Contrate um cínico

Ao longo do tempo tenho desempenhado funções de cínico semi-profissional em vários projectos em que estou envolvido ou como consultor de projectos de outros. É um trabalho difícil, mas alguém tem que o fazer.

Infelizmente, graças a muitos discursos bacocos de incentivo empreendedorismo e a uma parte substancial das “literaturas motivacionais” e outras pessegadas do género, o papel dos cínicos no desenvolvimento dos projectos tem sido denegrido e/ou sub-valorizado. O cínico é descrito como um obstáculo, é muitas vezes confundido com um pessimista ou reaccionário e, nos piores casos, procura-se passar a ideia de que “convencer um cínico” pode ser um teste à capacidade do projecto. Não creio que seja nenhuma dessas a função do cínico e não é assim que me vejo.

O cínico necessário em todos os projectos é alguém que, de forma lúcida e com argumentos relevantes, destaca as fragilidades do projecto, aponta as incongruências, alerta para os vícios de raciocínio, para as falhas de planeamento e até para o perigo dos “saltos de fé”. É o tipo que pergunta que competências é que estão disponíveis para fazer isto ou aquilo, quando o projecto assume uma abordagem multidisciplinar ou transversal, mas ainda se encontra nas mãos dum técnico específico. É quem diz “isto é um disparate!” e depois tenta explicar porque é que acha isso. É quem duvida das primeiras opiniões e dos entusiasmos iniciais. É quem não deixa esquecer nem a Lei de Murphy, nem o Princípio de Peter.

É um tipo chato e o objectivo da sua introdução numa equipa ou da sua consulta periódica não deve ser tentar convencê-lo (o cínico mesmo bom nunca será convencido), mas sim testar a resistência de quem dirige o projecto e dos vários colaboradores às objecções.

O trabalho do bom cínico tem 2 resultados possíveis:

  1. “matar” um projecto frágil que não tem condições de sucesso antes dele começar a consumir muitos recursos
  2. fortalecer um bom projecto, quer pela alteração e melhoria de alguns dos aspectos que identifica, quer pelo aumento da resistência e convicção dos diversos envolvidos

Por isso, se está a desenvolver um projecto e reparar que à sua volta toda a gente parece entusiasmada, procure e consulte um cínico. Em Portugal somos muitos e o segredo da nossa eficácia está na forma como lidam connosco. ;)

Mudar de vida

É frequente pensar na necessidade de mudar de vida. Nas pequenas rotinas e nas direcções globais. Mas é raro sentir que estou de facto a mudar de vida e hoje senti isso em coisas verdadeiramente elementares e simbólicas. Tive duas boas conversa sobre uma (aparentemente) “nova” forma de promover a criação e o contacto entre criadores, assente na transposição de alguns princípios do movimento Open Source para os processos de criação e debate crítico e participei na instalação de dois sistemas operativos Linux (um Debian e um Xubuntu) em dois iMac G3 (PowerPC) que fazem parte dum parque de máquinas obsoletas que poderão vir, desta forma, a integrar um laboratório de formação e criação. Ao fim do dia, assinei o The Public Domain Manifesto e o dia pareceu alinhar-se perfeitamente.

Mais notícias em breve.