Entradas com Etiqueta ‘portugal’

O Hot Clube de Portugal ardeu. Que vamos fazer?

Terça-feira, 22 de Dezembro, 2009

Como muitos de vocês já saberão (aos outros peço desculpa por ser portador de más notícias), o edifício na Praça da Alegria onde se situava o Hot Clube de Portugal sofreu um grave incêndio hoje de madrugada e, segundo fontes oficiais (Junta de Freguesia, citada pelo Público), dificilmente o prédio poderá vir a ter condições para voltar a albergar o HCP.
Depois do seu 60º aniversário, esta era uma das piores coisas que podia acontecer ao HCP e afecta todos os melómanos e músicos portugueses, em particular os que se sentem próximos do Jazz.
Não faço ideia se e como se organizará um movimento cívico capaz de dar o apoio necessário ao HCP para que planifique e concretize um renascimento depois desta tragédia.
Peço a todos que estejam atentos e que partilhem, dentro do possível, todas as iniciativas de que tiverem conhecimento, para que possamos garantir o máximo apoio e solidariedade.

(mensagem que enviei hoje a vários colegas da Jazz.pt, com conhecimento ao Hot Clube de Portugal)

A Bíblia

Quarta-feira, 21 de Outubro, 2009

Eu li declarações do Saramago sobre a Bíblia e sobre o Corão.
E depois li e ouvi reacções aos vitupérios dirigidos pelo Saramago às pessoas religiosas. Mas não li nem ouvi esses vitupérios. Onde é que eles estão?

Ouvi também, com gosto, o teólogo e “biblista” Carreira das Neves (franciscano, segundo percebi), dizer que não acha que o Saramago esteja a perder qualidades, mas que acha estranho que um escritor da sua craveira não consiga olhar para a Bíblia como Literatura. Este é um importante teólogo que gostou muito do Evangelho Segundo Jesus Cristo, do Saramago. Esta incapacidade de Saramago será sectarismo, provavelmente. Mas é interessante que a defesa deste teólogo seja a ideia da Bíblia enquanto Literatura, dizendo o próprio que, “antes de ser Religião, Fé ou Igreja, a Bíblia é Literatura” (cito de cor).

Com muito menos gosto, ouvi e li a reacção de Mário David, eurodeputado do PSD e vice-presidente do Partido Popular Europeu, que sente “vergonha de o ter [a Saramago] como compatriota” e considera que Saramago está a “vilipendiar povos e confissões religiosas”, convidando-o a concretizar a ameaça feita em tempos de renunciar à cidadania portuguesa (ainda se lembram do caso Sousa Lara?).

Não me espanta nem a voz livre de Saramago, nem a honestidade de Carreira das Neves (sei que a Igreja tem muitas mentes lúcidas e pessoas boas), nem a desonestidade obtusa e estreiteza de vistas de Mário David.

Mas este episódio faz-me pensar no apelo ao ateísmo militante de Richard Dawkins. Lembrava Dawkins que George Bush (pai) teria afirmado, sem nunca ser forçado a retratar-se, que “um ateu não poderá nunca ser um cidadão americano patriota”. Com as devidas ressalvas, as declarações de Mário David ficam aqui bem alinhadas.

Pensemos nisto.

Já agora, eu, que li a Bíblia (creio que toda, numa das minhas idiotices adolescentes, mas certamente muito mais do que o católico médio português) concordo com Saramago na sua afirmação de que esta é um “manual de más condutas” e “um catálogo de crueldades”. Sei, como Saramago saberá e Carreira das Neves recorda, que esta é, acima de tudo, Literatura. Mas é também claro que é um dos mais elementares e bem sucedido exercícios de controlo e doutrina pelo terror.
De resto, não sendo especialista— apenas apreciador— acho que, como Literatura, salvo honradíssimas excepções, os 73 livros que a constituem têm importância histórica, mas não são mesmo nada recomendáveis. talvez por isso mesmo seja tão pouco lida.

Links:

Referendar a República?

Segunda-feira, 5 de Outubro, 2009

É recorrente que se assista, nas proximidades do 5 de Outubro a manifestações de movimentos monárquicos, hiper-minoritários na nossa sociedade, mas que têm, vá-se lá perceber porquê, enorme exposição mediática. Este 5 de Outubro não foi excepção e é provável que até ao centenário da República, que se celebra em 2010, este assunto vá ficando em cima da mesa, morno, alimentado pela curiosidade dos media e pela omissão daqueles a quem compete defender a República, nomeadamente o nosso Presidente eleito, Cavaco Silva— saber que podemos eleger um substituto é uma óptima razão para continuar a dizer “Viva a República”, por estes dias.

Uma das exigências recorrentes que os defensores da causa monárquica fazem é a de que a República se sujeite a referendo e, eventualmente retire da Constituição, perguntando-se ao portugueses se preferem a República à Monarquia. A lógica é perversa: vocês que são republicanos e democratas deviam consultar a vontade popular quanto à natureza do regime, dado ele ter sido imposto; seria uma enorme demonstração de espírito democrata dar essa oportunidade ao povo. Mas quantas vezes querem os monárquicos que a República se sujeite a referendo? É que, sem contabilizar os ridículos resultados dos movimentos monárquicos nas nossas eleições (o PPM não chegou aos 15000 votos nestas legislativas, 0,27% das intenções de voto) que, se pode aceitar que não constituam uma forma legítima de referendar o regime, não podemos olhar para a participação nas eleições presidenciais como uma forma de referendo do regime. Alguém que votasse “SIM” à restauração da Monarquia, participaria na eleição do Presidente da República? Acho difícil que se defenda tal ideia. Sendo assim, para poupar dinheiro e a paciência dos eleitores, proque não aceitamos que a participação na eleição do Presidente da República é um indicador da vontade de manter ou alterar o regime?

Olhemos para os dados, disponíveis no site da Comissão Nacional de Eleições:

  • 2006 (eleição de Cavaco): 61,53% de participação (ganha a República)
  • 2001 (re-eleição de Sampaio): 49,71% de participação (não ganha a República)
  • 1996 (eleição de Sampaio): 66,29% de participação (ganha a República)
  • 1991 (re-eleição de Soares): 62,16% de participação (ganha a República)
  • 1986 2ª volta (eleição de Soares): 77,99% de participação (ganha a República)
  • 1986 1ª volta (apuramento de Soares e Freitas): 75,38% de participação (ganha a República)
  • 1980 (re-eleição de Ramalho Eanes): 84,39% de participação (ganha a República)
  • 1976 (eleição de Ramalho Eanes): 75,47% de participação (ganha a República)

Desde 1976, por 7 vezes se deu oportunidade ao povo para escolher o seu Chefe de Estado, uma das diferenças fundamentais entre República e Monarquia. Nessas 7 vezes, o povo compareceu e pronunciou-se, escolhendo um chefe de estado e, apenas 1 vez, não foi a maioria dos eleitores que participou, por menos de 0,30%. É também evidente que é precisamente quando a escolha do chefe de estado tem maior significado político ou quando a eleição é mais renhida que há maior participação, demonstrando uma vontade clara do povo português em escolher, de facto, o seu chefe de estado pelo voto. Em 2001, quando mais de metade dos portugueses ficaram em casa, ninguém no seu perfeito juízo duvidava da re-eleição de Sampaio, o que se confirmou com os 55,55% dos votos na primeira volta. Mas quando há escolha, o povo pronuncia-se. Com o passar do tempo, a participação tem decrescido, é verdade, mas é desonesto acreditar que há uma vontade de restauração da Monarquia, quando, de forma sistemática, mais de metade dos eleitores (e sem limpeza de cadernos eleitorais) sai de casa para escolher o seu chefe de estado.

Não é um referendo? É claro que não. Mas não servirá como forma de auscultação da vontade popular, no que à forma de regime diz respeito? Por mim, pode servir. E digo mais: se a abstenção nas Presidenciais crescer significativamente, concordo com um referendo à forma de regime, mas não tendo como única alternativa a Monarquia.

E os monárquicos, o que dizem a quem tem repetidamente participado com o seu voto na consolidação da República? Que razões objectivas encontram para justificar a necessidade do referendo?

Eu voto Bloco de Esquerda

Sexta-feira, 25 de Setembro, 2009

Neste último dia de campanha, em que participarei com música no comício de encerramento da campanha do Bloco de Esquerda no Coliseu do Porto, lembrei-me de recordar os leitores deste blog que voto no Bloco de Esquerda.

As razões estão mais ou menos espalhadas pelo blog e não tenho ilusões de que o acto de votar, no meu caso, seja um acto “devoto”: não concordo com todas as propostas, nem com todas as estratégias, mas concordo com o que é para mim fundamental e sinto que votar é um acto de compromisso com o sistema democrático, que acredito ser “o pior de todos os sistemas, com excepção de todos os outros”.

Por respeito pelo acto eleitoral, apesar de manifestar a minha intenção de voto, não pretendo com isso convencer ninguém. Acredito tanto nas liberdades que, passei o último fim de semana em acções da Rede Libertária, onde o apelo à abstenção foi frequente, por exemplo.

Lamento sobre o PCP

Terça-feira, 15 de Setembro, 2009

A minha relação com o PCP é antiga e complexa: familiares e amigos próximos são ou foram militantes, uns mais destacados que outros, e, como em muitas famílias portuguesas, há uma longa tradição de militância em parte da família e uma consequente forte ligação histórica ao partido. Por outro lado, a ligação à extrema-esquerda e ao “reviralho”, para usar vocabulário da cartilha do PC, é uma das rupturas históricas e familiares que, felizmente para mim, coube, a seu tempo, aos meus pais e eu fui educado num contexto de pluralidade, em contacto com variadíssimos tipos de “esquerdas”, “centros” e “direitas”, compreendendo as vantagens do debate político em torno de diferenças reais e tentando perceber o papel da História na evolução do pensamento e das práticas. Aprendi, muito à minha custa e fazendo o meu próprio caminho, as vantagens e desvantagens das doutrinas, a utilidade e os perigos dos partidos e das organizações políticas e fui procurando lugares de liberdade. Nunca me senti, por isso, ideologicamente próximo do PCP, mas reconheço, sem pestanejar a sua importância histórica para o país e os seus profundos alicerces “sociológicos”.
E confesso que sempre ansiei por uma evolução do discurso político do partido, por uma actualização coerente, que não o destruísse, mas o aproximasse da realidade contemporânea.

O episódio da demissão de Domingos Lopes e a reacção de Jerónimo de Sousa são, por isso, momento dolorosos e desesperantes, porque demonstram que, havendo dentro do próprio partido uma vontade de evolução e mudança, o seu funcionamento impede que tal possa acontecer sem o seu estilhaçar completo.
Porque são precisamente afirmações como as que faz Domingos Lopes, acerca do desfasamento do partido face à realidade contemporânea, que me fazem pensar no que significa, actualmente, o PCP.
Afirma Domingos Lopes:

“o PCP continua a ser o único partido no mundo que mantém o apoio à invasão da Checoslováquia, em 1969, pelas tropas do Pacto de Varsóvia, ao golpe militar da Polónia que levou Jaruzelsky ao poder, à invasão do Afeganistão pelas tropas da URSS”.

“a direcção do PCP considera, de acordo com o seu último congresso, que países como Coreia do Norte e China se orientam para o socialismo, quando o primeiro não passa de uma ditadura familiar brutal que abusivamente se apoderou do simbolismo do socialismo para o ridicularizar” e a China “emerge como uma ditadura do aparelho do partido e do aparelho militar com vista à implantação do capitalismo com o mínimo de sobressaltos sociais”.

“No plano europeu, quais são as propostas que vão no sentido de contribuir para a unidade de todas as forças europeias que se opõem a esta orientação neoliberal e belicista da União Europeia?” Para dar a resposta: “Apenas a recitação de que os destinos de Portugal se decidem em Portugal… Este solipsismo não é criador de nada. Apenas de vazio”, afirma, acusando: “A direcção do partido escudou-se numa espécie de cartilha verbalista pseudo-revolucionária, cujo objectivo principal é manter o seu poder no partido mesmo à conta do afastamento de milhares de militantes e dirigentes.”

Estas posições do partido fazem-me pensar frequentemente no real significado destas particularidades que distinguem o Partido Comunista Português de forças similares um pouco por toda a Europa. Há, inclusivamente, quem fale com uma espécie de “carinho nostálgico” acerca da resistência da veia estalinista do PC Português, mas para sermos sérios, deveríamos tentar identificar o que distingue os trabalhadores  portugueses, de quem um partido comunista se afirmará sempre legítimo representante e defensor, dos seus camaradas por essa Europa fora. Serão os trabalhadores portugueses mais fortes nas suas convicções ideológicas e por isso resistem à tentação das “derivas”? Terão os trabalhadores portugueses razões acrescidas para se solidarizarem historicamente com os dirigentes do PCUS, ou com o povo chinês ou norte-coreano? Resultam estas posições do partido comunista português duma discussão real e séria do seu significado histórico e político nos vários níveis de militância?
Eu tenho sérias dúvidas sobre as melhores respostas a dar a cada uma destas questões. E, por isso, evito pensar demasiado nisso. Mas em alturas como esta, não podemos fazer de conta que estas questões não existem.

Eu sinto, ao tentar responder a estas questões, com uma convicção crescente associada a uma angústia muito particular, que o PCP é, nos dias que correm e acima de tudo, um reflexo do atraso do país. E dum atraso muito particular, que é o atraso na educação e formação. Estruturas monolíticas como o PCP luta por manter, dependem, em grande medida de massas pouco esclarecidas, doutrináveis. E depende de quadros e elites que alternam entre o cinismo e a ingénua desinformação na qual foram criadas. O atraso na educação e formação distingue, de facto, Portugal de muitos outros países europeus e onde a educação e formação foram prioridades, a pressão das massas esclarecidas e das elites informadas deu força a movimentos de renovação a que os congéneres do PCP não poderiam resistir. Em Portugal, a afirmação de Jerónimo de Sousa, em resposta às duras críticas de Domingos Lopes, de que “sai um, entram mil”, além duma certa ilusão optimista, demonstra a confiança que os sectores mais reaccionários do PCP continuam a ter na mobilização das massas pouco esclarecidas. E isso assusta.

Para quem, como eu, acredita ser fundamental a afirmação maioritária de diferentes visões à esquerda para a construção duma melhor democracia e dum Portugal mais justo, estes sinais do PCP são muito negativos. E fico genuinamente triste, porque me estou a borrifar para os cálculos eleitoralistas que se farão à volta deste episódio e do seu timing.

História simples de civilidade

Sábado, 29 de Agosto, 2009

Estávamos na fila duma caixa Multibanco. A usar a caixa estava uma senhora de idade. Atrás, uma jovenzinha com ar impaciente (daquelas que poderia ter uma idade qualquer entre os 16 e os 30 anos). Estava assim quando chegámos e não sabíamos há quanto tempo estaria ali. Uns instantes depois, a jovem desistiu, soltando uma qualquer observação, provavelmente sarcástica, acerca do tempo que as pessoas de idade demoram nestas coisas e declarando a sua falta de paciência para tal. Repito que não sabemos quanto tempo esperou a jovem, mas presumimos que tivesse sido algum, pelo que a Cláudia se aproximou da senhora de idade para tentar perceber qual seria a dificuldade, já que estávamos com a Maria, que tem 15 meses e, por isso, boas razões para ser mais impaciente que a jovem desistente. A senhora de idade recebeu a oferta de ajuda da Cláudia com gentileza e alívio: a posição da caixa Multibanco face ao sol, como em muitos locais, tornava o ecrã quase ilegível e a senhora não conseguia confirmar os dados necessários para efectuar o carregamento do seu telemóvel. Com a devida autorização da senhora, a Cláudia foi fazendo a ginástica de pescoço e mãos-em-jeito-de-sombra, para ditar o que se lia no ecrã e concluir a operação com sucesso. A senhora agradeceu e despediu-se.

Se não estivéssemos ali para usar aquela caixa, provavelmente não nos teríamos apercebido da dificuldade da senhora: não somos bons samaritanos à procura de velhinhas em apuros nas caixas Multibanco. A ajuda que a Cláudia ofereceu foi apenas um gesto simples de civilidade, com motivações elementares e egoístas: queríamos usar a caixa.

É no entanto notável como estes gestos simples de civilidade rareiam no quotidiano das nossa cidades (grandes, médias e pequenas). E essa raridade é um indicador valioso e deprimente do estado da nossa democracia.

Com tantas eleições à porta, não nos podemos esquecer que esses acontecimentos não são mais do que marcos, importantes, porém simbólicos, do funcionamento à grande escala do sistema de governo que temos e que é “o pior de todos os sistemas com excepção de todos os outros”. Não nos podemos esquecer que as mudanças reais na qualidade da nossa democracia não se medem em votos, mas em mudanças de comportamentos e atitudes e na quantidade e qualidade da participação de cada um no bem-estar colectivo.

E isso começa com gestos simples de civilidade.

jazz.pt | Jazz Ao Norte, uma pedrada no charco

Quarta-feira, 10 de Junho, 2009
Texto escrito por João Martins.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Jazz ao Norte: Pedrada no Charco

Não é apenas mais uma escola de Jazz. O modelo de exigência e rigor que todos os dias esta instituição do Porto aplica tem como sério objectivo a profissionalização dos músicos de Jazz que dela saírem e apresenta-se como um claro convite à replicação por todo o país.

Lançada em 2006, a Jazz ao Norte assume-se como uma “pedrada no charco” no panorama do ensino do Jazz em Portugal, e pode mesmo dizer-se, no ensino privado da música. Ao contrário de muitos outros projectos, construídos à volta de uma personalidade- músico, pedagogo ou divulgador- ou resultado da evolução orgânica e intuitiva de estruturas pré-existentes (academias de música, escolas de bandas, órfeãos ou outro tipo de associações), esta instituição logo desde o início com objectivos muito claros, usando metodologias claramente relacionadas com a prática profissional como engenheiro do seu fundador e director, Pedro Ferreira. Ao pensar neste projecto, e ao definir objectivos, se foi também a sua costela musical a impeli-lo nesta mudança de percurso (Pedro Ferreira toca saxofone tenor e sempre esteve ligado ao mundo do jazz), foi claramente a sua experiência de planificação e gestão na área da engenharia que conduziu o processo sistemático e rigoroso de definir um modelo de escola profissional que pudesse implementar no nosso panorama experiências de formação certificada e certificável, à semelhança do que se verifica em outros países.
Não há, por isso, espaço para grandes devaneios líricos quando se fala da história da Jazz ao Norte: em 2006, a visão, missão e objectivos definidos no projecto, incluíam a certificação do Curso Profissional que a escola ministra (processo concluído recentemente), a definição clara de estruturas programáticas que permitissem a construção de um percurso estruturado e organizado, rejeitando-se, por sistema, processos pedagógicos individualizados e subjectivos e exigindo-se planificações muito claras aos docentes. A Jazz ao Norte assumia-se já como uma escola dedicada à formação profissional de instrumentistas de jazz, organizando a sua oferta formativa em função da construção de um perfil profissional, comum a outras experiências internacionais (os exemplos norte-americanos, holandeses, franceses ou belgas são recorrentes na conversa que tivemos com Pedro Ferreira), mas que em Portugal se tem evitado, devido à pouca dignificação das profissões ligadas à arte e à criação.
O grau fornecido pela Jazz ao Norte, no fim do seu exigente Curso Profissional de 3 anos, pretende ser, tal como formalizado pelo próprio processo de reconhecimento e acreditação pela Direcção Geral de Emprego e Relações de Trabalho (antigo IQF), um grau profissional, correspondente à formação teórico-prática necessária para um instrumentista de jazz. E, com a conclusão do 4º ano (Curso Propedêutico), considera-se que o aluno está preparado para a prossecução de estudos superiores.
A conversa mantida com Pedro Ferreira tornou evidente que este tipo de aposta estruturada na formação de tipo básico e profissional era o que se esperava dos poderes públicos, num esforço articulado e prévio visando a criação de cursos superiores nesta área. «Em Portugal, gostamos de estar sempre “à frente”, mas esquecemo-nos muitas vezes de fazer os investimentos mais básicos. E isto é verdade no ensino do jazz, mas também na programação dos festivais, por exemplo», disse aquele responsável à jazz.pt. A aposta da Jazz ao Norte é, por isso, uma aposta também na formação básica de públicos e promotores/programadores, dirigindo-se, de forma generalizada à enorme lacuna de formação existente: disciplinas opcionais, das quais se destacam a História do Jazz (dada por José Duarte), os Cursos Livres, frequentáveis exclusivamente na vertente instrumento, mas que podem incluir cadeiras teóricas e/ou Classe de Conjunto, complementam a oferta estruturada dos cursos Profissional e Propedêutico, oferecendo aos mais interessados, a possibilidade de aumentarem os seus conhecimentos musicais.
O Curso Infantil (dos 3 aos 10 anos) assume-se como uma oferta de formação musical e cívica e o resto das actividades promovidas pela empresa (dos “workshops” às lojas, passando pelo agenciamento ou programação de concertos no Auditório José Duarte - Clube Jazz ao Norte) constitui um todo que pretende fortalecer o significado e importância da música em geral e do jazz em particular na saúde cultural da comunidade e propagar uma visão profissionalizada do fenómeno da produção musical jazzística.
Para implementar um projecto tão audacioso e distinto, a Jazz ao Norte apostou em não “reinventar a roda”: recrutou docentes com extensos currículos e formação no estrangeiro que partilham desta visão estruturada e profissional, pedindo a cada um deles a elaboração de planos pedagógicos completos para o Curso Profissional e Propedêutico. As diferentes propostas, resultado das experiências de docentes que passaram por instituições como o Conservatório de Música de Amesterdão ou de Paris ou o Berklee College of Music, foram depois analisadas e reorganizadas por forma a assegurar coesão horizontal (entre disciplinas) e vertical (ao longo dos anos) num trabalho que cabe ao director pedagógico, Hélder Martins, prestigiado académico e autor de “O Jazz em Portugal (1920-1956)”.
O modelo não é pacífico, como o próprio Pedro Ferreira admite, repetindo várias vezes «a malta do Jazz mata-me por dizer isto», mas a lógica é praticamente inabalável e a honestidade da proposta inquestionável: a quantidade de informação colocada à disposição dos potenciais alunos e a clareza das regras para todos (modelos e momentos de avaliação dos alunos e processo de recrutamento dos docentes) são filtros suficientes para garantir a construção saudável de uma comunidade coesa. A apresentação pública, estruturada e regular dos resultados, por outro lado, permite a verificação do cumprimento dos objectivos da escola. E, como pudemos comprovar na Audição da Páscoa, é um momento de consolidação da comunidade educativa mais alargada (professores, alunos, pais e amigos). Esses resultados são, em alguns casos, bastante significativos e animadores.
Mas o projecto não se deixa iludir: «não existem sucessos imediatos», considera Pedro Ferreira. E não perde a perspectiva da sua real dimensão, apesar do significativo investimento nas excelentes instalações e no quadro docente, poder “autorizar” algum entusiasmo. Ferreira assume não só que em menos de 10 anos será difícil avaliar a real eficácia das opções tomadas, como duvida do impacto isolado da Jazz ao Norte, desejando, pelo contrário, que o modelo se possa replicar e distribuir um pouco por todo o país. Também nesse asecto, a mentalidade de rigor e exigência se faz sentir.

+ info: www.jazzaonorte.com

Texto escrito por João Martins.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 24 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Os amanhãs que cantam

Sábado, 25 de Abril, 2009

Por sobre as montanhas de cinismo e hipocrisia que nos habitam, a cada 25 de Abril torna-se mais importante repetirmos que “a democracia é o pior de todos os sistemas, com excepção de todos os outros” e, por isso mesmo, agradecermos a quem construiu Abril. Para lá de todas as desilusões, hesitações, segundas, falsas ou más intenções, a conquista da nossa liberdade começou nessa madrugada de 1974. O resto, os “amanhãs que cantam” e as “promessas de Abril” são a nossa responsabilidade colectiva e quotidiana. Há 35 anos que é assim e é nas alturas em que a desilusão e a desesperança nos atingem mais fortemente que se torna fundamental afinar as vozes e a memória:

25 de Abril Sempre! Fascismo Nunca Mais!

Serviço Público: Mapa de Salas de Concertos

Quinta-feira, 4 de Dezembro, 2008

Num esforço conjunto do Vai Uma Gasosa?, d’A Trompa e do Rascunho, está disponível online um mapa de salas de espectáculos e concertos em Portugal.

Está em construção e agradece contribuições. Arrisca-se a ser uma ferramenta muito útil.

Lisboa

Quarta-feira, 15 de Outubro, 2008

Estou em Lisboa.

Quem tiver prestado alguma atenção ao blog nos últimos tempos sabe que é por causa da temporada do Muna no TNDMII e já deve ter percebido que o tempo para escrever aqui no blog não abunda. E mesmo que tivesse tempo, não sei se teria grande energia, confesso. E se tivesse, não devia conseguir fazer coincidir isso tudo com um momento em que tivesse acesso à Internet.*

(Além disso, as saudades fazem-me passar mais tempo ao telefone e menos no computador.)

Obviamente que não é a primeira vez que estou em Lisboa, nem sequer é a primeira vez que por aqui estou em trabalho. Mas é a primeira vez que estou de forma mais prolongada e com a sensação de que, temporariamente, é aqui que tenho que “morar”. E é mais estranho do que esperava. O meu instinto natural, relativamente inconfessável, faz-me sentir mais “tripeiro” quando estou em Lisboa, o que tem a sua “graça” quando venho num fim-de-semana ou para dar um concerto, mas, ao fim de vários dias, começa a fazer-me pensar de onde me vem esta reacção “intestina”.
Talvez tenha a ver com o facto de, em Lisboa, me sentir sempre relativamente “estrangeiro”. Não pela estranheza do território ou das pessoas e da sua diversidade, mas pela escala (ter mudado do Porto para Aveiro talvez acentue a minha dificuldade em lidar com cidades maiores) e pela sensação de ter muito pouco em comum com as pessoas à minha volta.

Hoje, depois da estreia do espectáculo para a infância, durante um belo almoço no FrutAlmeidas (os pastéis de massa tenra e os sumos de fruta são tão bons ou melhores do que a minha irmã vinha anunciando), consegui verbalizar melhor esta forma de “estranheza” ou “desconforto”: sinto nitidamente que há muito poucos assuntos da minha “agenda cívica” que sejam comuns à maior parte dos lisboetas. E vice-versa. As questões que mais me preocupam, no meu quotidiano em Aveiro e no Porto, são absoluta e naturalmente estranhas aos lisboetas. E aceito com naturalidade que o contrário é absolutamente real. Mesmo assuntos genéricos e preocupações “nacionais” têm que ser verbalizados e ilustrados de forma diferente. E não é natural que haja acordo acerca do que são as nossas prioridades.

Pode parecer ridículo falar-se de forma tão “radical” acerca de diferenças e assimetrias locais e regionais num rectângulo tão pequeno como este, e só com 10 milhões de pessoas. Mas aqui, à minha volta, se é verdade que estão concentradas quase metade dessas pessoas, também é verdade que está concentrado muito mais de metade do poder político e económico. E é isso que é desconfortável: sentir que a esmagadora maioria das decisões que afectam o meu quotidiano é tomada por gente que lhe é completa e naturalmente alheia. E se me pedirem para eleger um assunto tipicamente “lisboeta” que afecta todo o território nacional, é fácil: a suburbanidade. Eu não conheço território suburbano fora da região de Lisboa e Vale do Tejo. A discussão técnica não é fácil, mas eu partilho da visão de alguns geógrafos e urbanistas que consideram que o espaço urbano contínuo entre Aveiro e Viana do Castelo, constitui um fenómeno de conurbação, onde múltiplos pólos urbanos se intersectam e promovem cruzamentos de pessoas, serviços e mercadorias, sem uma hierarquia clara que permita falar de urbes e subúrbios. Além disso, uma parte significativa das cidades portuguesas não chega a ser propriamente “urbana”, pelo que não faz sentido falar de “suburbanidade”. Ou, numa visão mais distanciada, poder-se-ia dizer que todo o país é sub-urbano, relativamente à região da capital, onde existe uma cultura urbana e suburbana real, que no resto do país ainda se cruza muito com uma raíz profundamente rural. Este problema de desenvolvimento, gestão e planeamento territorial marca de forma profunda a agenda nacional, mas devia reconhecer-se a sua natureza específica. E aceitar com naturalidade que a simples diferença de escala e de modelo de desenvolvimento urbano traça fronteiras no país, que não se podem ignorar.

Devia ser simples, não?

Mas pergunto-me (e a vocês, que me lêem, já agora) se, da mesma forma que me ajudou estar nesta condição de “estrangeiro” para me pôr a pensar nisto (outra vez), não precisaremos todos de conhecer melhor o país todo, partindo, sempre que possível, dessa condição de “estrangeiro” que resulta, necessariamente, duma certa disponibilidade para nos alhearmos do que já julgamos saber. Será esse exercício possível?

* Aceito sugestões de locais agradáveis na vizinhança do D. Maria (Rossio) ou perto da estação de Metro da Av. de Roma (onde estou alojado) com acesso rápido e gratuito (wireless, preferencialmente) e onde se possa trabalhar. Tem mesmo que ser um sítio simpático, porque preciso de uma tomada, já que a bateria do meu velhinho portátil não colabora.