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As traseiras da Casa da Música

A polémica era inevitável. Na quarta-feira, o arquitecto José Barbedo escrevia assim no Público:

Um tal de Ginestal

As notícias editadas nos últimos dias sobre a aprovação do projecto de Ginestal Machado para as traseiras da Casa da Música levantam questões várias e merecem uma reflexão profunda. Este é um caso flagrante de má gestão do interesse público por parte da Câmara Municipal do Porto (CMP), ao longo de diferentes mandatos e com agravamentos sucessivos. A negociação dos terrenos da Adicais para a nova sede do BPN e os atrasos na entrega dos terrenos decorrentes do contrato de venda por parte da CMP permitiram a esta empresa adquirir direitos e contrapartidas dos quais a cidade do Porto é a principal lesada.
Este processo é revelador do poder excessivo das câmaras municipais na aprovação dos projectos que compõem a paisagem urbana, carecendo de pareceres institucionais das tutelas competentes, como deveria ser a Ordem dos Arquitectos, na apreciação da qualidade destes projectos e da competência técnica dos seus autores.
As câmaras apoiam-se nas figuras jurídicas existentes (Plano Director Municipal e outros regulamentos) para balizar e justificar as suas decisões, muitas vezes desprovidas de qualquer critério de qualidade técnica e/ou estética. É, no entanto, possível aos planos a sua alteração excepcional, como moeda de troca a contrapartidas adquiridas, como este caso é exemplo. Estas excepções podem e devem existir, mas, sempre que se justificar, elas devem ser objecto de debate público e sujeito a concurso, no sentido de encontrar soluções que garantam as premissas de densidade e volumetria de construção, mas sem descurar a qualidade urbana e arquitectónica destas.
Este caso reflecte o fraco entendimento e incapacidade que tanto promotores como entidades reguladoras têm na escolha das suas equipas técnicas. Este é um problema sociocultural que deve ser enfrentado, orientando os promotores na procura de soluções alternativas, sem prejuízo dos seus direitos adquiridos, sejam estes da Adicais, quando pretende construir a nova sede do BPN, ou por exemplo, da Sonae, quando lhe é permitida a construção de um novo shopping. Porque Genistais há muitos, mas técnicos de qualidade também.
A forma definitiva como são anunciadas estas decisões reflectem um défice de espaço público, onde as vozes de protesto assumem um carácter esporádico, muitas vezes acompanhadas de uma certa ironia conformista. Esta é da responsabilidade dos técnicos e também da sua Ordem profissional, que devem participar activamente na crítica e no julgamento da qualidade arquitectónica e urbanística, mesmo quando não são invocados, e assumir as suas opiniões no debate público.
Enquanto Siza e Souto Moura estão demasiadamente ocupados a vender paralelepípedos na Baixa, o que pensará Koolhaas desta cidade? Não existirão forças na nossa sociedade capazes de dizer claramente que este projecto é simplesmente feio, grosseiro e medíocre? É necessário esclarecer e não deixar espaço para ilusões na opinião pública, que um mau projecto de arquitectura nunca se poderá regenerar com simples amputações ou aberturas de buracos maiores ou mais pequenos.
Aguardamos também pela posição do Ippar, visto interferir directamente com um edifício que só por miopia não é já património da cidade do Porto, da mesma forma que o é a Torre dos Clérigos ou a Ponte da Arrábida. É preciso aprender com os edifícios transparentes, os hospitais de Santo António e os centros comerciais do Bom Sucesso, para não repetir os mesmos erros e ter a coragem de dar um passo atrás. Todo o silêncio será cúmplice.

José Barbedo, arquitecto

Ginestal Machado respondeu hoje, também no Público:

Repor a verdade

Desde o momento em que a Sociedade Porto 2001 decidiu proceder à adjudicação do projecto da Casa da Música, muito se tem dito e escrito. Situação natural face à importância da iniciativa, ao relevo da mesma para o paupérrimo panorama cultural da cidade e da Área Metropolitana, já para não falar do conceito subjacente ao projecto que aqui me escuso de comentar por prezar a salvaguarda de princípios de deontologia profissional e o respeito devido às opções estéticas de colegas de profissão.
Não posso contudo, como portuense, deixar de relembrar, àqueles que o parecem ter esquecido, de forma mais ou menos consciente, as peripécias que envolveram não só a adjudicação do projecto como a execução da obra, a derrapagem de custos da mesma (inicialmente 30 milhões de euros, falando-se agora em custos finais rondando os 150 milhões), as alterações efectuadas – quem não lembra da polémica sobre o “fosso de orquestra” e das alterações interiores para satisfazer os “gostos” de alguns administradores de passagem – ou as alterações ao projecto – “pala ondulante” e cafetaria – que, violando de forma flagrante a legislação urbanística e os regulamentos municipais, obrigaram a Câmara Municipal do Porto a promover uma alteração ao alvará de loteamento existente para o local.
Procura-se apressadamente evitar o ridículo que seria ver os nossos governantes municipais e nacionais participarem na inauguração de um edifício ilegal.
Será que são estas questões que subjazem às declarações de Rem Koolhaas quando, em entrevista ao Jornal de Notícias, afirma, perante o silêncio geral dos fazedores de opinião e das entidades visadas: “É bem verdade que um edifício destes só podia acontecer em Portugal ou Espanha… Mas houve outro pormenor: a situação política aqui é caótica. Continua a ser. Esse contexto muito particular [risos] deu-nos liberdade para manobrar conforme quisemos. Desde que a obra começou, eu já conheci cinco conselhos de administração”.
Pois bem, é este “manobrar” que não está ao alcance daqueles que, fazendo da Arquitectura a sua profissão, têm que se confrontar com o cumprimento rigoroso da legislação existente, com a morosidade exasperante das entidades licenciadoras e seus estados de alma, com os desejos dos clientes e com a obrigação de cumprir condições de viabilidade económico-financeira na implementação dos projectos.
É com este enquadramento que se procura desviar as atenções para o edifício por mim projectado para as designadas “traseiras da Casa da Música”. Sendo certo que as traseiras da Casa da Música se orientam para as Ruas dos Vanzeleres, de Ofélia Diogo da Costa e para a Avenida da Boavista, rigorosamente deveria falar-se do edifício ao lado da Casa da Música. Problema insignificante, mas que, tendo em conta o que já foi escrito sobre o tema, certamente irá potenciar novas achegas. Quanto mais não seja porque estar ao lado tem valor diferente do estar atrás.
Será que alguém pretende que uns sejam mais iguais do que outros?
A cortina de fumo que alguns pretendem criar visa fazer esquecer não só a oposição manifestada por variados sectores da sociedade portuense quando foi conhecida a localização da Casa da Música bem como as condições e os parâmetros urbanísticos, definidos pela Câmara Municipal do Porto, que balizaram um concurso internacional por convites que deliberadamente excluiu os arquitectos portugueses. Desse concurso saiu vencedor o arquitecto Koolhaas e a sua proposta reflectia esses mesmos parâmetros.
Para reavivar a memória de alguns mais letrados basta que consultem o site www.oma.nl do arquitecto Koolhaas ou revistas de Arquitectura nacionais e internacionais, uma das quais, o Jornal dos Arquitectos de Março de 2000 editada pela Ordem dos Arquitectos Portugueses, onde as suas propostas para a envolvente à Casa da Música se apresentam com uma total clareza.
No que se refere às tão badaladas vistas de mar que estariam a ser retiradas a todos os que vierem a frequentar a Casa da Música, relembra-se, mais uma vez, que foi elaborada e apresentada à Câmara do Porto, a seu pedido, uma solução arquitectónica contemplando a designada “janela” no enfiamento visual do “janelão” da Casa da Música, solução que não teve continuidade e que mais não passou de um mero exercício.
Em relação a este “capricho” de ver o mar da Rotunda da Boavista, estou em crer que só a criação de uma servidão administrativa de vistas correndo paralelamente aos cinco quilómetros da Avenida da Boavista permitiria resolver o problema. Mesmo assim só possível com a ajuda de meios complementares de visão a distância a fornecer pela Casa da Música a todos os frequentadores do espaço.
Porque não fazer reflectir no Plano Director Municipal tal solução em nome e na defesa do edifício Casa da Música?
E porque não impor à Câmara do Porto, em período tão fértil em opiniões avulsas, a demolição das ilhas e das restantes construções degradadas que se encontram no interior do quarteirão situado entre a Casa da Música e a Rua de 15 de Novembro e das quais ninguém fala?
Termino aconselhando os fazedores de opinião que sobre este tema se têm pronunciado a passarem a fronteira e sentirem o pulsar de outras cidades e a forma como obras de referência da Arquitectura contemporânea dialogam e conflituam com os espaços envolventes, vide o caso do Museu Guggenheim de Bilbau.

António Ginestal Machado, arquitecto

José Barbedo tem razão quando diz que “todo o silêncio será cúmplice”, mas Ginestal não erra ao apontar para as fragilidades de Koolhaas e do projecto da Casa da Música. Já até se disse que o arquitecto holandês estava agora a ser vítima da sua própria estratégia habitual de negligenciar o contexto. É verdade, mas essa é uma discussão disciplinar. No fundo, a verdadeque interessa é que a cidade do Porto tem tudo a lucrar com a integração e afirmação pacífica da Casa da Música como ícone da sua identidade urbana contemporânea e tudo a perder se ela tiver que lutar com a sua envolvente pelo direito ao protagonismo arquitectónico. Claro que é uma luta ganha à partida (não é preciso gostar da Casa da Música para perceber isso), mas o confronto não traz nada à cidade a não ser mais confusão e ruído.
Rem Koolhaas até poderia achar graça à escaramuça, mas o Porto já tem conflitos a mais. E, nestas alturas, o público deve submeter o privado. Afinal de contas, é duma cidade que estamos a falar.

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