posts com títulos “atractivos” e a posterior observação do impacto no número e tipo de visitantes. Podia pedir os dados estatísticos ao Pedro Aniceto e ao Daniel Oliveira, mas será mais divertido e mais fácil de ver num blog discreto como este. Em teoria, a partir deste momento, por mais linhas que escreva sobre cultura, participação cívica, concertos de música experimental e improvisada, tecnologias, acessibilidade web… vou ter “à perna” visitantes frustrados à procura de putas em Mondim de Basto ou noutras localidades, de apologias e denúncias de práticas homossexuais ou, simplesmente, de sexo anal… ou será banal?

Aquilo que as pessoas procuram deixa-me ora admirado, ora deprimido. Este aproveitamento pornográfico (vêm, mais uma palavra) que estou a fazer, para efeito de estudo, até custa a engolir (tudo soa diferente, agora).