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A adolescência e a linguagem

A “Pública” da semana passada falava de “teenies”, pré-adolescentes, apresentando crianças socialmente “precoces” e mostrando a expansão, por antecipação, de certos comportamentos típicos da adolescência.
Concordo com o Eduardo Prado Coelho que, na sua coluna, uns dias depois, avançava a possibilidade de não haver nisso nada de (mais) estranho relativamente à mesma expansão, mas por prolongamento a que temos assistido sem grande alarido.
Ao fenómeno dos “teenies”, associa-se o dos “tweenies” e a lógica mais ou menos perversa que a obsessão pela juventude nos instila: a irresponsabilidade, inimputabilidade, inconsciência, por vezes disfarçadas atrás do mito da “irreverência” adolescente, prolongaram, nas sociedades ocidentalizadas, a dependência dos jovens relativamente aos pais, adiando, por vezes ad nausea a construção independente dum futuro adulto. E nem sequer me refiro exclusivamente à dependência económica: mais perverso é o sistema mental que permite o prolongamento dum estilo de vida que, independentemente das fontes de rendimento, se baseia, acima de tudo na tentativa de evitar responsabilidades.
Esta obsessão pela juventude, ou melhor, pelos clichés associados à juventude, atrofia o amadurecimento do país, estimulando esquemas de dependência e transferência de responsabilidades que deixam gerações inteiras num limbo onde se pensa “quem tem que pensar nessas cenas são os cotas e eu não sou cota. Yá, já tenho 30 anos e um emprego, mas o que é que isso tem a ver? Cota é o meu pai, o meu patrão, e os engravatados da assembleia da república e assim… ’tás a ver?”

O fenómeno dos “teenies” é a continuação natural desta obsessão, com uma perversão acrescida: pelos relatos que lemos nas páginas da “Pública”, é notório que alguns destes “teenies” são (têm que ser) filhos de “tweenies” e assim se gera uma espécie de ciclo vicioso. Miúdos entre os 8 e 12 anos que passam horas na internet, decidem se querem ser “góticos” ou “dreads” a partir de salas de chat e acham que deviam poder sair à noite, muito provavelmente, estão a exercer pressões verosímeis, construindo a sua realidade social a partir da realidade observada nos “adultos” que partilham o seu habitat.
Essa é uma parte da questão, pelo que me parece pobre, do ponto de vista analítico, uma concentração no fenómeno observável nas crianças, sem correspondente análise do comportamento dos progenitores.

Mas o EPC debruça-se sobre a sua percepção deste fenómeno e concentra-se no problema da linguagem:

Escutando as conversas destes candidatos à adolescência, concluo que têm um vocabulário sucinto e concentrado em certas áreas temáticas. Que utilizam obsessivamente determinados estereótipos. Que por vezes deslizam para formas que se aproximam do grito ou do grunhido. E que, embora frequentem o cinema, com pipocas e tudo, é a música que emerge como a prática cultural dominante.

Há um aspecto que vale a pena citar. Estes jovens não têm os mesmos rituais linguísticos que nós tínhamos. Na minha geração, a linguagem era um instrumento de sedução em que a rapariga deixava que as palavras a tocassem afectivamente. Aflorar com a mão o joelho trémulo era o mesmo que ir buscar uma citação de um poeta: mostrava-se entre duas pessoas um espaço de encanto e delicadeza. Hoje, rapazes e raparigas falam exactamente a mesma linguagem, feita de piadas algo boçais e convites explícitos. A linguagem não tem zonas secretas nem assimetrias sexuais. Instrumentalizou-se sem invenção nem insinuação. Os códigos amorosos perderam subtileza e requinte.

Já muito se disse sobre as alterações do uso da língua e sobre um certo afunilamento dos códigos. Com ou sem juízos de valor associados, esta constatação é relevante, assim como é a constatação de que as barreiras culturais se vão esfumando, ou melhor, vão mudando de sítio.
Estando mais ou menos em sintonia com a ideia de que houve um tempo em que as “assimetrias sexuais” se revelavam (também) no uso da linguagem, é interessante notar esta possível evolução de que fala EPC. Notando-se uma certa nostalgia, pode-se no entanto dizer que, a ter uma correspondência com a realidade, esta percepção é (mais) um sinal inequívoco das vitórias na luta pela emancipação feminina. E digo isto sem nenhuma ironia.
Para o melhor e para o pior, saber que rapazes e raparigas têm a mesma (falta de) liberdade no uso da língua, dá-nos uma noção sobre o estado de igualdade em que se encontram.

O que me parece que é mais relevante, no que a este afunilamento de códigos diz respeito, e cruzando ainda esta análise de EPC com o artigo referido da “Pública”, é o facto de determinadas barreiras linguísticas se terem deslocado de obstáculos e fronteiras “naturais”— o sexo, as condições económicas, o nível de formação, etc— para obstáculos e fronteiras “sintéticas”— as “tribos urbanas”.
De facto, se EPC continuar a ouvir com atenção os pré-adolescentes e os adolescentes (e até alguns pós-adolescentes), continuará a encontrar dificuldades na identificação de assimetrias onde elas existiam tradicionalmente: os rapazes e as raparigas falam da mesma maneira, um(a) estudante universitário(a) e um(a) empregado(a) de balcão com o 9º ano falam da mesma maneira, um(a) menino(a) da Foz e um(a) bacano(a) do Aleixo também.
Desde que sejam todos “dreads”, ou “betos”, ou “góticos”, ou “geeks”, ou…

Caricaturo, como sempre, mas há um fundo de verdade nesta análise. E o que é constante é a ideia de que se assiste a um afunilamento perigoso dos códigos linguísticos. E ninguém negará a presença cada vez mais evidente da “estilização” da linguagem, que acompanha as estranhas definições de “estilos de vida” que, marcadas acima de tudo por hábitos de consumo e estratégias de “branding”, tentam ser, antes de mais, socialmente transversais.

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