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Lisboa

Quarta-feira, 15 de Outubro, 2008

Estou em Lisboa.

Quem tiver prestado alguma atenção ao blog nos últimos tempos sabe que é por causa da temporada do Muna no TNDMII e já deve ter percebido que o tempo para escrever aqui no blog não abunda. E mesmo que tivesse tempo, não sei se teria grande energia, confesso. E se tivesse, não devia conseguir fazer coincidir isso tudo com um momento em que tivesse acesso à Internet.*

(Além disso, as saudades fazem-me passar mais tempo ao telefone e menos no computador.)

Obviamente que não é a primeira vez que estou em Lisboa, nem sequer é a primeira vez que por aqui estou em trabalho. Mas é a primeira vez que estou de forma mais prolongada e com a sensação de que, temporariamente, é aqui que tenho que “morar”. E é mais estranho do que esperava. O meu instinto natural, relativamente inconfessável, faz-me sentir mais “tripeiro” quando estou em Lisboa, o que tem a sua “graça” quando venho num fim-de-semana ou para dar um concerto, mas, ao fim de vários dias, começa a fazer-me pensar de onde me vem esta reacção “intestina”.
Talvez tenha a ver com o facto de, em Lisboa, me sentir sempre relativamente “estrangeiro”. Não pela estranheza do território ou das pessoas e da sua diversidade, mas pela escala (ter mudado do Porto para Aveiro talvez acentue a minha dificuldade em lidar com cidades maiores) e pela sensação de ter muito pouco em comum com as pessoas à minha volta.

Hoje, depois da estreia do espectáculo para a infância, durante um belo almoço no FrutAlmeidas (os pastéis de massa tenra e os sumos de fruta são tão bons ou melhores do que a minha irmã vinha anunciando), consegui verbalizar melhor esta forma de “estranheza” ou “desconforto”: sinto nitidamente que há muito poucos assuntos da minha “agenda cívica” que sejam comuns à maior parte dos lisboetas. E vice-versa. As questões que mais me preocupam, no meu quotidiano em Aveiro e no Porto, são absoluta e naturalmente estranhas aos lisboetas. E aceito com naturalidade que o contrário é absolutamente real. Mesmo assuntos genéricos e preocupações “nacionais” têm que ser verbalizados e ilustrados de forma diferente. E não é natural que haja acordo acerca do que são as nossas prioridades.

Pode parecer ridículo falar-se de forma tão “radical” acerca de diferenças e assimetrias locais e regionais num rectângulo tão pequeno como este, e só com 10 milhões de pessoas. Mas aqui, à minha volta, se é verdade que estão concentradas quase metade dessas pessoas, também é verdade que está concentrado muito mais de metade do poder político e económico. E é isso que é desconfortável: sentir que a esmagadora maioria das decisões que afectam o meu quotidiano é tomada por gente que lhe é completa e naturalmente alheia. E se me pedirem para eleger um assunto tipicamente “lisboeta” que afecta todo o território nacional, é fácil: a suburbanidade. Eu não conheço território suburbano fora da região de Lisboa e Vale do Tejo. A discussão técnica não é fácil, mas eu partilho da visão de alguns geógrafos e urbanistas que consideram que o espaço urbano contínuo entre Aveiro e Viana do Castelo, constitui um fenómeno de conurbação, onde múltiplos pólos urbanos se intersectam e promovem cruzamentos de pessoas, serviços e mercadorias, sem uma hierarquia clara que permita falar de urbes e subúrbios. Além disso, uma parte significativa das cidades portuguesas não chega a ser propriamente “urbana”, pelo que não faz sentido falar de “suburbanidade”. Ou, numa visão mais distanciada, poder-se-ia dizer que todo o país é sub-urbano, relativamente à região da capital, onde existe uma cultura urbana e suburbana real, que no resto do país ainda se cruza muito com uma raíz profundamente rural. Este problema de desenvolvimento, gestão e planeamento territorial marca de forma profunda a agenda nacional, mas devia reconhecer-se a sua natureza específica. E aceitar com naturalidade que a simples diferença de escala e de modelo de desenvolvimento urbano traça fronteiras no país, que não se podem ignorar.

Devia ser simples, não?

Mas pergunto-me (e a vocês, que me lêem, já agora) se, da mesma forma que me ajudou estar nesta condição de “estrangeiro” para me pôr a pensar nisto (outra vez), não precisaremos todos de conhecer melhor o país todo, partindo, sempre que possível, dessa condição de “estrangeiro” que resulta, necessariamente, duma certa disponibilidade para nos alhearmos do que já julgamos saber. Será esse exercício possível?

* Aceito sugestões de locais agradáveis na vizinhança do D. Maria (Rossio) ou perto da estação de Metro da Av. de Roma (onde estou alojado) com acesso rápido e gratuito (wireless, preferencialmente) e onde se possa trabalhar. Tem mesmo que ser um sítio simpático, porque preciso de uma tomada, já que a bateria do meu velhinho portátil não colabora.

A Vida Normalmente

Quinta-feira, 18 de Setembro, 2008

Estreou esta terça-feira, na RTP2, A Vida Normalmente, uma série documental de 10 episódios, de Fernanda Câncio e Abílio Leitão. 10 bairros “problemáticos” são vistos/mostrados pelos olhos de quem lá vive “normalmente”, escapando às tradicionais armadilhas da “vitimização” ou da “desculpabilização”. À estreia, dedicada ao Bairro da Abelheira, um bairro de realojamento em Quarteira, seguiu-se um debate num Sociedade Civil “Especial Bairros”, com a presença dos autores do documentário, a jornalista Fernanda Câncio e o realizador Abílio Leitão, da coordenadora operacional da Iniciativa Bairros Sociais do Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana, Virgínia Sousa, e do Bastonário da Ordem dos Engenheiros, Fernando Santo.

Uma primeira nota vai para a falta de critério de programação da RTP que remete para horas impróprias (o documentário de 30 minutos, ao qual se seguiu o debate, começou depois das 23h00) uma iniciativa que, no contexto actual, justificaria, obviamente, maior visibilidade. Continua sem se perceber porque é que as incursões mais profundas à natureza do que é o serviço publico de televisão ficam reservadas para noctívagos e cuidadosamente “guardadas” no canal que, de nome e, de facto, é o segundo.

Felizmente, apesar disso, não perdi esta estreia e pude ficar a ver o debate até ao fim.

Quanto ao documentário, parece-me de facto interessante o registo-construção duma visão dos “bairros” de dentro para fora, fugindo de abordagens mais correntes e, porventura, mais fáceis, de dar a voz aos técnicos do costume— ora teóricos de tribuna, ora gente de intervenção no terreno— que não podem deixar de estar numa condição de “estrangeiros” relativamente ao “bairro”. A visão “local” ajuda a compreender a natureza das fronteiras que nem sempre são bem entendidas em toda a sua complexidade e, no debate, algumas expressões ilustram essa complexidade: “os bairros de realojamento, mecanismos de inclusão social, funcionam também, como mecanismos de exclusão”, porque “não são cidade”, apesar de “haver um maior sentimento de pertença”, de tal forma que, “quando saem do bairro, as pessoas sentem-se no estrangeiro”, assim como se sente, por vezes, que as incursões da polícia parecem “incursões em território inimigo”.

Percebo também a ideia de procurar, dentro dos “bairros”, exemplos de pessoas que procuram “suplantar as condições de partida” e, simplesmente, ou “normalmente”, viver a sua vida. Estes “bons exemplos” são inspiradores e têm o potencial de humanizar o nosso olhar sobre estes territórios “estrangeiros”, que ora são “problemáticos”, ora “críticos”, ora sujeitos a “intervenção prioritária”… Mas o argumento apresentado de que esta visão é uma pedrada num charco marcado por imagens ora de “vítimas”, ora de “irresponsáveis”, para mim, não faz muito sentido. A verdade é que as “pessoas” que moram nos bairros— os bons, os maus e os vilões— não têm visibilidade no panorama da comunicação social, e os bairros são tratados como realidades uniformes e indistintas, como se não fossem território habitado de toda a diversidade que habita o resto do país. Com estes 10 episódios ficaremos a conhecer algumas das pessoas dos bairros, mas ficaremos a conhecer histórias de superação, de persistência, de preserverança, de sorte, de sucesso relativo. Mas não é verdade que isso sirva para temperar um panorama em que conhecemos já as biografias de quem não conseguiu superar as condições de partida, por não poder, por não querer, por falta de sorte, por…

A verdade é que estes retratos dos bairros, de pessoas dos bairros, pode ter o efeito pernicioso de prolongar uma visão distorcida que já temos desta realidade e dar mais fôlego à ideia de que, quem quer e faz por isso, pode ter uma vida melhor. Os autores do documentário sabem que não é bem assim e disseram-no no debate, mas a opção de construção da série é esta. Não deixa de ser legítima, mas creio que o processo de humanização do nosso olhar sobre os bairros passa por conhecer as pessoas que lá moram: as que, quiçá excepcionalmente, vivem a sua vida “normalmente” e as outras, cujas vidas são, no contexto, tão normais como a de cada um de nós, mas num contexto muito pior. Fico curioso por perceber quão “excepcionais” são os exemplos de vidas “vividas normalmente” e escolhidas para estes documentários e ficaria agradavelmente surpreendido se, com contribuições valiosas como esta, passássemos, como sociedade, a olhar para os “bairros” como sítios onde moram pessoas. É um importante primeiro passo.

Quanto ao debate que, como se perceberá, foi rico, fiquei surpreendido com a presença do Bastonário da Ordem dos Engenheiros num papel que poderia ser exercido, com vantagem, por um Urbanista ou Arquitecto. O Nuno Portas, o Varela Gomes, a Ana Tostões, o Ribeiro Telles, ou até a Helena Roseta (se fôssemos capazes de não confundir o que a pessoa diz com o papel político que desempenha a dado momento) poderiam contribuir com uma visão centrada no desenho e no funcionamento das cidades e do território e dos seus momentos particulares, como são os bairros de realojamento, provavelmente com mais interesse do que o Eng. Fernando Santo, que merece todo o meu respeito. O Nuno Portas, particularmente, por acumular responsabilidades como Urbanista, Arquitecto, Pedagogo e Político e ser um grande comunicador, poderia ter dado outra dimensão ao debate.

Claro que o debate seria ainda mais rico se prolongasse a opção do documentário e desse voz a quem vive nos “bairros”, pondo frente-a-frente o discurso dos técnicos com o discurso de quem tem que viver com as opções dos técnicos.

Finalmente! Os crimes da Praxe serão tratados como crimes

Sexta-feira, 12 de Setembro, 2008

Aparentemente, a posição de Mariano Gago que já tinha comentado por aqui, é mesmo para ser consequente, e o Ministério do Ensino Superior vai denunciar qualquer “prática de ilícito” nas praxes, responsabilizando também a omissão por parte das Universidades e das Associações de Estudantes. É como se, de repente, entrasse um xerife no faroeste em que se transformam os campus universitários nas alturas das praxes. A ver vamos até onde vai a convicção de Mariano Gago e qual será a reacção dos diversos intervenientes no sistema.

Vale a pena sublinhar este trecho da carta que o ministro fez chegar às Universidades:

“A degradação física e psicológica dos mais novos como rito de iniciação é uma afronta aos valores da própria educação e à razão de ser das instituições de ensino superior e deve pois ser eficazmente combatida por todos, estudantes, professores e, muito especialmente, pelos próprios responsáveis das instituições”, sublinha o membro do Governo.

Este Ministério da Cultura não serve a Portugal

Quarta-feira, 10 de Setembro, 2008

Acredito que a republicação deste comunicado, como fizeram a Catarina e o Nuno, se justifica plenamente.

Tomada de posição da PLATEIA, divulgada hoje:

Em Agosto foi aprovado em Conselho de Ministros o Decreto-Lei que cria um novo quadro para o financiamento das Artes pelo Estado (o terceiro em quatro anos). No preâmbulo afirma-se que “Apoiar a criação, a produção e a difusão das artes bem como consolidar, qualificar e dinamizar as redes de equipamentos culturais são objectivos inscritos no programa do XVII Governo Constitucional. Um dos principais instrumentos de realização dessas duas dimensões correlacionadas da política cultural é o financiamento público de actividades e projectos que contribuam, quer para projectar nacional e internacionalmente a criatividade e a capacidade de inovação artísticas, quer para desenvolver a sensibilidade e o pensamento crítico das populações, promovendo a sua qualificação e a coesão social.” E apresentam-se como objectivos estratégicos: “a) Promover o acesso público às artes, contribuindo para a elevação da qualidade de vida, da cidadania e da qualificação das populações; b) Promover a criatividade e a inovação artísticas.”

Estamos em Setembro e a nova legislação ainda não foi publicada. Não foi ainda sequer discutida publicamente a respectiva Portaria, que deverá regulamentar os concursos em que o regime de financiamento assenta. Em Dezembro de 2008 acabam os contratos de financiamento em vigor e nada se sabe sobre o que acontecerá aos profissionais e públicos da arte.

Nos últimos anos o Estado tem respondido aos atrasos com renovações imediatas dos contratos em vigor, acentuando as assimetrias, desvalorizando o cumprimento de objectivos e fechando as portas às novas gerações.

É tempo de pôr cobro a esta situação.

É inaceitável que o financiamento às artes acentue as assimetrias regionais. A região Norte, a mais populosa do país, conta com um financiamento equivalente a 50% da média nacional.

É inaceitável que o Estado não fiscalize o cumprimento dos objectivos de interesse público que determina. Nos últimos quatro anos a única comissão de acompanhamento e fiscalização do Ministério da Cultura que funcionou foi a do Norte. Na Região de Lisboa e Vale do Tejo, que absorve metade do investimento nacional, pura e simplesmente não existiu fiscalização.

É inaceitável que há já quatro anos nenhuma nova estrutura tenha sequer a possibilidade de concorrer a um financiamento sustentado.

Acima de tudo é inaceitável que o Estado mantenha uma situação de facto intolerável, escudando-se no não cumprimento de prazos e objectivos que são da responsabilidade exclusiva do próprio Estado.

É inaceitável que o Estado crie constantemente situações limite e confusas para esconder o seu desinvestimento na Arte, no todo do território nacional e nas novas gerações.

A PLATEIA – Associação de Profissionais das Artes Cénicas exige que o Estado divulgue já a solução pensada para ultrapassar a situação de iminente suspensão da actividade artística em Portugal, e que essa solução seja capaz de corrigir assimetrias regionais, de retirar consequências dos processos de acompanhamento e fiscalização e de dar oportunidades reais às novas gerações.

Aqui a análise da PLATEIA ao novo Decreto-Lei

Aqui a análise e gráficos relativos ao investimento nacional e por região.

Triatlo: o nosso desporto-rei

Domingo, 7 de Setembro, 2008

Alguém tem ainda dúvidas sobre qual devia ser, verdadeiramente, o nosso desporto-rei?

Vanessa FernandesHoje, em Pulpi (Espanha), Vanessa Fernandes sagrou-se pela 4ª vez consecutiva Campeão Europeia de Triatlo Sub-23 e na prova masculina, João Silva e Miguel Arraiolos conquistaram a medalha de ouro e a medalha de prata, respectivamente, num feito verdadeiramente notável para o desporto nacional e inédito na história dos campeonatos, segundo ouvi na rádio.

Claro que as capas dos jornais estarão reservadas para os tipos que andam aos chutos na bola e que parece que marcaram uns golos, hoje. Aliás, já quererá dizer qualquer coisa o facto do Público online só referir o resultado de Vanessa Fernandes, sem salientar o resultado histórico na prova masculina, enquanto reserva dois espaços de última hora para os futebóis, um para o jogo, outro para as declarações do “mister”.
Mas, se há desporto que merece a nossa atenção e orgulho nacional é, claramente, o Triatlo.

Ou isso de prestarmos atenção a desportos que não sejam futebóis era só durante os Jogos Olímpicos?

PSD pode ganhar as eleições porque os Portugueses estão mais desequilibrados

Terça-feira, 2 de Setembro, 2008

É, aparentemente, a opinião de Marcelo Rebelo de Sousa:

O professor acrescentou que “neste momento o PSD tem condições objectivas para ganhar as eleições”.

“Não as tinha há alguns meses atrás, mas a situação económica nacional e internacional tem-se complicado, a situação social também, a insegurança tem subido, o que mexe muito na cabeça das pessoas“, considerou.

O destaque é meu.

E é por estas e por outras que eu acho que se o Prof. Marcelo não existisse, tinha que ser inventado.

Banda Larga Móvel: não é concertação, é coincidência

Segunda-feira, 1 de Setembro, 2008

Digam lá se é ou não uma maravilha ver o mercado a funcionar? Valentes empreendedores capitalistas, sempre em concorrência feroz, ainda que educada, sempre em prol do consumidor, aumentando a escolha, elevando a fasquia na oferta de produtos e serviços e na procura duma “estratégia de diferenciação” e…

Tretas! Se é isto o mercado e a livre concorrência, eu vou ali e já volto!

E claro que não há concertação de preços, nem nenhuma atitude menos clara que exija atenção por parte dos argutos, perspicazes e activos reguladores seja na Autoridade da Concorrência, seja na ANACOM, seja… vão gozar com outro! Depois dizem que a malta anda deprimida por ter voltado de férias! A malta anda deprimida é porque anda farta de promessas do El Dorado abanadas na ponta duma vara, enquanto leva no lombo com os “sacrifícios” que se exigem de “todos e de cada um”, a bem da “estabilidade” e da “consolidação”. Já dizia o Zé Mário Branco, no FMI: “consolida, filho, consolida!…”

Depois admirem-se com o mau feitio de alguns tipos e a falta de educação e boas maneiras… ou, pior ainda, falta de fé no “mercado”.

IVA com recibo?

Sábado, 23 de Agosto, 2008

IVA com reciboVia Paulo Pires, descobri o “Movimento IVA com Recibo” que defende a discussão na Assembleia da República de uma proposta que contemple a possibilidade do IVA passar a ser pago ao Estado apenas no momento de emissão do recibo em vez da factura. O argumento é óbvio: com os atrasos nos pagamentos que, em Portugal, são uma espécie de cancro, muitas empresas são obrigadas a pagar valores de IVA respeitantes a facturas ainda não pagas, o que origina problemas de liquidez.

Quem se dirigir ao site ou ao blog do movimento poderá ficar com a ideia de que não existe grande profundidade na argumentação, e eu, por exemplo, concordo com o primeiro comentário no blog que sugere que a proposta tem um certo carácter paliativo, evitando debruçar-se directamente sobre o verdadeiro problema: os pagamentos em atraso.

Mas a mim agrada-me que um movimento deste tipo se apresente, num primeiro momento, como um movimento em construção, aberto a sugestões e propostas. Se se aumentar a discussão à volta desta questão, talvez seja possível encontrar uma proposta que proteja as PME’s (principalmente) dos efeitos nefastos da necessidade de pagarem IVA relativo a facturas em aberto, atacando simultaneamente o problema dos atrasos nos pagamentos, situação na qual o Estado (e todos os agentes públicos) tem uma enorme responsabilidade, não tanto pelo papel regulador que poderia ter, mas pelo exemplo que estabelece na prática quotidiana.

Sendo assim, esta é uma oportunidade para um exercício activo de cidadania, aconselhável a todos. A discussão faz-se no blog.

jazz.pt | report #1: Medeski, Scofield, Martin & Wood

Domingo, 3 de Agosto, 2008

How do you groove?

Texto escrito por João Martins, a 16/07/2007.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 15 da revista jazz.pt, com fotografias de Luís Pedro Carvalho.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Medeski, Scofield, Martin & Wood

Casa da Música, Sala Suggia, sexta-feira, 6 de Julho de 2007
John Medeski: teclados
John Scofield: guitarra
Billy Martin: bateria
Chris Wood: baixo

Intro, take One

O primeiro concerto do trio nova-iorquino Medeski, Martin & Wood (MMW) em Portugal era aguardado com alguma expectativa e foi através da digressão de lançamento da sua recente colaboração com o consagrado John ScofieldOut Louder (2007, Indirecto Records)— que essa estreia se deu, e num palco grande como é a Sala Suggia, na Casa da Música.

Intro, take Two

O regresso do consagrado John Scofield aos palcos portugueses era aguardado com a habitual expectativa e a digressão de Out Louder (2007, Indirecto Records)— a recente colaboração com o trio nova-iorquino Medeski, Martin & Wood— foi o pretexto que o trouxe até à Sala Suggia, palco principal da Casa da Música.

Interlude

As duas introduções a este acontecimento são possíveis estados de espírito do público que entrou na Sala Suggia no dia 6 de Julho.
Para parte do público, Medeski, Martin & Wood era apenas o nome do trio que acompanhou Scofield em A Go Go (1998, Verve Records) e que, 9 anos passados, tem já direito a partilhar as capas dos discos e dos cartazes. Alguns terão percebido porquê, outros terão ficado na dúvida sobre a insistência de Scofield nesta colaboração.

Para outra parte do público, Medeski, Martin & Wood, MMW é um trio de deep grove arriscado, contaminado por electrónicas, com lugar assegurado (individual e colectivamente) na cena nova-iorquina. São inconformistas que lançaram a sua própria editora (a Indirecto deste Out Louder), depois de alguns anos de sucesso na Blue Note, para não terem que fazer compromissos. Para esses, a ligação a Scofield, um consagrado do jazz (mais “straight” na cabeça de uns, mais “cota” na de outros) seria talvez um “mal necessário” para trazer o trio até palcos lusos. Alguns terão percebido que as cumplicidades com o mais experiente guitarrista parecem ter raízes profundas, outros terão ficado desiludidos com as estruturas um pouco mais rígidas que esta colaboração exige ao trio.

Como em todos os concertos, quem entrou com uma opinião prévia formada, terá saído um bocado baralhado.

Mas vamos por partes:

Part I: uma sala é boa quando não se pensa nela durante o concerto

Não é a primeira vez que saio da Sala Suggia com a sensação de que o seu perfil acústico não se ajusta facilmente a todos os eventos que alberga. Neste caso, o azar com os aviões [1], típico de digressões apertadas [2], retirou tempo precioso à equipa técnica da Casa da Música para preparar melhor este concerto— o que justifica (parte d)as primeiras indicações dos músicos acerca das deficiências no som no palco—, mas a verdade é que, como noutras ocasiões, a dimensão e características da sala não nos deixaram usufruir de graves mais profundos e definidos, fundamentais para o groove de Chris Wood e Billy Martin, que assim, perdeu parte do seu poder contagiante e foram relativamente ineficazes na definição e “separação” dos timbres mais agudos e (a espaços) estridentes da guitarra de Scofield, mas, especialmente, dos teclados de John Medeski. (Sobre os teclados de John Medeski fica aliás a dúvida (nos ouvidos deste escriba, pelo menos) sobre quanto do que ele tocou é que teremos ouvido…)

Com o passar do tempo, a situação melhorou e pode-se dizer que o encore (único) já contava com a massa sonora necessária (em volume e definição) para que o público pudesse começar a embarcar nas experiências mais groovy asseguradas por M(S)MW.

(Ainda assim, a sensação final é que a Sala Suggia não se consegue “fechar” o suficiente, em termos acústicos e de iluminação, para concertos de ensembles pequenos, ficando o público demasiado “afastado” dum palco que os músicos parecem não conseguir preencher.)

Part II: conhecer a história é bom, desde que a história não substitua o presente / preconceito vs pré-conceito

A colaboração entre John Scofield e Medeski, Martin & Wood começou no disco de Scofield, A Go Go (1998, Verve Records) que, sendo assinado por Scofield, depende, desde o momento da concepção, de MMW, já que, segundo o próprio Scofield

“When I heard Medeski, Martin and Wood’s record «Shack Man», I knew I had to play with them. They played those swampy grooves and had a free jazz attitude.” [3]

A colaboração e o disco resultante assentava no deep groove de MMW e a escrita de Scofield, assim como a sua linguagem e fraseado, contribuem para um disco forte e contagiante, muito ligado às raízes R&B que Scofield procurava e capaz de atrair muitos públicos.

Entre esse disco e o presente Out Louder (2007, Indirecto Records, a editora dos MMW), John Scofield continuou a sua carreira nos vários territórios em que é figura fundadora e se sente confortável e os MMW continuaram a construir, de facto, o seu percurso e a consolidar o seu território, no cruzamento entre um groove quase psicadélico e a experimentação com várias electrónicas e em colaboração com outros artistas, diversificando mais nas apresentações ao vivo do que nos discos (como o próprio Out Louder parece procurar demonstrar nas 6 faixas adicionais gravadas ao vivo).

O reencontro de Scofield com os MMW, 9 anos depois de A Go Go, tem, por isso, premissas diferentes: à escrita de Scofield (que assina os 10 temas de A Go Go e apenas 1 em Out Louder [4]), junta-se a escrita de Chris Wood (2 dos 12 temas) e o processo de trabalho colaborativo de MMW, fruto de sessões de improvisação sucessivas, dá origem a novos temas, assinados pelo colectivo e é aplicado a temas tradicionais e mesmo a clássicos da Pop-Rock, como “Julia” (Lennon-McCartney)— tocado na Casa da Música— e “Legalize It” (Peter Tosh).

O disco afirma inequivocamente duas coisas:

  1. o estúdio e o formato do disco são pequenos para o tipo de exploração que interessa a MMW, tendo mesmo que recorrer a fade outs como forma de cortar faixas que se adivinham de dimensão “épica”
  2. ao vivo, o carácter mais experimentalista ganha força e observam-se estruturas mais complexas e paisagens sonoras mais arriscadas

Fica a dúvida (para isso é que servem os concertos) sobre o “encaixe” de Scofield nesses momentos, já que, em estúdio, Out Louder parece uma continuação de A Go Go, com um maior equilíbrio na participação e autoria.

Part III: o presente é tanto melhor, quanto mais é capaz de reinventar a história

Com o interesse e as dúvidas levantadas pelo disco e com os diversos tipos de público a quem esta combinação podia apelar, o concerto na Casa da Música justificava alguma expectativa e uma casa mais cheia, mas sobre dinâmicas de público continuo a considerar-me um trapalhão ignorante.

Com mais ou menos público [5], o quarteto entrou em palco com vontade e energia para oferecer o seu melhor mas, talvez por ter sido momentaneamente desviado da sua concentração por algumas dificuldades (iniciais) no som de palco (já referidas) ou por partilhar da tal sensação de que a sala era demasiado grande, pareceu não estar tão sólido como se esperaria, particularmente, no que diz respeito ao “entrosamento” de MMW. A falta de presença do baixo eléctrico de Chris Wood (amplamente solicitada por Billy Martin aos técnicos de som) e, mesmo após os ajustes, as dificuldades gerais aparentes em ter um bom som no palco, poderão ter contribuído para uma certa sensação de desconforto e até desacerto que marcou alguns dos momentos menos conseguidos do concerto. O maior impacto sentia-se precisamente na dificuldade em afirmar a “profundidade” do groove que está na base do trabalho do trio de Brooklin, mas o esforço evidente em passar por cima das dificuldades técnicas e oferecer a melhor experiência possível ao público resultou em bons momentos musicais de grande intensidade e concentração. “Cachaça”, escrito por Chris Wood e introduzido no concerto por um intenso solo de contrabaixo, foi um desses momentos e, de resto, parece justo destacar precisamente o baixista, por uma performance de grande envergadura, em condições difíceis.

No geral o concerto confirmou a apetência desta formação pelas apresentações ao vivo, não tanto pela “presença em palco” (esse conceito difícil de definir), que poderia reflectir o compreensível cansaço físico da formação no meio duma digressão exigente, mas mais pela sensação de que é na exploração longa das possibilidades oferecidas pelas “swampy grooves” de que falava Scofield, que cada um dos solistas define o território seguro, para depois “saltar” para zonas não tão seguras e, certamente, mais imprevisíveis e interessantes.

Tema a tema, solo a solo, a sensação de que “quanto mais tempo passar mais longe eles poderão ir”, insinuava-se, com óbvio interesse para parte do público, mas com algum enfado, aqui e ali, entre os menos habituados a estas estratégias. Em boa verdade, a solução encontrada pelo ensemble acaba por ser, IMHO, pouco conseguida: se, por um lado não se abandonaram a nenhuma espiral épica que os levasse verdadeiramente a outros territórios, por outro, ao utilizarem repetidamente uma estrutura clássica/standard (solo intro > tema > solo Scofield > solo Medeski > solo Wood > solo Martin > pergunta-resposta Scofield-Medeski), criaram apenas pequenas espirais sempre interrompidas que, combinadas, resultam um tudo nada estafadas.

Estruturalmente, o concerto acabou por ser bastante pobre e convencional, previsível, construído quase como se houvesse uma checklist de solos e introduções a seguir.

Dentro de cada uma das estruturas, ainda assim, houve lugar a momentos de grande intensidade e os 4 músicos presentes puderam comprovar (para quem tivesse dúvidas) que partilham, além de elevados níveis de execução técnica e criatividade, uma cumplicidade assinalável na compreensão não só das raízes, mas também das perspectivas do groove. E se destaquei positivamente Chris Wood pelo esforço persistente, talvez referisse apenas como nota menos boa um certo ar “desorientado” na performance de John Medeski, um frenesim que acalmou apenas para um surpreendentemente calmo e lírico “Julia” (Lennon-McCartney) e para a utilização do clavinet num registo bluesy muito genuíno. Esse frenesim, para o qual o perfil acústico da Sala Suggia pode ter contribuído, tornava-se particularmente evidente quando combinado com algumas aproximações tímbricas de Scofield aos teclados de Medeski, criando uma estridência indesejável.

A propósito dos momentos mais calmos de Medeski, uma das “notas” adicionais do concerto é a existência de alguns hiatos na estrutura— ora mais calmos e ambientais, ora mais complexos e “experimentais”, como “Telegraph”, o momento psico-reggae— que, pela duração, enquadramento e reacção do público, não podem ser considerados mais do que parêntesis, infelizmente.

E para quem se questionasse sobre o “funcionamento” deste quarteto ficou mais ou menos claro que não se trata de MMW + Scofield, mas sim de algo mais próximo do quarteto convencional, com uma secção rítmica a que Medeski adere apenas a espaços e onde Scofield não se limita a solar por cima de tudo isto, colaborando activamente na construção das malhas que suportam a progressão balançada das estruturas.

Take it to the bridge

No geral, e em jeito de conclusão, o concerto de MSMW foi (quase) tudo aquilo que poderia ter sido, considerando a proposta e os músicos em causa. A Sala não ajudou e o público (perto de 500 pessoas) não aderiu como se esperaria, talvez por estar desabituado de solos tão longos em concertos destas linguagens, ou apenas por estar uma metade à espera de mais jazz-fusão da parte de Scofield e a outra à espera de um outro MMW (nem todos quereriam todo aquele groove funk estruturado, nem todos quereriam tão pouco…).

A verdade é que Out Louder, quer o disco, quer o concerto, parecem retomar a conversa iniciada no A Go Go, sendo que, agora, Medeski, Martin & Wood têm mais coisas para dizer, mas talvez não sobre o mesmo assunto…

Notas:
[1] - a apertada digressão de Out Louder (concertos diários entre 2 e 16 de Julho em 11 países europeus e num cruzeiro no Mar do Norte) vinha dum concerto em Lugano (Suíça) no dia anterior e atrasos nas ligações aeroportuárias fizeram os músicos chegar à Casa da Música cerca de 2 horas antes do concerto, o que explica o atraso inicial
[2] - dado o ritmo desta digressão, não posso deixar de achar surpreendente a energia dos músicos, especialmente de John Scofield que, com 56 anos, apresenta uma invejável energia e boa disposição
[3] - John Scofield, “HOW I GOT FROM THERE TO HERE IN 704 EASY WORDS” (An Autobiography), http://www.johnscofield.com/bio.html
[4] - “A Go Go” e “Deadzy”, de Scofield, estão apenas nos extras “live” de Out Louder
[5] - que podia e devia ter-se portado melhor no que diz respeito a entradas e saídas da sala, sobre as quais o pessoal da Casa da Música teve um comportamento atipicamente permissivo

Texto escrito por João Martins, a 16/07/2007.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 15 da revista jazz.pt, com fotografias de Luís Pedro Carvalho.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Links:

“Magalhães”, o portátil “português” para crianças já tem site

Sexta-feira, 1 de Agosto, 2008

A procura pelo site oficial do “Magalhães“, o portátil do e-escolinhas, deve ser elevada após o seu anúncio, mas não é fácil. Nem nos sites de notícias, nem nos fabricantes, nem nos promotores se encontra muita informação, mas a verdade é que o “Magalhães” tem site e bastante completo: www.classmatepc.com

Para já, só tem informação em inglês e ainda não leva o logotipo novo na capa. Isso terão que ser os senhores da JP Sá Couto a fazer, presumo. Mas, no geral, o Magalhães é aquilo mesmo. Basta que, onde se lê Classmate PC, se leia Magalhães e se ponha um “porreiro, pá!” no fim das frases e é isso. Ah! e deve ser preciso adaptar uns conteúdos e pô-los lá dentro até Setembro.

E agora a sério, não é normal que um anúncio deste tipo tenha algum tipo de acompanhamento em termos de presença on-line? Não seria de esperar um site para o lançamento, destaques no site dos fabricantes e dos promotores (o Portal da Educação, por exemplo, limita-se a isto)?
Não é normal satisfazer parte da curiosidade acerca das reais adaptações da máquina à realidade portuguesa e, por exemplo, sobre qual o papel da Prológica?

Vão esperar que o “buzz” aumente? Não vão participar directamente na guerra propagandística? Qual é a lógica?