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Vitórias de Pirro

A Fanfarra Recreativa e Improvisada Colher de Sopa – F.R.I.C.S. é um dos projectos musicais mais estimulantes e consistentes em que alguma vez estive envolvido. Congrega músicos talentosos e criativos, articula um discurso relevante e comprometido, envolve e interage com diferentes tipos de públicos, estabelece pontes entre diferentes expressões musicais e culturais e, para lá de tudo isso, proporciona momentos de boa música e algum entretenimento a quem aparece.

Este discurso feito por mim, membro fundador e “militante” é, no mínimo, suspeito, mas fomos recebendo confirmações destas e doutras coisas no contacto com o público e no contacto com outros músicos que nos ouviram ou que tocaram connosco. Aliás, se não houvesse algum nível mínimo de consenso à volta disto, o Rui Eduardo Paes não me teria convidado para escrever sobre nosso o primeiro ano de estrada para a jazz.pt e muito menos teria escrito esta introdução:

O crescendo de popularidade em apenas 15 meses de vida desta invulgar mini-“big band” está a torná-la num dos mais curiosos fenómenos musicais da actualidade do nosso país.

E o facto de irmos assegurar, a convite da Fundação de Serralves, o “suporte musical” à apresentação de uma peça da Trisha Brown Dance Company nos próximos dias 29 e 30, no âmbito do Ciclo Paralelo à Exposição “Robert Rauschenberg: Em viagem 70-76”, é mais uma forma de validação do projecto. Assim como a importante colaboração estabelecida com a Associação Musical e Cultural São Bernardo, que nos permitirá neste evento e no futuro, contar com mais músicos e aprender mais sobre o universo que decidimos explorar, no contacto com a Fanfarra de São Bernardo e com os restantes agrupamentos: Orquestra de Metais, Banda de Gaitas, etc.

O primeiro teste desta colaboração será então na peça Foray Fôret:

A colaboração criativa e a longa amizade entre Trisha Brown e Robert Rauschenberg tem início neste período – Glacial Decoy (1979), Set and Reset (1983), Astral Convertible (1989), Foray Forêt (1990), If you couldn’t see me (1994).

Robert Rauschenberg é responsável pelos figurinos da peça Foray Forêt e autor do figurino e do espaço visual e sonoro da peça If you couldn’t see me.

Em Foray Forêt, uma fanfarra local toca afastada do palco ligando o teatro ao espaço público exterior. Forêt refere-se a França, país de estreia mundial da peça e à floresta de infância de Trisha Brown em Washington State. A peça, criada em secções modulares é significativa do retorno de Trisha a um vocabulário de formas simples e de activação do gesto. A percepção do público é central “O que vemos?” Uma dança silenciosa, suspensa, distante.

Com eventos e colaborações deste calibre e com a atenção de algum dos media especializados, poder-se-ia dizer que os F.R.I.C.S. estão “lançados”. Mas não estão. Parece tudo mentira, tudo faz-de-conta. Não faria sentido que agora fosse mais fácil marcar um concerto? Ou assegurar condições mínimas de “dignidade” das apresentações que fazemos?

Neste mesmo mês em que chegamos às páginas da jazz.pt e ao Auditório de Serralves, vamos a Santarém, para a paragem de rotina da nossa Capitais de Distrito Por Ordem Alfabética Tour e, apesar dos nossos melhores esforços, não temos sequer um local onde tocar. Não duvidamos que isso se deva ao facto dos “nossos melhores esforços” não serem suficientes: estamos plenamente convencidos e em paz com a nossa inépcia como produtores. Temos coisas melhores com as quais dispender energia, sinceramente.

Por isso, com rigor e militância, sendo este o mês de Santarém, vamos neste sábado tocar na rua, para quem nos quiser ouvir.

Isto é normal?