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“Universidades não devem ser escolas de iniciação a práticas fascistas” (Mariano Gago)

Jornal PÚBLICO, 7 de Novembro de 2005

“Universidades não devem ser escolas de iniciação a práticas fascistas”

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior recebeu na última semana uma queixa de uma aluna por causa de uma praxe. Gago incita a os estudantes a queixarem-se e as escolas a não se mostrarem coniventes com o que se passa

No início do ano lectivo decorrem os chamados rituais de recepção aos caloiros. Qual é a sua posição sobre as praxes?
É de uma enorme revolta. Tenho um enorme apreço pelo ensino superior, as universidades e politécnicos são centrais para o desenvolvimento de uma sociedade moderna, mas acho que não são só escolas de instrução, mas também de educação, onde muitos jovens aprendem a viver e a participar na vida democrática. Não devem ser escolas de submissão e de iniciação a práticas fascistas.

É contra as praxes?
Sou absolutamente contra aquilo que se designa, com algum humor sádico e machista, por praxes académicas, como se nos devêssemos rir disso. São uma escola de falta de democracia e fascismo e devia haver uma atitude de menos complacência por parte de todos, nas universidades e fora delas.

Nos últimos anos tem havido algumas queixas, sobretudo de alunas em relação às praxes. Este ano não foi excepção?
Recebi na quinta-feira, pela primeira vez, um caso que me deixou infinitamente revoltado de uma aluna de Bragança que está neste momento em casa, que pretende abandonar os estudos. Comuniquei o caso à Procuradoria-Geral da República, no dia seguinte, para investigação criminal.

O que é que se passou?
Não vou entrar em detalhes. Comuniquei às entidades competentes, mas gostava de deixar este alerta: pela minha parte, naquilo que eu puder fazer (mas não posso fazer sozinho, preciso do apoio da sociedade portuguesa), serei contra qualquer complacência nesta matéria.

As instituições são coniventes?
As universidades não são sítios onde a lei não se aplica. Não é possível que um pequeno ou grande grupo de alunos utilize a arma da praxe ou a ideia de que é preciso uma festa de iniciação para humilhar e espezinhar os seus colegas mais novos.

Vai tomar alguma medida?
Aplicar a lei e exigir o seu cumprimento dentro das universidades. Não podemos aceitar nem assédio nem humilhações em nenhum sítio. Não há paraísos para a humilhação ou para práticas fascistas e esses paraísos não podem estar dentro do ensino superior. Tomarei o máximo de medidas que seja possível tomar e peço que aqueles que sejam vítimas se queixem. Se não o fizerem estarão a ser cúmplices dessa barbaridade.

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