jazz.pt | Jeffery Davis Quartet: Haunted Gardens

Haunted Gardens, Jeffery Davis Quartet
Haunted Gardens, Jeffery Davis Quartet

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

Haunted Gardens” é a estreia em disco, como compositor e líder do virtuoso percussionista luso-canadiano Jeffery Davis. O percurso relativamente meteórico, ainda que pouco notado, de Jeffery Davis é justamente assinalado, neste momento, com este registo de altíssima qualidade, onde se afirma, a par do seu virtuosismo como instrumentista, quer no vibrafone, quer na marimba, o seu talento e inteligência como compositor, a sua criatividade como improvisador e a sua visão enquanto líder. Desde logo, a escolha do grupo de músicos que constituem este quarteto e a adequação da escrita e desenvolvimento dos temas à sua personalidade, tem uma contribuição decisiva para a coesão do resultado final. André Fernandes, Nelson Cascais e Marcos Cavaleiro encontram na escrita de Jeffery Davis e na dinâmica de funcionamento do quarteto amplo espaço para a afirmação das suas identidades musicais em diversos registos, sendo de destacar a prestação de André Fernandes, que se apropria dos temas com grande conforto e solidez, mas também para Marcos Cavaleiro, que encontra e inventa, dentro da relativa convencionalidade estrutural dos temas, os momentos ideais para pontuar, esclarecer ou (des)equilibrar a dinâmica do grupo, com as doses certas de rigor e subtileza. Nelson Cascais, por sua vez, adapta-se muito bem às diferentes funções que lhe competem e à diversidade da escrita, em função, também do papel desempenhado por Jeffery Davis, que consegue, com grande rapidez, alternar entre funções rítmicas, harmónicas e melódicas.
“The Pitbull’s Revenge” a 4ª faixa do disco, destaca-se, de algum modo, por esclarecer de forma inequívoca o impacto da opção pela utilização do vibrafone e da marimba no universo tímbrico do quarteto e por representar, na fluidez com que o quarteto se move em estruturas rítmicas menos convencionais, o delicado equilíbrio entre simplicidade e virtuosismo que se mantém ao longo de todo o álbum.
Pela qualidade geral da composição e da interpretação, face à maturidade e ao equilíbrio na afirmação individual das personalidades musicais do quarteto, considerando a diversidade presente e a coesão global estética, que parece afirmar um arco narrativo consequente, da leveza do “Joao’s Cafe” à densidade de “Viktoria’s Nightmare”, onde o solo de Jeffery Davis se afirma como um gesto “precioso”, também na transição para o tema seguinte, mesmo tratando-se dum primeiro disco e apesar de não ser imaculado, creio ser justo dizer que estamos perante uma consagração.

Haunted Gardens, Jeffery Davis Quartet

TOAP Tone of a Pitch (2009)
Gravado em Lisboa (2009)

  • Jeffery Davis vibrafone e marimba
  • André Fernandes guitarra
  • Nelson Cascais contrabaixo
  • Marcos Cavaleiro bateria
Texto escrito por João Martins. Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes, foi publicado no nº 29 da revista jazz.pt. A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

jazz.pt | Guimarães Jazz 2008

Texto escrito por João Martins, a 01/12/2008, relativo à 1ª semana do Guimarães Jazz 2008.
Depois de revisto e editado por Rui Eduardo Paes e em conjunto com a cobertura da 2ª semana, da responsabilidade de Gonçalo Falcão, foi publicado no nº 22 da revista jazz.pt.
A publicação do texto neste blog tem como principal objectivo promover a revista: compre ou assine a jazz.pt.

Guimarães Jazz 2008

Considerações Gerais:
Um Festival de Dimensão Regional

O Festival de Jazz que Guimarães acolhe anualmente, apesar de não deixar de ser “de” Guimarães, atingiu já, de alguns anos a esta parte, uma dimensão regional que abrange, na atracção de público, não só todo o Norte do País— se falarmos de público “geral”, já que o pouco público especializado nacional está, à partida, conquistado— mas as regiões espanholas (cada vez) mais próximas. Essa dimensão, que resulta também do investimento e da prioridade definida pela cidade e pelo seu Centro Cultural, tem reflexos na programação dos concertos do festival, na organização geral, nas actividades paralelas, nas extensões que levam o Festival (e o seu público) a outros pontos da cidade— as sessões de cinema, as exposições, as Jam Sessions da primeira semana…
Considerar, portanto, o público para quem o festival é concebido e, obviamente, os efeitos “secundários” que dele se esperam na cidade, é de elementar justiça na apreciação das opções programáticas.
Em 2 fins-de-semana prolongados consecutivos, o festival propõe-se equilibrar diferentes visões do fenómeno jazzístico, procurando abrir mais portas do que aquelas que fecha (exercício sempre complicado), satisfazendo o apetite de vários públicos (dos mais generalistas aos mais especializados), assegurando uma componente formativa e (algum) espaço para músicos nacionais, num contexto global que envolva a cidade, em vez de a “colonizar”.
Só quem habita a cidade de Guimarães poderá aferir dos resultados destas apostas ao longo do tempo, mas quem, como eu, a visita regularmente, não pode deixar de reparar em sinais evidentes e, aparentemente, consolidados no tecido cultural/musical da cidade, atribuíveis, em grande parte, ao Festival e à atenção que ele faz incidir sobre a cidade.
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