Liberdade religiosa

Dou por mim a pensar que, no “Portugal profundo”, liberdade religiosa tem um significado algo particular. Poderá ser a liberdade de ficar no café, ao domingo, enquanto se espera pelos membros da família que vão mesmo à Igreja. Poderá ser a liberdade de sintonizar a TVI, em vez de ir mesmo à Igreja. Ou até a liberdade de fazer zapping entre a TVI e um outro canal (eventualmente com desporto ou “programas populares”).

No fundo, liberdade religiosa, para uma parte significativa da consciência colectiva dos portugueses, é apenas a liberdade de decidir com que intensidade se pratica a religião dominante e a tolerância “histórica” que sempre se alimentou relativamente aos “não-praticantes”, normalmente ilustrada por histórias de “hipocrisia” dos que, em momentos de aflição, se tornaram devotos.

13 de Maio

Estamos numa rua tipicamente suburbana, num fim de tarde calmo dum dia que quase parece feriado ou fim de semana, mas não é. Um casal jovem, seguido duma criança que podia ser uma irmã mais nova, mas parece ser a filha e, uns passos atrás, com dificuldades a aguentar o ritmo, uma senhora de meia idade que se vem a perceber que será a avó materna da criança. O rapaz não abre a boca, mas sorri ocasionalmente. Um sorriso cruel, que a sogra não pode ver, mas que, provavelmente sente. A discussão vem de trás. “Olha que não pode ser, porque depois deste sábado só há mais dois sábados e depois acaba a catequese!”, dispara a avó. “O quê?” Não digas disparates”, responde a mãe, aparentemente tão incomodada com a ideia de ter que levar a filha à catequese no dia seguinte, como com a ideia de que a filha só teria mais 3 sábados ocupados daquela forma. “É, é!”, confirma a filha. “É o que eu te digo: a catequese acaba no dia… agora já não sei ao certo… mas ela depois deste sábado só tem mais duas vezes.” A criança volta a confirmar o aviso da avó. A mãe, sempre sem olhar para trás, para a criança, ou para a sua própria mãe, cada vez mais incomodada, repete “Porque é que a catequese havia de acabar agora mais cedo que as outras coisas? Isso tem algum jeito?”. “Ouve o que te estou a dizer: é assim!”. “É, é, mãe!”. Não se percebe se a criança está mais entusiasmada com a ideia daquela discussão, se com a possibilidade de ir (ou não ir) à catequese. Parece apostada em chatear a mãe. “Olha agora… por ordem divina, a catequese acaba mais cedo, não?”, diz a mãe, sem ironia intencional na construção da frase.
A conversa continua animada, enquanto se afastam descendo a rua.
A qualquer momento, num close-up acidental, podemos ler o que está escrito, em letras garrafais, na mala desportiva da jovem mãe: “Sex, Ale-Hop & Rock’n’Roll”.

Podia ser tudo ficção. Podia ser ficção a data do episódio. Mas não.

Direito à Blasfémia

Aparentemente, segundo o que pude ler neste site, a partir do início deste ano entreou em vigor na Irlanda uma lei que criminaliza a blasfémia e que faz incorrer numa multa de 25.000,00€ (vinte e cinco mil euros) as pessoas consideradas culpadas de blasfémia, definida na lei como “a publicação ou difusão de conteúdos que sejam grosseiramente abusivos ou insultuosos relativamente a questões consideradas sagradas por qualquer religião, ultrajando por isso, intencionalmente, um número substancial de crentes dessa religião, sendo permitidas algumas excepções”. Traduzo do inglês, usando como fonte o site que tenta congregar esforços para que esta lei seja revogada e com a forte esperança de que tudo isto não seja mais do que uma piada de mau gosto.

Pelo direito à blasfémia, invocado (e bem) pelo nosso Nobel, José Saramago, aquando da recente polémica evolvendo o seu mais recente romance, “Caim“, estou solidário com os irlandeses que pedem ao poder político que recue com a intenção de criminalizar a blasfémia e republico o conteúdo do artigo, com as suas 25 blasfémias ilustres, como forma de me solidarizar com a causa. Porque um passo destes, em qualquer país, particularmente no espaço europeu, não pode ser considerado como questão alheia.

For the right to blasphemy, that José Saramago, the Portuguese Nobel Literature Prize Winner, demanded when arguments about his latest novel, “Caim“, arose, I stand in solidarity  with all Irish citizens who ask the political power to revoke their intentions to criminalize blasphemy, and I republish the all article, along with the 25 famous blasphemy quotes. Because a step in this direction, in any country, but particularly in the european space, cannot be regarded as a foreign issue.

http://blasphemy.ie/2010/01/01/atheist-ireland-publishes-25-blasphemous-quotes/

From today, 1 January 2010, the new Irish blasphemy law becomes operational, and we begin our campaign to have it repealed. Blasphemy is now a crime punishable by a €25,000 fine. The new law defines blasphemy as publishing or uttering matter that is grossly abusive or insulting in relation to matters held sacred by any religion, thereby intentionally causing outrage among a substantial number of adherents of that religion, with some defences permitted.

This new law is both silly and dangerous. It is silly because medieval religious laws have no place in a modern secular republic, where the criminal law should protect people and not ideas. And it is dangerous because it incentives religious outrage, and because Islamic States led by Pakistan are already using the wording of this Irish law to promote new blasphemy laws at UN level.

We believe in the golden rule: that we have a right to be treated justly, and that we have a responsibility to treat other people justly. Blasphemy laws are unjust: they silence people in order to protect ideas. In a civilised society, people have a right to to express and to hear ideas about religion even if other people find those ideas to be outrageous.

Publication of 25 blasphemous quotes

In this context we now publish a list of 25 blasphemous quotes, which have previously been published by or uttered by or attributed to Jesus Christ, Muhammad, Mark Twain, Tom Lehrer, Randy Newman, James Kirkup, Monty Python, Rev Ian Paisley, Conor Cruise O’Brien, Frank Zappa, Salman Rushdie, Bjork, Amanda Donohoe, George Carlin, Paul Woodfull, Jerry Springer the Opera, Tim Minchin, Richard Dawkins, Pope Benedict XVI, Christopher Hitchens, PZ Myers, Ian O’Doherty, Cardinal Cormac Murphy-O’Connor and Dermot Ahern.

Despite these quotes being abusive and insulting in relation to matters held sacred by various religions, we unreservedly support the right of these people to have published or uttered them, and we unreservedly support the right of any Irish citizen to make comparable statements about matters held sacred by any religion without fear of being criminalised, and without having to prove to a court that a reasonable person would find any particular value in the statement.

Campaign begins to repeal the Irish blasphemy law

We ask Fianna Fail and the Green Party to repeal their anachronistic blasphemy law, as part of the revision of the Defamation Act that is included within the Act. We ask them to hold a referendum to remove the reference to blasphemy from the Irish Constitution.

We also ask all TDs and Senators to support a referendum to remove references to God from the Irish Constitution, including the clauses that prevent atheists from being appointed as President of Ireland or as a Judge without swearing a religious oath asking God to direct them in their work.

If you run a website, blog or other media publication, please feel free to republish this statement and the list of quotes yourself, in order to show your support for the campaign to repeal the Irish blasphemy law and to promote a rational, ethical, secular Ireland.

List of 25 Blasphemous Quotes Published by Atheist Ireland

1. Jesus Christ, when asked if he was the son of God, in Matthew 26:64: “Thou hast said: nevertheless I say unto you, Hereafter shall ye see the Son of man sitting on the right hand of power, and coming in the clouds of heaven.” According to the Christian Bible, the Jewish chief priests and elders and council deemed this statement by Jesus to be blasphemous, and they sentenced Jesus to death for saying it.

2. Jesus Christ, talking to Jews about their God, in John 8:44: “Ye are of your father the devil, and the lusts of your father ye will do. He was a murderer from the beginning, and abode not in the truth, because there is no truth in him.” This is one of several chapters in the Christian Bible that can give a scriptural foundation to Christian anti-Semitism. The first part of John 8, the story of “whoever is without sin cast the first stone”, was not in the original version, but was added centuries later. The original John 8 is a debate between Jesus and some Jews. In brief, Jesus calls the Jews who disbelieve him sons of the Devil, the Jews try to stone him, and Jesus runs away and hides.

3. Muhammad, quoted in Hadith of Bukhari, Vol 1 Book 8 Hadith 427: “May Allah curse the Jews and Christians for they built the places of worship at the graves of their prophets.” This quote is attributed to Muhammad on his death-bed as a warning to Muslims not to copy this practice of the Jews and Christians. It is one of several passages in the Koran and in Hadith that can give a scriptural foundation to Islamic anti-Semitism, including the assertion in Sura 5:60 that Allah cursed Jews and turned some of them into apes and swine.

4. Mark Twain, describing the Christian Bible in Letters from the Earth, 1909: “Also it has another name – The Word of God. For the Christian thinks every word of it was dictated by God. It is full of interest. It has noble poetry in it; and some clever fables; and some blood-drenched history; and some good morals; and a wealth of obscenity; and upwards of a thousand lies… But you notice that when the Lord God of Heaven and Earth, adored Father of Man, goes to war, there is no limit. He is totally without mercy – he, who is called the Fountain of Mercy. He slays, slays, slays! All the men, all the beasts, all the boys, all the babies; also all the women and all the girls, except those that have not been deflowered. He makes no distinction between innocent and guilty… What the insane Father required was blood and misery; he was indifferent as to who furnished it.” Twain’s book was published posthumously in 1939. His daughter, Clara Clemens, at first objected to it being published, but later changed her mind in 1960 when she believed that public opinion had grown more tolerant of the expression of such ideas. That was half a century before Fianna Fail and the Green Party imposed a new blasphemy law on the people of Ireland.

5. Tom Lehrer, The Vatican Rag, 1963: “Get in line in that processional, step into that small confessional. There, the guy who’s got religion’ll tell you if your sin’s original. If it is, try playing it safer, drink the wine and chew the wafer. Two, four, six, eight, time to transubstantiate!”

6. Randy Newman, God’s Song, 1972: “And the Lord said: I burn down your cities – how blind you must be. I take from you your children, and you say how blessed are we. You all must be crazy to put your faith in me. That’s why I love mankind.”

7. James Kirkup, The Love That Dares to Speak its Name, 1976: “While they prepared the tomb I kept guard over him. His mother and the Magdalen had gone to fetch clean linen to shroud his nakedness. I was alone with him… I laid my lips around the tip of that great cock, the instrument of our salvation, our eternal joy. The shaft, still throbbed, anointed with death’s final ejaculation.” This extract is from a poem that led to the last successful blasphemy prosecution in Britain, when Denis Lemon was given a suspended prison sentence after he published it in the now-defunct magazine Gay News. In 2002, a public reading of the poem, on the steps of St. Martin-in-the-Fields church in Trafalgar Square, failed to lead to any prosecution. In 2008, the British Parliament abolished the common law offences of blasphemy and blasphemous libel.

8. Matthias, son of Deuteronomy of Gath, in Monty Python’s Life of Brian, 1979: “Look, I had a lovely supper, and all I said to my wife was that piece of halibut was good enough for Jehovah.”

9. Rev Ian Paisley MEP to the Pope in the European Parliament, 1988: “I denounce you as the Antichrist.” Paisley’s website describes the Antichrist as being “a liar, the true son of the father of lies, the original liar from the beginning… he will imitate Christ, a diabolical imitation, Satan transformed into an angel of light, which will deceive the world.”

10. Conor Cruise O’Brien, 1989: “In the last century the Arab thinker Jamal al-Afghani wrote: ‘Every Muslim is sick and his only remedy is in the Koran.’ Unfortunately the sickness gets worse the more the remedy is taken.”

11. Frank Zappa, 1989: “If you want to get together in any exclusive situation and have people love you, fine – but to hang all this desperate sociology on the idea of The Cloud-Guy who has The Big Book, who knows if you’ve been bad or good – and cares about any of it – to hang it all on that, folks, is the chimpanzee part of the brain working.”

12. Salman Rushdie, 1990: “The idea of the sacred is quite simply one of the most conservative notions in any culture, because it seeks to turn other ideas – uncertainty, progress, change – into crimes.” In 1989, Ayatollah Khomeini of Iran issued a fatwa ordering Muslims to kill Rushdie because of blasphemous passages in Rushdie’s novel The Satanic Verses.

13. Bjork, 1995: “I do not believe in religion, but if I had to choose one it would be Buddhism. It seems more livable, closer to men… I’ve been reading about reincarnation, and the Buddhists say we come back as animals and they refer to them as lesser beings. Well, animals aren’t lesser beings, they’re just like us. So I say fuck the Buddhists.”

14. Amanda Donohoe on her role in the Ken Russell movie Lair of the White Worm, 1995: “Spitting on Christ was a great deal of fun. I can’t embrace a male god who has persecuted female sexuality throughout the ages, and that persecution still goes on today all over the world.”

15. George Carlin, 1999: “Religion easily has the greatest bullshit story ever told. Think about it. Religion has actually convinced people that there’s an invisible man living in the sky who watches everything you do, every minute of every day. And the invisible man has a special list of ten things he does not want you to do. And if you do any of these ten things, he has a special place, full of fire and smoke and burning and torture and anguish, where he will send you to live and suffer and burn and choke and scream and cry forever and ever ’til the end of time! But He loves you. He loves you, and He needs money! He always needs money! He’s all-powerful, all-perfect, all-knowing, and all-wise, somehow just can’t handle money! Religion takes in billions of dollars, they pay no taxes, and they always need a little more. Now, talk about a good bullshit story. Holy Shit!”

16. Paul Woodfull as Ding Dong Denny O’Reilly, The Ballad of Jaysus Christ, 2000: “He said me ma’s a virgin and sure no one disagreed, Cause they knew a lad who walks on water’s handy with his feet… Jaysus oh Jaysus, as cool as bleedin’ ice, With all the scrubbers in Israel he could not be enticed, Jaysus oh Jaysus, it’s funny you never rode, Cause it’s you I do be shoutin’ for each time I shoot me load.”

17. Jesus Christ, in Jerry Springer The Opera, 2003: “Actually, I’m a bit gay.” In 2005, the Christian Institute tried to bring a prosecution against the BBC for screening Jerry Springer the Opera, but the UK courts refused to issue a summons.

18. Tim Minchin, Ten-foot Cock and a Few Hundred Virgins, 2005: “So you’re gonna live in paradise, With a ten-foot cock and a few hundred virgins, So you’re gonna sacrifice your life, For a shot at the greener grass, And when the Lord comes down with his shiny rod of judgment, He’s gonna kick my heathen ass.”

19. Richard Dawkins in The God Delusion, 2006: “The God of the Old Testament is arguably the most unpleasant character in all fiction: jealous and proud of it; a petty, unjust, unforgiving control-freak; a vindictive, bloodthirsty ethnic cleanser; a misogynistic, homophobic, racist, infanticidal, genocidal, filicidal, pestilential, megalomaniacal, sadomasochistic, capriciously malevolent bully.” In 2007 Turkish publisher Erol Karaaslan was charged with the crime of insulting believers for publishing a Turkish translation of The God Delusion. He was acquitted in 2008, but another charge was brought in 2009. Karaaslan told the court that “it is a right to criticise religions and beliefs as part of the freedom of thought and expression.”

20. Pope Benedict XVI quoting a 14th century Byzantine emperor, 2006: “Show me just what Muhammad brought that was new and there you will find things only evil and inhuman, such as his command to spread by the sword the faith he preached.” This statement has already led to both outrage and condemnation of the outrage. The Organisation of the Islamic Conference, the world’s largest Muslim body, said it was a “character assassination of the prophet Muhammad”. The Malaysian Prime Minister said that “the Pope must not take lightly the spread of outrage that has been created.” Pakistan’s foreign Ministry spokesperson said that “anyone who describes Islam as a religion as intolerant encourages violence”. The European Commission said that “reactions which are disproportionate and which are tantamount to rejecting freedom of speech are unacceptable.”

21. Christopher Hitchens in God is not Great, 2007: “There is some question as to whether Islam is a separate religion at all… Islam when examined is not much more than a rather obvious and ill-arranged set of plagiarisms, helping itself from earlier books and traditions as occasion appeared to require… It makes immense claims for itself, invokes prostrate submission or ‘surrender’ as a maxim to its adherents, and demands deference and respect from nonbelievers into the bargain. There is nothing-absolutely nothing-in its teachings that can even begin to justify such arrogance and presumption.”

22. PZ Myers, on the Roman Catholic communion host, 2008: “You would not believe how many people are writing to me, insisting that these horrible little crackers (they look like flattened bits of styrofoam) are literally pieces of their god, and that this omnipotent being who created the universe can actually be seriously harmed by some third-rate liberal intellectual at a third-rate university… However, inspired by an old woodcut of Jews stabbing the host, I thought of a simple, quick thing to do: I pierced it with a rusty nail (I hope Jesus’s tetanus shots are up to date). And then I simply threw it in the trash, followed by the classic, decorative items of trash cans everywhere, old coffeegrounds and a banana peel.”

23. Ian O’Doherty, 2009: “(If defamation of religion was illegal) it would be a crime for me to say that the notion of transubstantiation is so ridiculous that even a small child should be able to see the insanity and utter physical impossibility of a piece of bread and some wine somehow taking on corporeal form. It would be a crime for me to say that Islam is a backward desert superstition that has no place in modern, enlightened Europe and it would be a crime to point out that Jewish settlers in Israel who believe they have a God given right to take the land are, frankly, mad. All the above assertions will, no doubt, offend someone or other.”

24. Cardinal Cormac Murphy-O’Connor, 2009: “Whether a person is atheist or any other, there is in fact in my view something not totally human if they leave out the transcendent… we call it God… I think that if you leave that out you are not fully human.” Because atheism is not a religion, the Irish blasphemy law does not protect atheists from abusive and insulting statements about their fundamental beliefs. While atheists are not seeking such protection, we include the statement here to point out that it is discriminatory that this law does not hold all citizens equal.

25. Dermot Ahern, Irish Minister for Justice, introducing his blasphemy law at an Oireachtas Justice Committee meeting, 2009, and referring to comments made about him personally: “They are blasphemous.” Deputy Pat Rabbitte replied: “Given the Minister’s self-image, it could very well be that we are blaspheming,” and Minister Ahern replied: “Deputy Rabbitte says that I am close to the baby Jesus, I am so pure.” So here we have an Irish Justice Minister joking about himself being blasphemed, at a parliamentary Justice Committee discussing his own blasphemy law, that could make his own jokes illegal.

Finally, as a bonus, Micheal Martin, Irish Minister for Foreign Affairs, opposing attempts by Islamic States to make defamation of religion a crime at UN level, 2009: “We believe that the concept of defamation of religion is not consistent with the promotion and protection of human rights. It can be used to justify arbitrary limitations on, or the denial of, freedom of expression. Indeed, Ireland considers that freedom of expression is a key and inherent element in the manifestation of freedom of thought and conscience and as such is complementary to freedom of religion or belief.” Just months after Minister Martin made this comment, his colleague Dermot Ahern introduced Ireland’s new blasphemy law.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros Irlandês, ainda em 2009, disse o fundamental (e é por isso ainda mais aberrante que esta iniciativa tenha avançado na Irlanda). Disse o Sr. Martin, a propósito de iniciativas de estados islâmicos que defendiam a criminalização da difamação da religião ao nível das Nações Unidas:

Acreditamos que o conceito de difamação da religião não é consistente com a promoção e protecção dos direitos humanos. Pode ser usado para justificar limitações arbitrárias ou a negação da liberdade de expressão. De facto, a Irlanda considera que a liberdade de expressão é um elemento chave e inerente à manifestação da liberdade de pensamento e consciência e, como tal, é complementar à liberdade religiosa e de credo.

Cheguei a este conteúdo via Alcides Fonseca. Obrigado.

O valor da família

O Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, agora distinguido com o Prémio Pessoa (os aspectos irónicos desta atribuição já estão em discussão), a propósito do debate sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, afirma que esta é “uma ocasião para a sociedade reflectir sobre o valor da família“. E diz bem. De facto, reflectir sobre o valor e significado da família é um exercício importante e, se realizado de forma honesta e profunda, pode ajudar a fundamentar não só a justiça, como a necessidade social da legalização e reconhecimento das uniões entre pessoas do mesmo sexo que assim o desejem, como casamentos de pleno direito, e consequentemente a constituição de núcleos familiares importantes e significativos.

É evidente— pelo menos a estrutura da Igreja Católica procura tornar evidente a sua resistência a qualquer forma de progresso, tomando medidas aberrantes como as recentes alterações ao Direito Canónico que invalidam casamentos com não-baptizados e dificultam casamentos inter-religiosos— que o sentido da afirmação de D. Manuel Clemente não é a defesa da legitimidade das uniões homossexuais como núcleos familiares de pleno direito, como forma de defender o valor intrínseco da família enquanto agregado de afectos. Mas é também esse o debate que importa fazer. Até porque os argumentos iniciais lançados pelo ilustre Bispo do Porto não devem ser objecto de aceitação acrítica: só uma leitura apressada e desatenta da história da humanidade em geral e da família, em particular, pode aceitar a ideia de que “no que diz respeito à família, toda a tradição da humanidade sempre se configurou nesse nexo de família em volta de um casal de homem e mulher, aberto a geração de filhos e integrador de gerações“. Aceitar que é assim e que “este núcleo tem sido sempre permanente” é adoptar uma perspectiva muitíssimo redutora do fenómeno “família”. A poligamia em modelos patriarcais e matriarcais é uma marca fundamental da história da humanidade e da família, assim como o exercício intermitente da parentalidade e a inexistência, em muitos modelos sociais, de relações/vínculos definitivos no que à procriação diz respeito. Não são esses os modelos dominantes nas sociedades modernas ocidentais, é verdade, mas não existem, nos modelos de funcionamento das nossas sociedades, um conjunto de mecanismos paralelos ao funcionamento da “família tradicional” que visam responder aos mesmos impulsos e/ou constrangimentos?

Não pretendo teorizar sobre o que é ou deixa de ser a família, ou sobre o papel do matrimónio nessa construção social, ou ainda sobre as condicionantes sociais, económicas, políticas ou religiosas que nos trouxeram até ao modelo de casamento (e de família) que, actualmente, está em crise. Muito desse trabalho está feito desde finais do século XIX. Mas creio que é legítimo afirmar que a defesa da família como núcleo fundamental da nossa sociedade, passa pelo reconhecimento e valorização de todas as uniões baseadas em afectos profundos e duradouros que criam laços estáveis e tecem o delicado equilíbrio social que sustenta o progresso e a solidariedade inter-geracional. Uma parte significativa dessas uniões são homossexuais, pelo que o seu reconhecimento se torna um imperativo dos defensores da família. Ou não?

A Bíblia

Eu li declarações do Saramago sobre a Bíblia e sobre o Corão.
E depois li e ouvi reacções aos vitupérios dirigidos pelo Saramago às pessoas religiosas. Mas não li nem ouvi esses vitupérios. Onde é que eles estão?

Ouvi também, com gosto, o teólogo e “biblista” Carreira das Neves (franciscano, segundo percebi), dizer que não acha que o Saramago esteja a perder qualidades, mas que acha estranho que um escritor da sua craveira não consiga olhar para a Bíblia como Literatura. Este é um importante teólogo que gostou muito do Evangelho Segundo Jesus Cristo, do Saramago. Esta incapacidade de Saramago será sectarismo, provavelmente. Mas é interessante que a defesa deste teólogo seja a ideia da Bíblia enquanto Literatura, dizendo o próprio que, “antes de ser Religião, Fé ou Igreja, a Bíblia é Literatura” (cito de cor).

Com muito menos gosto, ouvi e li a reacção de Mário David, eurodeputado do PSD e vice-presidente do Partido Popular Europeu, que sente “vergonha de o ter [a Saramago] como compatriota” e considera que Saramago está a “vilipendiar povos e confissões religiosas”, convidando-o a concretizar a ameaça feita em tempos de renunciar à cidadania portuguesa (ainda se lembram do caso Sousa Lara?).

Não me espanta nem a voz livre de Saramago, nem a honestidade de Carreira das Neves (sei que a Igreja tem muitas mentes lúcidas e pessoas boas), nem a desonestidade obtusa e estreiteza de vistas de Mário David.

Mas este episódio faz-me pensar no apelo ao ateísmo militante de Richard Dawkins. Lembrava Dawkins que George Bush (pai) teria afirmado, sem nunca ser forçado a retratar-se, que “um ateu não poderá nunca ser um cidadão americano patriota”. Com as devidas ressalvas, as declarações de Mário David ficam aqui bem alinhadas.

Pensemos nisto.

Já agora, eu, que li a Bíblia (creio que toda, numa das minhas idiotices adolescentes, mas certamente muito mais do que o católico médio português) concordo com Saramago na sua afirmação de que esta é um “manual de más condutas” e “um catálogo de crueldades”. Sei, como Saramago saberá e Carreira das Neves recorda, que esta é, acima de tudo, Literatura. Mas é também claro que é um dos mais elementares e bem sucedido exercícios de controlo e doutrina pelo terror.
De resto, não sendo especialista— apenas apreciador— acho que, como Literatura, salvo honradíssimas excepções, os 73 livros que a constituem têm importância histórica, mas não são mesmo nada recomendáveis. talvez por isso mesmo seja tão pouco lida.

Links:

Ateísmo militante

Richard Dawkins defende nesta conferência TED a afirmação e promoção dum ateísmo militante. Defende que devemos deixar de ser respeitosos e educados no que diz respeito à afirmação das nossas convicções como ateus. Que devemos abandonar a reverência às religiões, imposta social e culturalmente.
Eu, pessoalmente, costumo dizer que não posso aceitar que o facto de ser ateu seja frequentemente tratado como uma ausência de convicções religiosas, que muitas vezes desemboca numa ideia de “neutralidade”:

é ateu => não tem convicções religiosas => a opinião dele não é importante no que à religião diz respeito.

É falso: ser ateu significa ter convicções religiosas, nestes contextos, tão fortes ou mais do que qualquer crente. Como diz Richard Dawkins, “um ateu é alguém que sente por Jeová o mesmo que um católico sente por Thor (…) Somos todos ateus relativamente à maioria dos deuses criados pela humanidade, mas algumas pessoas vão um deus mais além nessa descrença.”

Em Portugal (na Europa, em geral), o quadro não é tão negro como nos EUA:

So, we’ve reached a truly remarkable situation, a grotesque mismatch between the American intelligentsia and the American electorate. A philosophical opinion about the nature of the universe, which is held by the vast majority of top American scientists and probably the majority of the intelligentsia generally, is so abhorrent to the American electorate that no candidate for popular election dare affirm it in public. If I’m right, this means that high office in the greatest country in the world is barred to the very people best qualified to hold it, the intelligentsia, unless they are prepared to lie about their beliefs. To put it bluntly, American political opportunities are heavily loaded against those who are simultaneously intelligent and honest.

O sublinhado é meu.

Mas, até por solidariedade com o povo americano, devemos promover esta afirmação militante do ateísmo e “tirar as luvas”, no que diz respeito ao espaço político que damos à religião. Até para apoiar as sábias palavras do Cardeal Patriarca (que subentendem e dão visibilidade às significativas e desesperadas movimentações contra a secularização/laicização do Estado).

Obrigado ao Dactilógrafo e ao Vitor Azevedo por me terem chamado atenção para esta conferência.

Abençoados os pobres de espírito

Hoje, na Universidade de Aveiro, realiza-se a Benção dos Finalistas. Esta cerimónia que se realiza um pouco por todas as academias do país deixa-me doente, irritado e deprimido.

Por um lado, há a hipocrisia extrema e muito portuguesa de encerrar um período em que se cometem todos os excessos e todos os pecados, quase por obrigação, com uma cerimónia religiosa, bem comportada, para emoção das famílias e satisfação de egos parolos e provincianos.

Depois há esta doença social profunda e muito mais debilitante do que se pensa de aceitar a ideia duma religião dominante e da “normalidade” de se organizarem cerimónias para multidões que se supõem diversas, mas unidas nesse padrão quase nunca praticado e cada vez menos professado. A associação entre a vontade popular (ou estudantil, neste caso) de celebrar ou assinalar com pompa e circunstância um momento mais ou menos determinante com a incompreensível e muito pouco debatida necessidade da sua sacralização é um sintoma claro da pequenez do nosso país. Da nossa pobreza de espírito.

Não questiono (nem tal me passaria pela cabeça) que os estudantes, individualmente ou em grupo, sintam uma necessidade de integrar na sua eventual prática religiosa estes momentos. É natural. O que não é nada natural e resulta apenas e só da perigosa presunção nacional de que, a não ser que nos manifestemos em contrário, somos todos católicos e que ninguém se incomodará com a imposição dessa religião dominante porque “sempre foi assim” e toda a gente sabe que até somos “tolerantes”, é que as instituições (Universidades, Órgãos de Soberania, Associações de Pessoas, etc.) não compreendam a necessidade de fronteiras claras e definidas entre a sua esfera pública e a religiosidade presumida.

Países com uma maior presença de diversas culturas e religiões, que não admitem (porque não podem) que religiões historicamente dominantes se confundam com a expressão do que é público e colectivo, não limitam a liberdade religiosa de ninguém ao atribuir exclusivamente às igrejas e aos indivíduos a responsabilidade de organizarem as suas práticas.

O envolvimento que os nosso poderes públicos, das Câmaras aos Governos, passando pelas Universidades, corporações de Bombeiros, colectividades várias e Associações de Estudantes, por exemplo, continuam a assumir com a Igreja Católica é, por isso mesmo, uma manifestação triste da nossa pequenez e da nossa pobreza de espírito.

Não sei se isso nos garante a benção, mas acho que garante parte do nosso atraso civilizacional.

Downgrade do Natal

Há, de certeza, melhorias que podem ser introduzidas nisto do Natal. Aliás, acho mesmo que basta fazermos uns quantos downgrades para voltarmos a uma versão mais “básica” sobre a qual talvez se possa construir uma época com
algum sentido.
Eu, que sou ateu desde pequenino (de formação, se quiserem), lembro-me de haver uma altura em que o Natal não me incomodava como agora. Ser criança e receber prendas talvez tivesse alguma coisa que ver com isso, mas acho que havia mais alguma coisa.

E isto não pretende ser um “rant” acerca da fúria consumista… só.

O que me incomoda, acima de qualquer outra coisa, é a sensação, que se me afigura cada vez mais como real, de que os verdadeiros detentores desta celebração e seus supostos guardiões, os cristãos, estão a deixar que ela seja “manipulada”, “ocupada”, “parasitada” pela lógica de consumo, que se assume, desta forma, como uma outra espécie de religião que nos tenta converter a todos. Uma religião que tem os seus próprios símbolos, templos, rituais e celebrações que se sobrepõem e aproveitam das tradições existentes. Na história das religiões isto não é novo: o próprio Cristianismo foi absorvendo várias manifestações pagãs ao longo da sua expansão.

Mas não deixa de ser estranho assistir ao esboroar duma certa identidade, com o eventual argumento admirável de que esta será uma forma de “abrir” a celebração a todos.

É que nem todas as celebrações deveriam ser para todos. Ou, pelo menos, não deveriam abdicar do que lhes é central por uma qualquer ideia de “acessibilidade”.

E, assim, me apanham numa demanda reaccionária: quero um Natal com fronteiras, que seja uma festa que não é minha, mas da qual posso participar por generosidade dos outros. Era esse o sentimento que tinha quando era criança: o Natal era uma coisa estranha, à qual eu não pertencia, mas no qual me era dado o “presente” de partilhar, pela generosidade dos outros.

Parece demasiado esquisito?