E o Pritzker vai para… Jean Nouvel

Jean Nouvel, vencedor do Pritzker 2008O Público dá a notícia: o francês Jean Nouvel ganhou o Pritzker deste ano. Infelizmente, o Público não tinha nenhuma imagem do arquitecto francês ou duma das suas obras e achou que era boa ideia ilustrar o artigo com uma fotografia de Siza Vieira, vencedor do prémio em 1992. Como neste blog não temos as restrições a que estão sujeitas as grandes publicações de referência como o Público, é com prazer que vos mostro o premiado deste ano: Jean Nouvel.

Os mamarrachos do Sócrates

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Desculpem lá, mas fiquei confuso acerca desta questão e não estava. Para mim, a desonestidade intelectual e a fraqueza de carácter do nosso PM eram dado adquirido, mas algumas das construções à volta do tema, que fui lendo aqui e ali, preocupam-me.

Importam-se que faça 2 ou 3 perguntas?

É que, das duas uma:

  1. ou se aceita que o Sócrates mente acerca destes processos e do seu envolvimento, pelo que a responsabilidade real do próprio a nível de projecto não existe, não lhe sendo atribuível o atentado à paisagem, mas apenas o acto corrupto da altura e a mentira torpe de agora;
  2. ou se presume que Sócrates é mesmo autor das obras em causa, sendo por isso honesto ao assumi-las agora, culpado de péssimo gosto e completa falta de habilidade para o projecto arquitectónico, mas isento de culpa no que ao acto corrupto diz respeito e no exercício de funções que legalmente, ainda que mal, lhe eram permitidas.

Pelo que o Público divulga, aparentemente, apenas um dos proprietários reconhece José Sócrates como autor do projecto, pelo que é mesmo provável que ele tenha prevaricado das duas formas:

  1. como técnico corrupto, capaz de vender a assinatura e, com ela, aval técnico de obras que desconhecia, em troca de favores semelhantes (presume-se) e outros de carácter político-partidário;
  2. e como técnico incompetente no exercício de funções que lhe eram legalmente permitidas e que ele, filho de Arquitecto, se sentia capaz de exercer, ainda que o resultado seja desastroso.

Mas parece-me confuso tentar juntar as duas coisas numa só, classificando de gravosa ora as falhas éticas e deontológicas, ora as falhas técnicas e estéticas, numa aparente saraivada que atinge o PM justamente— “só se perdem as que caem ao chão”, como se costuma dizer—, mas que é pouco “cirúrgica”.
De facto, num caso e noutro o nosso PM não é mais do que o triste reflexo do país e do funcionamento de classes e corporações do mais fraco que há. E pensar que, dele, surgiriam manifestações de fra(n)queza é mais do que ingénuo.
A ética de Sócrates é como a de Pina Moura e a de tantos outros portugueses mais ou menos ilustres. É a lei. E como a lei nunca é muito bem escrita (porque haviam os legisladores de ser mais rigorosos ou competentes que a maioria dos portugueses?), há sempre um ou outro artifício à mão, para que a lei se adapte à “ética” que der jeito ao próprio e aos amigos.

Isso é mais grave se estivermos a falar do PM do que se estivermos a falar dum funcionário público ou dum assalariado do sector privado? Parece-me que sim.

Já no caso da (falta de) qualidade da obra em si, tão bem ilustrada pelo Público, podemos sempre pensar que a paisagem portuguesa está mais segura com José Sócrates longe dos estiradores mas, infelizmente, não podemos sequer dizer que é um caso único, isolado ou sequer merecedor de destaque pela negativa no conjunto das práticas construtivas do nosso país. Mamarrachos como os que Sócrates assinou— e muitos bem piores— estão espalhados de norte a sul do país, saídos da mão de engenheiros técnicos, engenheiros civis, desenhadores, mestres da construção civil, arquitectos, jeitosos e clientes de todas as classes sociais e formações que dispensaram sequer a presença de projectistas.

O sector da construção civil e a forma como se organiza, nas diferentes relações contaminadas entre os vários agentes, é um dos males que aflige o país há mais tempo e de forma mais continuada, por razões tão diversificadas como são as que explicam o nosso atraso generalizado e, num caso e noutro, a “raíz de todo o mal” pode ser encontrada nas falhas de formação generalizadas. São elas também que permitem o relaxamento dos padrões éticos e morais. São elas que explicam de forma mais completa os nosso baixos padrões estéticos, a nossa relação descomprometida com o património construído e natural, o nosso desprezo pela paisagem e pelas manifestações do belo… E são elas que explicam a difícil relação entre os dois extremos do sector da construção: arquitectos, engenheiros e técnicos superiores dum lado e mestres, encarregados e trolhas doutro. E, no meio, um deserto de incompreensão, falhas de comunicação, desrespeito e intolerância mútuas, arrogante ignorância distribuída equitativamente por todos, com um resultado desastroso: uma tensão latente constante, uma absoluta falta de coordenação de esforços e ilhas de autismo insuportáveis.

Não é por isso de estranhar que muitas vezes se procure a solução no meio do sistema, e é essa a principal razão pela qual o infame 73/73 demora a morrer.

E qualquer tentativa de colocar esta questão de forma corporativa, defendendo que a definição e protecção absoluta de territórios disciplinares na lei é a solução para os males da nossa paisagem é uma ilusão perigosa. Eu, pessoalmente, só acredito que os Arquitectos são parte da solução na mesma medida que acredito que são parte do problema. Não será legislando que se convencerá os portugueses do papel social do Arquitecto, muito menos das vantagens de contar com as suas competências no momento de fazer/remodelar/expandir a sua casinha. E, nesse sentido, duvido se se ganha alguma coisa em usar o exemplo de Sócrates, o mau engenheiro técnico, como argumento a favor dos Arquitectos. É bem possível que se eleja um par de Arquitectos-Políticos para uma outra Galeria de Mamarrachos, tão ou mais pungente que a de Sócrates. Ou não?

Pobre Emmanuel Nunes

Desconhecia (sinceramente) a polémica ou sucessão de polémicas em que estava envolvida a encomenda e produção de Das Märchen, quando assisti à projecção e sobre ela escrevi. Percebi o “meio”, ao ser catapultado para as páginas do Público, na secção “Blogues em Papel“, quase como defensor isolado da obra e entre várias ofensivas, uma mais ilustres e bem fundamentadas do que outras.

Antes de mais, surgir a minha escrita como algo de minimamente relevante neste contexto, especialmente como aparente contraponto à especializada leitura de Augusto M. Seabra, deixa-me a pensar sobre os critérios editoriais do Jornal, por um lado e sobre o exercício da crítica e o seu papel (ou a sua inexistência) nos nossos órgãos de comunicação social, por outro.

O exercício profissional de crítica de Augusto M. Seabra, que muito prazer me deu ler— mesmo que não concorde com algumas das notas subjectivas e interpretações ou que não seja tão claro para mim que o todo artístico a que assisti é da responsabilidade de Emmanuel Nunes— não é comparável (compaginável seria um termo mais propositado) com as impressões de alguém como eu, que não acompanhou o processo criativo e/ou produtivo e que assistiu à estreia a cerca de 300 km de distância, num “teatro de província”, como Victor Abreu diria.

Aliás, toda a sequência de impressões publicada ontem, acaba por tentar misturar vários tipos de mal-estar, que atingem duma forma ou doutra a obra de Emmanuel Nunes, quase sempre de forma “descentrada”.

Victor Abreu queixa-se do dinheiro dispendido com a transmissão para a “província” e propõe que melhor seria, para “levar a ópera ao povo” (objectivo com que o próprio não se compromete), montar óperas mais modestas e menos vanguardistas para apresentar no Coliseu dos Recreios. O povo ficaria grato, com certeza. Então se, a generosidade de Vossa Excelência permitisse que fosse nos dois Coliseus, o povo da província do norte, teceria loas a Victor Abreu, benemérito da nação!

‘da-se, que, às vezes, aparecem gajos que parece mesmo que estão a gozar.

Além de não acrescentar nada de relevante sobre a ópera de Emmanuel Nunes, que classifica de “interminável, abstrusa e «vanguardista»”, Victor Abreu demonstra várias formas de ignorância. Por mim, mesmo que o público não tenha comparecido em grande número nos teatros onde foi projectada a estreia, esta é a uma boa forma de resolver, num país empobrecido (financeira e culturalmente), a impossibilidade de rentabilizar longas temporadas de ópera ou digressões de ópera. Não se trata apenas da inexistência de condições logísticas nos teatros e salas de concertos por este país fora, mas do custo por apresentação duma forma artística que, ao contrário do teatro ou da música, não pode ser rentabilizada por modelos de repetição, já que não se aplicam economias de escala. O antigo director do TNSC tentou explicar isso mesmo numa entrevista antes de ser substituído, mas não é fácil de perceber.

Nestas condições de extrema pobreza, em que até no único teatro de ópera público português “uma imensa percussão todavia mal se ouça, perdida no trajecto entre o Salão Nobre, para onde teve de ser remetida por óbvios motivos logísticos, e a sala“, a aposta no registo e na projecção em simultâneo ou diferido para salas espalhadas por todo o país onde o público possa ser congregado e estimulado, parece-me de extrema bondade. Se e quando falha, na prática, é preciso perceber porquê, para melhorar os sistemas de gestão dos dinheiros envolvidos e exigir mais empenho na divulgação, por exemplo. Mas achar que a bondade da proposta se mede pelos efeitos… é fraco.

E nada tem a ver com Das Märchen, de Emmanuel Nunes.

As intenções demagógicas discutidas no Cachimbo de Magritte são, obviamente, de discutir. E uma avaliação da relação custo/benefício deste tipo de iniciativas é muito importante. Soubesse eu (que não sei) da verba dispendida para organizar a projecção que, aparentemente, se tornou polémica política nacional, talvez entrasse num jogo de avaliar o seu real impacto.

De forma egoísta, como beneficiário directo desta iniciativa e não sendo “amigo” nem deste Secretário de Estado nem de nenhum outro, posso apoiá-la. Mas que seja claro: não confundo o apoio à projecção das óperas do São Carlos como medida de descentralização, com a apreciação da primeira ópera a ser alvo dessa projecção. Claro que não sei se a projecção testada agora é ou não uma aposta para o futuro, que apoiaria. Assim como não confundo a fraca resposta do público com o desinteresse ou falta de pertinência da proposta.

No meio de tudo isto, a ópera de Emmanuel Nunes perde-se na poeira levantada pelo alvoroço.

500 ou 1000? Em que ficamos?

Um jornal local gratuito (Aveiro34, Jornal de Anúncios) falava esta semana acerca da “geração dos 500 euros”. Num registo parecido, a XIS, revista de fim-de-semana do Público, fala hoje dos “mileuristas”.

A realidade abordada é-me familiar, mas acho graça à discrepância de valores. Um olhar mais atento ao artigo da XIS esclarece: a base deles é um estudo espanhol.

Os “mileuristas” espanhóis serão a “geração dos 500 euros” em Portugal? Os “sintomas” são parecidos: autonomia adiada, dependência de apoio dos pais bem para lá da idade razoável, constituição de família remetida para um futuro imprevisível, relativização crescente do valor do “canudo” como ferramenta de ingresso ou progressão no mercado de trabalho…

Mas notam-se diferenças, principalmente no que diz respeito às questões da habitação (parece-me). Cá, o objectivo parece ser a “aquisição” de casa própria. Aqui ao lado, fala-se de gastar mais de um terço do rendimento do “arrendamento de casa”. E cá, porque é que o mercado de arrendamento não funciona? Porque é que os “nossos” “mileuristas” (com quinhentos euros) ficam em casa dos pais, com planos de comprar casa?

O Resto do Mundo, no balanço do Ípsilon

5. O Resto do Mundo
Pelas Visões Úteis
É apenas uma viagem de táxi para três pessoas e seria injusto compará-la com os outros espectáculos, mas pelo menos este faz algum sentido. Embora pareça ficção, o táxi é a sério, a cintura externa do Porto existe e o dia escurece durante o percurso. As consequências são reais no que a ficção pode ter de real. A imaginação e a memória do espectador mudam. Depois da “performance”, nada continua na mesma. As palavras de Joseph Conrad e a arte da companhia iluminam agora “o Porto para lá da circunvalação”. J.L.F.
Ípsilon, Público 21/12/2007

É giro chegar ao fim do ano e tropeçar no balanço dos outros, enquanto se tenta fazer o próprio. E é de elementar justiça que o Visões Úteis tenha um lugar no balanço anual da criação teatral em Portugal. Não só quando e porque testamos* as fronteiras disciplinares do Teatro. Mas também.

* – Depois deste tempo todo, continuo sem saber como devo falar acerca do Visões Úteis e do meu papel em tudo isto. Poderei dizer “nós”? Quando e quem é que decide?