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A provocação de Jorge Marmelo

Mais uma nota, do Local Porto do Público.
A polémica da Casa da Música instalou-se definitivamente nas páginas dos jornais. Até às últimas consequências? Esperemos que sim.

Pequeno tratado sobre a emoção estética
Jorge Marmelo

Vem nas enciclopédias. Arte é aquilo, objecto ou acto, que tenha sido realizado com o intuito de transmitir prazer a outros pela emoção estética. Não sendo este o lugar apropriado a uma discussão aprofundada desta ou de outra qualquer definição, nem este autor o mais apetrechado para tal bate-boca, sempre se acrescentaria que o objecto artístico, a obra de arte, parece ainda caracterizar-se pela originalidade; mais: pela singularidade. Cópia nenhuma, parece, pode aspirar a ser classificada como obra de arte. A Mona Lisa, goste-se ou não, é o quadro que pode ser visto no Museu do Louvre, em Paris, do mesmo modo que a Guernica é aqueloutro que está no Museu Rainha Sofia, em Madrid, não sendo possível confundi-los com nenhuma das incontáveis reproduções que proliferam por toda a parte, dos porta-chaves às malgas a para o leite.
Postas as coisas nestes (sempre contestáveis) termos, pode-se, creio, passar a analisar mais apaziguadamente a polémica que tem rodeado a construção de um edifício, espelhado e bancário, nas traseiras (ou ao lado, depende da perspectiva) da Casa da Música desenhada por Rem Koolhaas. Não sendo a emoção estética, ao contrário do que supunham os filósofos de antigamente, um sentimento universal – todos conhecemos homens capazes de lamber o chão pisado pela actriz Angelina Jolie e outros que sinceramente desdenham da dimensão artística dos seus protuberantes lábios –, sempre haverá quem contemple com embevecimento sincero o edifício desenhado pelo arquitecto holandês, do mesmo modo que, a outros, a construção parecerá um mamarracho infame. Todavia, é certo que a Casa da Música do Porto é original e singular, e que provoca uma determinada emoção estética, ainda que nem sempre positiva.
É uma obra de arte? Logo se verá. Mas parece ainda contar, a seu favor, com uma certa aura desafiadora e transgressora que sempre rodeou aquilo a que se convencionou designar pela expressão “obra de arte”. Van Gogh foi um incompreendido, por exemplo, e terá vivido indigentemente. Antes disso, chegou-se ao ponto de queimar alguns “artistas” incómodos. E tudo, afinal, porque não cumpriam alguns dos códigos em vigor. E também há quem garanta que a Casa da Música desrespeita o Plano Director Municipal sob cuja vigência foi autorizada a construção. O caso está nos tribunais, mas também isto não garante que a decisão que venha a ser tomada levará em conta a dimensão estética do edifício. A justiça, como se sabe, deve ser cega, o que, no caso em apreço, dificilmente conduzirá ao bom veredicto.
No que respeita ao imóvel que o arquitecto Ginestal Machado idealizou para servir de sede a um banco, alto e espelhado como se usou em tempos, os mesmos argumentos devem ser tidos em conta. Não há ainda quem tenha apontado qualquer ilegalidade ao projecto, excepto aquela, subjectiva, de atentar contra o bom gosto e o bom senso – os quais, não sendo objecto de nenhum código escrito universalmente aceite, se apresentam com um carácter mais vago, mas nem por isso menos rigoroso do que os fundamentos que levaram, outrora, à incineração de livros incómodos ou degenerados. Em última instância, seria possível apiedarmo-nos do arquitecto Ginestal por vê-lo acossado pela perseguição horrenda da Santa Inquisição do Bom Gosto. Todavia, e se tivermos por fidedignos os desenhos já conhecidos daquilo que vai ser o imóvel, diicilmente se assinalará à futura sede do BPN qualquer traço de especial originalidade ou algum substancial assomo de singularidade.
Parece, pois, que, postos um diante do outro, teremos na Casa da Música uma obra de arte arquitectónica, talvez até uma obra-prima (mas esta seria outra conversa), e no futuro BPN algo que será um objecto da Arquitectura, mas dificilmente uma “coisa artística”, do mesmo modo que ninguém reconhecerá grande valor estético a uma tela desinspirada pintada por um licenciado em Belas-Artes. Vendo bem, é mesmo possível supor – com a dúvida inerente ao facto de estarmos a falar de um edifício ainda inexistente – que a única emoção estética que assaltará quem futuramente contemple a fachada do BPN resultará do facto de nela se achar reflectida a Casa da Música. Acredite-se que é possível: já me espantei com o reflexo do imóvel numa montra da Avenida da Boavista. Todavia, como sucede com a Guernica impressa numa t-shirt, ninguém confundirá o edifício de Ginestal Machado com a Casa da Música.

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