De que nos vale um lamento ministerial?

Ana Jorge, a Ministra da Saúde, lamenta “pessoalmente” o acordo celebrado entre a ADSE e o Hospital (privado) da Luz, por se tratar duma “oportunidade perdida” para investir no sector público. Eu, pessoalmente, também lamento e lamento ainda mais que, aparentemente, neste caso, o meu lamento valha tanto como o duma Ministra, ou seja, menos que nada. Diz a Ministra que essa é uma decisão sobre a qual se deve interrogar o seu colega das Finanças. Não poderia ela, na qualidade de Ministra, pedir os tais esclarecimentos a Teixeira dos Santos e, eventualmente, marcar uma posição ligeiramente mais veemente na defesa do sector público? É que esse investimento de dinheiros públicos em serviços públicos significa, entre outras coisas, uma melhor gestão dos recursos do Estado, objectivo atribuído, em tese, a Teixeira dos Santos, pelo que, entre colegas ministros, a coisa deveria ser fácil de esclarecer.

Com coisas destas, obrigam um tipo a passar por ingénuo para não ser mal-educado.

Sexo de risco, à “macho valente”. Homofóbicos? Só se for a sério.

O estudo sobre Sexualidade e Saúde que o Instituto de Ciências Sociais realizou e que o Público abordou na edição de sábado, antes da apresentação oficial, que foi hoje, apresenta-nos um país homofóbico, relativamente fiel e pouco informado.

Globalmente, os resultados são deprimentes, apesar de expectáveis, e o prejuízo para o país causado pela ignorância e pelos comportamentos de risco continuados, apesar dos esforços de formação e sensibilização, é significativo e conta-se em vidas destruídas. Nas diversas faixas etárias, o estudo mostra-nos uma população ainda muito pouco informada e quase inconsciente, com especial destaque, pela negativa, para os homens. Também expectável e deprimente.

Mais uma acha bem quente para a discussão sobre a necessidade e eficácia da educação para a sexualidade.

Quanto à homofobia endémica (e mais uma vez com maior incidência entre os homens), é de destacar como a sua expressão é, aparentemente, independente da maior visibilidade e alegada aceitação da homossexualidade, corporizada por figuras e eventos mediáticos e pela integração numa certa cultura urbana de ícones (maioritariamente) “gay”, uns ficcionais, outros nem por isso.

A homofobia “tuga” assume, assim, um duplo preconceito: se este estudo nos diz que o português médio considera as relações homossexuais erradas ou condenáveis, um certo “circo” mediático, faz-nos acreditar que esse preconceito tem fronteiras, excluindo da “reprovação moral” uma certa classe (“artistas” e seus excêntricos apaniguados), que se presume, assim, para lá do cuidado moral das massas. Em bom português, a nossa sociedade tolera (que palavra horrível) os “maricas” conhecidos do mundo do espectáculo, independentemente da sua verdadeira orientação sexual, porque, coitados, faz parte da “excentricidade obrigatória”. Mas homossexuais reais, com vidas reais e privadas, como as nossas? Credo! Deus nos livre!

Assim não vamos lá…