Estetização da Política vs. Politização da Arte

“(…) quando o uso natural das formas produtivas é paralisado pelo regime da propriedade, o crescimento dos meios técnicos, dos ritmos, das fontes de energia, tende a um uso contranatura. Este uso contranatura é a guerra que, pelas destruições que arrasta, demonstra que a sociedade não tem a maturidade suficiente para fazer da técnica o seu órgão, que a técnica não está suficientemente elaborada para dominar as forças sociais elementares. A guerra imperialista, com os seus aspectos atrozes,  tem como factor determinante o desfasamento entre a existência de poderosos meios de produção e a insuficiência do seu uso para fins produtivos (por outras palavras, o desemprego e a falta de mercados). A guerra imperialista é uma revolta da técnica que reclama sob forma de «material humano» aquilo que a sociedade lhe arrancou como matéria natural. Em vez de canalizar os rios,  dirige o caudal humano para o leito das trincheiras; em vez de usar os seus aviões para semear a terra, espalha as suas bombas incendiárias sobre as cidades; no uso bélico do gás, encontrou um novo meio de acabar com a aura.
Fiat ars, pereat mundus [que se faça arte, mesmo que o mundo pereça], é esta a palavra de ordem do fascismo que, como Marinetti reconhece, espera da guerra a satisfação artística de uma percepção sensível modificada pela técnica. Aí reside, evidentemente, a perfeita realização da arte pela arte. Na época de Homero a humanidade oferecia-se em espectáculo aos desuses do Olimpo; agora converteu-se no seu próprio espectáculo. Tornou-se bastante estranha a si mesma para conseguir viver a sua própria destruição como uma fruição estética de primeira ordem. Esta é a estetização da política que o fascismo pratica. A resposta do comunismo é politizar a arte.
Walter Benjamin, in “A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica” (1936)

Art 2.0… where to, Mr. Benjamin?

Quando li, pela primeira vez, este artigo a classificar o David Fonseca como um “Artista 2.0″, pela estratégia recente de difusão do seu trabalho, com um recurso inteligente à web, e por acumular competências artísticas em vários domínios (a propósito do acto de ser o realizador do seu último videoclip, Superstars), achei que não o deveria comentar porque, não sendo eu minimamente próximo do mundo da música pop, era mais do que provável que qualquer comentário fosse mal interpretado.

Mas fiquei a matutar nisso e o lançamento do iLife ’08, por razões não muito fáceis de explicar, deu-me vontade de avançar alguns comentários.

o iLife e a Renascença

Antes de outras coisas, preciso de tentar explicar a relação que encontro entre a suite de aplicações Life, da Apple, e o conceito mais ou menos mitológico do “Homem da Renascença” ou “Homo Universalis”, que é, na verdade, aquilo que leva algumas pessoas a olhar para artistas que “acumulam” competências em várias valências ou disciplinas, como Artistas (mais) completos ou (mais) à frente do seu tempo— é curioso à partida que uma atitude historicamente associada à segunda metade do século XV continue a servir para classificar uma certa ideia de vanguarda ou, pelo menos, de modernidade…

Ao fornecer um pacote muito acessível de aplicações extraordinariamente intuitivas, mas fortemente pré-modeladas, para a manipulação rápida e com relativa qualidade técnica de vários media (música, fotografias e vídeos) a Apple fez uma revolução, ou contribui para a revolução em curso na relação entre consumidores e produtores de bens culturais de grande consumo, ao diluir as fronteiras técnicas que faziam depender de equipamentos e profissionais altamente especializados qualquer operação de produção e divulgação desses bens culturais. O que a Apple fez com a filosofia subjacente ao GarageBand e ao iMovie na área dos meios de produção, fizeram os novos serviços da chamada Web 2.0 aos canais de distribuição e, tão ou mais importante do que a real utilização e potencial destas ferramentas, no ambiente altamente mediatizado em que vivemos, é a rapidez de difusão da ideia de que, com estes novos meios digitais e com estas “apps e gadgets bués de cool“, os processos criativos passavam a estar ao alcance de qualquer um.
Se a diluição de algumas fronteiras técnicas e o acesso facilitado a melhores meios de criação e produção nas áreas da música e do vídeo são sempre boas notícias, em termos de promoção da criatividade e nivelamento do campo, o pitch de marketing muito apetecível de que “qualquer um pode ser uma estrela e criar um sucesso“, além de ser ofensivo para uma parte significativa de criadores e artistas emergentes ou estabelecidos, introduz uma perigosa distorção na avaliação do trabalho desenvolvido e apresentado ao público, dada a desvalorização acentuada dos meios e das competências necessárias nas várias áreas artísticas.
Este problema não resulta duma postura exclusiva da Apple, nem é um problema exclusivo do nosso tempo, e talvez seja uma “faca de dois gumes” que não pode deixar de ir abrindo caminho e feridas à sua passagem.
(Este é o meu principal engulho actual com a Apple, do qual resulta também a minha apreciação da iCreate, para quem estiver a pensar nisso).

Neste contexto, esta espécie de iRenascença que os novos meios tecnológicos nos oferecem não passa dum aprofundamento da situação analisada por Walter Benjamin em “A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica“, temperada pela lógica consumista do fast-food e do ready-made que, para lá das suas aplicações filosóficas e estéticas, levantam problemas éticos reais na avaliação do papel do criador, do técnico especializado e da ferramenta… problemas com que vivemos quotidianamente, aliás.

Art 2.0… como estar à frente do seu tempo

Perceber-se-á que, neste contexto, me custa engolir a ideia de que o esforço do David Fonseca possa ser levado demasiado a sério, como “um novo tipo de artista”, e nem sequer me parece que o próprio dê um valor por aí além às suas incursões, naturais nos tempos que correm, às áreas afins da concepção e realização plástica dum videoclip. Não sou especialista mas creio que não será difícil fazer uma lista de artistas (nacionais e estrangeiros) que em várias áreas musicais têm apostado numa lógica de criação que excede a simples escrita e produção de canções, integrando num conjunto coerente a experiência plástica dos concertos, o conceito de eventuais videoclips ou outros métodos de distribuição ou a construção de “personagens” que resultam em concept albuns, em concept bands… e uma parte significativa desses criadores reconhece, há muito, o papel da web, não só como montra, mas como espaço de interacção com o público e suporte de novas experiências.

De facto, a geração MTV consome doses cavalares de híbridos audiovisuais que já há muito deixaram de ter identidade musical autónoma das suas representações gráficas ou de uma identidade plástica, no que poderia passar por um alucinado cumprimento do ideal Wagneriano da GesamtKunstWerk. :D

Em tal contexto, parece necessário olhar para as diferentes atitudes entre criadores (na música e em todo o lado) e valorizar as reflexões mais críticas acerca dos meios de produção e distribuição, e seria particularmente interessante destacar alguns exemplos de quem procurou, realmente avant-la-lettre, novos meios de interagir e partilhar ideias com o seu público, integrando a Internet e as TIC na sua existência, em vez de usarem simplesmente receitas já conhecidas e gastas. Exemplos já reconhecidos, como o dos Einstürzende Neubauten e do seu Supporter Project, estabeleceram verdadeiramente novos padrões na avaliação da relação de projectos musicais com a internet e têm frutos visíveis, ainda que não óbvios, um pouco por todo o lado.

em jeito de conclusão

A capacidade de encontrar e explorar novos meios para a expressão e partilha de ideias e objectos artísticos em suportes interligados, complementares e trandisciplinares será, provavelmente, um recurso bastante mais frutuoso do que a simples acumulação de habilidades técnicas que as sucessivas revoluções computacionais tornam mais comuns. E essa capacidade passa por atravessar fronteiras disciplinares e partilhar com outros criadores e técnicos a realização de ideias e conceitos, criando sinergias e gerindo talentos.

Algures por aí andará a Art 2.0.

Concorda, Mr. Benjamin? E os leitores?