Afinal quanto dinheiro é que se pode ganhar com publicidade num blog?

As respostas à minha pergunta recente, “Porque é que os blogs pessoais têm cada vez mais publicidade?“, levam-me a pensar que é bem provável que até agora, tenha subestimado os rendimentos possíveis. Ou isso, ou uma parte dos comentadores estão todos a soldo do Google AdSense. ;) Seja como for, parece que vale a pena.

Mas, sendo assim— e pondo de lado questões de princípio ou apenas sensibilidade—, impõe-se a pergunta: como e quanto dinheiro é que se pode ganhar, de facto?

No sistema do Google AdSense, onde “alugamos” espaço publicitário nos blogs, pode-se ganhar dinheiro de duas formas, porque se pode gastar dinheiro de duas formas no Google AdWords, o sistema do Google para anunciantes:

  1. CPC – Custo Por Clique
    Neste sistema, os anunciantes pagam apenas pelos cliques efectivos nos seus anúncios, ou seja, por visitas geradas através da publicidade. Neste caso, um anúncio pode surgir 10, 100 ou 1000 vezes no nosso blog sem recebermos um tostão por isso. Apenas se os nossos visitantes clicarem nos anúncios é que há retorno. E não vale fazer a batota: se clicarmos nós próprios nos anúncios e se isso for detectado pelo Google (e acreditem que eles detectam muita coisa), podemos ser banidos do sistema.
  2. CPM – Custo por Impressão
    Neste sistema, os anunciantes pagam para aparecer, independentemente dos cliques, ou seja, das visitas. Neste caso, de cada vez que o anúncio surge, somos pagos.

A opção CPC vs CPM é dos anunciantes e não de quem aluga espaço publicitário (pelo que percebi).
Isso significa que dependendo dos assuntos abordados e, assim, dos potenciais anunciantes, podemos ter anúncios CPC e CPM. Pela lógica, os pequenos anunciantes querem gerar visitas aos sites de forma controlada e económica e optarão pelo CPC. Os grandes anunciantes e grandes marcas, com orçamentos para publicidade online mais largos, estarão interessados em gerar visibilidade , independentemente das visitas associadas.

A escolha da parte de quem anuncia  é um problema de marketing, estratégia comercial e orçamento.

No sistema CPC, o custo por clique depende da relevância das palavras-chave escolhidas pelos anunciantes (“artesanato” custa €0,06 – €0,10, “linux” custa €0,81 – €1,22). Podem fazer as vossas próprias simulações aqui. Não encontrei dados ou simuladores para o sistema CPM, em que os anunciantes licitam por pacotes de 1000 impressões do seu anúncio.

Independentemente disso, há uma diferença entre o que os anunciantes pagam ao Google e aquilo que recebem os bloggers. E o facto da fórmula de cálculo não ser transparente assusta-me um bocadinho, pessoalmente.

Mas as histórias de gente que ganha bastante dinheiro multiplicam-se pela net e, aparentemente, entre os leitores deste blog há mesmo gente que tem essa experiência em primeira mão.

Como?

O motor do Google identifica no conteúdo do blog as palavras-chave indicadas pelos anunciantes e selecciona alguns, da lista de anúncios disponíveis e usando algoritmos que se apresentam como os melhores para garantir resultados aos anunciantes e aos bloggers (se uns pagam o mínimo e outros recebem o máximo, devem ser algoritmos do “arco-da-velha”). Dependendo do tipo de anúncio (CPC ou CPM) são calculadas receitas e despesas para cada uma das três partes envolvidas (despesas do anunciante, receitas do Google e do blogger) em função de cliques e/ou impressões.

Este sistema complexo significa que fazer estimativas de rendimentos com base nesta publicidade é muito complicado. Apenas se poderá concluir que:

  1. Um elevado número de visitantes e de exibições de página aumenta a probabilidade de rendimentos altos, mas não os garante, se a maior parte dos anúncios for do tipo CPC
  2. Conteúdos que versem assuntos “populares” aumentam também essa probabilidade, principalmente se entrarem na área de acção das marcas que aderem ao sistema CPM
  3. Conteúdos relevantes, bem escritos e estruturados permitem, em teoria, ao Google uma indexação mais eficaz do blog e, assim, um melhor “encaixe” entre publicidade e leitores, o que aumenta consideravelmente a hipótese de se fazer algum dinheiro

Mas, aparentemente, sem nos preocuparmos muito com isso, ou sem alterações na linha editorial, é possível ter algum rendimento. Se assim for, sugiro que isso significa que o sistema está temporariamente inflaccionado e que um ajuste progressivo entre a oferta e a procura, associados à melhoria dos “algoritmos” que o Google usa para garantir resultados a todos os intervenientes eliminará alguma “gordura” do sistema.

Entretanto, que faça bom proveito a todos.

E, afinal?

O Google insiste que só testando é que se poderá comprovar qual o rendimento do programa em cada blog. É verdade, por todas as razões indicadas e mais algumas. Mas existem formas de fazer estimativas. Esta é uma das mais simples que encontrei, mas não asseguro nada:

Rendimento = CTR * CPC

CTR – Click Through Rate: a relação entre o número de impressões do anúncio e o número de cliques
CPC – Cost per Click: custo por clique

Considera-se que uma CTR média andará à volta de 3% e que o CPC médio é de $0.25 (USD), por isso, para cada 1000 impressões (page views):

1000 * 3% (est. CTR) * $0.25 (CPC médio) = $7.5 (USD)

A acreditar nesta fórmula para estimar rendimento, um blog parecido com este, que tem cerca de 6500 exibições de página por mês, se tivesse 5 anúncios por página, poderia render cerca de $243.75 (USD) por mês.

Quem sabe se alguns dos comentadores do post anterior não poderão confirmar ou negar o rigor desta fórmula de estimar rendimento.

Mas, e depois?

Depois… nada. Este blog não terá publicidade por razões várias, mas acho que é importante que se perceba e se fale sobre esta realidade com alguma frontalidade e sem as “tretas” habituais de quem tem outros interesses nisto.

Também em nada se altera a minha relação com os blogs com e sem publicidade. Procuro conteúdos e acho que é isso que a maior parte das pessoas faz.

E alegra-me a frontalidade e naturalidade com que os comentários foram feitos. Ficámos todos (acho) a saber um bocadinho mais.

Porque é que os blogs pessoais têm cada vez mais publicidade?

Não é uma provocação. É uma dúvida legítima.
A tendência alastra e, por agora, já devem ser minoritários os blogs pessoais como este, que não têm publicidade. Não tenho sequer uma posição clara sobre isto. A existência ou ausência de publicidade raramente me distrai do critério fundamental para avaliar um blog: o interesse do seu conteúdo.

Mas dou por mim, cada vez mais frequentemente, a pensar nas razões que levam as pessoas a ter publicidade nos seus blogs.

Para ganhar dinheiro?

Imagino que uma parte significativa das pessoas o faça para complementar o seu rendimento. Mas qual será a rentabilidade de sistemas como um Google AdSense em blogs pessoais? Não tenho dados acerca disso, mas será possível ganhar algum dinheiro “real” sem começar a escrever em função disso? Não aumentará a pressão para escrever sobre assuntos “atractivos” e manter, até artificialmente, um elevado número de visitantes? Ou seja, como é que se controla o equilíbrio entre “ter publicidade” e “ser da publicidade”?

Para prestar um serviço?

Acho também que uma parte significativa das pessoas não está, conscientemente, a pensar em “rendimento”, ou, pelo menos, disfarça isso com uma ideia de que a publicidade pode ser um “serviço” prestado aos leitores. Como nestes sistemas a publicidade é escolhida em função da relação com os conteúdos, pode-se dizer que há alguma probabilidade de surgirem, entre os anúncios publicados, alguma informação relevante para os leitores. Mas esse é o argumento dos intermediários da publicidade, de todos os publicitários e do Google também, para nos convencer de que a publicidade é útil, particularmente se for “segmentada” e “direccionada”. E é um argumento que talvez faça sentido quando pensamos em sites ou blogs de projectos, associações, empresas ou indivíduos em que existe uma componente clara de “prestação de serviço”. Mas e na imensidade de blogs pessoais, de opinião e reflexão, o que é que a publicidade lá está a fazer?

Para assegurar despesas de manutenção?

Uma abordagem pragmática seria dizer que a publicidade pode servir para compensar os gastos com a própria manutenção do blog: registo de domínio, espaços em servidores extra para armazenar ficheiro, tempo gasto na escrita…

Se no caso das primeiras despesas, a quantidade de alternativas gratuitas faz parecer pouco razoável ou relevante a escolha, no caso do tempo “perdido”, impõe-se outra pergunta: se o tempo é “perdido”, ou seja, se não há mais-valia ou se se verificam perdas de produtividade em função do “investimento” feito no blog, faz sentido compensar desta forma (com publicidade), ou será melhor repensar a “pertinência” de ter um blog tão activo?

Imagino que esta argumentação pareça algo cruel, mas a minha experiência diz-me que, se pensarmos bem, o exercício de escrever um blog traz outras “mais-valias” e outros “ganhos” que, por vezes, é fácil menosprezar.

Para ser como os outros?

Este é o argumento mais “absurdo”, mas começo a achar que talvez seja um dos mais frequentes. Com a quantidade de blogs “profissionais” e “semi-profissionais” que nos habituamos a ler e que têm publicidade (como seria de esperar), talvez haja uma tendência crescente para achar que um “blog a sério” tem que ter publicidade, mesmo que nenhuma das outras razões seja relevante ou aplicável.

Como digo, não tenho certezas acerca de nenhuma destas coisas e tenho muito poucos dados acerca do rendimento que a publicidade pode trazer ao “blogger amador” ou da utilidade que terá para os seus leitores. Parece-me clara a utilidade desta tendência para alguns anunciantes e para os intermediários que ganham um canal vastíssimo. Mas, de resto…

Estranhamente, já vi muitas discussões e reflexões acerca de estratégias para aumentar o rendimento dos blogs, mas conheço poucas acerca da sua necessidade.

E vocês? Que respostas têm para esta pergunta? Que reacção têm à publicidade nos blogs?

PrintScreen “reverdesceu”

PrintScreen, Capturing the Buzz - agregador de blogs portuguesesO PrintScreen, na minha opinião, nunca perdeu interesse enquanto agregador— através do feed do “planeta” mantive um contacto permanente e interessado que me foi útil em várias alturas—, mas o site propriamente dito estava como que deixado ao abandono há alguns meses. Normalmente isso não augura nada de bom e o ciclo de degradação, depois do abandono, costuma ser difícil de inverter. Mas como as boas árvores, em terreno fértil, o PrintScreen “reverdesceu”, oferecendo, simultaneamente, um balanço de 2007 em formato PDF, escrito por alguns dos agregados e um novo ritmo de actualização da página de entrada, com destaques actualizados.

Por estas e por outras sinto-me bem, agregado ao PrintScreen.

Precisa dum inquérito online? LimeSurvey, sem dúvida!

 

LimeSurvey: uma aplicação open-source para a construção de questionários on-line extraordinária

Não é propriamente uma necessidade quotidiana, mas já por várias vezes fui abordado para dar conselhos ou apoiar a construção de vários tipos de inquéritos ou questionários on-line e, pela quantidade de vezes que sou solicitado para responder a alguns, parece-me que são ferramentas para levar a sério.

Entre outras coisas, porque um questionário online bem construído pode ser uma poderosa ferramenta de análise de mercado, uma boa base para um estudo de opinião ou um simples indicador estatístico, com uma população alvo vasta e custos de implementação substancialmente reduzidos.

Ser bem construído significa, por exemplo, ter possibilidades de gerar convites, validar respostas, permitir interrupções no preenchimento guardando o que já se fez, criar percursos condicionais, ordenar aleatoriamente hipóteses de resposta-múltipla para evitar distorções, exportar os dados em formatos fáceis de analisar em ferramentas específicas de estatística… e muitas coisas mais que vou aprendendo à medida que acompanho o trabalho de quem pensa nestes assuntos.

O meu companheiro nestes contextos é o LimeSurvey que não cansa de me surpreender por ser tão completo, tão bem pensado e implementado, tão equilibrado em termos de facilidade de utilização e flexibilidade. De tal forma parece ter tudo, estar preparado para tudo e permitir tudo que hoje perdemos algum tempo por presumirmos que teria uma função que, de facto, não tem: gerar ou seleccionar perguntas aleatoriamente de um conjunto pré-determinado. Pelo menos, não duma forma que permita guardar simultaneamente a pergunta e a resposta.
Para que tipo de questionário é que isso é útil seria difícil de explicar, neste momento, mas a verdade é que, sendo uma funcionalidade que eles reconhecem que poderá vir a ser implementada no futuro, para já, não existe.
E, provavelmente, não existe out-of-the-box na esmagadora maioria das aplicações do género, mas confiava de tal forma na aplicação que presumi que seriam favas contadas.

Ainda assim, a verdade é que, depois de perceber e aceitar que a solução mais elegante não estava disponível, encontrei um “dispositivo” que serve os propósitos do inquérito, não estraga nada e permite recolher a informação tal e qual se pretendia: um grupo de perguntas de controlo, com elementos aleatórios gerados por JavaScript e condições resultantes dessas respostas a determinar o passo seguinte, acrescenta uns cliques, mas resolve o problema.

Depois de “dobrar este cabo”, não tenho receio nenhum em recomendar vivamente o LimeSurvey a quem quer que precise de criar e/ou manter um questionário on-line para as mais variadas funções. Aliás, era óptimo se muitos questionários que recebo na caixa de correio fossem feitos por recurso a uma ferramenta deste tipo: as vantagens para quem responde são tão grandes como as para quem desenvolve.

Para mim, é um achado!

Last.fm: o que a web devia ser…

Last.fm logoO título é um bocado exagerado, mas confesso que estou completamente rendido à Last.fm e quase “viciado” no conceito de “Internet Radio” que eles oferecem. Já tentei várias vezes explicar a pessoas que conheço como é e como funciona, mas quase nunca consigo transmitir claramente aquilo que me cativa. A verdade é que uma parte das pessoas não percebe e não perceberá, porque está demasiado habituada a formas de partilha e dowload ilegal de música e não encontra ali nada que não possa “sacar” de outros sítios sem peso na consciência.
Eu, não sendo nenhum santo, gosto da sensação de ouvir a música legalmente, não pelo medo ou pelo respeito pela indístria discográfica, mas porque me parece que aumento as possibilidades de não estar a desrespeitar a vontade dos autores, que é a única que me interessa. E na Last.fm, posso ouvir de tudo, como numa rádio, mas não posso descarregar todas as músicas (só as disponibilizadas pelos artistas ou editoras) e, nesse sentido é algo de muito próximo de estar a ouvir rádio real. Mas sem as desvantagens— não tenho anúncios, nem interrupções idiotas nem tenho que estar dependente da vontade dos programadores— e com muitas vantagens: desde a minha capacidade de modelar a programação através de tags, de relações entre artistas ou de gostos/recomendações da comunidade (isto uso pouco) até à possibilidade de ir ver o que estou a ouvir (neste momento ou há bocadinho) e encontrar informação adicional, gerada e gerida pela comunidade num modelo de wiki que funciona extraordinariamente bem.

Mas mais do que ser um valioso “upgrade” do conceito de rádio, a Last.fm surpreende-me pela extraordinária biblioteca disponível, que me oferece horas infindáveis de música de que gosto, alguma da qual desconhecia completamente, e em géneros musicais que não têm (quase) nenhum espaço na rádio tradicional (e não estou só a falar da minha música ;) ).

Experimentem pedir à Last.fm para vos tocar artistas parecidos com Fred Frith, Derek Bailey, John Zorn… ou Charlie Parker e Ornette Coleman, ou Stravinsky, Ligeti, John Cage, Risset, ou… Black Sabbath… já perceberam a ideia ou terei que sugerir Nelly Furtado para perceberem como se fazem as rádios comerciais que alguns de nós têm que gramar no carro? ;)
Experimentem mesmo e verão que o mais extraordinário é o fluxo das escolhas e das relações entre músicas que se constrói quer por sugestão das editoras e dos artistas, quer pela análise dos hábitos de escuta da comunidade de utilizadores e, quase de certeza, além de música que queriam mesmo ouvir, irá surgir música que não sabiam que queriam ouvir, música da qual já se tinham esquecido, música que nunca pensaram arrumar naquela prateleira, música verdadeiramente nova… Tudo é possível.

Ou serei eu que tenho muita sorte?

Em jeito de graça narcisista, deixo-vos o link de uma “estação” que tenho sincronizado frequentemente. E até aqui surjem agradáveis surpresas. ;)

Nota: o destaque que dou ao serviço da rádio não pretende menorizar todas as outras valências altamente interessantes da Last.fm, da qual se destaca o calendário de eventos, mas a verdade é que é este o maior factor diferenciador da plataforma, na minha opinião.

Schmap Guides disponíveis para Mac users

Quando algumas das minhas fotografias de Parma foram seleccionadas para um guia interactivo, apesar de algum orgulho, chateou-me que o software em causa não funcionasse em Mac’s e recebi a promessa dos editores que a correcção dessa situação fazia parte dos planos deles para um futuro breve.

Tardou, mas aconteceu: os Schmap Guides já funcionam correctamente (lembrem-se que é uma beta) em Mac OS X, na versão online e desktop.

O guia de Parma só está disponível na versão desktop, por isso, foi esse que testei primeiro e é (com) esse que (me) exibo:

Schmap Guide de Parma, com fotografias minhas sublinhadas

O conceito é interessante e muito “web 2.0″: em vez de criarem conteúdos, procuram-nos onde eles existem, pedem autorização aos autores e fazem uma espécie de agregador de informação turística (mapas, textos, fotografias), que acaba por funcionar como guia.

Art 2.0… where to, Mr. Benjamin?

Quando li, pela primeira vez, este artigo a classificar o David Fonseca como um “Artista 2.0″, pela estratégia recente de difusão do seu trabalho, com um recurso inteligente à web, e por acumular competências artísticas em vários domínios (a propósito do acto de ser o realizador do seu último videoclip, Superstars), achei que não o deveria comentar porque, não sendo eu minimamente próximo do mundo da música pop, era mais do que provável que qualquer comentário fosse mal interpretado.

Mas fiquei a matutar nisso e o lançamento do iLife ’08, por razões não muito fáceis de explicar, deu-me vontade de avançar alguns comentários.

o iLife e a Renascença

Antes de outras coisas, preciso de tentar explicar a relação que encontro entre a suite de aplicações Life, da Apple, e o conceito mais ou menos mitológico do “Homem da Renascença” ou “Homo Universalis”, que é, na verdade, aquilo que leva algumas pessoas a olhar para artistas que “acumulam” competências em várias valências ou disciplinas, como Artistas (mais) completos ou (mais) à frente do seu tempo— é curioso à partida que uma atitude historicamente associada à segunda metade do século XV continue a servir para classificar uma certa ideia de vanguarda ou, pelo menos, de modernidade…

Ao fornecer um pacote muito acessível de aplicações extraordinariamente intuitivas, mas fortemente pré-modeladas, para a manipulação rápida e com relativa qualidade técnica de vários media (música, fotografias e vídeos) a Apple fez uma revolução, ou contribui para a revolução em curso na relação entre consumidores e produtores de bens culturais de grande consumo, ao diluir as fronteiras técnicas que faziam depender de equipamentos e profissionais altamente especializados qualquer operação de produção e divulgação desses bens culturais. O que a Apple fez com a filosofia subjacente ao GarageBand e ao iMovie na área dos meios de produção, fizeram os novos serviços da chamada Web 2.0 aos canais de distribuição e, tão ou mais importante do que a real utilização e potencial destas ferramentas, no ambiente altamente mediatizado em que vivemos, é a rapidez de difusão da ideia de que, com estes novos meios digitais e com estas “apps e gadgets bués de cool“, os processos criativos passavam a estar ao alcance de qualquer um.
Se a diluição de algumas fronteiras técnicas e o acesso facilitado a melhores meios de criação e produção nas áreas da música e do vídeo são sempre boas notícias, em termos de promoção da criatividade e nivelamento do campo, o pitch de marketing muito apetecível de que “qualquer um pode ser uma estrela e criar um sucesso“, além de ser ofensivo para uma parte significativa de criadores e artistas emergentes ou estabelecidos, introduz uma perigosa distorção na avaliação do trabalho desenvolvido e apresentado ao público, dada a desvalorização acentuada dos meios e das competências necessárias nas várias áreas artísticas.
Este problema não resulta duma postura exclusiva da Apple, nem é um problema exclusivo do nosso tempo, e talvez seja uma “faca de dois gumes” que não pode deixar de ir abrindo caminho e feridas à sua passagem.
(Este é o meu principal engulho actual com a Apple, do qual resulta também a minha apreciação da iCreate, para quem estiver a pensar nisso).

Neste contexto, esta espécie de iRenascença que os novos meios tecnológicos nos oferecem não passa dum aprofundamento da situação analisada por Walter Benjamin em “A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica“, temperada pela lógica consumista do fast-food e do ready-made que, para lá das suas aplicações filosóficas e estéticas, levantam problemas éticos reais na avaliação do papel do criador, do técnico especializado e da ferramenta… problemas com que vivemos quotidianamente, aliás.

Art 2.0… como estar à frente do seu tempo

Perceber-se-á que, neste contexto, me custa engolir a ideia de que o esforço do David Fonseca possa ser levado demasiado a sério, como “um novo tipo de artista”, e nem sequer me parece que o próprio dê um valor por aí além às suas incursões, naturais nos tempos que correm, às áreas afins da concepção e realização plástica dum videoclip. Não sou especialista mas creio que não será difícil fazer uma lista de artistas (nacionais e estrangeiros) que em várias áreas musicais têm apostado numa lógica de criação que excede a simples escrita e produção de canções, integrando num conjunto coerente a experiência plástica dos concertos, o conceito de eventuais videoclips ou outros métodos de distribuição ou a construção de “personagens” que resultam em concept albuns, em concept bands… e uma parte significativa desses criadores reconhece, há muito, o papel da web, não só como montra, mas como espaço de interacção com o público e suporte de novas experiências.

De facto, a geração MTV consome doses cavalares de híbridos audiovisuais que já há muito deixaram de ter identidade musical autónoma das suas representações gráficas ou de uma identidade plástica, no que poderia passar por um alucinado cumprimento do ideal Wagneriano da GesamtKunstWerk. :D

Em tal contexto, parece necessário olhar para as diferentes atitudes entre criadores (na música e em todo o lado) e valorizar as reflexões mais críticas acerca dos meios de produção e distribuição, e seria particularmente interessante destacar alguns exemplos de quem procurou, realmente avant-la-lettre, novos meios de interagir e partilhar ideias com o seu público, integrando a Internet e as TIC na sua existência, em vez de usarem simplesmente receitas já conhecidas e gastas. Exemplos já reconhecidos, como o dos Einstürzende Neubauten e do seu Supporter Project, estabeleceram verdadeiramente novos padrões na avaliação da relação de projectos musicais com a internet e têm frutos visíveis, ainda que não óbvios, um pouco por todo o lado.

em jeito de conclusão

A capacidade de encontrar e explorar novos meios para a expressão e partilha de ideias e objectos artísticos em suportes interligados, complementares e trandisciplinares será, provavelmente, um recurso bastante mais frutuoso do que a simples acumulação de habilidades técnicas que as sucessivas revoluções computacionais tornam mais comuns. E essa capacidade passa por atravessar fronteiras disciplinares e partilhar com outros criadores e técnicos a realização de ideias e conceitos, criando sinergias e gerindo talentos.

Algures por aí andará a Art 2.0.

Concorda, Mr. Benjamin? E os leitores?

Fadiga Social

Voltei de Évora cansado, como é habitual depois dum concerto da Fanfarra e trouxe alguns contactos, como de costume, para tentar dar uso e fazer crescer as redes sociais online em que me envolvi (MySpace, Virbº, Last.fm, hi5, etc…), especialmente nesta altura em que se prepara a nossa aparição num evento de tão larga escala como é o Festival de Paredes de Coura.

Como sempre, o processo de abrir e fechar sites para adicionar contactos, escrever pequenas notas acerca do que aconteceu e pôr avisos para o que vai acontecer, responder às várias solicitações e “parecer vivo” consome mais tempo do que deve e faz-me pensar que a interoperabilidade nas plataformas de social networking devia ser um desígnio base. Escrever num blog único, colocar as fotografias num álbum único e os vídeos na sua própria galeria, publicar um podcast uma única vez e BUM! (à la Steve Jobs) ter os conteúdos todos, automagicamente espalhados pelas várias redes, onde ferramentas de interacção mais específicas e lógicas de agregação mais selectivas me permitissem fazer a real “gestão” da(s) minha(s) rede(s) de contactos sociais… isso é que era vida!

Em vez disso, acrescentei à minha lista de redes sociais a avaliar (onde já só estava o Facebook), o Multiply, porque lá recebi mais um convite dum amigo real.

É ou não de emaranhar pelas paredes? Felizmente o calor que se faz sentir não dá para grandes irritações… :(

Ao fundo do túnel, o Jeffrey Zeldman alerta para esforços recentes na área da social network portability. A malta deste projecto fala mesmo de “social network fatigue“… sei bem o que isso é.

O que é que poderei fazer para ajudar? Desde que não seja estar em todas as redes a fazer lobbying para a adopção deste ou daquele standard… é que sou muito céptico acerca da adopção de qualquer standard ou prática decente por parte das plataformas com mais peso no negócio.

Como é que o hi5 pode ser tão mau?

As plataformas de social networking mais populares são, regra geral, as piores em termos de funcionalidades, estrutura base e rigor e robustez do código. O MySpace e o hi5 são bons exemplos de como as piores práticas (im)possíveis e (in)imagináveis em termos de programação dão origem a plataformas com um crescimento “assustador” e que acabam, infeliz e perigosamente, a ditar tendências de utilização e rotinas-padrão para muitos utilizadores finais da web.

O crescimento mais modesto de projectos como o Virbº e a Last.fm, por outro lado, mostram como o rigor no design e no código estão longe de ser critério na escolha das plataformas. Em bom rigor, as pessoas escolhem e usam as ferramentas de interacção social como quem escolhe o(s) café(s) e discoteca(s) a que vai: uma pequena parte da decisão depende do gosto pessoal, uma parte significativa, do “grupo” a que se pertence, uma outra ainda, dos grupos a que se quer pertencer.

(Deixo ao vosso critério a interpretação do facto de estar presente em todas estas plataformas.)

Mas o que não me cansa de surpreender é como o hi5 é mau. Em coisas básicas como a codificação de caracteres, por exemplo, é quase pré-histórico:

hi5 e a codificação de caracteres: como é que o hi5 pode ser tão mau?

Ó senhores, nunca ouviram falar do Unicode? Até dá para pôr texto de pernas para o ar

E o pior de tudo isto é que, pelo número de pessoas que se vê a abdicar no hi5 do uso de acentos, cedilhas e outros caracteres fundamentais do português bem escrito, fica-se a perceber que há muita boa gente a quem a debilidade da plataforma em nada prejudica.… será que é considerado prático pela “geração SMS”?

É triste. :(

Próximo desafio: multilingual

Já fiz algumas experiências com artigos bilingues neste blog e já usei, com relativo sucesso, uma solução de portal bilingue construída com Joomla! e Joom!Fish.

Como estou numa de desafios e remodelações e porque o jLanguage, apesar de útil em pequenas coisas, levanta problemas complicados, por exemplo, nos feeds RSS (esta é para ti, Guilherme), vou agora deitar as mãos ao Gengo… desejem-me boa sorte.

Se tudo correr bem, volto em breve, com alguns artigos em inglês e português. Mais uma experiência que este blog, isoladamente, não exige nem justifica, mas que poderá ser bastante útil num futuro próximo.

I’ll just cross my fingers and hope for the best… ou coisa assim.